JOGO DE DAMAS

( Esse post eu dedico pra uma grande amiga, que tá precisando desse puxão de orelha… Já que me perguntou, eu digo. 🙂 )

Deus sabe e quem me conhece sabe também que eu adoro ser mulher. Gosto muito mesmo. Claro, já tive aquela curiosidade de ser homem em alguns momentos só pra saber o que eles pensam, como eles pensam, desde que pudesse voltar a ser uma moça depois de pouquíssimo tempo, e isso por milhares de razões.

Eu gosto de ser moça, e gosto também de observar bem as pessoas por aí. E tem uma coisa que eu tenho visto as moças como eu fazerem com cada vez mais frequência, e fico me perguntando se faz parte do jeito feminino de lidar com as coisas, se é apenas um costume feio mesmo ou se é moda. Não vou dizer que nunca fiz isso, e nem estou condenando ninguém. Mas o fato é que, quando se trata de relacionamentos, as moças gostam de jogar. Não sei dos moços, eles são muito corporativistas e fica difícil saber se eles pensam nessas coisas. Mas entre as moças eu vejo muito disso, no trabalho, nas amizades, e principalmente no amor.

É certo que ninguém vive em sociedade dizendo tudo que pensa e fazendo as coisas do seu jeito. É certo também que uma certa dose de falsidade e capacidade de mentir são necessárias pra fazer o mínimo de social e não detonar um relacionamento por dia. Mas quando isso extrapola os limites do mínimo necessário… É porque o “fair-play” virou vício. O vício de jogar com os sentimentos e confiança dos outros. Essa coisa de “jogo social” deixa as pessoas irônicas, sarcásticas. E pode fugir do controle. Pra quem ainda não entendeu bem do que estou falando, jogamos quando tentamos arrumar um estratagema, um jeito torto e enviesado de conviver com um problema ou falar alguma coisa a alguém. É quando enganamos as pessoas fingindo ser quem não somos, ou forjando situações, pra agradar ou desagradar alguém, ou pra descobrir algo que não sabemos, premeditadamente. Os motivos são muitos – falta de coragem, medo, ignorância sentimental, maldade mesmo. Mas o fim costuma ser amargo pra todos.

Segundo o Aurélio, “Jogo. [Do lat. jocu, ‘gracejo’, ‘zombaria’, que tardiamente tomou o lugar de ludus.] S. m. 1. Atividade física ou mental organizada por um sistema de regras que definem a perda ou o ganho. 2. Brinquedo, passatempo, divertimento. 3. Passatempo ou loteria sujeito a regras e no qual, às vezes, se arrisca dinheiro. (…) 6. O vício de jogar. 7. Maneira de jogar. (…) 9. Conjugação harmoniosa de peças mecânicas com o fim de movimentar um maquinismo. (…) 12. Escárnio, ludíbrio, jigajoga. 13. Manha, astúcia, ardil. 14. Vicissitudes, alternativas, vaivéns. 15. Aposta. 16. Comportamento ou atitude de alguém que visa a obter vantagens de outrem. (…)”.

É isso. O jogo envolve estratégia, apostas, competições, astúcia, riscos. Faz parte de boa parte dos jogos o oculto, a trapaça, o blefe, a mentira. Só é um bom jogador aquele que sabe as fraquezas de seu oponente e as usa a seu favor, pra derrubá-lo e vencer. Em boa parte dos jogos, o importante é sair por cima. E quando estamos jogando, ficamos torcendo ansisos pra que o opositor se distraia, ou cometa uma falha, e assim possamos puxar o tapete dele e vencer. Nocaute. Gol. Bingo. Xeque Mate. Dama. Stop. O importante é se mostrar mais forte, mais inteligente, mais esperto, mais mais.

No que se trata de passatempos, esportes, jogos de salão e até loteria, vá lá, é bom desenvolver algumas habilidades competitivas, o jogo nos faz desenvolver uma gana interessante, um sentimento que, bem transformado, nos deixa mais fortes. Mas no que diz respeito aos relacionamentos, é muito esquisito ficar jogando. Eu diria que é até uma distorção. Quando nos relacionamos com alguém, a intenção é de cooperar, de fazer coisas juntos, jogar no mesmo time. Só que, na primeira dificuldade, surge a tentação de jogar, porque realmente é mais fácil. E é aí que eu tenho reparado que boa parte das moças, ao invés de aprender a conversar e resolver os problemas mais que comuns da vida a dois… Preferem jogar. Quem não faz isso, com certeza conhece alguém que faz. E o resultado é uma coisa maluca: um monte de gente que não consegue se expor e nem conversar, e na ânsia de proteger-se dos outros… Fica muito mais vulnerável, porque não cresce.

Acabo conversando com muita gente sobre os meus amores. E, por consequência, ouvindo muitos conselhos. E boa parte das moças legais ( legais mesmo, gente muito boa ) que eu conheço me dizem, “minta”, “não conte isso”, “faça um teste com ele”, “desconfie”, “engane”, “coloque um chifre”, “dê um susto nele”, “investigue”, “olha na carteira dele quando ele estiver distraído”, “vamos pensar num jeito de reverter isso a seu favor”. É como se o parceiro, aquela pessoa que se escolhe pra amar e confiar, merecesse que colocássemos nosso adorável pezinho sempre atrás. É como se a outra pessoa não fosse capaz de aceitar, entender, ouvir, dialogar. Muitas vezes não é mesmo, e aí, tem que aprender a ser. Mas outras vezes é, e aí somos nós que aprendemos. E eu nunca podemos saber a diferença se não fizermos a opção de deixar os joguinhos “de amor” de lado. E às vezes me sinto uma ET por tentar fazer as coisas assim. Não que eu seja santa; eu posso até mentir, trapacear, fingir, enganar. Mas não é nada premeditado.

As pessoas que gostam de me contar as coisas me perguntam, “Mafalda, como eu conto pra ele tal coisa que eu fiz?” “como faço pra saber como ele se comporta longe de mim?”,”como eu digo pra ele o que estou sentindo?” “como faço pra pedir desculpas?”. Quando eu digo “abra seu coração, e diga pra ele exatamente o que está dizendo pra mim”, parece que fiz uma ofensa à humanidade. E fico pensando, será que sou eu que estou errada?

Esse tipo de coisa chamada “jogo” mina a confiança pouco a pouco. E sem confiança, como pode ter amor? Não se trata de acreditar em um mundo colorido à la Polyana. As pessoas mentem, traem, escorregam, magoam, enganam. Isso é inevitável. Acontece, com eles e elas. Às vezes é difícil dizer a verdade, a gente não sabe como fazer. Acha que vai magoar. Não quer se expor. Ou às vezes a vida já nos deu tantas pancadas que deixamos de acreditar na bondade das pessoas. E é nosso direito sentir isso.

Mas eu li em um livro maravilhoso que há uma diferença grande entre ser ingênua e ser inocente. A pessoa ingênua é boboca. Não pescou ainda que o mundo é cruel. Mas a pessoa inocente, não. Essa sabe que há um lado negro da força, que as pessoas vivem na luz e na sombra, e, ainda assim, prefere acreditar e provocar o lado bom dos outros. Uma pessoa que faz joguinhos opta por não ser inocente… E ingenuamente acredita que pode construir um relacionamento na base da trapaça e da mentira.

A sinceridade é uma coisa complicada, mas necessária. Ninguém disse que é fácil. Mas é necessária. E é por isso que, quando posso pensar, opto por não jogar. Não mesmo. Falo exatamente o que estou pensando, sentindo. Isso às vezes dói muito. Dá nó na garganta, gripe, dor de estômago, enxaqueca. As pernas tremem, a voz falha. Mas sai. E quando sai… É um alívio. Mesmo. E eu me sinto mais crescida.

Não quero dizer que é preciso ser grosseira, malvada. Não… Tem jeitos e jeitos de se dizer algo a alguém. Você pode escolher a maneira que vai dizer as coisas. Mas não precisa jogar sujo. Alguém poderia filosofar metaforicamente que a vida é um jogo eterno. E deve ser mesmo. Mas quando a intenção é boa, acaba dando certo. Só precisa ter coragem de ser honesto. Sim, porque quando a gente é o mais honesto possível… Todo mundo ganha. E entre mortos e feridos, salvam-se todos.

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18 comentários sobre “JOGO DE DAMAS

  1. Mafalda, somos corporativistas sim e jogamos também. O que é uma pena… Escrevi um post sobre isso logo depois de assistir ao filme Alta Fidelidade (o post tem o mesmo nome e está na listinha de nossos textos preferidos lá do blog). Não jogo mais, sei que a Bêbada joga e acabo olhando com carinho essa sua insegurança. A honestidade está ai, pois eu finjo que estou sendo enganado pelo jogo e ela finje que acredita (risos). Tudo vale a pena, se a alma não é pequena. Pessoa já disse isso. Beijos.

    o Equilibrista | Email | Homepage | 05-09-2003 16:17:26

    Miguinha, acho q no fim das contas vc está certa mesmo. Adorei o título do post. Beijinhos.

    Sabina | 04-09-2003 16:48:25

    Oi Mafalda… Conheci seu blog através do blog d’A Bêbada e o Equilibrista que, por sua vez, encontrei quando lia o Mondoredondo, do qual fiquei sabendo pelo Guitarq que encontrei numa busca casual pela internet…. rssss. Ufa! Bem, queria lhe parabenizar. Você escreve muito bem, e coisas muito interessantes. Idenfico-me bastante com o conteúdo… tô virando visitante assídua. Um abraço!

    Carla | Email | 04-09-2003 00:21:22

    Sem querer defender o que não tem defesa, acho q pra algumas pessoas é mto complicado se abrir, falar do q sente, até pq a gente só toma na cabeça qdo faz isso. me diz, sem ser hipócrita o q vc ganhou realmente sendo sincera? a verdade é q a maioria das pessoas não presta, e o q elas merecem é isso mesmo, mentiras e trapaças. De qqer forma vou pensar no assunto, entendi perfeitamente seu recado, eheh… thanks.

    Jú | 02-09-2003 18:40:01

    Eu também sou totalmente a favr da honestidade, e detesto os conselhos que me dizem o contrário. Seu blog é muito legal! Vim retribuir sua visita ao Blogolatras Anônimos. Volte sempre para acompanhar as reuniões. Bjs, Mada.

    Mada | Homepage | 02-09-2003 15:17:26

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  2. o livro da mafalda é superengraçado e aquela amiquinha dela que so fala em filos é superlegal garanto que esse jogo tambem é
    thauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu para todos e um beijão para mafalda e seus amigos

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  3. eu adoro mafalda!quando eu termino de ler o livro dela,coneço tudo de novo pra poder sentir aquela senssaçãp gostosa novamente!
    kkk ela é mto malmorada,igual a mim…hehehe

    bjããão pra todos vcsssssssssssss

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  4. EU ADOOOORO A MAFALDA! ela é muinto maumorada eu gosto de uma parte que ela não gosta de macarrão e a mãe dela so tinha encasa de comida MACARRÃO ela ficou muinto BRAVA

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  5. Eu gosto muito muito da Mafalda e nunca vou deixar de gostar adoro a Mafalda é legal e sempre sera legal.Um grande beijo para quem escreveu a Mafalda muito bem.Um beijão

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  6. OI!!!!!!! MEU NOME É JOANA,TENHO O LIVRO INTEIRO DA MAFALDA,TODOS OS DIAS LEIO ELE SEM FALTA,MEUS PERSONAGENS FAVORITOS É SUSANITA E O GUILE E PRINCIPALMENTE É CLARO A MAFALDA.
    TUDO QUE EU QUERO NA VIDA É CONHECER A MAFALDA E A SUA TURMA PESSOALMENTE.TE AMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO MAFALDAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

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