EFEITOS FANTASMAGÓRICOS

Eu nunca fui muito chegada em Parapsicologia. Gostava do Arquivo X, via toda semana porque torcia por um romance entre os personagens principais, mas achava aquela conversa toda de ETs, fenômenos e entidades estranhas um papo doido e meio sem sentido. Nunca entendi o fascínio que algumas pessoas têm pelo além, já que a vida por aqui já é tão complicada e cheia de graça. Mas todo mundo tem seu momento de pensar nessas coisas. E olha eu aqui tentando falar de fantasmas.

Um fantasma é uma entidade do além que, a princípio, tenta se comunicar com o mundo dos vivos. A mitologia de várias culturas e civilizações traz histórias desse tipo. Tanto faz se a imagem é daquele fantasma que faz barulhos, arrasta correntes, mexe móveis e mora em casas assombradas, se é um espírito que mora no rio ou atrás da montanha.
Se é aquele que move forças poderosas para o bem ou para o mal, ou se é aquele que precisa conversar com a sua amada que ficou viva. Ou se é alguém que já morreu e tenta fazer contato com quem tem dons e habilidades especiais. Em essência, o fantasma é aquele que um dia viveu entre nós, participou da realidade; e por um motivo brusco, foi arrastado para uma outra dimensão, de onde tenta incessantemente sair, pois não se conforma de estar lá. E às vezes consegue, partindo para assustar quem ainda está por este mundo, vindo resolver suas pendências para poder descansar em paz. É uma existência paralela, mas não menos poderosa que a nossa.

Se fantasmas existem de verdade ou não… Tem gente que prova que sim, gente que prova que não e não faz diferença quem está certo, tanto faz. O fato é que, céticos ou não, todos temos contato com fantasmas internos, aqueles que ficam lá dentro de nós.
São situações mal resolvidas, sentimentos mal digeridos, vontades sufocadas, ansiedades, sonhos impossíveis, idéias maldosas ou tristonhas, sofrimentos intensos, tensões… Enfim, coisas que sufocamos com toda força, mandando pro fundo do fundo. E de vez em quando essas coisas voltam de lá pra nos assustar, nos lembrar da nossa fraqueza e pedir pra serem resolvidas. E é aí que vem aquele medo de fantasma. Medo do que eles significam. Medo do mal que podem nos fazer. Medo de não sermos capazes de enfrentá-los. Medo do que eles expõem. Medo que eles apareçam nas horas mais impróprias, no meio da sala de visitas, quando menos esperamos. E, pensando evitar problemas, gastamos uma energia enorme pra sufocá-los mais ainda.

Todo medo vem de uma necessidade de preservação. Alguns medos são necessários e preservam a nossa vida, a nossa integridade, as nossas relações. É eu ter medo de morrer atropelada que me faz olhar antes de atravessar a rua. Simples, o medo cuida de mim, me conserva inteira e a tudo que eu tenho também. Em contraponto, pra absolutamente tudo que vamos fazer precisamos de uma dose mínima ( ou máxima ) de coragem. Pra levantar da cadeira em que estou sentada, preciso de coragem para arriscar dar alguns passos, correndo o risco de cair, me machucar. Para mudar de emprego, preciso de coragem para ousar outros ares. Para terminar um relacionamento amoroso e começar outro, preciso de uma dose enorme de coragem para arriscar ficar sozinha e não voltar a encontrar alguém que me faça feliz. E assim a vida vai se dosando, entre pequenas e grandes doses de coragem. Uma pena que nem sempre a coragem apareça quando queremos que ela venha. E o medo, que era apenas um companheiro discreto e meio chatinho, vira um senhor poderoso e mandão, um fantasma imenso que te paralisa e não te deixa fazer nada.

Dia desses conversava com um amigo querido que me perguntou: “do que você mais tem medo?”. É uma pergunta difícil de responder, eu não encontrei a resposta. Tenho medo de morrer jovem. Medo de levar bronca. Medo de decepcionar irremediavelmente as pessoas. Medo de parecer ridícula. Medo de errar. E medo de acertar sempre. Tenho medo de perder os amigos, a família, as pessoas que eu amo. Medo de acontecer uma desgraça. Medo de ser escrava dos meus desejos, e das minhas ilusões de realizá-los. Tenho medo de querer tanto uma coisa que acabe esquecendo de viver pra consegui-la. Tenho medo de dar tudo errado de uma hora pra outra, de ser infeliz. Sei lá.
Tenho medo de muita coisa. São meus fantasmas, só meus. O que me mete medo, pra outra pessoa, é fichinha. Tem quem tenha medo de barata, de dirigir, de altura, de perder, de arriscar. Mesmo os corajosos e valentões guardam suas fraquezas. E isso não é vergonhoso, pelo contrário, é isso que nos faz humanos. Não é gostoso de sentir… Mas pode ser bom. E se soubermos levar as coisas… Os fantasmas podem ser grandes companheiros.

E é isso que eu tenho tentado aprender. Chamar os meus fantasmas pra tomar chá e bater um papinho no sofá, por mais assutador que eles pareçam. Naquele filme que tem o fantasma mais charmoso do mundo, “Sexto Sentido”, o psicólogo diz ao menino que sofre ao ver fantasmas por todos os cantos: “fale com eles”. É isso. Fantasmas gostam de atenção. Gostam de ser ouvidos. Quando você finge que não está vendo, eles começam a gritar bem alto e atirar coisas pela sala. Eles precisam da nossa companhia e compreensão. Só que pra falar com eles… É preciso olhar pro aspecto assustador que eles têm. Olhar pro sangue escorrendo, pro machado enterrado na cabeça, pro olhar debochado, pra cara pálida, pros olhos escuros. Olhar bem lá dentro e dizer, “qual é a sua?”. E ouvir o que eles têm pra dizer até que eles não tenham mais o que falar e possam descansar. E isso dá um trabalho absurdo, que às vezes cansa.

Como já contei outro dia, fui ver ao filme “Lisbela e o Prisioneiro”. Entre muitas frases hilárias e outras tantas românticas, algo dentro de mim calou fundo quando ouvi o Leléu dizer a sua amada Lisbela, “Eu também tenho medo. Mas eu não tenho medo de ter medo”.

Aí é que está a grande sacada. Ter medo não é o mal. O mal é não saber encará-lo. A história da Chapeuzinho Amarelo aí embaixo que o diga. Ela, uma menininha amarelada de medo, tinha seus fantasmas e monstros, que não a deixavam em paz. E só aprendeu a rir, conversar e brincar quando aprendeu a olhar o seu medo bem de pertinho até ele ficar pequeno e divertido. Só se faz isso tendo muita, mas muita coragem. E aprender onde essa coragem mora é que são elas… Mas quem procura, acha. E é muito bom saber que aquele fantasma horroroso pode ser camarada. E é por isso que quando eu crescer, o meu chapéu vai ser amarelo. Ah, se vai.

2 comentários sobre “EFEITOS FANTASMAGÓRICOS

  1. Putz… medo!!! Taí um negócio q eu tenho.. sei q devemos ter mais medo de quem ta vivo… mas eu confesso q desde criança sempre fui apavorada com gente q ja morreu.. Belíssimo texto! Fe

    Fernanda | Email | Homepage | 08-10-2003 18:06:50

    Ave, que susto levei com a foto, menina! rs Mas esse blog tá cada dia melhor, adorei a Chapeuzinho Amarelo.:-) Beijocas:-*

    Taty* | Homepage | 08-10-2003 12:22:01

    Ai miga…eu nem penso nos meus medos, se não eles me dominam…chuifff. Beijocas, saudade (vontade de te dar um abraço apertado minha maiga qrida)

    Penélope Charmosa | Email | Homepage | 08-10-2003 01:24:42

    Pôxa Mafalda… você se supera a cada dia! É por isso que virei leitora assídua. Concordo plenamente com o que a Aline falou. Mais uma vez, parabéns pelo texto! Fabuloso!!! Daqueles que a gente lê sem piscar! Um texto grande, mas de tão bem escrito, quando me dou conta já terminei de ler.

    Carla | Email | 07-10-2003 23:50:25

    Tem um ditado espanhol que diz assim: eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem. É por aí… beijins

    Cacau | Email | Homepage | 07-10-2003 22:54:10

    Muito bom! O medo é o nosso principal inimigo. Quando conseguimos encará-lo de frente, tudo fica mais fácil. Beijos.

    Moça | Email | Homepage | 07-10-2003 14:35:27

    Oi se vc perguntar para mim medo do q eu tenhu eu naum saberia responder….mas eu acredito em fantasmas em ets e tudo q a ciencia naum sabe explicar….. Bjins

    Cacau | Homepage | 07-10-2003 09:58:12

    Ai que lindo Mafalda, sou tua fã! Queria tanto saber me expressar como vc, parece que vc conhece exatamente tudo que passo, meus fantasmas, relacionamentos.. cada vez que te leio, tuas palavras caem como luva! Muito obrigada por existir e tb por nos dar a dádiva de ler textos tão maravilhosos assim… beijos!

    Aline | Homepage | 07-10-2003 00:56:25

    credoooooooooo, menina, um texto taum bonito com uma foto taum assustadora!!!!!!!!! Eca.

    Ju | 06-10-2003 17:23:22

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s