SÃO TANTAS COISINHAS MIÚDAS…

SÃO TANTAS COISINHAS MIÚDAS…

Hoje de manhã, quando acordei, ouvi minha mãe gritar do quintal, “filha, feliz dia das crianças!”. Quando eu desci as escadas de casa, ela estava me esperando pra me dar um abraço com um pacote de presente nas mãos. Era uma caixa de chocolates das meninas superpoderosas. Eu abri o presente, sorri, agradeci, ela me beijou a testa e foi embora. E eu fiquei ali sem entender. No cartão do presente, estava escrito: “pra mim, você sempre vai ser uma menininha, e eu ainda vejo em você o brilho daquela criança que eu colocava pra dormir. Nunca deixe isso morrer em você.”. Adorei o presente, claro, afinal é chocolate, a oitava maravilha do mundo. O cartão é emocionante. O abraço e o beijo, mais ainda. Mas quem a minha mãe pensa que é pra me dizer que eu sou criança? Oras, eu já sou crescida. Tenho minhas infantilidades, mas no geral, já sou adulta, dou conta da minha vida, e hoje entre nós duas a coisa está tão equiparada que nem sei mais quem cuida de quem. Por que aceitar os parabéns dela? Afinal, minha infância já passou, e bem passada.

Deus sabe ( minha mãe e minha vó também ) o quanto eu curti a minha infância. Fui daquelas pequenas que chutaram o balde em todos os sentidos possíveis. Passava minhas manhãs na escola, e as tardes em casa, com minha vó e meu irmão do meio. E nesse período, fazia de tudo um pouco. Brincava de boneca, de carrinho, de bolinha de gude, de queimada, batia bafo. Descia a rua de carrinho de rolemã, via televisão, brigava horrores com meu irmão e com as crianças da rua, e voltava toda roxa pra casa, pro desespero da minha mãe. Desenhava, pintava, lia, ouvia música, tocava piano, fazia roupinhas de boneca, passeava, tinha cachorro, colava papel na parede, destruía coisas, fazia comidinha, jogava vôlei, virei cambalhota, me enfiava na casa dos vizinhos, fugia do castigo, decorava poesia, nadava, subia em árvore, tocava campainha da casa dos outros e saía correndo, quebrava vidraça, colecionava papel de carta, pulava corda, rodava bambolê, comia besteira, empinava pipa com cerol e tudo. Brinquei de gato mia, elefante colorido, stop, fita, passa anel, pega-pega, esconde-esconde, pega-cinta, duro ou mole, vivo ou morto, detetive, bandido e ladrão, escolinha, casinha, pião, ioiô. Apanhei pra dedéu, dos meus pais e dos outros moleques e molecas da rua, dei trabalho até dizer chega. E hoje, quando eu lembro daquele tempo, me dá a sensação de dever cumprido. Aproveitei mesmo, e só me arrependo do que eu deixei de fazer. Uma pena que durou tão pouco, mas foram anos bem vividos. Claro, vi e vivi coisas que me prejudicaram demais. Mas no geral, o saldo foi positivo.

Com certeza, as crianças que crescem num ambiente livre e cheio de amor crescem adultos legais, gente desencanada que gosta de viver e aprende a respeitar os outros. Gente que aprende a cair, se machucar, e em vez de ficar sentado chorando, levanta e sai correndo atrás do que quer, com medo de perder tempo. Gente que faz coisas importantes porque confia em si mesma. E tudo isso a gente só aprende quando é coisinha miúda. Se deixarmos pra depois, fica infinitamente mais difícil, em alguns casos, impossível, até. Eu cresci tão apaixonada pela minha infância que a coisa que eu mais queria ( e quero ) na vida era ser mãe de um bichinho daqueles. Primeiro, pra poder reviver os meus momentos felizes. E depois, pra corrigir os erros que eu achava que tinham cometido comigo. Mas como tudo tem o seu tempo, enquanto o meu trequinho não chega, fui cuidar dos trequinhos dos outros. E depois de 4 anos de estudos sobre a criança e tudo que ela faz, pensa e sente, eu achava que estava expert no assunto. Afinal, o mundo é perfeito e as crianças são lindas e puras, e tudo ia dar certo.

Infelizmente, a vida me preparou uma pancada logo de início pra me ensinar que o mundo não é perfeito. Meu primeiro emprego foi numa creche, que ficava num lugar horrível, e ao mesmo tempo fui babá de um molequinho de uma família riquíssima. Atendi crianças em consultório, em instituições. E trabalhei com muitas delas como professora. Convivendo com as pessoas, os meus sonhos de infância perfeita foram destruídos; a gente sempre acha que a vida dos outros seguiu mais ou menos como a nossa. Mas não. Nem todas as crianças têm a vida que eu tive. Algumas são maltratadas, surradas, queimadas, espancadas, humilhadas, desacreditadas, estupradas. Outras vivem sob tantas regras e disciplinas, que crescem com medo de falar e andar. Algumas pagam pelas inseguranças de seus pais, e ficam inseguras também. Outras, não têm chance de aprender. Algumas, são criadas pelos irmãos, também crianças, e outras não têm quem leia pra elas, quem lhes faça um carinho, quem as abrace dizendo que vai ficar tudo bem. Algumas, tão pequenas, já viram coisas que eu não teria estômago pra ver. Outras, têm pais ocupados que as deixam na mão de pessoas estranhas, sem saber ao menos qual é o tom de voz que elas têm. Algumas têm que trabalhar pra completar o orçamento da família. Outras, vivem doentes, anêmicas, tristes, sem ter quem cuide delas, dependendo da pena de outras pessoas. Algumas parecem adultos pequenos, de tantas responsabilidades que lhes deram. E muitas não são ouvidas, nem percebidas. Muitas presenciam brigas, tapas, discussões, vícios, violência e crescem achando tudo isso normal. Enfim, o mundo é malvado, inclusive para as crianças. Eu vejo isso todos os dias, e até hoje não me acostumei a achar normal. E tomara que eu não me acostume nunca.

Mas se tem algo que me impressiona é a capacidade que os pequenos têm de passar por cima de tudo e continuar lutando, eles não largam o osso, continuam tentando, brigando pelo direito deles de crescer bem e felizes. Continuam sorrindo, conversando, jogando coisas pro alto, deixando a gente doida. É por isso que eu gosto de estar perto deles sempre. Eles me cansam ( afinal, por dia, são 60 molequinhos de 4 anos ), me apurrinham, exigem tudo de mim, me sugam. Mas me recompensam a cada minuto; quando me fazem um carinho, quando me trazem uma florzinha roubada do jardim da vizinha, quando sorriem, quando conversam comigo, quando me rodeiam, quando me olham como se eu fosse a pessoa mais linda e preciosa do mundo, quando dizem que me amam, quando voltam do final de semana querendo me contar tudo que fizeram. Gosto da vozinha fina, dos traços delicados, do cheirinho, da energia, daquela inocência que eles têm. Gosto até dos malcriados e terríveis, esses são inesquecíveis. Gosto da facilidade que eles têm para aprender tudo que se ensina pra eles. Gosto da felicidade que eles mostram quando fazemos algo de bom. E acho que gosto de tudo isso porque não deixei a minha menina, aquela que tem dentro de mim, morrer.

Agora, adulta, e não mais tão ingênua, dá pra entender que é nas coisas de criança que está a felicidade. Eu me sinto bem quando estou no colo de alguém. Quando me lambuzo comendo alguma coisa. Quando tomo chuva e esqueço da vida, me deixando molhar. Quando pulo, quando danço, quando canto. Quando cantam parabéns pra mim diante de um bolo lindo de aniversário. Estou feliz quando estou protegida pelas pessoas que amo. Quando me sujo toda mexendo com tinta. Quando abraço, quando toco, quando beijo, quando fico pele a pele com alguém querido. Quando rolo pelo chão, quando conto piada, quando desenho, quando leio gibi, quando brinco de luta. Estou em felicidade plena quando alguém me elogia, quando fico deitada na laje de casa olhando as nuvens ir e vir, quando brinco, brinco e brinco. A menininha lá dentro de mim é que me deixa feliz. As coisas boas estão com ela, e aí, enquanto estou aqui, escrevendo sem parar sobre isso, sinto uma emoção enorme pelo que a minha mãe quis dizer no cartão. Enquanto eu deixar essa menininha viver… Enquanto eu reservar um tempo do meu dia e um espaço no meu coração pra me rodear dessas coisas boas, e mostrar isso aos outros, eu vou estar bem.

Quando eu era criança, tinha pressa de crescer. Olhava as moças e adultas da rua, dirigindo, indo pra onde queriam, com dinheiro na carteira, sem ninguém pra mandar nelas, namorando, tendo filhos, comprando, saindo, voltando, dizendo o que queria, e achava aquilo o máximo, e vivia dizendo que quando eu crescesse, eu seria feliz de verdade. Hoje eu sei que, na verdade, o tempo passou, eu cresci, e hoje sou dona do meu nariz pra fazer uma porção de coisas, pra tomar uma porção de decisões e assumir uma porção de responsabilidades. Minha vida de adulta tem grandes conquistas, mas é nas coisas de menina que eu ainda sou feliz. Por isso que hoje aceitei os parabéns pelo dia da criança, e vou fazer de tudo pra continuar merecendo uma caixa de chocolates nesse dia. E viva todas as crianças do mundo, as pequenas e as grandes.

Criança Não Trabalha
( Palavra Cantada )

Paulo Tatit & Sandra Pires

Lápis, caderno, chiclete, pião
Sol, bicicleta, skate, calção
Esconderijo, avião, correria, tambor
Gritaria, jardim, confusão

Bola, pelúcia, merenda, crayon
Banho de rio, banho de mar, pula-cela, bombom
Tanque de areia, gnomo, sereia
Pirata, baleia, manteiga no pão

Giz, merthiolate, band-aid, sabão
Tênis, cadarço, almofada, colchão
Quebra-cabeça, boneca, peteca, botão
Pega-pega, papel, papelão

Criança não trabalha, criança dá trabalho!
Criança não trabalha

1, 2, feijão com arroz,
3, 4, feijão no prato,
5, 6, tudo outra vez!!!!!!!

10 DIREITOS NATURAIS DAS CRIANÇAS

1. Direito ao ócio: Toda criança tem o direito de viver momentos de tempo não programado pelos adultos.

2. Direito a sujar-se: Toda criança tem o direito de brincar com a terra, a areia, a água, a lama, as pedras.

3. Direito aos sentidos: Toda criança tem o direito de sentir os gostos e os perfumes oferecidos pela natureza.

4. Direito ao diálogo: Toda criança tem o direito de falar sem ser interrompida, de ser levada a sério nas suas idéias, de ter explicações para suas dúvidas e de escutar uma fala mansa, sem gritos.

5. Direito ao uso das mãos: Toda criança tem o direito de pregar pregos, de cortar e raspar madeira, de lixar, colar, modelar o barro, amarrar barbantes e cordas, de acender o fogo.

6. Direito a um bom início: Toda criança tem o direito de comer alimentos sãos desde o nascimento, de beber água limpa e respirar ar puro.

7. Direito à rua: Toda criança tem o direito de brincar na rua e na praça e de andar livremente pelos caminhos, sem medo de ser atropelada por motoristas que pensam que as vias lhes pertencem.

8. Direito à natureza selvagem: Toda criança tem o direito de construir uma cabana nos bosques, de ter um arbusto onde se esconder e árvores nas quais subir.

9. Direito ao silêncio: Toda criança tem o direito de escutar o rumor do vento, o canto dos pássaros, o murmúrio das águas.

10. Direito à poesia: Toda criança tem o direito de ver o sol nascer e se pôr e de ver as estrelas e a lua.

Todo adulto tem o direito de ser criança!

Feliz dia das crianças, pessoas!

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2 comentários sobre “SÃO TANTAS COISINHAS MIÚDAS…

  1. Olá, bom tenho 16 anos,
    lê do começo ao fim tudo o q vc descreveu da sua vida!!!
    Me emocionei muito …
    Parabéns por todas suas palavras,vc sobe ser criança!!!
    Eh realmente não deixa ah criança morrer dentro de vc…
    Okay???
    BjoS
    felicidades…

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  2. oi mafalda. pra início de conversa, adoro esse nome (colocaria numa filha). estou retribuindo sua visita e tive uma agradável surpresa. seu blog é uma gracinha. e infância está sempre com a gente…. beijinhos.

    Mayra | Email | Homepage | 15-10-2003 00:08:04

    Vc sempre teve isso com criança, né? Lembra, qdo a gente saía, ia almoçar, ou coisa assim, e sentávamos numa mesa, e logo logo aparecia um molequinho que ficava olhando pra vc, sorrindo, ou que vinha conversar? Vc tem a alma leve, por isso que as crianças grandes se entendem com vc. Bjos…

    Ful | Email | 14-10-2003 23:14:01

    E viva nós, as crianças grandes!!!! beijins

    Cacau | Email | Homepage | 14-10-2003 21:56:28

    Fiquei emocionada com o seu texto. Vou lê-lo mais uma vez para digerir e depois comento melhor. Foi forte e muito bonito. Beijos.

    Moça | Email | Homepage | 14-10-2003 17:17:20

    Ai miga, acho que sou a unica filha única criada para o mundo. Felizmente minha mãe soube fez isso muito bem e me sinto uma pessoa com infância bem vivida. Aprontava, quebre os dentes, ralei os joelhos (e todo o resto do corpo) inúmeras vezes, batia nos amiguinhos (principalmente nos meninos que se achavam melhores e mais fortes), apanhei algumas vezes, mas sou felizzz felizzzzz. Ah, tb ganhei presente (risos) um chaveirinho de bonequinha, pra subistituir minha surrada Docinho. Beijoca miga! Amo você qrida (L)

    Catarina | Email | Homepage | 14-10-2003 00:30:35

    Eu não fui criada assim, me colocaram numa redoma de vidro, não me deixavam fazer nada, por isso cresci uma bela de uma boboca. Você está certíssima! Agora, me diz onde você trabalha, Mafalda, que quando eu tiver um filho, ele vai estudar lá. :))))))) Bjos

    Mila | 12-10-2003 19:26:36

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