A DOR DA SEPARAÇÃO

Eu bem que tentei.

Pra quem não sabe, dia 11 de setembro último, segundo aniversário do ataque terrorista à cidade de Nova York, foi dia de um movimento literário. Pelo que eu li por alguns e-mails que me mandaram, em alguns países do mundo, as pessoas deixariam em lugares públicos um livro que mudou as suas vidas, para que outras pessoas pudessem se beneficiar dele, e assim, fazer desse dia, que é uma lembrança tão horrorosa ( não só pelo que ele foi mas por tudo que aconteceu a partir dele ), um apelo pela cultura, paz, inteligência e solidariedade no mundo.

Eu saí de casa com o meu exemplar da Laura Esquivel. As páginas amareladas, algumas com pequenas manchas de lágrimas que eu derramei ao ler as aventuras de Tita, a garota que passou a vida lutando pela própria sanidade e para manter o amor que sentia. Algumas outras páginas estavam marcadas por comentários, ou por riscos tortos de lápis, talvez por causa da emoção que senti ao lê-las. A edição, um livro de capa dura, azul, com letras douradas, de uma coleção de bancas de revista, luxuosa, saiu aqui de casa pronta pra ser doada. Na contra-capa, meu nome escrito várias vezes. Cada vez que relia, escrevia de novo. 1994, 1996, 1997, 2000, 2001, 2002. Foi um processo difícil tirá-lo da estante e me dispor a doá-lo. “Como água para chocolate” marcou a minha vida. Talvez, porque me identificasse com a personagem central, sempre tão sofredora e tão romântica, mas o sofrimento dela não era feio, era bonito, sábio. Talvez porque adorei a adaptação que fizeram para o cinema. Talvez simplesmente porque a Laura Esquivel é doce ao escrever, e em muitos momentos, ler aquele livro alentou meu coração. O fato é que era um livro amado. Tenho outros amados na estante, mas aquele era um dos principais.

Deixei no carro, e fui trabalhar, cumprir meu caminho de todos os dias. Pensei nele algumas vezes, puxa, doar assim, um livro… Mesmo que eu compre muitos outros, não serão como esse. Mas prossegui firme.

Na volta pra casa, desci do carro pra comprar um aquário para os bebês. No pet-shop, olhei várias vezes para o carro, e pensei, “é agora”. Guardei os peixinhos lá dentro e peguei o livro. Caminhei até o ponto de ônibus, disposta a deixá-lo lá, no banco, embrulhadinho em um saco plástico. Não tinha ninguém, um frio dos diabos. Sentei no banco e deixei lá o saquinho, com ele dentro. As pessoas passando encolhidas pra lá e pra cá. Hora de ir embora. Olhei uma última vez, me despedindo dele. Tomei coragem, levantei e fui embora.

Uns passos adiante…
– Moça, moça!!
Olhei pra trás. Um menininho, de uns 12 anos, sorrindo, correndo atrás de mim, com o saquinho na mão.
– É seu? Acho que você esqueceu ali no ponto.
– Sim, é meu. Muito obrigada.
Sorri de volta, agradeci e trouxe de volta o livro. Estava muito frio pra ele ficar ali sozinho. E aproveitei para relê-lo, e marcar 2003 na contra-capa.
Seguindo a sugestão da minha cara Bêbada… Vou doar alguns dos livros da minha vida pra uma biblioteca pública ou comunitária. E em qualquer dia que fizer isso, estarei fazendo um bem à humanidade. Volto pra contar quais são os livros da minha vida e pra dar o endereço de algumas bibliotecas comunitárias.

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Um comentário sobre “A DOR DA SEPARAÇÃO

  1. Estranho como nos apegamos aos livros, né? Quando leio um livro é como se eu entrasse para dentro da história e o personagem principal se tornasse meu amigo. Um amigo íntimo e próximo, que mal me conhecia e, ainda, assim, me contou toda a sua vida. E como me separar de alguém assim? Beijos!

    moonthoughts | Homepage | 13-09-2003 22:42:22

    Também tenho essa relação com esse livro. Li umas mil vezes e todas é impossível conter as lágrimas. Mas, tenho uma história triste, meu exemplar ficou na casa de um ex-namorado! O esperto devolveu tudo o que era meu, menos esse livro! Como não queria voltar a vê-lo nem pintado, deixei o livro com o coração apertado, um dia voltarei a comprá-lo para derramar novas lágrimas a ler a história de Tita. Beijos.

    Moça | Email | Homepage | 13-09-2003 21:25:21

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