THE END OF THE WORLD AS WE KNOW IT

“Tudo bem quando termina bem
E os meus olhos
E os meus olhos não estão rasos d’água
Mas eu sei que no coração ficaram muitas palavras
Um vocabulário inteiro de ilusão

Tudo que viceja também pode agonizar
E perder seu brilho em poucas semanas
E não podemos evitar que a vida
Trabalhe com seu relógio invisível
Tirando o tempo de tudo que é perecível…”
( Biquini Cavadão)

É uma realidade da vida que o tempo passa e tira a juventude de tudo e de todos. O tempo traz consciência. Traz maturidade. E traz mudanças. E grande parte das coisas, por mais que tenhamos cuidado e tentemos evitar, acaba envelhecendo até morrer, ou é interrompida bruscamente em seu auge. É assim com as flores, com os animais, com os móveis, os eletrodomésticos, o asfalto da rua, e até as rochas. As coisas vão se desgastando, corroendo. E mudam.

“Coitado de quem pôs sua esperança
Nas praias fora do mundo…
Os ares fogem, viram-se as águas,
mesmo as pedras, com o tempo, mudam.”
( Cecília Meireles )

Algumas coisas podem ser facilmente substituídas, e é até gostoso jogar algo fora pra trocar por um novo, quando aquilo realmente não serve mais. Algumas coisas são impessoais, descartáveis. E outras têm seu tempo, e aceitamos isso com alívio, ou resignação. De algumas coisas que acabam sentimos saudades. De outras, não. Algumas, queremos que acabem o quanto antes. Outras, desejamos ardentemente que durem para sempre, e dessas, tentamos cuidar com cuidado e carinho, tentamos segurar com força e dedicação. Só que nem sempre dá certo. Meu tortorugo morreu no sábado. Eu tentei cuidar dele, fiz o melhor que pude, mas não consegui. Ele era frágil, e eu bobeei. Por um descuido… Pum, ele se foi. E eu nada pude fazer para evitar. Eu gostava dele. Queria que tivesse sido diferente. Mas não foi.

É uma dificuldade enorme aceitar o fim de um caso de amor. Quando nos apaixonamos, aquela pessoa parece tão linda, tão desejável, tão amável. Tudo nos encanta, tudo nos chama a atenção, tudo perdoamos, tudo aceitamos. Mas o tempo vai passando, a coisa vai se desgastando. Às vezes, aquela pessoa faz algo surpreendente que recupera o frescor de tudo e faz você se manter apaixonada. Mas, ainda assim, quando o tempo dos dois é diferente… Quando o relógio de cada um caminha em ritmo difuso do outro… Quando um vai, e o outro fica… O tempo, a consciência, a mudança pesam e vem aquela sensação estranha de inadequação, de incômodo, de infelicidade. É hora de terminar.

Quando estamos apaixonados, é impossível pensar nisso. Aquela pessoa e tudo que ela diz ou faz é o seu combustível, a sua comida, o seu motivo, o seu oxigênio. Assim como você, muitas vezes, se sente incapaz de lembrar como era vida antes dela aparecer, também é incapaz de imaginar como é a vida sem ela. Todos os espaços são, mesmo que indiretamente, tomados por ela, por aquela pessoa. Mais do que especial, ela é necessária. E aí você sabe que está vivendo aquela paixão intensa, robusta, gigante, que arrasa suas resistências e destrói os seus medos num raio de um milhão de quilômetros, tudo pra fazer você cair de quatro e viver um grande amor.

Quem sabe do que eu estou falando, sabe qual é a sensação. Poderia enumerar quinhentas frases tentando descrever aquele sentimento de completude que uma grande paixão provoca, mas seria inútil. Quem já sentiu isso sabe, quem não sentiu não pode entender. É uma sensação inesquecível. Todos os seus neurotransmissores passam a mandar mensagens constantes para o seu cérebro, disparados por uma pessoa, uma pessoinha só. As mensagens tem o nome dela, e ficam se repetindo, repetindo, repetindo. E muita gente chama isso de felicidade. Eu não me lembro de ter sido mais feliz na vida, do que nos dias em que me sentia assim, totalmente apaixonada.

Só que a vida nem sempre é fácil. As pessoas nem sempre fazem o que esperamos que elas façam. As oportunidades nem sempre aparecem quando estamos abertos pra aproveitá-las; e as pessoas nem sempre sabem aproveitar as oportunidades que damos a elas. A paixão é imprevisível, o amor é exigente. A mesma força que nos deixa aptos pra vencer o mundo, a mesma fé que move qualquer montanha… Faz você morrer de medo de perder aquilo tudo e trava os seus pés e mãos para os mínimos movimentos. Os caminhos são muitos, mas o fim é o mesmo.

E é tão difícil… Tão complicado. Às vezes parece impossível. Dá raiva, dá medo, dá uma nostalgia, uma vontade que tudo fosse diferente. Dá raiva do tempo que não parou quando tudo estava bem. Dá raiva da gente mesma que não fez assim ou assado aqui ou ali. Raiva da outra pessoa que não correspondeu ao que esperávamos dela. Nunca dá pra saber como é a dor de um amor que acaba. Às vezes ela dura pra sempre, mesmo que pareça ter se aquietado. Às vezes ela passa logo. Às vezes parece nem doer. Às vezes te derruba. Não dá pra saber. Mas que dói, dói.

“Vê se tem no almanaque, essa menina,
Como é que termina um grande amor
Se adianta tomar uma aspirina
Ou se bate na quina aquela dor
Se é chover o ano inteiro chuva fina
Ou se é como cair o elevador
Me diz, me diz,
Me responde por favor:
Pra que tudo começou
Quando tudo acaba.”
( Chico Buarque )

Pode ser que seja o fim de uma fase. Pode ser que seja o fim de tudo. Isso, ninguém nunca pode precisar. Mas não acredito em discursos que dizem que o fim de um relacionamento pode ser simples e amigável. Se há o mínimo de paixão, há o mínimo de dor quando acaba. Se não… Já acabou faz tempo. Ter consciência de que dói é fácil. Duro é parar de doer.

É uma dificuldade ter que acabar, porque ninguém começa um amor pensando no fim. Quando você começa a se apaixonar, faz um investimento. Investe tempo, dinheiro, sentimento, atenção. Algumas pessoas investem anos de suas vidas. Você sonha, faz planos, vence os obstáculos de dentro e de fora, às vezes arruma confusão com os outros. Abre mão de coisas importantes pra você, aprende uma infinidade de outras, vai aprendendo a dosar felicidade e dor. Começa a viver uma história com alguém. Uma história que muda a sua vida, que nunca mais vai te deixar ser a mesma pessoa que você era. Aquela pessoa passa a fazer parte da sua vida, dos seus hábitos. Aventurar-se nesse labirinto do amor é um ato de coragem extrema, pelo qual você é recompensado com mais amor. Só que chega uma hora que você decifra o segredo, aprende o caminho, e se cansa. Quer buscar outros desafios, respirar outros ares, voltar a sentir aquele tremor que sentia no início, no auge. Quando ambos estão dispostos, é possível recuperar esse brilho. Mas quase sempre não dá.

“De todas as maneiras
Que há de amar
Nós já nos amamos
Com todas as palavras feitas pra sangrar
Já nos cortamos
Agora já passa da hora
Tá lindo lá fora
Larga a minha mão
Solta as unhas do meu coração
Que ele está apressado
E desanda a bater desvairado
Quando entra o verão”
( Chico Buarque )

Se é preciso coragem pra começar, é preciso mais coragem ainda pra terminar. Coragem pra ter aquela conversa difícil com a pessoa que você ainda ama, de se expor. Coragem pra dizer adeus e pedir que a pessoa nunca mais volte. Coragem pra ficar sozinho depois. Coragem pra recomeçar. Coragem pra seguir em frente. É preciso coragem pra imaginar sua vida sem os telefonemas, os e-mails, os carinhos, os olhos, os corpo, os beijos, a presença da outra pessoa, e ainda assim, dizer pra ela que acabou, que você não é mais feliz como era e que o mundo, naquelas famosas voltas, te colocou em outro caminho. É preciso coragem pra falar e pra ouvir. Ouvir a pessoa te dizer aquelas verdades que você não quer escutar. Coragem pra sentir que há uma parte do seu coração que te diz que você não pode ficar sem aquela pessoa… E uma outra que te diz que todas as ilusões são boas, até deixarem de ser ilusões e virarem realidade. E que ninguém pode ser feliz de verdade dependendo de ninguém. Coragem pra aceitar que a vida é esse eterno vai e vem, começar e acabar, deixar ir e receber, morrer e renascer.

A morte é o que dá sentido a vida de qualquer ser, de qualquer coisa, qualquer relação. A existência só existe para esperar por seu fim. E quando isso acontece, choramos, sofremos, suspiramos, sonhamos, nos despedimos. Passamos por um período de luto. Vestimos a alma de negro e ficamos na janela, com aquele olhar perdido, com o peito doendo de saudade, esperando a poeira assentar e o tempo colocar as coisas no lugar. E ele coloca. E aí vem aquela vontade de vestir um vestido vermelho, sair pra ver gente nova, e batalhar pra fazer o coração bater forte novamente.

“Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh, não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

(…)

O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.”
( Carlos Drummond de Andrade )

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3 comentários sobre “THE END OF THE WORLD AS WE KNOW IT

  1. Quem é vc?……
    Este texto você escreveu especialmente pra mim?
    Era tudo que eu precisava ler….preciso desta coragem pra acabar com um relacionamento que não tem mais volta, mas como fazer?

    Curtir

  2. Adorei esse texto..é muito bom saber que nossos sentimentos não são únicos, que nossas sensações de angústia, dor e sofrimento também são sentidas por outras pessoas…e deve passar, porque senão meio mundo já tinha morrido…no meu caso não fui eu quem terminei, mas a dor é a mesma…espero que passe logo…

    Curtir

  3. Tal como o orelhudo do Zé, eu não gosto de desconfiar que vc sofre. Mas confio no seu taco. Seu texto pareceu triste, mas otimista… E vc é linda e encantadora… Não demora a achar outro que me faça morrer de ciúme. 🙂 Bjo e muita sorte.

    Ful | Email | 25-09-2003 19:37:30

    Poxa Legal o Blog de vcs, visitem o meu tbm… http://www.caususmortis.blogger.com.br

    Causus Mortis | Email | Homepage | 25-09-2003 15:30:56

    😦

    Aline | Homepage | 24-09-2003 22:03:05

    Querida, você é simplesmente demais. “Levanta, sacode a poeira e da a volta por cima.” Não quero te ver mais assim. Estou com você sempre. Tem momentos que não sei fazer uso de boas palavras, mas tenha certeza de que sempre poderá contar com meu ombro amigo. Um super beijo, e esteja sempre com Deus.

    Paty | Email | 24-09-2003 00:08:42

    Querida, você é simplesmente demais. “Levanta, sacode a poeira e da a volta por cima.” Não quero te ver mais assim. Estou com você sempre. Tem momentos que não sei fazer uso de boas palavras, mas tenha certeza de que sempre poderá contar com meu ombro amigo. Um super beijo, e esteja sempre com Deus.

    Paty | Email | 24-09-2003 00:08:34

    Ai, que palavras bonitas… E tristes. Se você estava falando de você mesma nesse texto, espero que logo fique bem e esteja pronta pra vestir seu vestidinho vermelho. 🙂 Bjos

    Kamila | Email | 23-09-2003 20:38:40

    Não gostei, não gostei, não gostei. Não pq o texto esteja mal escrito, mto pelo contrário, mas pq sinto que vc escreveu ele com o coração. Me liga se quiser desabafar com alguém mais além do pc. E se for o q estou pensando… Ele não te merecia. Mas nem um pouquinho assim. Bjo.

    Zé Mário | Email | 23-09-2003 18:06:39

    Poxa, o tortugo morreu. Aquele da foto? perder um bichinho é triste. perder alguém também. Nada completa, nada substitui. Fica sempre um vazio qq. Escolhestes muito bem as músicas e poesias. Combinação maravilhosa. Beijos e força.

    Moça | Email | Homepage | 23-09-2003 13:34:28

    Oh miga, que puxa! É realmente muito chato perder um bichinho, mas o tortugo morreu de que? Nunca vi um tortugo morrer, de verdade, eles são muito fortes…chuif…

    Penélope Charmosa | Email | Homepage | 23-09-2003 01:24:23

    Acho que é sempre difícil quando um relacionamento acaba… São tantos planos, tantos sonhos, tantas juras e promessas que no final das contas já não são mais nada além de lembranças…

    moonthoughts | Email | Homepage | 23-09-2003 01:23:38

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