A VIDA SOBRE 4 RODAS – PARTE I – DESPEDIDAS

“Meu carro é vermelho…
Não uso espelho pra me pentear…”

Nem acredito! Se eu for ali na janela, agorinha, e olhar pelo vitrô, sabem o que eu vou ver na garagem? Um carro! De verdade! Meu carrinho, tão sonhado, tão batalhado… Enfim está aqui comigo. Ele é vermelho, zerinho, muito lindo. Não estou vidrada, afinal, acho que nem caiu a ficha que é meu mesmo. Mas a sensação é boa. Acho que ele merece uns bons escritos aqui no blog. Mas como o assunto é longo, vou dividir em partes… Os posts gigantes são mesmo difíceis de ler, mas eu escrevo demais, paciência… Faz parte do meu show. 🙂

A primeira vez que eu sonhei em ter um carro só pra mim, eu era adolescente, devia ter uns 15, 16 anos. Minha mãe sustentava alguns luxos meus, e eu achava que quando fizesse 18 anos teria o meu carrinho de presente, como as mocinhas de família rica. Tenho certeza que se ela pudesse, teria feito assim, mas o mundo dá voltas… Ela perdeu o carro dela, e eu fiquei sem o meu presente de maioridade. Eu acabei desistindo da idéia. E continuei andando sem motor extra até agora, quando fiz os meus 27 aninhos.

Nunca fui deslumbrada, nunca quis um carrão. Nem ligava pra isso quando conhecia algum rapaz. Até hoje só diferencio a maioria dos veículos pela cor, e olhe lá. Fui atrás do carro por uma necessidade. Vou poder dormir mais meia hora por dia, chegar mais cedo em casa, ir mais rápido de um lugar pro outro, resolver as coisas mais facilmente, sair à noite com mais tranquilidade, visitar mais gente, levar a mamy no supermercado. Mas confesso que vou ter saudade dos tempos em que eu era apenas uma mocinha sem quatro rodas.

Eu gostava de andar de ônibus. Já cheguei a passar 4, 5 horas do meu dia dentro de ônibus, eu tinha que ver alguma graça nisso senão não sobrevivia. É muito complicado pra quem mora em São Paulo, e na periferia, andar de ônibus, mas se você souber aproveitar… Acaba vivendo algumas coisas interessantes que não viveria trancada sozinha em um automóvel. No ônibus já conheci muita gente, já passei muitas experiências legais. Já aprendi a me equilibrar, dormi, comi, namorei, baguncei, conversei, e vivi muitas, mas muitas horas mesmo ouvindo música e olhando as pessoas e paisagens da janela, enquanto pensava na vida, ria sozinha, chorava, devaneava e refletia. A viagem de ônibus que eu fazia todas as segundas-feiras, enquanto voltava da minha psicóloga, por exemplo, eram absurdamente produtivas. Aquela uma hora e meia era fundamental pra assentar as coisas que falávamos na sessão. Ela ria muito quando eu dizia pra ela que isso era parte integrante do tratamento.

O ônibus que eu pego de manhã, por exemplo, é uma comunidade sobre rodas. Conheço a maioria das pessoas de lá. No meu aniversário, cantaram até parabéns pra mim, eu mal podia acreditar. Tinha um senhor que descia um ponto antes do dele só pra eu não caminhar sozinha num pedaço perigoso, ficava com o braço meio estendido, meio que protegendo, parecendo meu pai. Tem o motorista que sempre sorri malicioso quando eu falo bom dia e pergunto se ele dormiu bem, ele responde “ô, se dormi!” e suspira ( o que me leva a crer que ele tem uma esposa amantíssima, assim espero ). Tem um passageiro que me explica e atualiza a tabela do campeonato brasileiro, e odeia corinthianos, eu dou muitas risadas com ele ( esse sempre aperta forte a minha mão, dá um sorrisão e me deseja um bom trabalho, às vezes eu acho que é esse desejo dele que salva o meu dia ). Tem uma moça que me conta toda a vida dela, às vezes até chora. Um outro cara que adora falar de política. Um rapaz que sempre repara quando eu falto ou fico de férias, e no outro dia pergunta preocupado se está tudo bem. O cobrador que é filósofo, e gosta quando eu imprimo e levo pra ele esses textos de reflexão que a gente recebe por email. Tem um enfermeiro ( que jura que é médico, tenho minhas dúvidas, humpft ) que me canta de vez em quando e seca o meu decote na maior cara de pau, e me mata de vergonha. Tem um moleque que sempre toma o café da manhã dele lá dentro. Uma garota que é super tímida, e mais duas professoras, como eu. E de repente, corro o risco de não vê-los mais, depois de quase 4 anos convivendo. Pode?

No ônibus a gente encontra todo tipo de gente, desde executivos e dondocas bem vestidas até mendigos e pinguços. Tem aqueles velhinhos adoráveis, aquelas crianças sorridentes, aqueles adolescentes barulhentos, aquela gente que encosta no vidro e dorme, aqueles outros que ficam com um olhar perdido no universo… Eu já fui assaltada, já fui parar em ponto errado, já caí, já derrubei coisas, já achei dinheiro grande, e perdi uns 20 guardas-chuva no ônibus.

Tem também as caronas… Não é segredo que eu sou a maior Maria Gasolina e que sempre dei sorte com isso. Em todo o lugar que eu vou trabalhar ou estudar, de uns tempos pra cá, eu acho quem me leve e me traga, ou no mínimo facilite muito o meu trajeto. Só nos últimos quatro anos, conheci pessoas incríveis enquanto pegava carona, ganhei amigos do coração mesmo. E que agora vão ficar livres de mim, mas eu vou morrer de saudades de ter mais tempo pra falar com eles. Espero que agora eu possa ajudar outras pessoas tanto quanto eles me ajudaram.

Outra vantagem de não ter carro são as caminhadas. Hoje eu sou capaz de andar mais de uma hora sem reclamar, simplesmente porque acostumei a andar bastante. Nem me sinto cansada, e acho que é por isso que a doutora não estressa muito quando eu digo pra ela que a minha vida é sedentária, sim, mas com alguma dignidade. E isso com, o carro, vai acabar, a não ser que eu arrume logo outra forma de exercício físico ( um grupo de dança, um namorado novo e frequente, ou algo do tipo, porque academia, nem pensar, eca, eca ).

Por outro lado… Vai ser maravilhoso não ter que esperar tanto por transportes coletivos, não ter que ficar arrumando soluções altamente criativas pra resolver problemas de última hora, não ter que carregar sacolas de supermercado pesadas e que acabam com a coluna da gente, poder levar as pessoas pra passear e não depender tanto dos outros, por mais maravilhosos que eles sejam. Alea jacta est…

Agora, já deu pra sentir que lidar com esse carro vai ser uma luta a parte… Mas isso fica pra amanhã. Hoje ele tá lá na garagem… E me basta saber que ele é lindo… E é meu. 🙂

Anúncios

Um comentário sobre “A VIDA SOBRE 4 RODAS – PARTE I – DESPEDIDAS

  1. Que gracinha de post, Mafalda! O jeito que você escreve é delicioso e vicia (não vejo a hora de comentar logo este post e partir já para o próximo! rs.) Gosto muito de transportes coletivos também, o tempo gasto dentro deles foi sempre muito bem aproveitado por mim… mesmo quando parecia que eu não estava fazendo absolutamente nada. Adorei seu blog. É tudo uma gracinha, a mudança das cores, a forma de sua escrita e o principal: o conteúdo. Beijos etílicos para você.

    A Bêbada | Email | Homepage | 29-07-2003 23:05:40

    Kari… nem acredito que vc conseguiu explorar tão bem esse lance do busão! São coisas que, de tão evidentes, passam despercebidas!! Puts… não é fácil essa vida!! Sempre que pego um busão, minha maior viagem é ficar imaginando as vidas por trás das pessoas que estão viajando naquela hora. Está chovendo lá fora… e aquele velhinho que parece que já trabalhou tanto na vida tem que descer naquela rua sem asfalto. O prefeito é um merda mesmo. Acho que nunca andou de ônibus. Duas meninas… ao menos é o que deveriam ser. Que será que fez essas duas terem esse aspecto mais endurecido? Uma mãe… com um bebezinho lindo. E um molequinho de uns 5 anos passando por baixo da catraca… (que eu cresci chamando de roleta)… tudo meio que caindo, despencando… caramba… onde é que ela tá indo agora? Pra casa? Levar o menino pra escola? Tão difícil dizer quanto deve ser a vida deles… E assim, as pessoas entram e saem… entram e saem. Todos os dias… SHOW DE TEXTO O SEU KARINA!!! Parabéns!!

    Vivi | Email | Homepage | 27-07-2003 11:16:51

    Que cabeça a minha… já estava me esquecendo… O que? De dizer, mais uma vez… PARABÉNS!

    Paty | Email | 26-07-2003 02:23:54

    Kari,só vc mesma para lembrar e colocar de uma forma tão prazerosa tantas coisas que ocorrem no percurso – de casa, para o trabalho, e vice-versa – dentro de um ônibus. O que pra muitos, é uma tortura. Essa história toda de ônibus, me fez lembrar daquelas duas piradas – Gisele e Sandra – que conheciam boa parte dos motoristas e cobradores de ônibus. Eram muito legais. Bom, eu não costumo andar muito de ônibus. Ando mesmo é de lotação, e por mais que reclamam e digam mal… não as troco por ônibus nenhum. Hehe. Olha só miga! Não vai bancar uma de boazinha e ficar dando carona pra qualquer um. Sei que você é esperta, mas isso muito me preocupou quando li. Muito cuidado!!! Beijos… Paty

    Paty | Email | 26-07-2003 02:20:35

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s