A VIDA SOBRE 4 RODAS – PARTE II – INÍCIO

Em certas idades, algumas coisas são sonhos. Adiante, se transformam em objetivos, e algum tempo e esforço depois… Viram realidade. Depois, viram passado. E assim a vida vai se fazendo. O tipo e a consistência do que você quer vai mudando… Mas a vontade de realizar algo, acredito, é sempre a mesma. É isso que faz a gente querer viver. Essa vontade de mudar, de crescer, de realizar… E a capacidade de arcar com tudo isso, sem se fazer de vítima da vida.

O meu Tomatinho ( créditos desse nome a minha amiga Tati, adorei! ), meu carro vermelho… Um dia foi um sonho, virou objetivo e hoje é uma realidade. Hoje foi a primeira vez que saí totalmente sozinha pra trabalhar com ele, e deu tudo certo, tudo certo mesmo. Não foi perfeito, mas foi muito melhor do que eu esperava. E assim que coloquei ele na garagem, e entrei em casa… Suspirei contente. Nem posso acreditar que realmente aconteceu. Eu estou dirigindo.

Foi um período de estranhamento total receber o Tomatinho aqui em casa. Oito anos depois de tirar carta, sem ter dirigido quase nada… Decidi que era hora de comprar um carro. Além da decisão, as continhas que fiz a partir do meu orçamento me fizeram ver que eu podia, sim, comprar, e sozinha. Juntei dinheiro, que tenho conseguido graças a muito sangue, suor e lágrimas… E um dia fui até uma concessionária. Olhei, olhei, escolhi, assinei papéis e cheques… E pronto. Comprado.

Assim que ele chegou… Foi estranho. O espaço vazio na garagem que foi ocupado tão de repente… Depois, o cheirinho de novo, o medo de estragar… As pessoas se referindo a ele como “o carro da Mafalda”, “seu carro” ( e, por consequência, minha dívida também… Ai que meda. )… O medo de ligar, o medo de bater, o medo de apertar botão errado, o medo de fazer bobagem… A chave, os documentos, o manual do proprietário, as pessoas me tratando como alguém realmente poderosa… Tudo muito estranho, assustador até em alguns momentos. Mas também muito bom. A única coisa que eu tinha certeza sobre o Tomatinho era o adesivo que comprei pra colar atrás, das Superpoderosas. O resto foi todo diferente do que eu achei que seria. Mas depois de todo esse começo meio embaçado, turvo… Ainda tinha pela frente o desafio maior. Tá, o mais difícil estava feito o carro estava aí… Mas era preciso dirigí-lo. Que coisa. E aí eu vi que ir lá e assinar aquela papelada toda, fazer uma dívida tão grande e esperá-lo chegar em casa foi fichinha. O pior era começar a dirigí-lo. Disso eu estava com medo. Justo eu, que não costumo ter medo desse tipo de coisa prática. Que puxa.

Nesse período de experiência ( um mês que parece uma eternidade… ), andei com meus irmãos, meus tios, minha prima, minha mãe, meus amigos. Contei com a ajuda e com o incentivo de um monte de gente, um monte mesmo, todos dispostos a me ajudar e a achar bonitinho as besteiras que eu fazia. Todos me explicando coisas, me dando dicas, me ensinando, me apoiando, xingando quem não tinha paciência comigo na rua, me elogiando. Mas, por mais apoio que tivesse… Eu tinha que aprender a me virar sozinha. E aí senti, sim, como eu previa, muita saudade de andar no banco do carona, saudade dos buzões. Mas superei e segui em frente… E antes do que eu esperava, até… Cá estou eu, andando sozinha.

Pra algumas pessoas um carro é só um carro… Mas pra mim ele tem um significado especial. Explico-me.

Essa coisa de virar gente grande é muito complicada. Eu resisti muito, muito tempo, e alonguei o meu tempo de menininha o quanto deu, o quanto foi conveniente. Fiquei fingindo que não acontecia, mas estava acontecendo. E de repente eu me vi assim: uma mulher. Uma mulher que trabalha, estuda, escolhe, ama, odeia, sofre, decide, tem responsabilidades, administra conta no banco, declara imposto de renda, tem preferências, fala o que pensa, quer ser mãe, tem planos para o futuro… E até dirige. Esse carro é o último passo dessa fase de transição. De agora em diante, não tem mais jeito. Eu sou gente grande… Com todas as delícias e medos. E já posso sair sozinha.

Meu carro não é apenas um veículo de transporte, e muito menos um objeto de ostentação, ou uma diversão cara. São quatro pneus e um motor, um gás a mais pra me levar mais rápido onde eu quero, onde eu preciso ir. Foi uma coisa que eu batalhei e fiz sozinha, o meu primeiro bem, e sem falsa modéstia… Foi merecido. Não foi muito fácil, nem pra mim e nem pra quem convive muito comigo, aceitar essa realidade. Precisei da ajuda e da torcida de muita gente pra chegar até aqui. Mas cheguei. E está sendo muito bom.

O começo é sempre difícil. A gente não sabe bem com que velocidade ir, erra marcha, corta as pessoas, muda de pista sem dar aviso, umas horas anda devagar demais, outras rápido demais, faz muita bobagem. Juro, por alguns momentos achei que não ia conseguir. Mas aos pouquinhos a gente vai se acalmando, aceitando a ajuda de um e outro mais experiente… Sentindo a torcida, o carinho das pessoas que te amam te empurrando pra frente… Ouvindo as críticas, buzinas e xingamentos dos outros por aí, e aproveitando isso pra se emendar, sem precisar ter vergonha de errar… Pensando, testando a potência do motor, acelerando, pisando no freio, reduzindo, aumentando, ultrapassando… E pronto. Não é fácil, não é cômodo… Mas a sensação de andar sozinha é muito boa. É assim que é… Dentro do meu Tomatinho e na vida. E quer saber? Eu sou capaz. Todo mundo é. 🙂

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Um comentário sobre “A VIDA SOBRE 4 RODAS – PARTE II – INÍCIO

  1. Ôi. Continue contribuindo com sua parcela para tornar mais prazeroso o mundo dos weblogs. Hoje, o seu blog é um dos protegidos. O Santo Protetor dos Blogueiros, São Nunca

    Santo de Casa | Email | Homepage | 20-08-2003 20:07:31

    Miga, “tomatinho” é ótimo… rs. Ah, é claro q vc é capaz. Vai fundo. Beijos.

    Sabina | Homepage | 20-08-2003 15:43:01

    Seu celtinha, ops, tomatinho é lindo mesmo. Desconfio ue vá acontecer algo bastante parecido comigo em relação ao tempo de espera para o meu carrinho querido. E olha que para uma família com criança pequena carro acaba sendo quase uma necessidade vital. Mas ok, um dia também chegamos lá. Mais uma vez, adorei o post. Beijão.

    A Bêbada | Email | Homepage | 20-08-2003 15:17:49

    Miga, como eu já disse, você merece e muito o “Tomatinho” (que graça de apelido! rs). Esse negócio de crescer é pra lá de esquisito mesmo, ai, ai, nem fala, viu, hehehe! Mas aquela coisa, lembra? “Nóis sofre, mas…”;-) Ei, que bom ler um comentário do Fúlvio! Beijos pros dois!:-***

    Taty* | Homepage | 20-08-2003 01:34:35

    K, só uma coisa a dizer: acelera que vc ainda vai muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito longe! Bjo, Jú

    Jú | 19-08-2003 18:13:02

    Adorei o seu blog! Visite o meu! beijos P.S.: Boa sorte com o seu Tomatinho!

    Brenda | Email | Homepage | 19-08-2003 10:14:32

    Oi Mafalda… eu nao te conheco, mas fui levada ao teu blog atraves do Marcelo (xfer) e ameiiiiii td q vc escreveu…. eu ando com um puta medo de voltar a dirigir… desde q bati ha coisa de um ano atras… tenho carro.. e quem dirige pra mim sao os meus irmaos…. acho q vou comecar td do zero.. e lembrar da tua ultima frase… Eu sou capaz.. todo mundo eh… Bjs mocinha…. valeu mesmo….

    Erenia | Email | 18-08-2003 22:13:17

    Bom, “Mafalda” ( que estranho te chamar assim… *rs ), vc sabe que fiquei 2 anos sem te ver, e qdo nos encontramos, alguns dias atrás, te achei mto diferente, mto madura, mto “mulher”, como vc diz ( e pra não perder o costume de te cantar… Mto mais atraente ). Tinha um brilho diferente no seu olhar. Vc tem sempre mta gente por perto pra te ajudar, mas tem razão, crescer é tarefa pessoal e intransferível, e vc tem mandado bem! Qto ao carro, tenho certeza que vai dar tdo certo, vc é inteligente, mto corajosa… Qdo eu chegar por aí, quero que vc vá me buscar de “Tomatinho”. :))))))))))))))) Beijos de quem torce mto por vc….

    Fúlvio | Email | 18-08-2003 22:06:17

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