O MALDITO TELEFONE

Toda mulher que é mulher de verdade já passou por esse dilema…. Oh, Deus.
A coisa funciona mais ou menos assim: você conhece um cara e, não importa quanto tempo depois, pinta aquele clima entre vocês… Beijos, abraços, talvez até sexo… E dá aquela vontade de ver a criatura de novo. Ainda não tem compromisso, mas pode ter. Em alguns casos, até tem namoro firme. Mas a loucura é a mesma.
Ele vai te deixar em casa, e na hora de descer do carro ou ir embora ele te dá um selinho, um abraço, passa a mão no seu rosto… E aí vem a frase fatídica. Aquela, que vai deixar você alterada e tirar seu sono. Que vai fazer você comer como uma louca e arrancar o esmalte da unha no dente. A maldita frase:
– Eu te ligo. Se você quiser pode me ligar também.
Aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! Pânico. Vertigem. Passa na sua cabeça o bendito filme que você já viu tantas vezes. E você vê de antemão todo sofrimento que vai passar.
Vamos supor que o dia do encontro foi um sábado. Aos domingos, você costuma dormir até mais tarde. Mas resolve colocar o relógio pra despertar mais cedo. Claro, afinal… Vai que ele te liga e você está dormindo. Vai que ele gosta de ir à igreja e acorda cedo… Vai que ele pertence a uma organização estranha, ou banca o moço saúde que nunca acorda depois das 8h… Sei lá, tudo pode acontecer. Vai que ele resolve ligar antes das 7h. Ou antes das 6h30. É domingo, mas tudo é possível, oras. E não adianta apenas estar com o telefone por perto. Vai que ele toca e você está dormindo profundamente, tendo um sonho daqueles, que nem um balde de água gelada te acorda? Melhor não arriscar. Melhor acordar cedo e ficar ali, do lado do telefone. Afinal, se ele te liga e você não atende, vai demonstrar falta de interesse, falta de educação… O que ele iria pensar de você? E o que você faria se soubesse que ele te ligou e você perdeu a oportunidade de atender?
Hora de tomar banho. Você vai, mas deixa a porta do banheiro aberta, e o telefone o mais próximo possível de você. Se tocar, está tudo planejado: você sai correndo e atende, pelada e molhada mesmo. Quem disse que friagem dá gripe? Isso é papo da sua avó, que, coitada, não tinha que passar por essas de esperar telefonema. No tempo dela era mais sem graça. Nossa, como deveria ser difícil não ter que se comunicar… Pior que isso, só tendo como se comunicar mesmo.
Hora de sair pra buscar o jornal e o café da manhã. Mas e se ele ligar enquanto você estiver fora? Bem, ele poderia ligar no seu celular. Mas e se estiver sem sinal? Essas porcarias nunca funcionam quando a gente precisa. E além do quê, ele pode ser sovina, ligação pra celular é caro. Não, melhor deixar o jornal pra lá. Quem lê tanta notícia? Pra que comer pão? Pão engorda. Deixa o café. Você se vira com o que tem na geladeira, e tá bom demais.
Mas ele não liga… As horas passam. Os minutos rodam lentamente no seu relógio. Você tenta se concentrar. Quem sabe fazer outras atividades? Pintar, ler, ver TV, cozinhar, lavar roupa. Seja lá o que for, nada rende. Você coloca o telefone ali pertinho. Olha pra ele. Xinga. Joga pragas. Começa a experimentar um misto de raiva, medo e saudade. Milhares de pensamentos rondam a sua cabeça. Fui muito fácil? Será que ele sofreu um acidente enquanto voltava pra casa e morreu? Será que ele não gostou do meu beijo? Exagerei no perfume? O que eu fiz de errado? Quem foi o maldito que inventou o telefone? Será que a conta ta paga? Será que usei o sutiã certo?
E assim o dia vai correndo, e você perdida no meio de tantas indagações… Mas tudo bem. Você sempre pode ligar. Você é uma mulher moderna, e tem o número do telefone dele. Mas… E se você ligar e ele estiver dormindo? Ou almoçando? Ou conversando com um cliente? Se tiver saído de casa? Não, você vai ficar pensando onde ele foi… Mas e se der ocupado? Você vai ficar pensando com quem ele está falando. E se você ligar, e quando ele atender desligar, só pra ver se ele está vivo? Não, aí já é demais. Mas e se atender uma mulher? E se ele for casado e não te contou? E se ele achar que você é uma dessas loucas grudentas? Não, deixa que ele liga. Se ligar. Ai. Você testa o telefone. Tem linha. Liga pra você mesma. Está tocando. Oh céus. Ele não vai ligar. Chuif chuif.
Lá pelo início da tarde, o telefone toca. Um toque, seu coração dispara. Você leva alguns segundos pra se controlar. Atende, com aquela voz meiga. É aquela sua amiga querendo saber se deu tudo certo ontem. Você, em pensamento, xinga todos os ancestrais e descendentes. Se for uma amiga daquelas, diz que precisa desligar porque ele ficou de te ligar. Claro, ela vai entender. Se for uma menos chegada, você diz que tem um incêndio por perto e precisa desligar urgente pra conseguir fugir. E se ele ligou nesse minutinho que a linha estava ocupada? Não… Ninguém no mundo pode ser tão azarada. Só você.
A tarde vai passando… E você no mesmo desespero. Cada segundo que passa é pior.Você vai se consumindo na dúvida. Ligo ou não ligo? Por que os caras dizem que vão ligar e não ligam? Esses e outros mistérios da humanidade vão te atormentando.
Começo de noite. Nada aconteceu ainda. Você desiste. Ele não vai ligar. Você se ferrou mais uma vez. Mas homem não presta mesmo. Ele nem merecia uma garota legal como você. Bem que sua mãe te avisou, não seja fácil assim. Mas você esqueceu do conselho dela… Olha só no que deu. Mas tudo bem. Você é forte. E além do mais, ele nem era tão bom de beijo assim, e….
– Trrrrrrrrriiiiiiiiimmmmmmmmm.
Você atende, no susto. Do outro lado, a voz responde, suave, impassível, tranqüila, meiga:
– Oi… Tudo bem, gatinha? Saudades… Vamos sair hoje de novo?
Você, numa fração de segundo, esquece qualquer lampejo de dor e insanidade que te afligiu. Ele ligou. O sol apareceu. Tudo certo, ele quer te ver de novo. Não fugiu. Você se derrete toda. Vocês conversam um tempão, marcam um novo encontro. Tudo lindo. Um sorriso brota no seu rosto. Você fica em paz. Pelo menos até vocês de despedirem de novo e ele mandar aquela:
– Eu te ligo amanhã.
E lá vamos nós de novo…

Claro, essa história teve um final feliz, o cara era legal. Mas tem aquelas vezes que você espera dias, semanas por uma ligação que não vem. São esses caras que nos deixam tão inseguras. Esses nojentos que são os culpados de a gente achar que aquele telefonema não vai acontecer. Por que é tão difícil eles arrumarem um tempo pra ligar? Ou se não pretendiam ligar, por que dizem que ligam? Hoje em dia há milhares de formas de comunicação. Telefone fixo, celular, e-mail, internet de bolso, sms, sinal de fumaça. Carros rápidos que cruzam a cidade em segundos. Mas eles gostam de nos ver sofrer. E nós gostamos de sofrer por eles. Que nojo. Acho que a vovó estava certa sobre a friagem, e sobre a sanidade dela também. Sorte dela que não existia telefone fácil naquela época.

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3 comentários sobre “O MALDITO TELEFONE

  1. Miga, amo você!! Muito. Se você quiser, te ajudo a “carregar sua carga”, é pra isso que servem os amigos. Beijos!! Cat

    Penélope Charmosa | Email | Homepage | 25-07-2003 00:25:11

    Putz, adorei isso aí,é td verdade… A gente se sente assim mesmo, umas trouxas! legal o site, pena que tem pouca coisa ainda, continue escrevendo, mafalda!

    Juliana | 17-07-2003 13:52:45

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