CONVERSAS SÉRIAS

Tem coisas na vida que não dá pra evitar. Você pode fingir que não acontece, mentir pra você mesma, assobiar e sair andando, ignorar, dar as costas, forçar um sorriso, mas um problema que se preze não se abate diante desse tipo de atitude fujona; ele veste a armadura e chama você pra briga. Chega uma hora que uma moça de verdade tem que ser macha pra encarar: é hora de uma conversa séria. Se a coisa é no trabalho, com amigos, ou mesmo em família, vá lá, é difícil, mas dá pra relaxar um pouco. Mas se o assunto é com aquele rapaz, o seu amigo íntimo… Aí melou.

Por “conversa séria” entenda-se uma troca de palavras, olhares, beijos, bofetadas, expressões faciais e seja lá mais o que for entre duas pessoas que resulte em definições. Depois da conversa séria, nada pode ser como antes. Alguma coisa tem que mudar, seja pra melhor ou pra pior. A conversa séria de verdade não costuma deixar pedra sobre pedra. E isso dá um medo terrível. Quase paralisante. Tem gente que usa a habilidade que a gente tem de dialogar pra machucar, magoar, destruir, se vingar. Outros, usam pra consertar as coisas. Outros, pra buscar uma liberdade que só aquele sonoro ponto final pode dar pra uma pessoa. Mas o fato é que quem quer fazer as coisas andarem pra frente, vez por outra, esbarra no bendito “precisamos conversar”.

Toda conversa séria tem um antes, um durante, e um depois. Esse antes é dureza, porque faz você lidar com a expectativa, com a ansiedade. Lidar com o que está sendo, ou com o que já foi, nem sempre é fácil, mas é fato concreto. Mas o antes… Nossa. É assim: você percebeu um problema, ou uma situação difícil entre você e o amigo íntimo ( doravante denominado AI ). Sabe que aquilo tem que mudar. Chama o bendito pra conversar. Ele aceita. E aí começam os preparativos pra tal conversa séria.

Pessoalmente, não gosto de barracos, brigas, discussões e coisas do tipo. Acho que tem maneiras muito mais eficientes de você irritar ou sensibilizar uma pessoa pro que você está sentindo e precisa dizer. Portanto, minha maneira de me preparar é tentar desarmar o espírito e escolher bem as palavras que eu preciso dizer. Isso parece fácil, mas é muito complicado. Primeiro, porque por mais que você imagine, a realidade é sempre imprevisível. Você nunca sabe o que vai rolar com o seu AI, principalmente se você ainda sente algo por ele. Segundo, porque falar do que se sente nem sempre é tão fácil quanto parece. É difícil colocar em palavras sentimentos que você nem sabe nomear. Difícil responder dúvidas que você não acha a solução. Complicado explicar o que querem dizer as batidas do coração, o aperto no peito, a sensação de felicidade, o brilho nos olhos, difícil fazer alguém entender o quanto de emoção tem naquela lágrima que rola aqui e ali. Mas se você não faz esse esforço pra se expressar, aquilo te sufoca. Tem coisas que precisam ser ditas pra serem resolvidas. E isso tudo piora ainda mais se você tem um AI tipo OSTRA, que gosta de fazer mistérios e, na hora de se abrir, se fecha. Oh, mundo cruel.

Perdida nesses pensamentos ( nem preciso dizer que o texto não é uma situação hipotética, hehe… ), lembrei de uma música do Peter Gabriel, boa de ouvir e de refletir. E seja o que Deus quiser.

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A VIDA SOBRE 4 RODAS – PARTE I – DESPEDIDAS

“Meu carro é vermelho…
Não uso espelho pra me pentear…”

Nem acredito! Se eu for ali na janela, agorinha, e olhar pelo vitrô, sabem o que eu vou ver na garagem? Um carro! De verdade! Meu carrinho, tão sonhado, tão batalhado… Enfim está aqui comigo. Ele é vermelho, zerinho, muito lindo. Não estou vidrada, afinal, acho que nem caiu a ficha que é meu mesmo. Mas a sensação é boa. Acho que ele merece uns bons escritos aqui no blog. Mas como o assunto é longo, vou dividir em partes… Os posts gigantes são mesmo difíceis de ler, mas eu escrevo demais, paciência… Faz parte do meu show. 🙂

A primeira vez que eu sonhei em ter um carro só pra mim, eu era adolescente, devia ter uns 15, 16 anos. Minha mãe sustentava alguns luxos meus, e eu achava que quando fizesse 18 anos teria o meu carrinho de presente, como as mocinhas de família rica. Tenho certeza que se ela pudesse, teria feito assim, mas o mundo dá voltas… Ela perdeu o carro dela, e eu fiquei sem o meu presente de maioridade. Eu acabei desistindo da idéia. E continuei andando sem motor extra até agora, quando fiz os meus 27 aninhos.

Nunca fui deslumbrada, nunca quis um carrão. Nem ligava pra isso quando conhecia algum rapaz. Até hoje só diferencio a maioria dos veículos pela cor, e olhe lá. Fui atrás do carro por uma necessidade. Vou poder dormir mais meia hora por dia, chegar mais cedo em casa, ir mais rápido de um lugar pro outro, resolver as coisas mais facilmente, sair à noite com mais tranquilidade, visitar mais gente, levar a mamy no supermercado. Mas confesso que vou ter saudade dos tempos em que eu era apenas uma mocinha sem quatro rodas.

Eu gostava de andar de ônibus. Já cheguei a passar 4, 5 horas do meu dia dentro de ônibus, eu tinha que ver alguma graça nisso senão não sobrevivia. É muito complicado pra quem mora em São Paulo, e na periferia, andar de ônibus, mas se você souber aproveitar… Acaba vivendo algumas coisas interessantes que não viveria trancada sozinha em um automóvel. No ônibus já conheci muita gente, já passei muitas experiências legais. Já aprendi a me equilibrar, dormi, comi, namorei, baguncei, conversei, e vivi muitas, mas muitas horas mesmo ouvindo música e olhando as pessoas e paisagens da janela, enquanto pensava na vida, ria sozinha, chorava, devaneava e refletia. A viagem de ônibus que eu fazia todas as segundas-feiras, enquanto voltava da minha psicóloga, por exemplo, eram absurdamente produtivas. Aquela uma hora e meia era fundamental pra assentar as coisas que falávamos na sessão. Ela ria muito quando eu dizia pra ela que isso era parte integrante do tratamento.

O ônibus que eu pego de manhã, por exemplo, é uma comunidade sobre rodas. Conheço a maioria das pessoas de lá. No meu aniversário, cantaram até parabéns pra mim, eu mal podia acreditar. Tinha um senhor que descia um ponto antes do dele só pra eu não caminhar sozinha num pedaço perigoso, ficava com o braço meio estendido, meio que protegendo, parecendo meu pai. Tem o motorista que sempre sorri malicioso quando eu falo bom dia e pergunto se ele dormiu bem, ele responde “ô, se dormi!” e suspira ( o que me leva a crer que ele tem uma esposa amantíssima, assim espero ). Tem um passageiro que me explica e atualiza a tabela do campeonato brasileiro, e odeia corinthianos, eu dou muitas risadas com ele ( esse sempre aperta forte a minha mão, dá um sorrisão e me deseja um bom trabalho, às vezes eu acho que é esse desejo dele que salva o meu dia ). Tem uma moça que me conta toda a vida dela, às vezes até chora. Um outro cara que adora falar de política. Um rapaz que sempre repara quando eu falto ou fico de férias, e no outro dia pergunta preocupado se está tudo bem. O cobrador que é filósofo, e gosta quando eu imprimo e levo pra ele esses textos de reflexão que a gente recebe por email. Tem um enfermeiro ( que jura que é médico, tenho minhas dúvidas, humpft ) que me canta de vez em quando e seca o meu decote na maior cara de pau, e me mata de vergonha. Tem um moleque que sempre toma o café da manhã dele lá dentro. Uma garota que é super tímida, e mais duas professoras, como eu. E de repente, corro o risco de não vê-los mais, depois de quase 4 anos convivendo. Pode?

No ônibus a gente encontra todo tipo de gente, desde executivos e dondocas bem vestidas até mendigos e pinguços. Tem aqueles velhinhos adoráveis, aquelas crianças sorridentes, aqueles adolescentes barulhentos, aquela gente que encosta no vidro e dorme, aqueles outros que ficam com um olhar perdido no universo… Eu já fui assaltada, já fui parar em ponto errado, já caí, já derrubei coisas, já achei dinheiro grande, e perdi uns 20 guardas-chuva no ônibus.

Tem também as caronas… Não é segredo que eu sou a maior Maria Gasolina e que sempre dei sorte com isso. Em todo o lugar que eu vou trabalhar ou estudar, de uns tempos pra cá, eu acho quem me leve e me traga, ou no mínimo facilite muito o meu trajeto. Só nos últimos quatro anos, conheci pessoas incríveis enquanto pegava carona, ganhei amigos do coração mesmo. E que agora vão ficar livres de mim, mas eu vou morrer de saudades de ter mais tempo pra falar com eles. Espero que agora eu possa ajudar outras pessoas tanto quanto eles me ajudaram.

Outra vantagem de não ter carro são as caminhadas. Hoje eu sou capaz de andar mais de uma hora sem reclamar, simplesmente porque acostumei a andar bastante. Nem me sinto cansada, e acho que é por isso que a doutora não estressa muito quando eu digo pra ela que a minha vida é sedentária, sim, mas com alguma dignidade. E isso com, o carro, vai acabar, a não ser que eu arrume logo outra forma de exercício físico ( um grupo de dança, um namorado novo e frequente, ou algo do tipo, porque academia, nem pensar, eca, eca ).

Por outro lado… Vai ser maravilhoso não ter que esperar tanto por transportes coletivos, não ter que ficar arrumando soluções altamente criativas pra resolver problemas de última hora, não ter que carregar sacolas de supermercado pesadas e que acabam com a coluna da gente, poder levar as pessoas pra passear e não depender tanto dos outros, por mais maravilhosos que eles sejam. Alea jacta est…

Agora, já deu pra sentir que lidar com esse carro vai ser uma luta a parte… Mas isso fica pra amanhã. Hoje ele tá lá na garagem… E me basta saber que ele é lindo… E é meu. 🙂

AMIZADE, ESSE NEGÓCIO BOM À BEÇA

Hoje é dia 20 de julho, dia do amigo. Aproveito esse espaço pra falar um pouco do que já aprendi com os amigos, e mandar um beijo enorme pra todos.

Quando o papo é amizade, há basicamente três tipos de contatos que nós moças estabelecemos na vida: a amizade com mulheres, com homens e com gays. Todas podem ser maravilhosas, ou não. Tudo depende da sorte que você tem, e da sua habilidade pra saber levar uma relação de amizade, o que nem sempre é fácil, mas sempre é bom. Vai chegar a hora de falarmos de amigos e amigos gays. Mas hoje é dia das amigas.

Há quem diga que mulheres, quando são amigas, ficam insuportáveis, porque concordam sempre uma com a outra e não se desgrudam. Há quem diga que as mulheres são falsas e fofoqueiras ( na minha modesta opinião, boa parte delas é mesmo ), e que por isso a amizade entre mulheres é uma ilusão. Há quem diga que as mulheres brigam, discutem, se desentendem, mas nunca deixam de ser amigas. E há também quem diga que não troca uma amiga por um namorado de jeito nenhum.

A verdade é que é muito bom ter amigas. A cumplicidade, o carinho e a compreensão que pode rolar entre duas mulheres é uma das coisas mais lindas que nós, seres humanos, somos capazes de alcançar. A vida nos apresenta milhares de pessoas. E cada uma delas vem pra cumprir um papel conosco. Todas elas ficam na nossa memória, nos nossos hábitos, nas nossas fotos, nos nossos guardados… E no meio de tudo que a gente sofre e sente prazer. Eu tenho saudade de todas as amigas que já tive na vida, mesmo aquelas que me machucaram.

Tem aquela amiga de infância, que brinca de casinha e de escolinha com você. Tem as amigas da família, as primas, irmãs e tias, que sempre estão indo e vindo da sua vida, provando que o tempo passa, mas certas coisas nunca mudam. Tem aquelas amigas de escola, com quem você briga, brinca, faz trabalho, apronta com a professora, escreve no caderno de recordação, troca papel de carta… E geralmente são essas as que lhe oferecem as primeiras oportunidades de dormir fora de casa, longe dos seus pais, e lhe mostram outras possibilidades e estilos de vida. Aquela amiga pra quem você empresta sua boneca preferida. E aquela que cresceu com você e que você vê até hoje.

Tem aquela amiga mais velha, que te deu o primeiro toque de que você precisava usar sutiã. Aquela amiga desbocada que só fala palavrão e se mete em encrenca, mas faz você rir muito. Tem aquela outra que é chorona, aquela que te critica a cada cinco minutos, aquela séria e cdf que sabe de tudo e aquela melosa, que gosta de te abraçar e mandar recadinhos de amor. Tem aquela com quem você anda de braços dados pra todo canto. Aquela pra quem você ligou quando veio sua primeira menstruação. Aquela pra quem você contou sobre o primeiro garoto que você gostou. Aquela que te trai e fala mal de você pelas costas. Aquela com quem você saiu no braço, mas depois perdoou. Aquela com quem você partilha o código secreto do seu diário. Aquela que te dá toques sobre roupas, pessoas, corte de cabelo e comportamento.

Tem também aquelas que vêm e somem, mas parecem sempre as mesmas. Aquela pra quem você conta absolutamente tudo, e sente que foi entendida, e sai aliviada. Aquela que te dá broncas e manda você parar de roer as unhas. Aquela que não tem vergonha de dizer que te ama. Aquela que te apresenta os melhores caras. Aquela que passa com você o momento mais difícil da sua vida. Aquela que te liga todo dia. Aquela que tirava sarro de você por você ser virgem ainda. Aquela intelectual, que te ensinava milhares de coisas. Aquela que desistiu de um cara porque sabia que você estava afim. E aquela que roubou seu namorado. Aquela que te abraçou em silêncio e sentiu você chorar, e aquela que te virou as costas quando você mais precisou. Aquela que faz tudo que você pede e aquela egoísta. Aquela que te ouve quando você está apaixonada e passa horas falando do mesmo assunto. E aquela que entende quando você a deixou pra ficar com seu namorado.

Tem aquela idealista, com quem você discute horas. Aquela que só liga no dia do seu aniversário, e que você adora. Aquela que sabe o tamanho do pênis do seu namorado. Aquela com quem você troca confidências sexuais. Aquela que te indica ginecologista. Aquela que parece sua mãe, e vive pra te dar conselho. A mãe da sua afilhada. A madrinha da sua filha. Aquela de quem você sente muito ciúme. Aquela que você invejou secretamente. Tem também aquela por quem você sente um carinho enorme desde a primeira vez que viu. Aquela que você odiou no começo, mas depois passou a amar, e aquela que te decepcionou horrores. Aquela que te escreve e manda poesias. Aquela que te empresta apartamento pra você ir com o namorado. Aquela que pede a Deus por você. Aquela que você conheceu pela Internet e que se tornou uma amigona do coração. Aquela que você magoou porque trocou ela por outra que não valia nada. Aquela que te deu o conselho certo, que você não ouviu.

E aquela que você conheceu no ônibus, ou na fila de cinema. Aquela que voltava com você da faculdade. Aquela que te ajudou a dar um perdido nos seus pais na primeira noite que você passou com o seu namorado. Aquela que te abraçou quando você perdeu alguém querido. Aquela que trabalha com você todos os dias, com quem você divide trabalho e confidências. Aquela que te avisa cochichando que a sua calça está manchada ou que o botão da sua blusa está aberto. Aquela que presenciou o maior mico da sua vida. Aquela que segura seu braço quando você tropeça ou quando vai atravessar a rua sem olhar. Aquela que leu o trabalho que você precisava entregar e te deu dicas pra mehorá-lo. Aquela que te irrita, mas que você não imagina a vida sem ela. Aquela de quem você sente saudades, mas por alguma razão obscura, nunca arruma tempo pra ligar. Aquela que organiza uma festa surpresa pra você. Aquela que te defende de tudo e de todos. Aquela que paga coisas pra você quando você está sem grana. Aquela que sempre te traz um presentinho.

Aquela que liga pra casa do seu namorado pra saber se ele está vivo quando ele acha de sumir. Aquela que roga praga contra quem te fez mal. Aquela que chora a sua dor. Aquela que te deu a dica que te fez mudar de emprego e, por consequência, mudar a sua vida. Aquela que tem uma mãe boazinha que você às vezes queria que fosse sua. Aquela problemática, ou aquela esnobe. Aquela que você fica anos sem ver, mas quando encontra, parece que viu ontem. Aquela que era a mais chegada, mas sumiu e você nunca mais soube. Tem a sua mãe. A sua avó. A sua irmã. A sua filha. A sua médica. A sua psicóloga. A sua chefe. E aquela que é uma irmã pra você. E tem também a melhor amiga. Aquela. Que é simplesmente aquela.

Claro, os homens também sabem ser bons amigos. Também deixam ótimas lembranças. Mas nada é igual a amizade entre duas mulheres.

Um grande beijo pras amigas que vierem a ler isso, pras que não vão ler, praquelas que estão perto e longe de mim, praquelas que eu lembro a todo minuto e praquelas que eu esqueci. A vida vale a pena principalmente por causa de vocês. Beijos com muito amor.

Uma frase que eu gosto sempre de lembrar…
“Uma amiga é uma irmã que a gente escolhe”.
Amo vocês. Feliz dia do amigo.

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM

O cara é um canalha, cafa de primeira, bandido. Te machucou, te feriu, fez caquinha e não teve a decência e a preocupação de limpar. Te enganou, mentiu, machucou, enrolou, manipulou, te fez de besta mesmo. Você briga, xinga, chuta, amaldiçoa, diz que nunca mais quer ver, nem pintado de ouro ( e olha que um bendito pintado de ouro em tempos bicudos como o nosso vale a pena! ), manda pra todos os lugares feios que conhece. E depois de lavar a alma, você respira. Tudo bem, caso acabado, bola pra frente.

E depois de tudo isso… Quando faz aquele frio, no meio daquela solidão… Ele te procura. Doce, meigo, inocente, cheio de amor pra dar… Bonito e cheiroso, tudo de bom. E aí?

Seus amigos, sua mãe, seu oráculo, astrólogo, guia religioso e até a sua imagem no espelho concordam: não dá mais. Aquele cara não te serve, não te merece. Vai te fazer infeliz. Mas tem alguma coisa que grita, lá dentro de você, dizendo que não, que vocês têm uma chance. E aí o drama está feito.

Na sua cabeça passa um filme. Tudo de bom e de ruim que já viveu com aquela criatura. Os amassos quentes, as noites agradáveis, as risadas, as noites que passou chorando, os medos, os avanços e retrocessos que fez ao lado dele. E te dá aquela tentação de ceder. O que se faz numa hora dessas?

A verdade é que tem certos amores que precisam acabar. Podem ser até bons, cheios de coisas boas, até. Mas tudo tem limite e um tempo certo pra acontecer, antes que apodreça. E chegou a hora de acabar. Acontece que você tenta, tenta, tenta… Mas não consegue colocar um ponto final. A sua cabeça não concorda com o seu coração.

Pela sua cabeça, passam mil coisas. Como se livrar do fulano, que insiste em te procurar? Onde está o seu final feliz, com direito a príncipe e viveram felizes para sempre? Por que as coisas não podem dar certo de uma vez? Como vai ser recomeçar a procurar alguém e começar tudo de novo, depois de tanto trabalho que você teve pra amaciar bem o motor do rapaz? Dá uma sensação horrível de impotência. De preguiça de começar de novo. De saudade do traste. De medo de ficar sozinha. De vontade de voltar correndo praquela situação que, por mais que fosse difícil, era confortável. E isso te persegue dia e noite. E o cara te procurando, insistindo. Dizendo tudo que você quer ouvir. Que meleca.

É preciso ser muito forte nessa hora. Forte pra ficar sozinha. Forte pra resistir. Forte pra desencanar. E principalmente forte pra decidir o que fazer e bancar essa decisão, seja essa decisão a favor da cabeça, ou do sentimento.

O importante é não esquecer a meta principal, o princípio de tudo: a gente quer, precisa, merece ser feliz por inteiro. Se isso estiver bem claro, lá dentro, uma hora ou outra a gente acaba sabendo o que fazer. E até lá… A gente chora. Que chorar faz bem.

O MALDITO TELEFONE

Toda mulher que é mulher de verdade já passou por esse dilema…. Oh, Deus.
A coisa funciona mais ou menos assim: você conhece um cara e, não importa quanto tempo depois, pinta aquele clima entre vocês… Beijos, abraços, talvez até sexo… E dá aquela vontade de ver a criatura de novo. Ainda não tem compromisso, mas pode ter. Em alguns casos, até tem namoro firme. Mas a loucura é a mesma.
Ele vai te deixar em casa, e na hora de descer do carro ou ir embora ele te dá um selinho, um abraço, passa a mão no seu rosto… E aí vem a frase fatídica. Aquela, que vai deixar você alterada e tirar seu sono. Que vai fazer você comer como uma louca e arrancar o esmalte da unha no dente. A maldita frase:
– Eu te ligo. Se você quiser pode me ligar também.
Aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! Pânico. Vertigem. Passa na sua cabeça o bendito filme que você já viu tantas vezes. E você vê de antemão todo sofrimento que vai passar.
Vamos supor que o dia do encontro foi um sábado. Aos domingos, você costuma dormir até mais tarde. Mas resolve colocar o relógio pra despertar mais cedo. Claro, afinal… Vai que ele te liga e você está dormindo. Vai que ele gosta de ir à igreja e acorda cedo… Vai que ele pertence a uma organização estranha, ou banca o moço saúde que nunca acorda depois das 8h… Sei lá, tudo pode acontecer. Vai que ele resolve ligar antes das 7h. Ou antes das 6h30. É domingo, mas tudo é possível, oras. E não adianta apenas estar com o telefone por perto. Vai que ele toca e você está dormindo profundamente, tendo um sonho daqueles, que nem um balde de água gelada te acorda? Melhor não arriscar. Melhor acordar cedo e ficar ali, do lado do telefone. Afinal, se ele te liga e você não atende, vai demonstrar falta de interesse, falta de educação… O que ele iria pensar de você? E o que você faria se soubesse que ele te ligou e você perdeu a oportunidade de atender?
Hora de tomar banho. Você vai, mas deixa a porta do banheiro aberta, e o telefone o mais próximo possível de você. Se tocar, está tudo planejado: você sai correndo e atende, pelada e molhada mesmo. Quem disse que friagem dá gripe? Isso é papo da sua avó, que, coitada, não tinha que passar por essas de esperar telefonema. No tempo dela era mais sem graça. Nossa, como deveria ser difícil não ter que se comunicar… Pior que isso, só tendo como se comunicar mesmo.
Hora de sair pra buscar o jornal e o café da manhã. Mas e se ele ligar enquanto você estiver fora? Bem, ele poderia ligar no seu celular. Mas e se estiver sem sinal? Essas porcarias nunca funcionam quando a gente precisa. E além do quê, ele pode ser sovina, ligação pra celular é caro. Não, melhor deixar o jornal pra lá. Quem lê tanta notícia? Pra que comer pão? Pão engorda. Deixa o café. Você se vira com o que tem na geladeira, e tá bom demais.
Mas ele não liga… As horas passam. Os minutos rodam lentamente no seu relógio. Você tenta se concentrar. Quem sabe fazer outras atividades? Pintar, ler, ver TV, cozinhar, lavar roupa. Seja lá o que for, nada rende. Você coloca o telefone ali pertinho. Olha pra ele. Xinga. Joga pragas. Começa a experimentar um misto de raiva, medo e saudade. Milhares de pensamentos rondam a sua cabeça. Fui muito fácil? Será que ele sofreu um acidente enquanto voltava pra casa e morreu? Será que ele não gostou do meu beijo? Exagerei no perfume? O que eu fiz de errado? Quem foi o maldito que inventou o telefone? Será que a conta ta paga? Será que usei o sutiã certo?
E assim o dia vai correndo, e você perdida no meio de tantas indagações… Mas tudo bem. Você sempre pode ligar. Você é uma mulher moderna, e tem o número do telefone dele. Mas… E se você ligar e ele estiver dormindo? Ou almoçando? Ou conversando com um cliente? Se tiver saído de casa? Não, você vai ficar pensando onde ele foi… Mas e se der ocupado? Você vai ficar pensando com quem ele está falando. E se você ligar, e quando ele atender desligar, só pra ver se ele está vivo? Não, aí já é demais. Mas e se atender uma mulher? E se ele for casado e não te contou? E se ele achar que você é uma dessas loucas grudentas? Não, deixa que ele liga. Se ligar. Ai. Você testa o telefone. Tem linha. Liga pra você mesma. Está tocando. Oh céus. Ele não vai ligar. Chuif chuif.
Lá pelo início da tarde, o telefone toca. Um toque, seu coração dispara. Você leva alguns segundos pra se controlar. Atende, com aquela voz meiga. É aquela sua amiga querendo saber se deu tudo certo ontem. Você, em pensamento, xinga todos os ancestrais e descendentes. Se for uma amiga daquelas, diz que precisa desligar porque ele ficou de te ligar. Claro, ela vai entender. Se for uma menos chegada, você diz que tem um incêndio por perto e precisa desligar urgente pra conseguir fugir. E se ele ligou nesse minutinho que a linha estava ocupada? Não… Ninguém no mundo pode ser tão azarada. Só você.
A tarde vai passando… E você no mesmo desespero. Cada segundo que passa é pior.Você vai se consumindo na dúvida. Ligo ou não ligo? Por que os caras dizem que vão ligar e não ligam? Esses e outros mistérios da humanidade vão te atormentando.
Começo de noite. Nada aconteceu ainda. Você desiste. Ele não vai ligar. Você se ferrou mais uma vez. Mas homem não presta mesmo. Ele nem merecia uma garota legal como você. Bem que sua mãe te avisou, não seja fácil assim. Mas você esqueceu do conselho dela… Olha só no que deu. Mas tudo bem. Você é forte. E além do mais, ele nem era tão bom de beijo assim, e….
– Trrrrrrrrriiiiiiiiimmmmmmmmm.
Você atende, no susto. Do outro lado, a voz responde, suave, impassível, tranqüila, meiga:
– Oi… Tudo bem, gatinha? Saudades… Vamos sair hoje de novo?
Você, numa fração de segundo, esquece qualquer lampejo de dor e insanidade que te afligiu. Ele ligou. O sol apareceu. Tudo certo, ele quer te ver de novo. Não fugiu. Você se derrete toda. Vocês conversam um tempão, marcam um novo encontro. Tudo lindo. Um sorriso brota no seu rosto. Você fica em paz. Pelo menos até vocês de despedirem de novo e ele mandar aquela:
– Eu te ligo amanhã.
E lá vamos nós de novo…

Claro, essa história teve um final feliz, o cara era legal. Mas tem aquelas vezes que você espera dias, semanas por uma ligação que não vem. São esses caras que nos deixam tão inseguras. Esses nojentos que são os culpados de a gente achar que aquele telefonema não vai acontecer. Por que é tão difícil eles arrumarem um tempo pra ligar? Ou se não pretendiam ligar, por que dizem que ligam? Hoje em dia há milhares de formas de comunicação. Telefone fixo, celular, e-mail, internet de bolso, sms, sinal de fumaça. Carros rápidos que cruzam a cidade em segundos. Mas eles gostam de nos ver sofrer. E nós gostamos de sofrer por eles. Que nojo. Acho que a vovó estava certa sobre a friagem, e sobre a sanidade dela também. Sorte dela que não existia telefone fácil naquela época.