40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – INOCÊNCIA

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Existe uma diferença entre ser ingênua e ser inocente, foi o que eu aprendi uma vez.
A pessoa ingênua não sabe que o mal existe; não sabe que ele pode se manifestar a qualquer momento, seja na pessoa mais próxima ou na mais distante, no mais miúdo específico ou no mais generalizado. A ingênua sempre é surpreendida e destruída pelo mal. Me lembro dos meus tempos de ingenuidade. Doces e inconsequentes tempos.]
A pessoa inocente é diferente. Ela sabe que as pessoas podem mentir, roubar, destruir, humilhar. Ela sabe que o mal é forte e numeroso, sabe que ele está sempre à espreita, esperando para acontecer, esperando para derrubar e aniquilar as partes boas de tudo. A pessoa inocente sabe que tudo aqui é pequeno e mesquinho. Ela entende que o fascismo, a violência, o medo e as falhas de caráter existem e frequentemente ganham espaço, rápida e estrondosamente. Ela sabe também que existe uma energia forte que gosta de destruir frequentemente as pessoas que optam por serem inocentes, só pra contrariá-las, e provar que elas não têm razão.


Mas mesmo sabendo disso, a pessoa inocente prefere acreditar que tudo vai ser diferente, e tudo vai dar certo, que as pessoas são boas e não vão machucá-la. Ela escolhe acreditar no melhor.


Por isso, quando é agredida, machucada, violada, importunada, contrariada, a pessoa inocente não cai – ela estava preparada para isso. Acha que é uma pena que tenha sido assim, mas não cai.


Creio que todo mundo é ingênuo uma vez na vida. E diante das primeiras quedas, há que se tomar uma decisão. Ser cínico, melancólico, desconfiado, e não acreditar mais, não ter mais esperança. Ser aquele que fere, ao invés de ser o ferido. 


Ou… Ser inocente.


Manter-se inocente é uma arte que eu tento cultivar em mim há muito, muito tempo. Não posso aceitar o triunfo do desolamento sobre a esperança. Não posso aceitar a perda da fé para o cinismo. Não posso, porque não posso perder a alegria. Não posso deixar de dar um voto de confiança. Não posso deixar de fazer a minha parte. 


Não nego que muitas vezes já me machuquei. Mas não me arrependo de tentar. 


Caso contrário, ao invés de mudar o mundo, será o mundo que terá me mudado.
E isso não vou deixar.

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ESPERO ALGUÉM

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Espero alguém.

É preciso muita humildade e coragem, em tempos quando todos e todas são tão autossuficientes e cínicos, pra dizer que espero alguém porque eu quero esperar.

Espero alguém doce e marcante no encontro. Alguém que saiba chegar, não importa se for espalhafatoso, forte, barulhento, ou sutil, suave, luminoso. Mas alguém que deixe bem claro que chegou. Espero alguém que saiba que eu o estou esperando, e que esteja me esperando também. Alguém que redima o passado e faça valer a pena sonhar o futuro. Espero alguém que sinta o cheiro da minha comida e do meu pescoço, e goste de ambos. Espero alguém que me acenda, me ligue novamente, me puxe pela mão e me tire da escuridão.

Espero alguém que até tente, mas não consiga ir embora. E conseguindo, não demore a voltar. Espero alguém que seja gentil, ajude a carregar as sacolas e tirar o lixo. Espero alguém que sinta a minha falta e fique incomodado em não estar presente. Espero alguém que me receba, me faça sentir à vontade em tirar os sapatos e colocar os pés no sofá, em beber no gargalo da garrafa e dormir no meio da conversa. Espero alguém que fique à vontade, e me faça à vontade. Espero alguém nos braços de quem eu consiga adormecer e descansar, dormir profundamente, e acordar revigorada de um cansaço milenar.

Espero alguém que entenda a minha poesia. Alguém que até ache graça dos meus dramas, mas respeite profundamente a minha dor. Espero alguém que leia – olhares, letras, imagens, sinais, sons – e entenda o que lê, e quando não entenda, se esforce em procurar saber. Espero alguém que mergulhe em mim com sede, muita sede, e se sinta extremamente saciado. Alguém que me ajude a nadar no imenso oceano de emoção que eu sou.

Espero alguém que não use as fragilidades que captou de mim nos momentos de confiança e carinho para me destruir nos momentos de dúvida ou raiva. Espero alguém que ligue de repente, que beije de repente, que fale de repente, que surpreenda. Espero alguém que saiba me dar bronca, que coloque bem os limites, e traga em si a autoridade do amor. Espero alguém que partilhe ideias interessantes, que aprenda comigo, e me ensine muitas coisas, e fique feliz por isso. Espero alguém que sorria gostoso, que gargalhe, e que ache graça das minhas piadas e sacadas. Espero alguém que ache delicioso perder tempo com besteiras. Espero alguém que se sinta orgulhoso, e não intimidado, quando enxergar minhas capacidades. Espero alguém que transite entre a alegria dos dias especiais e a grandeza do cotidiano.

Espero alguém que entenda os pequenos e grandes prazeres da vida. Espero alguém que se deixe seduzir, mas também vá direto ao ponto. Espero alguém que me procure pra amar, que me toque naquele lugar especial entre o desejo despudorado e guloso e o carinho. Espero alguém que tenha coragem, de mudar de vida a dizer a verdade, de superar-se a dizer o que pensa. Alguém disposto, que não se acomode, que não esconda suas incapacidades, alguém que peça e ofereça ajuda, e assuma suas humanidades. Alguém que saiba quem é, mas nem por isso se envaideça. Alguém que cumpra a palavra. Alguém que só fale que ama quando for verdade; espero alguém que faça ser verdade. Espero alguém que não minta e não abandone por pura preguiça. Espero alguém que seja homem o suficiente pra respeitar a mulher que eu sou.

Espero alguém que use as palavras de um jeito especial. Espero alguém que entenda que projetos são apenas projetos. Alguém que seja mais leal do que fiel. Alguém que deseje profundamente continuar vivendo. Espero alguém que resolva a melancolia com carinho e generosidade. Alguém que não se ache mais do que é, e que me ache mais do que eu sou. Espero alguém que não sucumba ao ridículo medo de amar, que, como dizia o poeta, é o medo de ser livre.

Espero alguém que discuta com honra, que se refaça diariamente com dignidade, que peça perdão e aceite quando for eu que tiver que pedir. Espero alguém que experimente novos sabores, novos pontos de vista, novos olhares, e se sinta vivo, e me ajude a me sentir viva também. Espero alguém que esteja vindo e fique feliz quando tiver chegado.

Em troca, me ofereço. Toda, inteira. Espero alguém que saiba que essa troca vale a pena.

Por favor, venha logo.

( Foi o Carpinejar, mais uma vez, quem me deu o mote. O texto dele me inspirou a fazer o meu. )

TODA AMOR

Já amei com o estômago. Todas aquelas borboletas voando lá dentro, aquele frio na barriga, aquela expectativa, aquela paixão, aquele arrebatamento. Quase ganhei uma úlcera, mas foi tão gostoso.

Já amei com o cérebro. Planejamentos, decisões racionais, conversas de avaliação, calma, passo a passo,  sem sustos, a melhor decisão possível, tudo sob controle. Foi tranquilo, mas foi tão frio e previsível.

Já amei com todos os ossos e músculos. Eu tinha energia pra ir, pra fazer, pra atravessar enormes distâncias, pra passar noites em claro, pra atender a qualquer chamado, pra correr, pra dançar, pra me colocar ali, todinha à disposição. Até emagreci. E foi tão cansativo.

Já amei com o coração. Na mão. Todo ali, de presente, pra outra pessoa. Meu sentimento todo mobilizado, aquela emoção, choro, risadas, aceleramentos inesperados, taquicardia, disritmia, confusão, ai, minha cabeça, meu peito, quanta dor, quanta felicidade, quanto tudo. Foi bom, até que entendi que precisava do coração pro resto da vida, e ainda assim ele explodiu em mil pedaços.

Já amei com o fígado. Aquela sensação de que era demais pra mim, e toda aquela necessidade de metabolizar tudo que vinha, toda aquela sensação de que estava caindo mal, todo aquele mal estar, aquela azia, toda aquela vontade de vomitar de repente. Não deu, lógico.

Já amei com a pele. Ai, aquele arrepio, aquela sensação de completude, aquela vontade de colar e não soltar nunca mais, aquela vontade de tatuar, de marcar, de lanhar, de apertar, de lamber, cheirar, tocar, consumir tudo de uma vez. Foi maravilhoso. Mas era muito superficial.

Já amei com os nervos. Aquela angústia, aquela espera, aquele medo, aquela tremedeira, aquela indecisão, aquela coisa de saber que não é pra ser mas querer forçar a barra, aquela violência comigo mesma, aquele estresse. Não aguentei, pifei.

Já amei com os joelhos. No chão. Por outra pessoa. Pedindo que um milagre acontecesse, que mudasse, e colocasse tudo no lugar. Nada aconteceu. Tem coisas que não podem acontecer nem por milagre. Deus é muito mais sábio que eu.

Já amei com os olhos. À distância. Querendo sem poder ter. Admirando sem poder tocar. Esperando um sinal, imaginando, devaneando, precisando de um tequinho de coragem pra dar aquele passo e acontecer. Numa piscada… Acabou.

Já amei com a boca. Falando, e conversando, e contando, e dividindo experiências, e sorrindo, e beijando, e comendo junto, e saindo, e gastando o batom no banco do carro, e aquela coisa deliciosa de amizade que parece que sempre esteve ali e sempre vai estar, aquele companheirismo todo. Mas nada vai ser pra sempre, a não ser o próprio tempo.

Já amei com o ouvido, e com o ombro. Dei carinho, ouvi todos os lamentos, suportei todas as reclamações, ajudei a levantar a moral, tive todo o cuidado, recolhi todas as lágrimas, entendi, compreendi, esperei, suportei, tive compaixão. Mas de repente senti meus pulmões fechando, e não conseguia mais respirar.

Já amei com a alma. Fui inteira, me joguei, mostrei o melhor de mim, fui vista, vi, me coloquei ali e fui em frente. A vida tem inveja de quem ama com a alma e logo me roubou esse amor.

Já amei com os hormônios e o ritmo frenético dos 15…

Já amei com todos os sonhos, planejamentos, certezas e esperanças dos 20 e poucos…

Já amei com a segurança, beleza, tranquilidade e intensidade dos 30 e poucos…

E até posso dizer que já amei com a maturidade, a nostalgia e as dúvidas dos 40.

Já amei por decisão… Por conveniência… Por medo… Por indiferença… Por desejo… Por desespero… Por empurrão… Por distração… Por hábito… Por motivação… Por sentimento… Porque sim e porque não.

Hoje cedo, pensando no post do dia dos namorados que há anos coloco aqui, estava pensando, e pensando tanto, será que acabou? Será que ainda tenho algo a dizer, a viver? Quem já amou de tantos jeitos, que parecem certos como trajetória, mas errados, como lembrança… Será que sobrou alguma coisa? Será que ainda quero mesmo essa coisa toda difícil e predatória que é o amor? Com o que mais de mim ainda tenho que amar, o que mais falta dar, o que mais falta viver?

Passei o dia meio de mau humor, pensando que ainda bem que não tenho um amor hoje bom o suficiente pra me fazer sair de casa no friozinho, encarar as filas nos restaurantes e me fazer pensar em presentinhos e cartõezinhos que vão ficar na poeira do tempo, como tantos outros que já fiz, ou ganhei, ou dei.

Mas “mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”.

Não acabou não. Ainda falta.

Falta alguém que me olhe e me queira assim… Inteira. Que aceite o pacote todo. Que leve os pés cansados, as mãos calejadas, o cérebro pilhado, o coração tantas vezes  arrebentado e remendado, a alma pisoteada, os olhos vermelhos, a pele sem aquele frescor e firmeza, a boca mais quieta, os ouvidos já meio tampados… Alguém que olhe tudo e me deixe amar inteira, com tudo que eu tenho, com tudo que sou, e goste disso.

Existe? Vou encontrar? Vai rolar? Vou conseguir me entregar de novo? Não sei.

Mas se rolar… Ah, vai ser tão bom. E não vai terminar. O que não posso é deixar de esperar… De tentar.

“…E é tão bonito ter os pés no chão e ver que o melhor da vida vai começar…”

Feliz dia dos namorados, pra quem tem a coragem, a decência e o prazer de amar com tudo e mais um pouco. 🙂

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS -SOMBRA

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“O Retrato de Dorian Gray”

Deus me livre de tanta fraqueza. De tanta omissão, de tanto comodismo, de tanta covardia. Que eu não escolha o caminho mais fácil, se não for o certo. Que eu vença a vontade de entregar os pontos, de deixar pra lá, de me retirar das lutas justíssimas sem ter ido até as últimas consequências. Que eu não seja aquela rata medíocre que abandona o barco quando ele começa a afundar. Que eu não aceite relacionamentos pífios por medo da solidão, ou para não enfrentar a luta que é desatar nós. Que eu não deixe ninguém na mão, que eu não falte com quem nunca faltou comigo, que eu tenha força pra seguir adiante. Que eu não seja fraca. Mas que eu não esqueça que já fui fraca tantas e tantas vezes.

Deus me livre de tanta mágoa. Que eu consiga perdoar quem me fez mal, e não foram poucos; especialmente aqueles que nem perceberam o que fizeram, ou os que, percebendo, não foram capazes de pedir perdão. Que eu não aponte o dedo em riste pra ninguém, por pior e mais aparente que seja o motivo; que eu não julgue. Que eu não carregue o peso das dores que me foram impostas, que não nasça em mim nenhum desejo de vingança, nenhuma atitude de desforra, ou de desprezo por quem quer que seja. Que eu saiba voltar atrás, que admita minha parte quando as coisas derem errado, que não me porte como vítima quando não for. Que eu não elimine as pessoas da minha vida com tanta facilidade quando me cansar delas e do mal que me fazem. Que eu saiba insistir um pouquinho mais. E quando não for mais possível, que eu saiba ir em frente sem olhar para trás, sem carregar nada na mochila. Que eu não seja uma pessoa ressentida. Porque tantas vezes já fui. E ainda sou.

Deus me livre de tanto ódio. Que eu possa segurar o ímpeto de agressão, de ira, de extermínio que me acomete de vez em quando. Que não me falte paciência com gente ignorante, violenta, nojenta, fascista; que o ódio seja sempre do que pensam e fazem, nunca delas em si. Que eu possa ser aquela que pacifica, que acalma os ânimos, que não piora as coisas, que não leva os boatos e fofocas adiante. Que eu não aumente a chama da confusão em lugar nenhum. Que eu não magoe ninguém, nem gritando, nem sorrindo. Que não haja em mim nem um traço de cinismo. Que eu não me conforme em machucar alguém, e que, machucando, saiba pedir perdão. Porque tantas e tantas vezes já machuquei, querendo e sem querer.

Deus me livre de tanta vaidade. De tanto ego, de tanto eu. Que eu consiga segurar a onda das minhas qualidades, que elas sejam um presente que eu recebi e uso a favor dos outros, nunca uma arma. Que eu não queira tudo pra mim, que não seja egoísta e nem covarde. Que eu não iluda a mim mesma, como vejo tanta gente fazer, achando que sou tão boa, quando na verdade sou tão ruim. Que eu não tenha motivos e justificativas pra tudo que faço, como se só eu merecesse compreensão e perdão nessa terra, sendo implacável no julgamento alheio. Que eu não me deixe levar por falsos elogios, que eu valorize quem me diz a verdade e repudie a mentira e o auto-engano. Que eu mantenha-me pequena e humilde como deve ser. Porque tantas vezes cresço mais do que deveria e me acho gigante, quando na verdade continuo sendo poeira como todo mundo é.

Deus me livre de tanta compulsão. Que eu possa manter as vontades do corpo sob controle da mente. Que meus desejos não me dominem. Que eu não desague o que foi contido no mar do hedonismo, comendo, bebendo, trocando carinhos sem sentido. Que eu traga os desejos na coleira, e que mesmo depois de saciá-los, eu respeite o meu corpo e minha alma sabendo a hora de parar. Que eu não use nem manipule ninguém pra conseguir prazer, satisfação. Que eu respeite os meus limites e coloque os freios necessários para não consumir todo meu corpo e minha alma de uma vez. Que o mar do desejo não me carregue, que eu saiba tomar muito cuidado com ele. Porque tantas e tantas vezes não consigo me segurar, e ainda acho justo que não consiga.

Deus me livre de tanta ansiedade. Que eu possa dominar os pensamentos catastróficos que me dão tanto medo, e que esse medo não me paralise e nem me impeça de viver as coisas boas. Que eu não adiante as coisas, por mais que esteja vendo como serão logo ali. Que eu não tenha pressa de viver o que é bom, e nem desespero pra que o que é ruim passe logo. Que eu mantenha a mente quieta e respeite o tempo, meu e dos outros. Que eu saiba controlar a ânsia de mudar as coisas à força, porque não se abre uma flor e nem se tira um inseto do casulo antes da hora certa. Que eu não estrague tudo com artimanhas, mentiras e palavras duras, só porque não posso esperar um pouco mais. Que eu segure a vontade de sobrepujar a vida, porque tantas vezes já quis ser maior que ela e me machuquei toda.

Deus me livre de tanta manipulação. A tentação é grande para quem percebe tão bem os sentimentos, emoções e sinais das pessoas. Que eu não use o que aprendo dos outros a meu favor e contra elas, que eu não queira ser mais esperta, nem enganar, nem ficar por cima de ninguém, só porque pra mim é mais fácil. Que eu não diga frases duras em tom doce, que não tente passar ninguém pra trás, que não minimize a vontade de ninguém e nem menospreze a capacidade das pessoas de me entender, como eu as entendo. Que eu não use ninguém ao meu serviço, porque tantas vezes já fui usada, e doeu tanto… Porque tantas vezes igualmente uso os desavisados para o que preciso e quero.

Deus me livre de tanta preguiça. Não a preguiça mais simples, aquela, que vem do cansaço. Mas a preguiça da desistência, da conformidade, do “deixa pra lá”, do “não vou colaborar”. Que eu não me canse da vida, que eu não ache que tenho o direito de estar mais cansada ou mais alheia do que ninguém. Que eu não nutra desinteresse pelo que é importante, porque tantas vezes tenho vontade de me fechar e esquecer de tudo.

Deus me livre de tanta carência. Que as minhas faltas não me façam a vítima de quem pode me dar um pouco do que quero. Que eu entenda a falta como parte de mim, como vazio cheio, como parte de motivação pra ir mais adiante, e não como mutilação, como ofensa. Que eu não seja fraca diante do que me atrai, que eu saiba guardar a dignidade e a preservação acima da vontade. Que eu saiba suportar a falta. Porque tantas vezes já me destruí querendo acabar com essa sensação de vazio.

Deus me livre daquilo que guardo em mim mesma, essas sombras que me roubam a plenitude. O diabo está em mim. Que eu saiba olhá-lo, encará-lo de frente, e ter com ele as conversas necessárias para não errar tanto, nem comigo mesma nem com os outros. Que eu jogue luz em tanta sombra e que faça as escolhas certas, ainda que não sejam as mais fáceis. Que eu encare a minha natureza humana, fraca, pífia, covarde e vá buscar a nobreza ladeira acima, tropeçando nas pedras, fazendo o esforço de ser alguém melhor porque é isso que eu quero, ainda que pareça que não.

Deus me livre de mim mesma.

“Hoje não dá, hoje não dá…
Está um dia tão bonito lá fora e eu quero brincar.
Mas hoje não dá, hoje não dá…
Vou consertar a minha asa quebrada e descansar.”

CELEBRAR A VIDA

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Aprendi com o tempo e com as lágrimas que a morte, a gente teme e respeita. Mas a vida, a gente celebra. E quando essas duas coisas se misturam, a gente precisa aprender a comemorar as coisas de um jeito diferente. E elas sempre se misturam. Quem vive, morre um pouco a cada minuto que passa. E quem morre, só pode morrer porque estava vivo. A festa do dia dos mortos, mexicana, é um pouco isso. Trazer a morte pra celebração. Porque é por causa da morte que a gente entende melhor a vida, e de certa forma, fazemos com que ganhe sentido.

Ano passado tive a oportunidade de ver a chefe do serviço funerário da cidade de São Paulo falando sobre morte em um encontro sobre o que se fazia de bom pela infância na cidade. Eu estava lá pra falar de educação. E ela, pra falar sobre cemitério. Fiquei um tanto chocada. Mas eu não estava lá por acaso. Passado o estranhamento inicial, e após uma fala lindíssima de alguém que estava acostumada a não ser bem acolhida lugar nenhum pelo assunto difícil que significava, eu entendi porque aquela mulher defendia tanto que falássemos sobre a morte. Ela explicou que o cemitério é um patrimônio da cidade, um lugar de memória, de emoção, de vida. Ela defendia que não devíamos deixar de falar da morte às crianças, de prepará-las para isso. Entendi que não fazemos visitas ao túmulo de Tarsila do Amaral, Monteiro Lobato ou Paulo Vanzolini pra lembrar do dia em que morreram, mas sim pra lembrar da vida incrível, produtiva e marcante que tiveram. Tem gente que é assim: morre, mas sempre merece ser lembrada por sua vida.

Uma das coisas mais estranhas do processo de luto é quando as pessoas se incomodam quando a gente, que perdeu alguém querido, fala da pessoa que se foi. Há um silêncio desconfortável, pedindo pra acabar o assunto. Constrangimento. Os interlocutores têm medo de magoar. Sentem dúvida se param ou continuam a conversa. O enlutado percebe que são pouquíssimas as pessoas que gostam de falar de quem morreu. Querem esquecer, fingir que não aconteceu, jogar a morte, a dor, a finitude da vida debaixo do tapete. E, sabendo disso, a gente evita falar pra não causar tanto mal estar por aí.

Na verdade, passado algum tempo, a gente supera a coisa de lembrar de quem partiu de um jeito tão dolorido. E gostaria de falar das coisas boas que aconteceram. Com o Marcelo, meu marido, sinto assim. Sinto dor, claro. Saudade, tanta saudade. Raiva da vida. Medo do futuro e do passado. Inconformidade. Penso milhões de vezes em outros finais pra nossa história. Mas também lembro de tudo de bom que ele era, que fez e que vivemos juntos. E fico com dó de esquecer. Não seria justo não falar mais dele, apagá-lo da minha vida. Então, prefiro lembrar. Mesmo correndo o risco de doer, prefiro lembrar.

Hoje ele faria aniversário. E não consigo evitar de pensar em como seria legal tê-lo aqui. Tenho certeza que teríamos sido felizes juntos, de que ele seria ótimo marido como foi tão bom namorado – tanto acreditava nisso que me casei com ele.

Talvez, se hoje estivesse aqui, estaríamos fazendo um brinde agora. Brindando a pessoa que ele era. Ele teria sido um ótimo escritor. Tinha uma veia sarcástica, dura, debochada e desafiadora na escrita. Teria sido também um ótimo genro, um tio babão, talvez um pai incrível, um companheiro completo, um amante disposto e inesquecível, uma pessoa sensível, um amigo ponta firme, um lutador de ideais nobres, um professor de português muito elegante e inteligente. Ele já era tudo isso. Claro, ele faria besteiras também, todos fazemos. Mas isso não apagaria o brilho da pessoa incrível que era, com quem tive o prazer de conviver, e que ficou assim, cristalizado no tempo: querido, muito querido.

Por isso, hoje, lembro dele e celebro. Sua morte me marcou profundamente. Talvez, a maior cicatriz que tenho na alma. Mas sua vida me marcou mais ainda. Muita, muita gente passa a vida inteira sem ter o gosto, a coragem, a alegria de conviver com alguém que lhe ame de verdade, que lhe conheça tão bem, que faça olhar a vida de um jeito diferente, que partilhe os mesmos ideais, com quem tenha tanta afinidade, e que te olhe como ele me olhava: colocando em mim o carimbo de raridade, de coisa especial, de melhor das melhores, e, por isso, me fazendo sentir tão mais viva e animada pra seguir adiante. Eu tive tudo isso. E não há outro sentimento sobre isso a não ser gratidão.

Ele sempre estava um passo a frente. Foi assim quando nos conhecemos. Ao final do encontro, ele olhou pra mim, e disse, “eu sei exatamente quem você é. Te conheço toda. Você é quem eu tanto procurei todo esse tempo. E por isso, sei que vamos casar. Por mim, pode ser amanhã mesmo.” Eu ri. Achei maluquice. Como assim, era nosso primeiro encontro. Mas ele sabia mesmo. E isso me fez voltar. E voltar de novo. E mais uma vez. Até que não fomos mais embora.

E por saber tanto, creio que, de alguma forma, ele também sabia que iria partir antes. Várias vezes me disse que não amarrasse minha felicidade na dele, apenas caminhasse junto. Várias vezes me fez prometer que sempre olharia pra mim mesma com os olhos dele. Eu ouvi. E, claro, se fiquei aqui, continuo vivendo. Fazendo o melhor que posso, continuando a caminhada. Por ele e por mim.

Celebro a vida e levanto um brinde àquele que me amou, que se deixou amar, e que me libertou de tanta coisa. Sou grata pela vida, mesmo castigada pela morte. E por isso, sinto que agora tenho dois aniversários no ano: o dele, e o meu. Sempre será uma parte de mim. E estou feliz por estar terminando este texto sem lágrimas, e sim com sorrisos.

De fato, o amor é muito maior que a morte. É do tamanho da eternidade. E, após longa travessia no vale da dor, digo orgulhosa que foi o amor, e não a morte, que venceu dentro de mim. Nossa história é linda, digna de nós. E sei que você a brindaria comigo agora, se pudesse, tão feliz quanto eu.

Tim tim, meu bem. 🙂

“E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém aparecer
Ou quando quero
Quando quero

Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver
És, parte ainda do que me faz forte
Pra ser honesto
Só um pouquinho infeliz

Mas tudo bem
Tudo bem, tudo bem…
Lá vem, lá vem, lá vem
De novo
Acho que estou gostando de alguém
E é de ti que não esquecerei…”

TEM-QUE

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Já faz um tempo que um amigo me sugeriu que postasse aqui os textos maiores que escrevo no Facebook, aquele site onde tudo se perde e você perde o fio do tempo e da sua história. Achei legal a sugestão… E estou começando hoje. Link original AQUI

“Você tem que viajar.” “Você tem que sair mais de casa pra aproveitar suas férias.” “Você tem que gostar de calor.” “Você tem que escutar aquela música.” “Você tem que terminar de ler aquele livro.” “Você tem que rever esse posicionamento.” “Você tem que dizer não.” “Você tem que se expor menos.” “Você tem que arrumar isso aí.” “Você tem que ver a série que eu adorei.” “Você tem que colocar menos pimenta.” “Você tem que dormir mais cedo.” “Você tem que ser menos trouxa.” “Você tem que fazer as unhas na manicure.” “Você tem que tomar mais cuidado.” “Você tem que superar isso.” “Você tem que trocar de carro.” “Você tem que dar uma chance pro cara.” “Você tem que usar agenda.” “Você tem que esquecer esse fulano.” “Você tem que dar um pé na bunda dele.” “Você tem que bloquear essa daí.””Você tem que trabalhar menos.” “Você tem que definir logo.””Você tem que comprar roupas mais modernas.” “Você tem que deixar o seu cabelo crespo.” “Você tem que escrever profissionalmente.” “Você tem que ter um plano.”.

Colecionei essas só neste ano de 2017. Ok, algumas (poucas) foram ditas com muito amor, por gente que se preocupa comigo. Mas ressalto que NENHUMA foi dita por pessoas diretamente envolvidas nas questões apresentadas.

Algumas coisas eu adoraria mudar, mas não consigo. Outras, são simplesmente jeitos diferentes de ver a vida. Outras são apenas da minha conta, e não me interessa fazer ou deixar de fazer. E outras não fazem o menor sentido pra mim.

Às vezes, a gente conversa só pra desabafar um pouco. Não quer ouvir o que “tem que” fazer. Só quer falar um pouco da vida, trocar umas ideias, dividir perplexidade, tomar uns gorós, dar umas risadas pra se distrair, ou apenas dizer, “putz, que merda”, e esperar o tempo passar. Claro, é ótimo ouvir outras opiniões, especialmente quando são perguntadas. Mas é complicado quando o acolhimento vira julgamento, imposição, porque a maioria de nós é limitada pacas e não sabe nem de si mesmo, quanto mais dos outros.

Eu não “tenho que” nada, gente. Eu vejo tanta gente fazendo cagada todo o tempo, mas evito ficar achando que sei a resposta definitiva pra vida dos outros, até porque a minha vida não é lá essas coisas.

Estamos todos tentando fazer o melhor. Vamos ser mais generosos uns com os outros. A caminhada não é fácil, mas estou indo bem. Pode acreditar que por muito menos muita gente tinha entregado os pontos. Eu tô fazendo o que posso. E, quase sempre, na hora do “vamovê”, apesar de todas as falas, eu estou completamente SOZINHA pra dar conta de tudo. Era de se esperar que muita coisa desse errada. Mas muita coisa tá dando certo também. Ou não tá?

Na Psicologia a gente aprende que, mesmo que enxergue claramente todos os problemas e respostas de um paciente, precisa deixar a própria pessoa entender o que é, e o que precisa fazer. Podemos ser bússola, indicar direções, orientar. Mas o leme da própria vida, só quem comanda é o capitão. No tempo e no jeito dele. E se não chegar no destino, ou afundar… Paciência. Importante é caminhar, não chegar.

Espero que as pessoas peguem leve aí em julgar o que eu sou, gosto e faço. Eu tô mais velha e o pavio tá mais curto. Só Deus pra frear minha língua pra eu não responder certas coisas jogando de volta tudo que eu vejo e penso da pessoa sabichona. E olha que eu vejo e penso coisas que as pessoas nem imaginam. Mas procuro calar. Quase sempre. Me ouça, me aconselhe, me pegue no colo, se divirta comigo, até me dê bronca. Mas para de me regrar. Talvez eu tenha escolhido viver de um jeito diferente do seu. E a liberdade da esquisitice é uma delícia, é uma benção, é o que mantém minha sanidade. Experimente.

Peace and Love. Please.

“Esse caminho que eu mesmo escolhi… É tão fácil seguir… Por não ter onde ir.”

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – CANÇÃO

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Eu tentei tocar. Lembro da mãe, toda orgulhosa de me ver tocando nas audições de piano. Ela me aprontava como uma pequena princesinha, mas eu rasgava a meia calça branquinha na primeira oportunidade correndo e zoando atrás do palco – nunca tive pinta de pianista.

Lembro da professora de piano, Dona Dora – rígida, tentando me fazer executar as peças clássicas de Beethoven e Tchaikovsky,  tentando me fazer compreender a função dos exercícios e das escalas, quando tudo que eu queria era brincar com as teclas do velho piano preto que minha mãe colocou dentro de casa pra ver se eu ia em frente. Mas me lembro de me emocionar até as lágrimas quando consegui tocar um dos sensíveis e tocantes noturnos de Chopin. Deve ser por isso que até hoje me arrepio do começo até o final da coluna sentindo as notas das peças eruditas quando vejo alguma orquestra tocando ao vivo.

Lembro também do vô, autodidata que amava os sons, me fazendo solfejar com o velho Bonna, tentando colocar ritmo nas minhas palmas e me mostrando as notas na escaleta, tentando afinar a minha voz – ele mesmo, um tanto desafinado. Ele amava a música, e fez todo mundo na família amar um pouco também.

Lembro do namorado querido, de ouvido apuradíssimo, quase um músico profissional, que gostava da minha voz, e ficava tocando flauta, guitarra, bandolim e violão pra eu cantar, e me ensinou a dedilhar umas cordas.  Lembro das aulas de violão, que eu fui fazer só pra aprender a tocar uma canção dos Beatles pra agradá-lo, fazer surpresa no aniversário dele. O meu professor, tão maravilhoso e criativo, tentando me ajudar a fazer as pestanas que os meus dedos gorduchos nunca conseguiram arranjar nas cordas. Hoje o violão está lá, sem cordas, esperando eu me lembrar dele. Lembro das aulas de percussão e de flauta doce, que também não deram muito certo. Tocar música é para os talentosos, ou para os disciplinados. Não sou nem um, nem outro. Mas tentei. E gostei de tentar.

Tentei também dançar. E danço, malemá, mas danço. Fiz dança do ventre, dança de salão, danças de roda, fiz aula de samba. Mas a dança, pra mim, sempre foi uma brincadeira, que a gente faz sozinha, ou faz pra alguém. Mas dançar com alguém… Isso não, é seríssimo. Quem já dançou de rosto colado com alguém que ama e se sentiu levitando, fora do chão, sabe do que eu estou falando. E se não sabe, na minha modesta opinião, deveria procurar saber antes de morrer. Não tem carinho mais gostoso que dançar colado – a respiração, o toque mais ou menos apertado no refrão, sentir o coração batendo forte dentro do peito. E a música lá, sublime, poderosa, acompanhando todas as reações de paixão. Mas, de preferência, que seja a sós, longe de qualquer um que venha atrapalhar com uma vassourinha pra tirar o seu par, ou tirar você dele. Ah, os bailinhos da adolescência…

Eu também tentei cantar. E canto. Hoje mesmo passei a tarde brincando no aplicativo mais legal do mundo, cantando com gente da Rússia, da Inglaterra, do México, no  karaokê do Sing!. Já fiz canto coral, e essas coisas. Mas minha pegada não é cantar pra ninguém além de mim mesma, embora já tenha cantado pra muita gente, especialmente pras crianças. Pra elas, eu canto, toco e danço sem nenhuma timidez. Porque as crianças são pura música. Elas fazem tudo cantando, elas curtem todos os ritmos, elas reparam nos sons da natureza, elas pesquisam tudo, são curiosas e espontâneas. Pelo menos o são antes de nós, adultos, estragarmos o ouvido e sensibilidade delas com nossas regras e grosserias musicais, com nossa poluição sonora.

Onde eu estive, sempre teve música. Tinha música em casa… Os hinos do meu avô, as canções do Roberto da minha mãe, o pop rock do bão da vitrola do meu tio, a MPB que o outro tio vivia assobiando, as canções agudas e singelas na voz da minha avó, o rádio alto da Lúcia nos Top Hits das FMs, os programas de auditório que o meu pai gostava. Aprendi a gostar de tudo, e gosto de ser assim… Tão pouco seletiva. Tinha música na escola, fosse pra disciplinar, pra passar o tempo, pra apresentar, pra tentar entender. Tinha música na igreja, na televisão. E quando não tinha, eu levava comigo. Lembro de quando eu, muito jovem ainda, não me importei com o ladrão que roubou minha carteira, mas bati no que tentou roubar meu walkman e coloquei ele pra correr. Ouvia música enquanto estudava na biblioteca. Ouvia o Love Songs todo dia quando voltava da faculdade, na longa viagem que ia da Vila Mariana até Pirituba. Colecionei posteres dos cantores bonitos, fui à gravação de programas de televisão ver os artistas, perdi a conta de quantos shows eu fui ver, fosse em lugares chiquérrimos, fosse na rua com a galera. Eu tinha um caderno com letras de música e, com os amigos, ficávamos cantando sentados na calçada. Contrabandeávamos revistas de letras traduzidas pra aprender cantar em inglês, em francês. Antes, as pessoas gostavam de cantar, dançar e ouviam músicas juntas quando se reuniam.  Dedicavam canções… Faziam serenatas. Passei por tudo isso e tudo foi muito gostoso, muito lindo.

Sinto tanta emoção quando lembro de música. Seria incapaz de escolher uma, ou mesmo algumas músicas que fossem mais importantes. Músicas, pra mim, sempre estão associadas a momentos… Pessoas… Sentimentos. Sempre que alguém precisa de uma música para simbolizar algo, me procura, me pede. Sei que tenho enorme bagagem musical, e sou feliz por isso. Não consigo colocar um post aqui sem deixar pra ele uma trilha sonora.

Em algumas vezes, a música acompanha o que vivi. Outras, provoca coisas que não aconteceriam se ela não estivesse ali. Quantas tristezas explicadas pelas melodias e poesias musicais. Quantas alegrias comemoradas ao som empolgante de alguma canção. Quantas reflexões provocadas por palavras e ritmos que eu nem ousaria imaginar sozinha. A música une pessoas do mundo inteiro, eleva o espírito, marca a história e, como disse Beethoven, faz com que entremos na cabeça de quem a compôs e compartilhemos do sentimento que motivou tudo. Música une, música transforma, música revoluciona e diverte.

Na minha juke box mental dos 40 anos, eu tenho trilha sonora pra tudo que me acontece. Ouço a música tocando dentro da cabeça, sempre, sempre, sempre. Quanto mais velha fico, é verdade, dou mais valor ao silêncio. Mas não canso de tentar me entender com a música. Como ouvinte, instrumentista, ou cantora, não sou lá essas coisas. Mas não me importo em ser mais do que sou. Porque sei do principal: no peito dos desafinados, também bate um coração. 🙂

Eu possuo apenas o que Deus me deu…

2017

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Ler um pouco todos os dias. Caminhar um pouco todas as semanas. Visitar um amigo ou amiga querida todos os meses. Regar os vasos de planta todas as manhãs. Lembrar de agradecer todas as noites. Não esquecer do desafio de aproximar o que penso, quero e sonho daquilo que digo, faço e realizo, o quanto eu puder, todos os momentos.

Colocar as cordas no violão e tocar algo novo. Escrever um poema, ler tantos outros, decorar os mais lindos pra guardar na memória aquilo que me der esperança. Pintar outros quadros. Inventar uma nova receita. Fazer um bolo de aniversário bem bonito. Aprender algo diferente. Aproveitar uma oportunidade inesperada. Beijar uma nova paixão. Levar alguém pra passear, fora de ocasião. Sonhar um sonho novinho em folha. Podar as plantas. Apostar em uma furada só porque eu quero. Ganhar algo que ninguém poderia esperar. Conhecer uma nova cidade.

Perdoar a mim mesma. Me declarar. Resolver os pequenos problemas antes que fiquem grandes. Fazer questão de algumas coisas. Experimentar um novo sabor de sorvete. Comprar as brigas que importam. Preparar-me para a luta, mas esperar a festa. Orar por alguém. Dizer que amo, sem medo. Parar de me magoar por medo de decepcionar. Apontar os lápis de cor. Convidar pra jantar. Ter uma ideia brilhante. Organizar as coisas. Fazer as contas. Ir ao médico. Fazer um curso. Ganhar novos amigos, amigas. Brigar por velhas causas. Cheirar um bebê. Deixar o que ficou pra trás lá atrás.

Continuar a terapia. Bater papo com as meninas. Enfeitar a casa. Enfeitar o rosto. Cortar o cabelo. Colocar uma outra cor nos olhos e nas unhas. Aprender a cantar melhor minhas canções prediletas. Ter paciência com a vizinha chata. Agradecer mais a vizinha legal. Dirigir à noite. Operar os pulsos, deixar de sentir tanta dor. Me deixar ser cuidada. Pedir ajuda. Oferecer o colo. Ir ver um jogo de futebol. Visitar um museu. Assistir um show. Frequentar o cinema. Andar de mãos dadas. Honrar os compromissos. Fugir daquela obrigação opressiva.

Cultivar a paciência, a ternura, o olhar generoso. Pedir desculpas. Deixar tocar mais música dentro de casa. Desligar a TV. Deixar pra lá. Ler mais filosofia. Criar. Querer. Sonhar. Fazer das pequenas, grandes coisas.

Viver. Amar. Cantar bem alto a música do Gonzaguinha, com a alma, com o estômago, com o coração.

De você, 2017, não quero nada além de 365 dias. Um de cada vez. Cheios de pequenos prazeres, de coisas para aprender, de percepções inesperadas. Apenas 365 dias, o resto é comigo. Que você seja o tempo presente, até que seja passado. E que, daqui um ano, só me reste dizer… “Viver… Amar… Valeu.”

“Quando a atitude de viver é uma extensão do coração
É muito mais que um prazer, é toda carga da emoção
Que era o encontro com o sonho, que só pintava no horizonte
E, de repente, diz,  presente!
Sorri e beija a nossa fronte e abraça e arrebenta a gente
É bom dizer: viver, valeu!
Ah! Já não é nem mais alegria, já não é nem felicidade
É tudo aquilo num sol riso, é tudo aquilo que é preciso
É tudo aquilo paraíso, não há palavra que explique
É só dizer: viver, valeu!
Ah! Eu me ofereço esse momento que não tem paga e nem tem preço,
Essa magia eu reconheço, aqui está a minha sorte:
Me descobrir tão fraco e forte,
Me descobrir tão sal e doce,
E o que era amargo acabou-se…
É bom dizer: viver, valeu!
É bom dizer: amar, valeu!
Amar, valeu.”

2016

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Convidei o Carpinejar e o Tom Jobim pra me fazer companhia neste post.

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Ah, 2016. Ano de colapso, de quebra. O mundo caindo a minha volta. Golpes, guerras, refugiados, fascismo, ódio, intolerância, morte, retrocessos, catástrofes, absurdos como há muito tempo eu não via; aliás, acho que nunca tinha visto, só ouvido falar. Indignação, medo, perplexidade que paralisa. Ano de revelação. As pessoas mostrando quem realmente são. Eu me mostrando como realmente sou.

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E eu aqui… Tão dentro e ao mesmo tempo tão alheia a tudo isso.

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No começo do ano eu tinha dito que 2016 seria um ano de cura pra mim. E foi. Quanta coisa aconteceu! Coisas ótimas, coisas péssimas. E no entanto, eu me mantive lá, firme no propósito de colar meus caquinhos. Hoje olho pra dentro do meu espelho e vejo as marcas, as cicatrizes, o aspecto remendado. Não tem jeito, “nada vai trazer de volta a beleza cristalina do começo”.  E sim, “os remendos pegam mal”. Mas não estou mais despedaçada. Estou inteira outra vez. Me sinto EU MESMA de novo, esse “I” em maiúsculo do inglês, esse “self” tão interessante do Jung, essa totalidade. Mas é uma outra “eu”. Outra Karina. E eu ainda não sei direito quem ela é. Mas eu gosto dela.

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2016 não foi um ano bom, se eu contar que sou humana, e a humanidade está derretendo. Mas também não foi um ano ruim pra mim… Aqui dentro.

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Eu fiz 40 anos. Não há mais dúvidas, sou uma mulher numericamente vivida. E eu comemorei isso de várias formas. Eu terminei um relacionamento abusivo. Eu tentei recomeçar, me diverti e aprendi bastante nas tentativas. Eu beijei bastante os moços e gostei de me ver como uma mulher que tem seus encantos nos olhos deles. Eu me apaixonei de novo, e lembrei da sensação maravilhosa e desesperadora que é apaixonar-se. Eu ganhei um prêmio profissional, e percebi a grandeza do trabalho lindo que fazemos lá na escola ao ir compartilhar sobre isso com tanta gente pela cidade. Eu falei da minha dor no grupo de ajuda mútua sobre luto. Eu chorei esse luto todo de novo, eu aprendi a chorar, eu não sabia. Eu conheci a Louremi, minha terapeuta, e me afundei com ela nessa dor e delícia de ser quem eu sou e ter a história que eu tenho. Eu topei essa parada e mergulhei nessa lama, que foi virando uma água mais limpa, e saí mais forte do mergulho. Eu senti muita, muita dor no corpo. Eu trabalhei demais, até à exaustão. Eu conheci um monte de gente bacana. Eu deixei de falar com um monte de gente chata. Eu vi o mar, eu vi o topo da montanha. Eu me permiti dizer um monte de nãos. Eu me despedi. Eu me recolhi. Eu me mostrei. Eu falei o que estava engasgado, entendendo que nem sempre preciso ser cordata pra ser meiga. Eu discuti. Eu defendi pessoas indefensáveis. Eu aprendi a me virar sozinha – eu paguei as contas, eu pintei as paredes, eu carreguei o lixo, eu comprei uma furadeira, e usei. Eu pintei um quadro. Eu assumi a minha casa e fiz ela parecer comigo. Eu cozinhei e inventei um monte de receitas novas. Eu voltei a escrever. Eu cuidei das plantas. Eu criei. Eu falei muito, muito mesmo, com os amigos, e especialmente com as amigas – e eu não agradeci o suficiente por ter tanta gente que me ama cuidando incansavelmente de mim por perto, do jeito que pode, na medida em que eu deixo me cuidarem. Eu me senti profundamente amada. Eu virei amiga da minha mãe. Eu vi meus sobrinhos crescerem um pouco mais. Eu vi a Débora adolescer. Eu tive vontade de ser mãe, e quase tomei essa decisão. Eu lutei, me indignei, bronqueei. Eu orei, muito, mas de um jeito diferente. Eu ajudei quem eu pude. Eu deixei pra trás as coisas que me atrapalhavam sem dó. Eu dormi melhor. E eu me formei pedagoga! Cara, 4 longos anos depois, que na verdade, significam mais de 20, eu me formei.

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E é por causa de tudo isso que eu estou feliz hoje. Falta pouquinho pra 2016 acabar. E me sinto assim, com essa sensação gostosa de missão cumprida. Não tenho mais a ilusão de que de novo voltarei a ver a garota feliz e ingênua que fui um dia. Não… Ela morreu conforme eu fui vivendo de verdade. Eu tenho marcas, não saí ilesa da vida, e nunca sairei. Eu sou a mulher que carrega em si muitas cruzes. Mas a diferença é que agora eu as aceito como parte da minha história. A dor não me caracteriza mais. Eu não sou a viúva, a orfã de pai, a agredida, a lascada, a vitimada, a abusada, a tristonha. Não… Eu sou a mulher que sobreviveu a tudo isso, e de tudo conseguiu fazer alguma coisa boa. E na minha alegria, o Carpinejar tem razão… Sempre vai ter um pouco da minha dor. E eu tenho orgulho de ser essa pessoa que tem muita história pra contar, porque viveu; não teve medo de viver e nem terá.

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Obrigada Deus, obrigada Tempo, obrigada pessoas que me cercam, obrigada VIDA. Eu não quero mais morrer, mas não ligo se acontecer. Porque o tempo nada mais é do que isso: vida que vai, vida que vem, e em tudo isso, eu, virando eu, “I”, “self”, cada vez mais eu, em um processo infinito de tornar-se pessoa. Não nego nada do que já foi, e aceito com coragem e alegria o que virá.

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Esperei muito, muito tempo para cantar essa canção com o coração, como estou fazendo hoje. Hoje, essa também é minha meditação.

“Quem acreditou no amor, no sorriso, na flor,

E então, sonhou, sonhou…

E perdeu a paz:

O amor, o sorriso e a flor se transformam depressa demais.

Quem no coração abrigou a tristeza de ver tudo isso se perder…

E, na solidão,

Procurou um caminho e seguiu… Já descrente de um dia feliz.

Quem chorou, chorou…

E tanto que o seu pranto já secou.

Quem depois voltou ao amor, ao sorriso e à flor,

E então, tudo encontrou.

Pois a própria dor revelou o caminho do amor,

E a tristeza acabou.”

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O tempo não para…

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E arrasta tudo com ele.

Quem sabe tenha arrastado 13 anos de escritas, delírios, conversas, ensaios que guardei aqui. É possível que não, é possível que sim.

Internet tem dessas coisas.

Mas se tem algo que eu aprendi nesta vida… É recomeçar.

E porque eu tanto gosto quanto preciso escrever…

E porque não há como fugir da alegria do encontro literário com tanta gente boa que me achou, me acha e me achará pelas palavras que  eu registro…

E porque eu continuo com essa mania esquisita de tentar explicar a vida…

E porque é assim que é porque é mesmo…

Recomeço aqui. E você que me lê, sabe que, na verdade, recomeçamos… Escrita só faz sentido se for lida. Recomeçamos, eu e você.

O nome Mafalda Crescida muda – por enquanto, e se não vier ideia melhor, ele vai se chamar “Entrelinhas”. A ideia já não faz mais sentido, embora o amor pela personagem ainda seja grande. Mas o endereço permanece com o nome do blog antigo.

A série dos 40 anos continua.

A vontade de escrever e partilhar a escrita permanece.

O desejo de um dia terminar tudo isso foi embora.

O entendimento sobre o que é a vida vai e volta.

E eu continuo aqui.

Bem vindos, bem vindas ao meu novo espaço!

“Quando eu canto que se cuide quem não for meu irmão,
O meu canto, punhalada, não conhece o perdão, quando eu rio.
Quando rio, rio seco como é seco o sertão,
O meu riso é uma fenda escavada no chão, quando eu choro.
Quando  choro, é uma enchente surpreendendo o verão
É o inverno, de repente, inundando o sertão, quando eu amo.
Quando amo, eu devoro todo o meu coração,
Eu odeio, eu adoro, numa mesma oração.”