OS 15 PARCEIROS DO AMOR – AMOR E CUIDADO

Queridos noivinhos…
Apresento a vocês os 15 parceiros do amor.

Sim… Porque amar não basta. Infelizmente… Não. Há tanta gente que se ama e não consegue estar junto; tanta gente que está junto e não se ama. Para fazer uma vida a dois, é preciso um pouco mais que o amor. O amor é tão completo, tão grande e tão poderoso, mas, vejam só… Ele sozinho não se basta.

Vocês podem achar que esses 15 parceiros são apenas partes do amor, conteúdos dele. Como ingredientes de um bolo delicioso – sozinhos, são sem graça, mas quando unidos, na medida certa, e passando por um grande processo químico de transformação e mistura… Dá um bolo delicioso. O bolo do amor que vocês irão, aos poucos, misturando, assando, transformando, temperando, acertando, enfeitando, provando, conforme avançam os dias do casamento de vocês. Pode ser, sim, que esses 15 elementos sejam parte de uma coisa só. O importante é que vocês, queridos noivinhos, pensem sobre isso e preparem os seus corações para essa experiência maravilhosa que vai começar/continuar no dia seguinte ao que vocês vão amanhecer casados. 😊

Comecemos pelo parceiro mais necessário do amor – o cuidado.

Vocês estiveram no almoço do meu casamento, e levaram pra casa a lembrancinha em que marido e eu anotamos os versos de uma antiga canção, que dizia assim:

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Todo dia, noivinhos. Não tem outro jeito. Não dá pra pular, não dá pra tirar férias e esquecer, não dá pra descuidar, não dá pra terceirizar essa tarefa. O amor é como a flor… Tem que regar todo dia. E quem rega, na imensa maioria das vezes, são vocês.

Aqui em casa tenho várias plantas. As plantas são metáforas poderosas para a vida. Cada uma delas é de um jeito, precisa de uma coisa, tem seu tempo, tem as suas necessidades e nos dá um tipo de trabalho diferente, tem suas épocas de floração e de poda. O trabalho da jardinagem é muito delicado. Exige observação, método, espera, estudo, tentativa e erro. Não pode ser demais, não pode ser de menos. Há um cuidado automatizado, como a rega, que trata das coisas básicas. Mas há também um outro tipo de cuidado mais sofisticado, que garante que observemos se a quantidade de luz está suficiente, se o lugar está bom, se há ervas daninhas em volta, se há pulgões, se há manchas estranhas. Aprendi com o Ricardo que pra dar certo o cultivo das plantas, é preciso gastar tempo, não desistir delas na primeira murchada e ter ações voluntárias e conscientes de cuidado. Assim também é o cuidado do amor.

A gente rega o amor quando não economiza sorrisos; quando está sempre pronto pra dar uma risadinha cúmplice, um carinho extra, um mimo inesperado. A gente rega o amor com o nosso ouvido pro outro, mesmo quando tivemos um dia tão cheio que só queremos falar. A gente rega o amor quando se preocupa ( e quando demonstra a preocupação ), quando cozinha, quando deixa um recado e sai de fininho pro outro dormir um pouco mais, quando pega uma roupa que caiu no chão, quando, mesmo cansado ou cansada, se levanta pra fazer uma gentileza… Quando faz algo que sabemos que o outro gosta. Se rega o amor quando se pega no pé pro outro cuidar da saúde, quando dá um conselho, quando mostra interesse pelas coisas que são importantes pra ele ou pra ela. Nada disso é um evento grandioso, nada disso precisa aparecer em letreiros luminosos. Mas sem isso e tantas outras coisinhas, a plataforma de cuidado vai sendo desmontada, e em pouco tempo o amor desmorona junto com ela.

Cuidar do outro pode ser um prazer, um vício até. Mas pode também não ser fácil. Não é todo dia que queremos deixar da nossa preguicinha, do nosso egoísmo, do nosso ego pra dedicar à outra pessoa um pouco de cuidado. Não é todo dia que conseguimos resistir à tentação de usar o cuidado como moeda de troca, de usá-lo como meio de oprimir e jogar culpa no outro, de cobrar pelo que deveríamos ter feito de graça. Isso, muitas vezes, não é fácil. E, devo admitir, às vezes, esquecemos de regar as plantinhas aqui de casa, e quando olhamos para elas, estão murchas, secando, cheia de manchas, atacadas por ervas daninhas. Mas, quando o cuidado está presente em nosso cotidiano, dá tempo de recuperar e seguir em frente. E nossas plantas estão aqui, lindas, cheias de vida… Assim como nosso amor.

Quando tiverem vontade de cobrar o cuidado do outro, é aí, é justamente aí que vocês precisam cuidar mais ainda. Uma vez li algo que alguém escreveu que dizia que a porcentagem de cuidado nunca é igual, nunca é 50%, 50%. Aqui em casa também funciona assim. Umas coisas eu cuido quase 100%, e o Ricardo, quase nada. De outras, ele que cuida, e eu apenas recebo o cuidado. Às vezes cuidamos em proporções iguais, mas na maior parte das vezes, ele cuida 70%, eu 30%, ou eu 40%, ele 60%. Não importa. No geral, o resultado é bom. Cuidamos um do outro 100%, cada um com suas habilidades, suas facilidades, seu jeito de ser. E quando sinto que algo falhou, não dou um passo pra trás para acusar, e sim um passo pra frente, pra acolher. E nisso o nosso cotidiano é cheio de cuidado.

Noivinhos queridos, cuidem um do outro. Domem as suas naturezas para deixar o outro confortável. Preocupem-se. Esforcem-se. Tragam alegria pra dentro de casa. Façam o automático, mas façam também o sutil. Surpreendam. E se os dois fizerem isso… Ninguém precisará se preocupar. Estarão cuidando, e sendo cuidados, num círculo infinito de amor que se fortalece e vai fazer vocês felizes.

O cuidado é a expressão concreta do amor.

Até a próxima! ❤

UM CAMINHO ATÉ O ALTAR

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Recebi, pela força da amizade e por mistérios da vida que a gente não enxerga com os olhos do corpo, uma missão muito especial: abençoar a união de um casal muito querido no dia da sua festa de casamento, daqui algum tempo.

Não sou pastora, nem madre, nem monja, nem sacerdotisa, nem nenhum tipo de liderança religiosa, e muito menos juíza de paz. As minhas conexões com as leis da Terra e os movimentos do Sagrado são instáveis como a minha própria alma… Pobre de mim. Mas a gente não despreza um chamado que vem de um coração doce, sincero e muito profundo, como é o coração dessa amiga, que tantas vezes vi ser parecido com o meu, e por quem tenho um imenso, gigante carinho. E se é um chamado de amizade, para mim será uma honra atendê-lo.

Celebrar a união de um casal é celebrar o amor. A força do amor. A alegria do amor. O aprendizado do amor. Os sonhos do amor. As promessas do amor.  Os desafios do amor. A paz do amor. A praticidade do amor. É entender o amor transbordando. Ali, no ritual do casamento, tem mais um casal publicamente ousando dizer que acredita no amor, e na esperança de uma nova vida que só ele pode dar. É um gesto belíssimo de ousadia, coragem e doação de duas pessoas que abrem mão do conforto da solidão para topar o desafio da relação – por isso mesmo, tão emocionante pra todo mundo. O amor, como todas as coisas boas da vida, não existe em si mesmo, mas apenas no coração de quem ama; não pode ser retido, segurado, guardado, armazenado ou racionado… Apenas pode ser vivido – timidamente, ou intensamente – mas vivido, sempre. Por isso é tão importante que ele seja assim, vivo em alguém, para que seja amor. O amor não é um presente… É um caminho a ser trilhado. E convido vocês, noivinhos queridos, a ouvir a voz da sabedoria, que virá de todos os lados – do céu, da alma, do chão, do ar, da lua, do sonho, do dia a dia – enquanto andam por esse caminho.

Aquele ritual – o vestido lindo, as alianças, o bolo, as flores, as madrinhas e padrinhos, as lembrancinhas, as lágrimas dos convidados, o buquê, todos os detalhes, tudo aquilo é só um momento. O amor, o amor mesmo, é o que veio antes, e o que virá depois. Planejando tanta coisa, correndo atrás de tantas miudezas, na expectativa do grande dia… Muitas vezes esquecemos do principal: há que se preparar um caminho para o altar da celebração que vai muito além de um tapete glamouroso no chão… Há que se preparar o coração do casal. Eu tive a sorte de ser delicadamente preparada quando foi a minha vez pelos parceiros de caminhada… E isso me ajudou muito a entender o que era todo esse aparato de casamento, o passado e o futuro. Agora, a vida me dá a oportunidade de agradecer fazendo mesmo por alguém… Alguéns. 😊 Espero estar à altura dessa missão, pois vocês estão à altura de ter esse amor, profundo, qualificado, refletido e curtido.

A escrita sempre foi meu jeito de descansar dos meus pensamentos. E escolhi a escrita para me ajudar a não apenas dizer, mas registrar, essas conversas sobre o amor e a relação a dois. Não se trata de conselhos… Mas de reflexões abertas, lembrando sempre que posso estar errada – posso pecar errando em tentar, mas seria horrível errar me omitindo. Posso escrever a vocês, noivinhos queridos, o que gostaria que plantassem em suas almas, comigo, enquanto nos preparamos para esse dia tão especial. Não temos muito tempo, mas o que temos é o suficiente. Enquanto rogo ao Sagrado que abençoe a vida de vocês dois, sempre me lembro que as bençãos se materializam na forma de gestos das pessoas. E o meu gesto vai ser esse… Escrever sobre o que entendo de amor, sobre o que aprendi sobre ele… E esperar que essa semente caia no lugar certo, do jeito certo, na hora certa na vida de vocês.

O amor é uma das coisas da vida. Alguns diriam que é um acessório bem vindo, outros diriam que é um pilar fundamental, outros ainda diriam que é sorte, outros que é destino, outros que é batalha diária de duas pessoas dispostas que fazem acontecer quando decidem se amar. Talvez seja um pouco de tudo isso.

Para mim, o amor é algo que dá sentido à vida como nenhuma outra coisa poderia fazer. Mas ele só acontece se entendemos o tempo como aquilo que constrói o amor, que nos ensina sobre ele, que nos ajuda a nos modificar e modificar um ao outro, por amor. Amor e tempo conversam, nos moldam, nos cuidam, nos transformam, nos recuperam e nos ajudam a achar a paz e a felicidade que tanto buscamos. Amar dá trabalho, meus noivinhos queridos! Mas eu acredito muito na capacidade de vocês de construir um sentimento genuíno, verdadeiro e forte que poderá guiá-los por longos e felizes anos. Acredito até que já fizeram isso. Mas será bom vermos como foi feito, para continuar fazendo.  Estarei por aqui para acompanhá-los e ajudar no que for necessário.

Apertem o play e deixem a poesia fluir no coração de vocês. E sigamos. Juntos. ❤

O AMOR NÃO É PRA QUALQUER UM

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Não, não é mesmo.

O amor não é para os preguiçosos. Não é para os que não querem andar longas distâncias, fazer grandes esforços, não é pra quem não quer gastar dinheiro, romper grandes barreiras, não é pra quem coloca empecilho onde o caminho está livre, não é pra quem faz questão de sinalizar que já fez demais quando ainda há tanto a se fazer. Nãnão.

O amor não é para os desconfiados. Não é para os que não se entregam, para os que não se declaram mesmo sentindo, para os que não ligam esperando o outro ligar primeiro, não é para os que se seguram pra não dar bandeira, não é pros que jogam. O amor cobra a conta da jogatina na saída, e quem joga com ele sempre perde.

O amor não é para os inconsequentes. Não é pros que falam muito e fazem pouco, pros que prometem e não cumprem, não é pra quem alimenta esperanças que não pretende honrar, não é para os fanfarrões e muito menos para os que sequer são capazes de colocar em palavras o que realmente sentem.

O amor não é para os amargurados. Não é para os que ficam presos a um passado sofrido, nem para os que cobram de um novo amor contas de um amor antigo, não é para os que batem no peito exigindo razão para não se entregarem, não é para os que não foram capazes de lamber suas feridas e curar suas mágoas.

O amor não é para os estúpidos. Não é para os que não gostam de aprender, nem para os que acham que já sabem tudo, não é para os que não pensam em estratégias, não é para os que não admitem que o amor não se mantém sozinho, e que é preciso pensar muito para que ele dure um pouco mais.

O amor não é para os iludidos. Não é para os que acreditam em mágicas, em destino. Não é para os que passivamente aceitam o deteriorar do cotidiano, não é para os que acreditam em eternidade pronta e deixam de se esforçar todos os dias para que o amor floresça sempre, e não seque.

O amor não é para os perfeccionistas. Não é para os que não perdoam, não se humilham, não engolem sapo, para os extremamente exigentes ( com os outros, claro ), para os chatos que fazem tanta questão de tudo, para os que se acham merecedores, para os que não gostam de ser contrariados em suas expectativas… Não, o amor não é pra quem não admite nada menos que os seus sonhos individuais.

Parece óbvio, mas é preciso dizer: o amor não é para os egoístas, para os que buscam a própria felicidade. Não tem nada mais contraditório ao amor do que buscar a própria felicidade.

O amor não é para os medrosos, não é para os que querem se manter a salvo, que querem todas as garantias, não é para quem não se arrisca, não é para quem não pode empenhar tudo que tem e tudo que é em favor do amor.

O amor não é para os fracos. Não é para os fujões, para os covardes, para aqueles que viram as costas nas dificuldades, não é para os que não são capazes de doar absolutamente tudo para o amor, não é para os cínicos e debochados. O amor exige tudo. E mesmo assim, depois de dar tudo, você ainda deve continuar buscando mais e mais pra dar.

Definitivamente, o amor não é pra qualquer um.

Talvez o amor seja para poucos de nós… Ou para quase ninguém.

Ou talvez a sacada seja outra. O amor não nos encontra prontos. Nunca. Ele nos leva a ser quem precisamos ser, ele nos faz melhores. Quem de nós pode dizer que é assim, tão disposto, tão confiante, tão coerente, tão curado, tão inteligente, tão consciente, tão honesto, tão despretensioso, tão solidário, tão corajoso, tão forte? Ninguém poderia… A não ser quem realmente ama e se dispõe a aprender a ser tudo isso enquanto ama. É o amor quem nos faz assim, prontos para ele… O próprio amor.

Por isso, tome cuidado. Se o amor que você vive te faz ser alguém controlador, medroso, triste, angustiado, perturbado, confuso, dominador, humilhado, desconfiado, exigente, egocêntrico… Talvez não seja amor.

Amor é pra todo mundo que sabe que só ele, o amor, é, ao mesmo tempo, o caminho e a chegada. O amor é para grandes pessoas… Que se tornam ainda maiores e melhores justamente porque amam. O amor é para aqueles que sabem que ele faz de um qualquer alguém único.

Feliz dia dos namorados para quem abre as portas e janelas para o todo-poderoso amor, e assim, se torna alguém… Alguém de verdade.

2017… ADEUS, CASULO.

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Relendo alguns dos últimos textos de ano novo aqui, percebo que é recorrente essa sensação de esperança, de renovação; esse sentir profundo da essência das coisas e esse banho revigorante da força pra continuar. Dia 31 normalmente me bate essa enorme vontade de jogar no lixo os episódios ruins, enfiar os bons debaixo do braço, fazer faxina, limpar a agenda, olhar pra frente e pisar duro na nova estrada, como se fosse realmente ser tudo diferente.

Os últimos anos foram anos difíceis, mas terminaram; e ao terminarem, trouxeram com eles alívio e desejos – ora tímidos, ora desesperados – de que tudo fosse mais calmo, mais tranquilo, mais sereno… Melhor.

Engano… Um delicioso e necessário auto engano. A vida é a alternância de sempre entre o descanso e o trabalho, a paz e a guerra, o amor e a solidão, o sonho e a morte. É isso aí e sempre será. E um ano… Ah, é só mais 365 dias da mesma vida de sempre.

Mas a vida não é a de sempre, porque a única coisa certa sobre ela é que muda. TODO cambia, como dizia a belíssima canção castelhana. Ainda bem. E como não dá pra refletir a vida inteira, e nem mudar tudo de uma vez, é abençoada a ideia explicitada pelo cronista, de cortar o tempo em fatias… E pensar um pouco sobre os pedaços que deleitamos, mastigamos ou fomos obrigados a engolir ultimamente.

E olhando pro meu 2017, vejo que foi um ano especialmente difícil pra mim. Solidão; doenças diversas; decepções múltiplas; dores, muitas, no corpo e na alma; despertar de velhas feridas; estranhamento das pessoas; sono demais, sono de menos; equivocadíssimos romances; medos e poucas vitórias; nada além do pão do dia a dia, sem muito sonho, sem muita vontade de nada. Embotamento, apatia. Pouca fé. Pouca esperança. O mundo desabando em ódio, fascismo, rancor, violência, e nenhuma reação decente onde eu pudesse me encaixar pra ir contra a maré. E uma persistente, enorme e fundante dúvida no espelho – afinal de contas, quem é essa mulher aí, cheia de olheiras, de olhar perdido e aspecto envelhecido que eu vejo no espelho? Quem é ela, meu Deus, que eu não sei quem é!?

Apesar da vida que seguiu e me obrigou a seguir com ela, saindo de casa todos os dias, trabalhando, dando conta das coisas… Se eu tivesse que escolher uma imagem para 2017 seria a de um casulo. Sim, um casulo. Estive dormindo todo esse tempo, mesmo que parecesse que não. E como é dolorido ficar assim. É muito dolorido saber que você não é mais o que era, e também não saber ainda o que você será. É muito triste essa perda de identidade… E eu tentei desesperadamente ignorar essa dor, mas o meu corpo me parou e me fez perceber: não dava mais pra ser a mesma de antes… E seria preciso sonhar com a que eu virei a ser. Não é algo inédito passar por metamorfoses, mas do jeito que foi, nunca tinha sido antes.

Antes… A direção de antes não vai mais pra lugar nenhum; os ambientes onde antes eu me sentia segura parecem muito hostis, estranhos; as pessoas de antes parecem diferentes, algumas delas nem sei mais se quero em minha vida; os erros de antes, já não é mais tolerável que continuem sendo cometidos; os velhos hábitos, aquele velho rastejar da lagarta, aquilo não me serve mais. Eu não sou mais apenas a filha da Jaci, a irmã do Rodrigo e do Levy, a professorinha, a amigona, a namorada… Nem mesmo sou mais a viúva do Marcelo, e essa dor, que por tanto tempo me definiu, me protegeu, me encalacrou… Aos poucos perde a força e já não consegue mais tomar o lugar da minha personalidade. Entrei no casulo para sair de lá outra… Outra filha, outra irmã, outra profissional, outra amiga, outra mulher, outra… Tão outra. Mas que outra é essa?

A lagartinha, antes programada pra cumprir com suas tarefas – comer, trocar de pele, proteger-se dos perigos e armazenar energia – finalmente entra no casulo. Isola-se. Para de olhar pra fora. Fecha-se. E lá dentro… Com a ajuda do tempo e de um pouco de sorte ( afinal, um casulo atacado simplesmente morre ), forma-se esse novo ser.

É bonitinho pensar na metamorfose, eu mesma já escrevi mais de uma vez sobre isso aqui. Mas o que acontece dentro do casulo não é nada divertido. É um processo doloridíssimo chamado histólise, e depois histogênese: a lagarta é literalmente derretida em seus próprios sucos ácidos, e suas células vão sendo destruídas de dentro pra fora. É preciso aniquilar a lagarta, mas uma parte dela é poupada – suas células tronco, as principais… A essência. Toda a casca vai embora e fica apenas a origem. E é dessas células que a reconstrução começa. É delas que vai sair um novo corpo, uma nova estrutura, uma nova aparência, novos músculos… Um novo coração. E o pior: no tempo do casulo, não é possível jogar nada fora dessa velha vida. Fica tudo ali, acumulado… Enquanto o outro ser se forma, até que esteja pronto pra sair.

Foi assim, exatamente que me senti durante este ano que termina hoje. Dentro do casulo. Reconstruindo tudo. Perdida entre o velho e o novo, entre ir e ficar, entre esquecer e lembrar, entre tentar mais uma vez e desistir. Sem poder jogar nada fora, mas também sem saber o que colocar pra dentro. Doeu tanto. Tanto. E foi uma dor solitária. Como poucas que tive na vida. Não achei ninguém neste mundo a quem eu pudesse ou conseguisse explicar o que estava acontecendo, ninguém que eu achei que se interessasse, ou se interessando, compreenderia. Foi um tempo de silêncio, recolhimento e solidão… Acompanhado de perto pela única pessoa que protegeu o meu casulo com extrema delicadeza e paciência ( Louremi, eternamente grata a você, minha terapeuta querida ).

Claro, borboletas não tem consciência. Mas se tivessem, enquanto passam por tudo isso, toda esse desmanchar e refazer, elas poderiam dedicar seu tempo a sonhar com a nova vida. Mas não é assim. Não dá pra sonhar muito em meio a dor de ver derretido tudo que você era. É preciso esperar… Apenas esperar.

Às portas de sair do casulo, me sentindo quase pronta, começo a me incomodar com a espera. Começo a ter vontade de sair…. E também vontade de sonhar com minha nova vida. De que cor serão minhas asas? Pra onde é que eu vou voar? Quais serão os novos hábitos que vou ter que construir? Quem eu vou encontrar no céu, que não encontrarei mais lá no chão? Quem vai me achar mais bonita, ou mais feia? O que eu vou fazer com essas novas capacidades? Como é ser uma borboleta madura? “Será que a borboleta lembra que já foi lagarta? Será que a lagarta sabe que um dia vai voar?”

Talvez 2018 seja esse ano, o ano do esforço de deixar o casulo. O ano de encontrar esse novo ser, sonhá-lo, deixá-lo vir. Não é assim, mágico. É preciso esforço, é preciso forçar a saída, é preciso romper.  E depois, deixar as asas secarem ao sol completamente, até que possam sentir-se fortes para o primeiro voo. Não sei quanto tempo leva, não sei nem mesmo se é isso.  Observo tanta gente que desiste no meio do caminho e começa tudo de novo, voltando à condição antiga e segura da lagarta. Vai saber o que me espera!

Mas a primeira decisão do ano novo já está tomada – deixar ser… Let it be.

Sim, let it be… Não dá pra controlar o movimento da natureza, o despertar do ser, a ação do tempo… Não dá pra adiantar e nem atrasar a cordinha da vida. Não dá pra resolver todos os problemas… Não dá pra ficar parado também esperando tudo se resolver. A cada dia, muita luta, muito sonho, muito cansaço, e muito desejo também… Farei o pouco que der pra fazer, e desistirei sem me destruir antes.  E dentro disso tudo, apenas a vontade de viver, sem segurar a rédia de nada… Deixando ser.

A velha canção dos Beatles sempre me consolou nos piores momentos. A “mother Mary” do Paul está dentro dele, a minha também está aqui… Haverá a resposta pra tudo, haverá a força pra continuar, haverá as quedas e os novos voos. 2018… Apenas vou deixá-lo ser e sair do meu casulo. O que eu encontrar por aí será bem vindo para que essa nova “eu” apareça e finalmente eu volte a me reconhecer no espelho. Essa nova pessoa, também vou deixá-la ser. Let it be… Let it be. É sabedoria, é paciência, é consciência, é sonho… É vida.

Que em 2018 todos nós nos deixemos ser tudo que conseguirmos. Pra quem está no chão, entre as folhas, lagarteando… Se alimente bastante. Para quem vai entrar no casulo… Força pra aguentar o tranco. Pra quem está saindo… Vamos em frente. E pra quem já está voando… Aproveite.

Feliz ano novo!

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – INOCÊNCIA

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Existe uma diferença entre ser ingênua e ser inocente, foi o que eu aprendi uma vez.
A pessoa ingênua não sabe que o mal existe; não sabe que ele pode se manifestar a qualquer momento, seja na pessoa mais próxima ou na mais distante, no mais miúdo específico ou no mais generalizado. A ingênua sempre é surpreendida e destruída pelo mal. Me lembro dos meus tempos de ingenuidade. Doces e inconsequentes tempos.]
A pessoa inocente é diferente. Ela sabe que as pessoas podem mentir, roubar, destruir, humilhar. Ela sabe que o mal é forte e numeroso, sabe que ele está sempre à espreita, esperando para acontecer, esperando para derrubar e aniquilar as partes boas de tudo. A pessoa inocente sabe que tudo aqui é pequeno e mesquinho. Ela entende que o fascismo, a violência, o medo e as falhas de caráter existem e frequentemente ganham espaço, rápida e estrondosamente. Ela sabe também que existe uma energia forte que gosta de destruir frequentemente as pessoas que optam por serem inocentes, só pra contrariá-las, e provar que elas não têm razão.


Mas mesmo sabendo disso, a pessoa inocente prefere acreditar que tudo vai ser diferente, e tudo vai dar certo, que as pessoas são boas e não vão machucá-la. Ela escolhe acreditar no melhor.


Por isso, quando é agredida, machucada, violada, importunada, contrariada, a pessoa inocente não cai – ela estava preparada para isso. Acha que é uma pena que tenha sido assim, mas não cai.


Creio que todo mundo é ingênuo uma vez na vida. E diante das primeiras quedas, há que se tomar uma decisão. Ser cínico, melancólico, desconfiado, e não acreditar mais, não ter mais esperança. Ser aquele que fere, ao invés de ser o ferido. 


Ou… Ser inocente.


Manter-se inocente é uma arte que eu tento cultivar em mim há muito, muito tempo. Não posso aceitar o triunfo do desolamento sobre a esperança. Não posso aceitar a perda da fé para o cinismo. Não posso, porque não posso perder a alegria. Não posso deixar de dar um voto de confiança. Não posso deixar de fazer a minha parte. 


Não nego que muitas vezes já me machuquei. Mas não me arrependo de tentar. 


Caso contrário, ao invés de mudar o mundo, será o mundo que terá me mudado.
E isso não vou deixar.

ESPERO ALGUÉM

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Espero alguém.

É preciso muita humildade e coragem, em tempos quando todos e todas são tão autossuficientes e cínicos, pra dizer que espero alguém porque eu quero esperar.

Espero alguém doce e marcante no encontro. Alguém que saiba chegar, não importa se for espalhafatoso, forte, barulhento, ou sutil, suave, luminoso. Mas alguém que deixe bem claro que chegou. Espero alguém que saiba que eu o estou esperando, e que esteja me esperando também. Alguém que redima o passado e faça valer a pena sonhar o futuro. Espero alguém que sinta o cheiro da minha comida e do meu pescoço, e goste de ambos. Espero alguém que me acenda, me ligue novamente, me puxe pela mão e me tire da escuridão.

Espero alguém que até tente, mas não consiga ir embora. E conseguindo, não demore a voltar. Espero alguém que seja gentil, ajude a carregar as sacolas e tirar o lixo. Espero alguém que sinta a minha falta e fique incomodado em não estar presente. Espero alguém que me receba, me faça sentir à vontade em tirar os sapatos e colocar os pés no sofá, em beber no gargalo da garrafa e dormir no meio da conversa. Espero alguém que fique à vontade, e me faça à vontade. Espero alguém nos braços de quem eu consiga adormecer e descansar, dormir profundamente, e acordar revigorada de um cansaço milenar.

Espero alguém que entenda a minha poesia. Alguém que até ache graça dos meus dramas, mas respeite profundamente a minha dor. Espero alguém que leia – olhares, letras, imagens, sinais, sons – e entenda o que lê, e quando não entenda, se esforce em procurar saber. Espero alguém que mergulhe em mim com sede, muita sede, e se sinta extremamente saciado. Alguém que me ajude a nadar no imenso oceano de emoção que eu sou.

Espero alguém que não use as fragilidades que captou de mim nos momentos de confiança e carinho para me destruir nos momentos de dúvida ou raiva. Espero alguém que ligue de repente, que beije de repente, que fale de repente, que surpreenda. Espero alguém que saiba me dar bronca, que coloque bem os limites, e traga em si a autoridade do amor. Espero alguém que partilhe ideias interessantes, que aprenda comigo, e me ensine muitas coisas, e fique feliz por isso. Espero alguém que sorria gostoso, que gargalhe, e que ache graça das minhas piadas e sacadas. Espero alguém que ache delicioso perder tempo com besteiras. Espero alguém que se sinta orgulhoso, e não intimidado, quando enxergar minhas capacidades. Espero alguém que transite entre a alegria dos dias especiais e a grandeza do cotidiano.

Espero alguém que entenda os pequenos e grandes prazeres da vida. Espero alguém que se deixe seduzir, mas também vá direto ao ponto. Espero alguém que me procure pra amar, que me toque naquele lugar especial entre o desejo despudorado e guloso e o carinho. Espero alguém que tenha coragem, de mudar de vida a dizer a verdade, de superar-se a dizer o que pensa. Alguém disposto, que não se acomode, que não esconda suas incapacidades, alguém que peça e ofereça ajuda, e assuma suas humanidades. Alguém que saiba quem é, mas nem por isso se envaideça. Alguém que cumpra a palavra. Alguém que só fale que ama quando for verdade; espero alguém que faça ser verdade. Espero alguém que não minta e não abandone por pura preguiça. Espero alguém que seja homem o suficiente pra respeitar a mulher que eu sou.

Espero alguém que use as palavras de um jeito especial. Espero alguém que entenda que projetos são apenas projetos. Alguém que seja mais leal do que fiel. Alguém que deseje profundamente continuar vivendo. Espero alguém que resolva a melancolia com carinho e generosidade. Alguém que não se ache mais do que é, e que me ache mais do que eu sou. Espero alguém que não sucumba ao ridículo medo de amar, que, como dizia o poeta, é o medo de ser livre.

Espero alguém que discuta com honra, que se refaça diariamente com dignidade, que peça perdão e aceite quando for eu que tiver que pedir. Espero alguém que experimente novos sabores, novos pontos de vista, novos olhares, e se sinta vivo, e me ajude a me sentir viva também. Espero alguém que esteja vindo e fique feliz quando tiver chegado.

Em troca, me ofereço. Toda, inteira. Espero alguém que saiba que essa troca vale a pena.

Por favor, venha logo.

( Foi o Carpinejar, mais uma vez, quem me deu o mote. O texto dele me inspirou a fazer o meu. )

TODA AMOR

Já amei com o estômago. Todas aquelas borboletas voando lá dentro, aquele frio na barriga, aquela expectativa, aquela paixão, aquele arrebatamento. Quase ganhei uma úlcera, mas foi tão gostoso.

Já amei com o cérebro. Planejamentos, decisões racionais, conversas de avaliação, calma, passo a passo,  sem sustos, a melhor decisão possível, tudo sob controle. Foi tranquilo, mas foi tão frio e previsível.

Já amei com todos os ossos e músculos. Eu tinha energia pra ir, pra fazer, pra atravessar enormes distâncias, pra passar noites em claro, pra atender a qualquer chamado, pra correr, pra dançar, pra me colocar ali, todinha à disposição. Até emagreci. E foi tão cansativo.

Já amei com o coração. Na mão. Todo ali, de presente, pra outra pessoa. Meu sentimento todo mobilizado, aquela emoção, choro, risadas, aceleramentos inesperados, taquicardia, disritmia, confusão, ai, minha cabeça, meu peito, quanta dor, quanta felicidade, quanto tudo. Foi bom, até que entendi que precisava do coração pro resto da vida, e ainda assim ele explodiu em mil pedaços.

Já amei com o fígado. Aquela sensação de que era demais pra mim, e toda aquela necessidade de metabolizar tudo que vinha, toda aquela sensação de que estava caindo mal, todo aquele mal estar, aquela azia, toda aquela vontade de vomitar de repente. Não deu, lógico.

Já amei com a pele. Ai, aquele arrepio, aquela sensação de completude, aquela vontade de colar e não soltar nunca mais, aquela vontade de tatuar, de marcar, de lanhar, de apertar, de lamber, cheirar, tocar, consumir tudo de uma vez. Foi maravilhoso. Mas era muito superficial.

Já amei com os nervos. Aquela angústia, aquela espera, aquele medo, aquela tremedeira, aquela indecisão, aquela coisa de saber que não é pra ser mas querer forçar a barra, aquela violência comigo mesma, aquele estresse. Não aguentei, pifei.

Já amei com os joelhos. No chão. Por outra pessoa. Pedindo que um milagre acontecesse, que mudasse, e colocasse tudo no lugar. Nada aconteceu. Tem coisas que não podem acontecer nem por milagre. Deus é muito mais sábio que eu.

Já amei com os olhos. À distância. Querendo sem poder ter. Admirando sem poder tocar. Esperando um sinal, imaginando, devaneando, precisando de um tequinho de coragem pra dar aquele passo e acontecer. Numa piscada… Acabou.

Já amei com a boca. Falando, e conversando, e contando, e dividindo experiências, e sorrindo, e beijando, e comendo junto, e saindo, e gastando o batom no banco do carro, e aquela coisa deliciosa de amizade que parece que sempre esteve ali e sempre vai estar, aquele companheirismo todo. Mas nada vai ser pra sempre, a não ser o próprio tempo.

Já amei com o ouvido, e com o ombro. Dei carinho, ouvi todos os lamentos, suportei todas as reclamações, ajudei a levantar a moral, tive todo o cuidado, recolhi todas as lágrimas, entendi, compreendi, esperei, suportei, tive compaixão. Mas de repente senti meus pulmões fechando, e não conseguia mais respirar.

Já amei com a alma. Fui inteira, me joguei, mostrei o melhor de mim, fui vista, vi, me coloquei ali e fui em frente. A vida tem inveja de quem ama com a alma e logo me roubou esse amor.

Já amei com os hormônios e o ritmo frenético dos 15…

Já amei com todos os sonhos, planejamentos, certezas e esperanças dos 20 e poucos…

Já amei com a segurança, beleza, tranquilidade e intensidade dos 30 e poucos…

E até posso dizer que já amei com a maturidade, a nostalgia e as dúvidas dos 40.

Já amei por decisão… Por conveniência… Por medo… Por indiferença… Por desejo… Por desespero… Por empurrão… Por distração… Por hábito… Por motivação… Por sentimento… Porque sim e porque não.

Hoje cedo, pensando no post do dia dos namorados que há anos coloco aqui, estava pensando, e pensando tanto, será que acabou? Será que ainda tenho algo a dizer, a viver? Quem já amou de tantos jeitos, que parecem certos como trajetória, mas errados, como lembrança… Será que sobrou alguma coisa? Será que ainda quero mesmo essa coisa toda difícil e predatória que é o amor? Com o que mais de mim ainda tenho que amar, o que mais falta dar, o que mais falta viver?

Passei o dia meio de mau humor, pensando que ainda bem que não tenho um amor hoje bom o suficiente pra me fazer sair de casa no friozinho, encarar as filas nos restaurantes e me fazer pensar em presentinhos e cartõezinhos que vão ficar na poeira do tempo, como tantos outros que já fiz, ou ganhei, ou dei.

Mas “mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”.

Não acabou não. Ainda falta.

Falta alguém que me olhe e me queira assim… Inteira. Que aceite o pacote todo. Que leve os pés cansados, as mãos calejadas, o cérebro pilhado, o coração tantas vezes  arrebentado e remendado, a alma pisoteada, os olhos vermelhos, a pele sem aquele frescor e firmeza, a boca mais quieta, os ouvidos já meio tampados… Alguém que olhe tudo e me deixe amar inteira, com tudo que eu tenho, com tudo que sou, e goste disso.

Existe? Vou encontrar? Vai rolar? Vou conseguir me entregar de novo? Não sei.

Mas se rolar… Ah, vai ser tão bom. E não vai terminar. O que não posso é deixar de esperar… De tentar.

“…E é tão bonito ter os pés no chão e ver que o melhor da vida vai começar…”

Feliz dia dos namorados, pra quem tem a coragem, a decência e o prazer de amar com tudo e mais um pouco. 🙂

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS -SOMBRA

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“O Retrato de Dorian Gray”

Deus me livre de tanta fraqueza. De tanta omissão, de tanto comodismo, de tanta covardia. Que eu não escolha o caminho mais fácil, se não for o certo. Que eu vença a vontade de entregar os pontos, de deixar pra lá, de me retirar das lutas justíssimas sem ter ido até as últimas consequências. Que eu não seja aquela rata medíocre que abandona o barco quando ele começa a afundar. Que eu não aceite relacionamentos pífios por medo da solidão, ou para não enfrentar a luta que é desatar nós. Que eu não deixe ninguém na mão, que eu não falte com quem nunca faltou comigo, que eu tenha força pra seguir adiante. Que eu não seja fraca. Mas que eu não esqueça que já fui fraca tantas e tantas vezes.

Deus me livre de tanta mágoa. Que eu consiga perdoar quem me fez mal, e não foram poucos; especialmente aqueles que nem perceberam o que fizeram, ou os que, percebendo, não foram capazes de pedir perdão. Que eu não aponte o dedo em riste pra ninguém, por pior e mais aparente que seja o motivo; que eu não julgue. Que eu não carregue o peso das dores que me foram impostas, que não nasça em mim nenhum desejo de vingança, nenhuma atitude de desforra, ou de desprezo por quem quer que seja. Que eu saiba voltar atrás, que admita minha parte quando as coisas derem errado, que não me porte como vítima quando não for. Que eu não elimine as pessoas da minha vida com tanta facilidade quando me cansar delas e do mal que me fazem. Que eu saiba insistir um pouquinho mais. E quando não for mais possível, que eu saiba ir em frente sem olhar para trás, sem carregar nada na mochila. Que eu não seja uma pessoa ressentida. Porque tantas vezes já fui. E ainda sou.

Deus me livre de tanto ódio. Que eu possa segurar o ímpeto de agressão, de ira, de extermínio que me acomete de vez em quando. Que não me falte paciência com gente ignorante, violenta, nojenta, fascista; que o ódio seja sempre do que pensam e fazem, nunca delas em si. Que eu possa ser aquela que pacifica, que acalma os ânimos, que não piora as coisas, que não leva os boatos e fofocas adiante. Que eu não aumente a chama da confusão em lugar nenhum. Que eu não magoe ninguém, nem gritando, nem sorrindo. Que não haja em mim nem um traço de cinismo. Que eu não me conforme em machucar alguém, e que, machucando, saiba pedir perdão. Porque tantas e tantas vezes já machuquei, querendo e sem querer.

Deus me livre de tanta vaidade. De tanto ego, de tanto eu. Que eu consiga segurar a onda das minhas qualidades, que elas sejam um presente que eu recebi e uso a favor dos outros, nunca uma arma. Que eu não queira tudo pra mim, que não seja egoísta e nem covarde. Que eu não iluda a mim mesma, como vejo tanta gente fazer, achando que sou tão boa, quando na verdade sou tão ruim. Que eu não tenha motivos e justificativas pra tudo que faço, como se só eu merecesse compreensão e perdão nessa terra, sendo implacável no julgamento alheio. Que eu não me deixe levar por falsos elogios, que eu valorize quem me diz a verdade e repudie a mentira e o auto-engano. Que eu mantenha-me pequena e humilde como deve ser. Porque tantas vezes cresço mais do que deveria e me acho gigante, quando na verdade continuo sendo poeira como todo mundo é.

Deus me livre de tanta compulsão. Que eu possa manter as vontades do corpo sob controle da mente. Que meus desejos não me dominem. Que eu não desague o que foi contido no mar do hedonismo, comendo, bebendo, trocando carinhos sem sentido. Que eu traga os desejos na coleira, e que mesmo depois de saciá-los, eu respeite o meu corpo e minha alma sabendo a hora de parar. Que eu não use nem manipule ninguém pra conseguir prazer, satisfação. Que eu respeite os meus limites e coloque os freios necessários para não consumir todo meu corpo e minha alma de uma vez. Que o mar do desejo não me carregue, que eu saiba tomar muito cuidado com ele. Porque tantas e tantas vezes não consigo me segurar, e ainda acho justo que não consiga.

Deus me livre de tanta ansiedade. Que eu possa dominar os pensamentos catastróficos que me dão tanto medo, e que esse medo não me paralise e nem me impeça de viver as coisas boas. Que eu não adiante as coisas, por mais que esteja vendo como serão logo ali. Que eu não tenha pressa de viver o que é bom, e nem desespero pra que o que é ruim passe logo. Que eu mantenha a mente quieta e respeite o tempo, meu e dos outros. Que eu saiba controlar a ânsia de mudar as coisas à força, porque não se abre uma flor e nem se tira um inseto do casulo antes da hora certa. Que eu não estrague tudo com artimanhas, mentiras e palavras duras, só porque não posso esperar um pouco mais. Que eu segure a vontade de sobrepujar a vida, porque tantas vezes já quis ser maior que ela e me machuquei toda.

Deus me livre de tanta manipulação. A tentação é grande para quem percebe tão bem os sentimentos, emoções e sinais das pessoas. Que eu não use o que aprendo dos outros a meu favor e contra elas, que eu não queira ser mais esperta, nem enganar, nem ficar por cima de ninguém, só porque pra mim é mais fácil. Que eu não diga frases duras em tom doce, que não tente passar ninguém pra trás, que não minimize a vontade de ninguém e nem menospreze a capacidade das pessoas de me entender, como eu as entendo. Que eu não use ninguém ao meu serviço, porque tantas vezes já fui usada, e doeu tanto… Porque tantas vezes igualmente uso os desavisados para o que preciso e quero.

Deus me livre de tanta preguiça. Não a preguiça mais simples, aquela, que vem do cansaço. Mas a preguiça da desistência, da conformidade, do “deixa pra lá”, do “não vou colaborar”. Que eu não me canse da vida, que eu não ache que tenho o direito de estar mais cansada ou mais alheia do que ninguém. Que eu não nutra desinteresse pelo que é importante, porque tantas vezes tenho vontade de me fechar e esquecer de tudo.

Deus me livre de tanta carência. Que as minhas faltas não me façam a vítima de quem pode me dar um pouco do que quero. Que eu entenda a falta como parte de mim, como vazio cheio, como parte de motivação pra ir mais adiante, e não como mutilação, como ofensa. Que eu não seja fraca diante do que me atrai, que eu saiba guardar a dignidade e a preservação acima da vontade. Que eu saiba suportar a falta. Porque tantas vezes já me destruí querendo acabar com essa sensação de vazio.

Deus me livre daquilo que guardo em mim mesma, essas sombras que me roubam a plenitude. O diabo está em mim. Que eu saiba olhá-lo, encará-lo de frente, e ter com ele as conversas necessárias para não errar tanto, nem comigo mesma nem com os outros. Que eu jogue luz em tanta sombra e que faça as escolhas certas, ainda que não sejam as mais fáceis. Que eu encare a minha natureza humana, fraca, pífia, covarde e vá buscar a nobreza ladeira acima, tropeçando nas pedras, fazendo o esforço de ser alguém melhor porque é isso que eu quero, ainda que pareça que não.

Deus me livre de mim mesma.

“Hoje não dá, hoje não dá…
Está um dia tão bonito lá fora e eu quero brincar.
Mas hoje não dá, hoje não dá…
Vou consertar a minha asa quebrada e descansar.”

CELEBRAR A VIDA

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Aprendi com o tempo e com as lágrimas que a morte, a gente teme e respeita. Mas a vida, a gente celebra. E quando essas duas coisas se misturam, a gente precisa aprender a comemorar as coisas de um jeito diferente. E elas sempre se misturam. Quem vive, morre um pouco a cada minuto que passa. E quem morre, só pode morrer porque estava vivo. A festa do dia dos mortos, mexicana, é um pouco isso. Trazer a morte pra celebração. Porque é por causa da morte que a gente entende melhor a vida, e de certa forma, fazemos com que ganhe sentido.

Ano passado tive a oportunidade de ver a chefe do serviço funerário da cidade de São Paulo falando sobre morte em um encontro sobre o que se fazia de bom pela infância na cidade. Eu estava lá pra falar de educação. E ela, pra falar sobre cemitério. Fiquei um tanto chocada. Mas eu não estava lá por acaso. Passado o estranhamento inicial, e após uma fala lindíssima de alguém que estava acostumada a não ser bem acolhida lugar nenhum pelo assunto difícil que significava, eu entendi porque aquela mulher defendia tanto que falássemos sobre a morte. Ela explicou que o cemitério é um patrimônio da cidade, um lugar de memória, de emoção, de vida. Ela defendia que não devíamos deixar de falar da morte às crianças, de prepará-las para isso. Entendi que não fazemos visitas ao túmulo de Tarsila do Amaral, Monteiro Lobato ou Paulo Vanzolini pra lembrar do dia em que morreram, mas sim pra lembrar da vida incrível, produtiva e marcante que tiveram. Tem gente que é assim: morre, mas sempre merece ser lembrada por sua vida.

Uma das coisas mais estranhas do processo de luto é quando as pessoas se incomodam quando a gente, que perdeu alguém querido, fala da pessoa que se foi. Há um silêncio desconfortável, pedindo pra acabar o assunto. Constrangimento. Os interlocutores têm medo de magoar. Sentem dúvida se param ou continuam a conversa. O enlutado percebe que são pouquíssimas as pessoas que gostam de falar de quem morreu. Querem esquecer, fingir que não aconteceu, jogar a morte, a dor, a finitude da vida debaixo do tapete. E, sabendo disso, a gente evita falar pra não causar tanto mal estar por aí.

Na verdade, passado algum tempo, a gente supera a coisa de lembrar de quem partiu de um jeito tão dolorido. E gostaria de falar das coisas boas que aconteceram. Com o Marcelo, meu marido, sinto assim. Sinto dor, claro. Saudade, tanta saudade. Raiva da vida. Medo do futuro e do passado. Inconformidade. Penso milhões de vezes em outros finais pra nossa história. Mas também lembro de tudo de bom que ele era, que fez e que vivemos juntos. E fico com dó de esquecer. Não seria justo não falar mais dele, apagá-lo da minha vida. Então, prefiro lembrar. Mesmo correndo o risco de doer, prefiro lembrar.

Hoje ele faria aniversário. E não consigo evitar de pensar em como seria legal tê-lo aqui. Tenho certeza que teríamos sido felizes juntos, de que ele seria ótimo marido como foi tão bom namorado – tanto acreditava nisso que me casei com ele.

Talvez, se hoje estivesse aqui, estaríamos fazendo um brinde agora. Brindando a pessoa que ele era. Ele teria sido um ótimo escritor. Tinha uma veia sarcástica, dura, debochada e desafiadora na escrita. Teria sido também um ótimo genro, um tio babão, talvez um pai incrível, um companheiro completo, um amante disposto e inesquecível, uma pessoa sensível, um amigo ponta firme, um lutador de ideais nobres, um professor de português muito elegante e inteligente. Ele já era tudo isso. Claro, ele faria besteiras também, todos fazemos. Mas isso não apagaria o brilho da pessoa incrível que era, com quem tive o prazer de conviver, e que ficou assim, cristalizado no tempo: querido, muito querido.

Por isso, hoje, lembro dele e celebro. Sua morte me marcou profundamente. Talvez, a maior cicatriz que tenho na alma. Mas sua vida me marcou mais ainda. Muita, muita gente passa a vida inteira sem ter o gosto, a coragem, a alegria de conviver com alguém que lhe ame de verdade, que lhe conheça tão bem, que faça olhar a vida de um jeito diferente, que partilhe os mesmos ideais, com quem tenha tanta afinidade, e que te olhe como ele me olhava: colocando em mim o carimbo de raridade, de coisa especial, de melhor das melhores, e, por isso, me fazendo sentir tão mais viva e animada pra seguir adiante. Eu tive tudo isso. E não há outro sentimento sobre isso a não ser gratidão.

Ele sempre estava um passo a frente. Foi assim quando nos conhecemos. Ao final do encontro, ele olhou pra mim, e disse, “eu sei exatamente quem você é. Te conheço toda. Você é quem eu tanto procurei todo esse tempo. E por isso, sei que vamos casar. Por mim, pode ser amanhã mesmo.” Eu ri. Achei maluquice. Como assim, era nosso primeiro encontro. Mas ele sabia mesmo. E isso me fez voltar. E voltar de novo. E mais uma vez. Até que não fomos mais embora.

E por saber tanto, creio que, de alguma forma, ele também sabia que iria partir antes. Várias vezes me disse que não amarrasse minha felicidade na dele, apenas caminhasse junto. Várias vezes me fez prometer que sempre olharia pra mim mesma com os olhos dele. Eu ouvi. E, claro, se fiquei aqui, continuo vivendo. Fazendo o melhor que posso, continuando a caminhada. Por ele e por mim.

Celebro a vida e levanto um brinde àquele que me amou, que se deixou amar, e que me libertou de tanta coisa. Sou grata pela vida, mesmo castigada pela morte. E por isso, sinto que agora tenho dois aniversários no ano: o dele, e o meu. Sempre será uma parte de mim. E estou feliz por estar terminando este texto sem lágrimas, e sim com sorrisos.

De fato, o amor é muito maior que a morte. É do tamanho da eternidade. E, após longa travessia no vale da dor, digo orgulhosa que foi o amor, e não a morte, que venceu dentro de mim. Nossa história é linda, digna de nós. E sei que você a brindaria comigo agora, se pudesse, tão feliz quanto eu.

Tim tim, meu bem. 🙂

“E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém aparecer
Ou quando quero
Quando quero

Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver
És, parte ainda do que me faz forte
Pra ser honesto
Só um pouquinho infeliz

Mas tudo bem
Tudo bem, tudo bem…
Lá vem, lá vem, lá vem
De novo
Acho que estou gostando de alguém
E é de ti que não esquecerei…”

TEM-QUE

dedo-em-riste-2

Já faz um tempo que um amigo me sugeriu que postasse aqui os textos maiores que escrevo no Facebook, aquele site onde tudo se perde e você perde o fio do tempo e da sua história. Achei legal a sugestão… E estou começando hoje. Link original AQUI

“Você tem que viajar.” “Você tem que sair mais de casa pra aproveitar suas férias.” “Você tem que gostar de calor.” “Você tem que escutar aquela música.” “Você tem que terminar de ler aquele livro.” “Você tem que rever esse posicionamento.” “Você tem que dizer não.” “Você tem que se expor menos.” “Você tem que arrumar isso aí.” “Você tem que ver a série que eu adorei.” “Você tem que colocar menos pimenta.” “Você tem que dormir mais cedo.” “Você tem que ser menos trouxa.” “Você tem que fazer as unhas na manicure.” “Você tem que tomar mais cuidado.” “Você tem que superar isso.” “Você tem que trocar de carro.” “Você tem que dar uma chance pro cara.” “Você tem que usar agenda.” “Você tem que esquecer esse fulano.” “Você tem que dar um pé na bunda dele.” “Você tem que bloquear essa daí.””Você tem que trabalhar menos.” “Você tem que definir logo.””Você tem que comprar roupas mais modernas.” “Você tem que deixar o seu cabelo crespo.” “Você tem que escrever profissionalmente.” “Você tem que ter um plano.”.

Colecionei essas só neste ano de 2017. Ok, algumas (poucas) foram ditas com muito amor, por gente que se preocupa comigo. Mas ressalto que NENHUMA foi dita por pessoas diretamente envolvidas nas questões apresentadas.

Algumas coisas eu adoraria mudar, mas não consigo. Outras, são simplesmente jeitos diferentes de ver a vida. Outras são apenas da minha conta, e não me interessa fazer ou deixar de fazer. E outras não fazem o menor sentido pra mim.

Às vezes, a gente conversa só pra desabafar um pouco. Não quer ouvir o que “tem que” fazer. Só quer falar um pouco da vida, trocar umas ideias, dividir perplexidade, tomar uns gorós, dar umas risadas pra se distrair, ou apenas dizer, “putz, que merda”, e esperar o tempo passar. Claro, é ótimo ouvir outras opiniões, especialmente quando são perguntadas. Mas é complicado quando o acolhimento vira julgamento, imposição, porque a maioria de nós é limitada pacas e não sabe nem de si mesmo, quanto mais dos outros.

Eu não “tenho que” nada, gente. Eu vejo tanta gente fazendo cagada todo o tempo, mas evito ficar achando que sei a resposta definitiva pra vida dos outros, até porque a minha vida não é lá essas coisas.

Estamos todos tentando fazer o melhor. Vamos ser mais generosos uns com os outros. A caminhada não é fácil, mas estou indo bem. Pode acreditar que por muito menos muita gente tinha entregado os pontos. Eu tô fazendo o que posso. E, quase sempre, na hora do “vamovê”, apesar de todas as falas, eu estou completamente SOZINHA pra dar conta de tudo. Era de se esperar que muita coisa desse errada. Mas muita coisa tá dando certo também. Ou não tá?

Na Psicologia a gente aprende que, mesmo que enxergue claramente todos os problemas e respostas de um paciente, precisa deixar a própria pessoa entender o que é, e o que precisa fazer. Podemos ser bússola, indicar direções, orientar. Mas o leme da própria vida, só quem comanda é o capitão. No tempo e no jeito dele. E se não chegar no destino, ou afundar… Paciência. Importante é caminhar, não chegar.

Espero que as pessoas peguem leve aí em julgar o que eu sou, gosto e faço. Eu tô mais velha e o pavio tá mais curto. Só Deus pra frear minha língua pra eu não responder certas coisas jogando de volta tudo que eu vejo e penso da pessoa sabichona. E olha que eu vejo e penso coisas que as pessoas nem imaginam. Mas procuro calar. Quase sempre. Me ouça, me aconselhe, me pegue no colo, se divirta comigo, até me dê bronca. Mas para de me regrar. Talvez eu tenha escolhido viver de um jeito diferente do seu. E a liberdade da esquisitice é uma delícia, é uma benção, é o que mantém minha sanidade. Experimente.

Peace and Love. Please.

“Esse caminho que eu mesmo escolhi… É tão fácil seguir… Por não ter onde ir.”