DEIXEI MEU SAPATINHO NA JANELA DO QUINTAL

Querido Papai Noel…

Eu sei que não fui lá muito boa menina este ano. Tem uma porção de coisas que eu deveria ter feito, e não fiz… E outras tantas que eu deveria deixar de fazer, e não deixei. Mas olha, não foi por querer, não… Ou melhor, até foi por querer. Mas me entenda, eu estou fazendo um esforço enorme pra descobrir o que eu quero de verdade, e pra seguir o meu coração; isso é uma causa nobre, não acha? E já que é assim, o senhor bem que podia me dar um desconto e aceitar esta cartinha… Pra falar a verdade, eu estava até meia assim de escrever pro senhor pra pedir meu presente de Natal. Mas resolvi arriscar. Afinal, se eu já não sou mais tão boazinha, o senhor continua sendo ótimo, e não vai deixar na mão uma mocinha que sempre foi sua fã, vai? 🙂

O senhor, que me acompanha há tanto tempo, sabe que eu não gosto muito de Natal. O significado original da data é bonito e toca meu coração, mas… O senhor sabe que eu frequentemente fico triste, pensando em um monte de coisas, um monte de gente, um monte de jeitos de mudar o mundo, e fico deprimida quando percebo que a vida é meio cruel. A gente não pode trazer de volta quem foi embora, não pode ter tudo sempre, e nem pode mudar o mundo com um simples desejo, por melhor que ele seja. Aliás, a vida da gente anda valendo cada vez menos. É por isso que, além de triste, eu me sinto boba de ficar pensando tantas coisas quando todos os outros estão por aí vivendo ou fingindo viver tamanha felicidade.

Mas o senhor também sabe que este ano, algo estranho aconteceu. Depois de tanto tempo, eu comprei um pinheirinho pra enfeitar. É mais um ser vivo pra minha casa, ela está precisando de vida. Olhei ele na rua e me deu uma vontade de trazê-lo pra casa, montar árvore de natal, planejar a ceia da família, escrever cartões pras pessoas, abraçar, beijar, fazer pedidos pra estrela cadente, participar de amigo secreto e até pedir presente pro senhor. Talvez isso seja um sinal que eu estou recuperando certas coisas, ou sinal que eu fiquei boba de vez. Vai saber. Tudo depende do jeito que a gente olha.

Em nome desse súbito espírito natalino que invade os corações ( tudo bem que na maioria dos casos ele é pura hipocrisia, mas… ), eu queria presente. Sinceramente, acho que eu mereço.

Quando eu era menina, era fácil pedir. Uma boneca de pano, uma bicicleta, um jogo de botão, uma coleção do Monteiro Lobato. O senhor vinha, deixava o embrulho bonito lá fora, naquele pedacinho do quintal, do lado do jardim, e ia embora. Eu ficava toda besta, tentando achar o senhor, e depois abria o embrulho, brincava, brincava, brincava. Aquilo era um pedaço de felicidade daqueles que parecem eternos, que a gente se sente feliz de novo só de lembrar. Felicidade daquelas mesmo. Tão simples… E tão forte que dura até hoje.

Só que agora, adulta, vou te contar: demorou um tempão pra decidir o que eu quero. Isso porque os presentes simples, desses que o senhor pode fabricar em três tempos, não me satisfazem mais. Como os adultos são bestas, né, Papai Noel? É tão fácil agradar aos outros e a gente mesmo quando se é criança… Mas os adultos aprendem que o simples é insuficiente. E aí ficamos assim, com esse buraco imenso na alma que nunca nada enche. E acabou que eu demorei um tempão decidindo o que eu podia querer de presente de natal. Tem horas que eu achava que queria tudo. Em outras, achava que não queria nada, e nem adiantava querer, porque nada me bastaria. Besteira… Acabei entendendo que é melhor eu pedir pequenos e grandes pedaços de felicidade, porque felicidade completa não existe. E cheguei em um resultado, que encaminho com antecedência pro senhor ter tempo de ir preparando.

Eu quero um som legal pro meu carro, porque aquele radinho de pilha não sintoniza as estações direito, e é horrível dirigir sozinha, no silêncio. Falando em carro, quero dizer que estou muito, mas muito contente com o meu, e a única coisa que eu mudaria nele é que eu gostaria que ele tivesse chegado antes, de tanta alegria que ele me trouxe.

Quero também um plano de estratégia prático e perfeito pra trabalhar menos e ganhar mais, porque dinheiro é bom e todo mundo gosta, mas esse cansaço que eu estou sentindo ultimamente é desumano… O senhor anda vendo, né, Papai Noel? Não dá. Aproveita e me dá uma chefa menos cansativa também. E que eu tenha alunos bem calminhos, descolados e divertidos o ano que vem… Trabalho eles sempre dão, mas que seja o mais prazeiroso e o menos doloroso possível.

O senhor também poderia me arrumar uma passagem de avião pra um lugar legal, pois eu nunca voei e gostaria muito de saber qual é a sensação… Deve ser muito gostoso! Se junto com isso vier uma viagem pra algum lugar desse mundo, que seja bem bonito e me traga experiências inesquecíveis… Também agradeço. Manda também alguns feriados prolongados, e fins de semana com 38 horas cada dia, assim eu posso passar mais tempo com quem eu gosto, telefonar pras pessoas, sair, conversar, namorar, enfim, fazer o que me faz feliz – não só ficar acabada pelos cantos, sem ânimo pra quase nada. E mais amigos, novos e velhos.

Quero também um livro de receitas maravilhoso, um roupão de banho novo e um vale-compras de valor altíssimo pra eu gastar numa loja de lingerie, que elas andam muito caras, Papai Noel… Quero ganhar também um layout novo, chique, fashion e bonitinho pra este humilde blog. E DVD’s, CD’s, livros, sapatos e roupas novas bem legais.

Se o senhor puder, descola um ingresso pra um show do Chico Buarque ( se for um show particular, melhor ainda ). E pra me levar nesse show, o senhor podia me arrumar um grande, enorme, gigante, surpreendente e decente amor, um namorado maravilhoso, pra eu sentir de novo aquela coisa boa de ter o coração de sobressalto só em ouvir a voz de alguém… E de preferência, que seja uma história de amor bem tranquila e bem romântica, do jeitinho que eu tenho sonhado.

Coloca no embrulho também uma armação de óculos que finalmente fique bem no meu rosto, porque estou cansada de usar lentes de contato, e ao mesmo tempo me sinto muito estranha em ficar com aquele negócio no rosto. E um vale-esquecimento pra duas ou três coisinhas que eu queria apagar da minha vida. Pra não dizer que eu sou egoísta, traz também um tartarugo pra fazer companhia pra Dory Fifonha, coitada. Ela anda muito só naquele aquário, nadando de um lado pro outro sem ter com quem brigar… E preciso de muita saúde, Papai Noel… Muita mesmo.

Eu sei, eu sei… É muita coisa. Mas se o senhor achar melhor, pode me dar de presente capacidade, disposição, vontade de correr atrás de tudo isso sozinha, e pessoas legais pra me ajudar, que tal? Pra falar a verdade, eu até prefiro assim.

Bem, Papai Noel… É isso. Vou colocar na minha árvore de natal muitas fitinhas desejando coisas boas pra mim e pra todo mundo. Isso pode não mudar nada… Mas acho que vai fazer eu me sentir melhor. Eu espero que o senhor atenda o meu pedido, afinal… O senhor é um bom velhinho, e não seria nada bonito decepcionar uma alma ávida por coisas boas.

Um grande beijo na sua testa, e saiba que essa sua barba é um charme.

Com carinho, à espera…

Mafalda

SIMPLES DESEJOS ( OU… UM POST LAMBE-LAMBE )

( Peço licença aos leitores do blog pra bajular um pouco a minha amiga aniversariante, afinal… É o dia dela. 🙂 )

Minha amiga querida, minha querida amiga, eu não te dei nem um cartãozinho no seu aniversário… E tem tanta coisa que eu queria te dizer nesta data querida.

É seu aniversário. Nós nos parecemos muito em algumas coisas ( mesmo sendo totalmente diferentes em outras ), e imagino que, como eu, você às vezes pensa que o tempo está escorrendo devagarinho, e você nada pode fazer pra segurar. Isso acontece a cada milésimo de segundo. Mas nos nossos aniversários, a gente atualiza as informações e toma aquele susto… Puxa, fiquei mais velha. Puxa, mais um cabelo branco. Puxa, tanta coisa que eu queria fazer e ainda não fiz… Puxa, mais um ano de vida. Mais um… Menos um, tanto faz. Puxa… E o que eu faço agora?

Essa idéia é o que de mais profundo o aniversário tem. Mas, além do bolo e brigadeiro, dos presentes, festas, abraços, beijos e sorrisos… O que de mais lindo acontece são os desejos! Sim, os desejos… Em silêncio, quando pensam em você no dia do seu aniversário, as pessoas te desejam coisas, muitas coisas. Algumas mais, outras menos, isso vai conforme a grandeza de alma de cada um. Mas desejam.

E fiquei pensando, querida amiga, no que eu te desejaria no dia do seu aniversário. Se fosse o gênio da lâmpada, se fosse uma feiticeira poderosa, o que eu te daria, embrulhado numa caixinha bonita, com lacinho, pronto pra usar?

Teria que ser uma caixinha de tamanho infinito… Pois bem, lá vai a lista:

* Saúde, porque sem o corpo, a alma quase nada pode fazer nesta dimensão;
* Medo do necessário, para preservar sua vida e seu coração;
* Amigos, pra segurar sua mão e te ajudar a levantar, pro caso de você cair, e pra comemorar suas alegrias com você;
* Calma, pra dar os passos certos e enxergar mais adiante;
* Dor ( só um pouquinho ), pra valorizar o prazer;
* Paciência, pra esperar o seu tempo, o das pessoas e das coisas;
* Flexibilidade, pra conseguir desistir do que te faz infeliz, e pra mudar de idéia quantas vezes você quiser;
* Sabedoria, pra dizer as coisas certas, pra outros e pra você mesma;
* Alegria, porque só ela é o alívio de todos os pequenos males do cotidiano;
* Disposição, pra correr atrás dos seus desejos;
* Rebeldia, pra sentir que você é a dona da sua vida, e é responsável por ela;
* Dúvidas, porque certezas demais atrapalham;
* Consciência, pra saber o que vai dentro de você e dentro dos outros;
* Tranquilidade, pra ser tolerante com você mesma e saber que todos nós sempre fazemos o melhor que dá, e isso é bom;
* Coragem, pra fazer o que for melhor pra você, ainda que isso machuque;
* Beleza, pra chamar mais beleza ainda pra perto de você;
* Juventude, pra sugar da vida o melhor que ela tem;
* Fé, pra se sentir segura e curtir a certeza de saber que sempre haverá alguém cuidando de você;
* Carinho, porque todo mundo precisa de colo;
* Sensibilidade, pra ir ao fundo das coisas;
* Companheirismo, porque a solidão só é boa quando é uma escolha;
* Ambição, pra conquistar as coisas que você sonhou pra você;
* Simplicidade, pra saber observar o que há de belo no que você tem aqui e agora;
* Sonho, porque sem sonho a vida é morte;
* Paixão, porque nada é mais gostoso do que sentir o coração batendo forte por algo ou alguém;
* Amor, porque o amor é tudo isso e muito mais;
* Amizade, porque assim não nos afastaremos nunca.

Mudei de idéia quanto ao tamanho da caixinha. Não precisa ser grande, não. Porque a sua alma já é grande, e lá dentro dela já tem tudo isso. Só vou desejar então que você consiga saber quando e como chamar o que há de bom em você pra seguir o seu caminho brilhantemente como vem fazendo.

E pra terminar, os versos mais simples e mais completos que eu já vi:

Parabéns pra você,
Nessa data querida,
Muitas felicidades,
Muitos anos de vida!

FILHOS SEM DONO

O artista é uma pessoa sensível, que consegue enxergar a beleza na maioria das coisas, as boas e as ruins. Como um alquimista, ele transforma em palavras, imagens, sons, movimentos, cheiros, cores, paladares, ações – aquelas sensações que todos temos na alma, mas muitas vezes não conseguimos expressar, traduzir, compartilhar, e coloca pra fora um pedaço dele mesmo. Corajoso, ele se expõe para receber os elogios e críticas de quem quiser olhar.

Ele é uma porta aberta entre os sentimentos e sonhos de quem faz e quem aprecia a obra de arte; nesse momento, o da apreciação, artista e apreciador estão unidos em um só tempo, uma só sintonia, não importa qual é a distância física entre eles. Com muita inspiração, e muito esforço também, o artista cria meios de comunicação entre as pessoas. Uma obra de arte diz um pouco sobre o que há em todos os seres humanos, as questões de todos nós, independente de tudo o mais; e por isso ela se propaga através dos tempos, por isso ela toca vários corações, por isso ela ajuda a tanta gente. É assim com uma peça de Shakespeare, com uma sinfonia de Bach, com a receita de pastel de Santa Clara bem feita, um romance de Machado de Assis, um poema do Fernando Pessoa, um filme do Kubrick, um quadro de Picasso ou Mundy, uma canção de Noel Rosa. Mesmo os artistas que não são tão originais, famosos, criativos ou geniais, conseguem atingir a alguns corações, mesmo que sejam poucos. E é aí que mora a beleza da Arte; e na minha opinião, é aí que mora a beleza da vida – na comunicação das almas. Não entendamos arte apenas como aquelas coisas que ficam encalacradas nas paredes dos museus, nas salas de concerto, nas estantes das bibliotecas. Arte é muito mais que isso. Está nas danças, sabores, melodias que vemos todos os dias no cotidiano. Um pedreiro que faz um muro criativo e coloca ali a força das suas angústias, fez arte. Uma mãe que faz um prato delicioso com amor para o seu filho, de sabor inigualável, faz arte. Qualquer trabalho, qualquer atividade, qualquer troca que seja feita de maneira criativa e sensível, de certa forma, é arte.

Se a beleza da coisa toda é esse diálogo entre quem faz e quem aprecia, se, antes de tudo, a arte nos une em reconhecimento das grandes questões humanas, quem é o dono da arte? De que serve um poema que nunca será lido? Uma pintura que nunca será vista? Uma música que nunca será ouvida? Falta um pedaço. É por isso que quem escreve, pinta, cozinha, esculpe, costura, cria, inventa… Gosta de divulgar seu trabalho, para um ou para todos. Gosta de saber que a mensagem que precisou desabafar, aquela que não coube lá dentro de tão grande que era e clamou pra sair, atingiu a alguém. O artista, quando é valorizado e apreciado ( ainda que seja criticado ), é acolhido, e se sente realizado. E quem aprecia pode recriar a partir dali, recriar, recriar e recriar ainda mais. E que bonito seria um mundo assim, coberto de todos os tipos de arte por todos os lados, coberto de sensibilidade e invenções.

Esse questionamento filosófico remete a uma questão prática muito preocupante: o dono da arte é o autor. E como autor, ele tem alguns direitos e deveres sobre o que fez. Tenho visto algumas coisas que preocupam, muito mais pelas intenções que pelas atitudes. Todo mundo acharia um crime de plágio, de roubo, punível por lei, se alguém tomasse como sua uma canção que não fez, um livro que não escreveu, um quadro que não pintou. Mas quando o assunto é Internet…

Quando o assunto é Internet, parece que já se institucionalizou um mau costume de simplesmente desprezar a autoria de qualquer tipo de texto, qualquer tipo de imagem, de idéia. Mexer no computador, depois de superados os estranhamentos iniciais, é uma coisa muito fácil e muito rápida, quase não dá tempo de pensar. É possível passar de uma idéia pra outra em segundos, mudar de site, de idéia, de autor em um espaço curtíssimo de tempo. No caso dos textos escritos, as pessoas recebem por e-mail e lêem em sites todos os dias milhares de textos que as emocionam – pelo menos enquanto estão lendo. Com menos de meia dúzia de cliques, elas podem copiar, colar, reencaminhar esses textos para outras tantas milhares de pessoas. Até aí, tudo bem, nada mal; a intenção de quem escreveu, aposto, era essa mesma: atingir a quantas pessoas fosse possível. O problema é quando aquele texto, aquele pedaço de alma que está ali, é repassado adiante sem o nome de seu pai ou sua mãe, ou o que é pior: maldosamente, com o nome de outros pais e outras mães. Isso dói em um autor. Não porque se deixe de ganhar algum retorno financeiro ( em alguns casos, pode até ser ) com isso, mas porque os nossos filhos têm dono; antes de ser de todos, eles são nossos, nasceram em nós. E temos orgulho deles. Gostaríamos de ser reconhecidos como produtores das palavras que escrevemos.

Os blogs, essa coisa interessante que foi criada para possibilitar ainda mais a expressão de pensamentos, idéias e afins, por exemplo… Têm me surpreendido a cada dia mais. No começo, eu achava que era apenas uma invasão generalizada de privacidade, onde as pessoas ficavam contando ao léo o que faziam ou deixavam de fazer, papo furado. Em alguns casos, é só isso mesmo. Mas em outros, pessoas criativas, sensíveis, alguns verdadeiros gênios, verdadeiros artistas, usam esse meio para divulgar o que pensam, o que sentem, trocar idéias, produzir verdadeiras pérolas. É incrível o talento que algumas pessoas têm com as palavras; pessoas que não ficam nada a dever aos grandes cronistas, romancistas, poetas ou colunistas clássicos. Em alguns casos, a gente lê e pensa: como essa pessoa pode estar aqui, escondidinha, sem ser reconhecida pelo mundo? Há muita coisa boa pra ler, tantas que eu gostaria muito de ter mais tempo pra apreciar. Algumas dessas pessoas não fazem questão de sucesso, usam o anonimato dos pseudônimos pra se expressar. Outras, são campeãs de audiência e ultrapassaram os limites do computador – estão escrevendo livros, fanzines, jornais, revistas. Outras, construíram, por semelhança de anseios e pensamentos, um grupo de amigos que troca idéias através das mensagens que mandam, e tudo isso é muito bom e louvável. Vivo repetindo que a comunicação de idéias é tudo nesse mundo louco, e repito mais uma vez. Tomara que cada vez mais as pessoas divulguem o que vai dentro delas e tentem se entender. Mas também essas pessoas querem o respeito de serem reconhecidas como donas do que fizeram.

Conto alguns casos: dia desses, recebi por email um texto – “A amizade entre mulheres”. Um dos meus passatempos prediletos é ler emails, leio todos. E começando a ler, tomei um susto. O texto era meu, postado aqui há um tempo atrás. Fiquei contente, de verdade, mas só até perceber que o texto estava atribuído a uma outra pessoa que eu nem sei quem é. A Moça Patrícia Daltro me conta a mesma história em seu blog. O texto dela, intitulado por outras pessoas como “Diário de uma Gorda” se espalhou como rastilho de pólvora em toda a rede em poucos dias, e vem assinado pelo tal “autor desconhecido”. Todas as segundas leio a coluna da Martha Medeiros, uma colunista extremamente hábil com as palavras, no site do Almas Gêmeas. Várias e várias vezes recebi textos dela atribuídos a Miguel Falabella, Clarice Lispector, Pablo Neruda… Ou o tal “autor desconhecido”. Recebo também muitos textos do Ziraldo, Drummond, Arnaldo Jabor, Millôr que eles nunca escreveram. Se por um lado, isso significa que as pessoas gostam do que escrevemos, por outro significa que não entenderam a pessoa que somos ( no caso da Martha, além da pessoa, a profissional ). No momento em que isso acontece, o diálogo, aquele entre quem faz e quem aprecia, se esvai, até se acabar; ou então fica unilateral. Fica de novo faltando um pedaço. O que a Patrícia e a Martha pensam sobre o assunto, você lê clicando nos nomes delas. E se informa também sobre a questão dos direitos autorais clicando aqui.

A Patrícia/ Moça, a Martha Medeiros, Veríssimo, Millôr, Jabor, Ziraldo, Lispector, Drummond… E até mesmo eu, a Mafalda/Karina, entre tantos outros, gostamos de escrever e tenho certeza que só nos sentimos satisfeitos quando sabemos que estamos sendo “lidos”, porque é nesse diálogo, entre leitor e escritor, que mora a intenção de tudo que produzimos através das palavras, no caso, transformadas em bites. Mas sem dúvida é triste, ofensivo e ilegal quando alguém pega um pedaço de nós e circula por aí sem nos apresentar como as pessoas que fizeram aquele texto, ou pior ainda, rouba esse mesmo pedaço e apresenta como se fosse seu. Isso, mais do que um crime legal, é uma inversão do sentido inicial da coisa. Alguém que faz isso até pode ter lido tudo que foi escrito… Mas não entendeu.

Como autores, não se trata de bancar os chatos, os cri-cris, as pedantes, nem de eximir-se de culpa. Eu mesma muitas vezes esqueço de procurar a autoria de textos que repasso, ou nem me lembro de citar explicitamente a fonte de certas imagens que uso ( nunca apago a origem delas, clicando na imagem com o botão direito do mouse, vocês descobrem de onde vieram ). Mas, como usuários da rede, temos que prestar mais atenção aos nossos hábitos, e tratar de mudar alguns deles. É básico citar as fontes, colocar entre aspas o que foi enxertado de outros autores em nossos textos, preocupar-se com quem escreveu aquilo que estamos recebendo por e-mail. Mais do que uma questão de cidadania… É uma questão de sensibilidade. Assim todos ficam felizes, quem escreve e quem lê. E é pra isso que estamos aqui, pra divulgar a felicidade e encher esse mundo de coisas belas, não pra perder tempo discutindo esse tipo de coisa que deveria ser compreensão básica. Vamos passar essa idéia adiante; essa vale a pena divulgar. Mesmo.

QUEM SOU EU

QUEM EU SOU

Lendo a coluna da Martha Medeiros desta semana, encontrei um texto muito bonitinho e inteligente. Começa assim:

“Quem sou eu?? Quando não temos nada de prático nos atazanando a vida, a preocupação passa a ser existencial. Pouco importa de onde viemos e para onde vamos, mas quem somos é crucial descobrir.
A gente é o que a gente gosta. A gente é nossa comida preferida, os filmes que a gente curte, os amigos que escolhemos, as roupas que a gente veste, a estação do ano preferida, nosso esporte, as cidades que nos encantam. Você não está fazendo nada agora? Eu idem. Vamos listar quem a gente é: você daí e eu daqui. ”

Quem quiser ler o texto dela, e as outras colunas, que são sempre maravilhosas, pode clicar no link ou consultar o nome dela na lista aí do lado. A Cacau também escreveu algo sobre isso hoje… E eu resolvi fazer a minha listinha, apesar de ter uma pá de coisas pra fazer. Muito bem: quem sou eu?

Eu sou o friozinho na barriga na descida da montanha-russa e dirigir em alta velocidade, sou a emoção do perigoso, desde que eu possa cobrir o risco. Sou carinho na ponta da orelha, como o meu irmão sempre faz quando me vê. Sou sorriso tímido em algumas horas e gargalhada escancarada em outras. Sou o tesão de uma missão cumprida, com gostinho de quero-mais-ainda. Sou dívida paga. Sou uma piadinha boba bem contada. Sou adorar o meu trabalho. Sou falar com Deus bem baixinho à noite, e ir à igreja quando dá vontade. Sou uma música dançada coladinho. Sou um sorriso aberto de quem estava com saudades de me ver. Sou um pedido de segredo, com aquele olhar de confiança. Sou muitas amizades e amigos.

Sou uma mesa bem posta cheias de coisas boas pra comer sem culpa. Sou salada de tomate, strogonoff de frango, bacalhau à espanhola, arroz soltinho, ovo com gema bem cozida, suco de laranja, vitamina de abacate, vinho bem doce, pizza de mussarela e danoninho. Sou carne nem mal, nem bem passada. E na sobremesa, eu sou um bolo de morango cheio de chantily e um sorvete de iogurte com amora. Sou doce de banana e muito, mas muito chocolate, de todo jeito. E sou ficar na cozinha preparando tudo isso e muito mais.

Sou a minha casa mais do que a rua, com todas as plantinhas no jardim e na beirada da janela, os móveis confortáveis e a cozinha enorme. Sou olhar o céu da varanda com noite de lua cheia e estrelas brilhando, em tempo ameno, ouvindo música. Sou o meu quarto, cheio de quadrinhos na parede e bonequinhos na estante, que é cheia de livros. Sou a minha cama e dormir agarrada com o travesseiro. Sou a mesa e a cadeira do computador. Sou banho gelado em dia quente. Sou cremes, perfumes, batom marrom, lente de contato, presilhas, caixinhas encapadas e aspirina. Sou sapato baixo, meia fina, lingerie de renda, calça jeans e blusas coloridas. Sou pouca maquiagem, coque no dia-a-dia e cabelo solto e arrumado aos fins de semana. Sou milhares de relicários, as gavetas cheias de fotos, cartas, lembranças das quais eu não consigo me desfazer. Sou lápis de cor, tinta, fios, argila, bordado, crochê.

Sou uma idéia de organização que nunca se concretiza. Sou um NÃO gigante a grande parte das regras e um boom criativo e intuitivo na maior parte das vezes. Sou uma vida lotada de amigos, um sorriso simpático, compreensão acima de tudo, um abraço inesperado. Sou dizer e ouvir palavras que emocionam.

Sou um punhado de cartas, cartões e emails de amor, todos longos e intensos. Sou um amor mal resolvido, e mais outro. Sou a recusa de ficar ao lado de alguém só por ficar. Sou a opção de um romantismo exagerado e sem vergonha de ser assim. Sou uma folha em branco pra desenhar e escrever o que tiver vontade. Sou uma declaração de amor rasgada. Sou segurar as lágrimas nos olhos. Sou calar pra não magoar, sou de deixar a poeira ficar bem baixinha pra depois conversar. Sou escrever quando o assunto é difícil. Sou gentilezas, carinhos e mimos. Sou dormir abraçada, um olhar arrebatador, uma palavra sussurrada no ouvido, um telefonema quente, uma brincadeira excitante, uma loucura, um beijo roubado. Sou muito, muito beijo, muito toque, muito abraço apertado, muito desejo, muita fantasia, me entregar totalmente se me sentir segura e amada. Sou encostar a cabeça no peito pra ouvir o coração batendo, dengo até não poder mais. Sou insistir até o fim em uma paixão, até onde aguentar.

Sou a saudade de uma conversa no fim de tarde com o meu avô. A saudade do colo da minha mãe, a saudade da risada do meu pai. Sou ficar tentando lembrar do que eu sonhei toda manhã. Sou a saudade dos meus amigos da adolescência, das escolas onde estudei e dos professores que tive. Sou a saudade de pessoas que eu amei muito e que se foram. Sou a vontade de voltar a ser uma menina quando canso de ser adulta, e sou o orgulho de ter vencido até aqui. Sou um eterno procurar o lado bom da situação, um eterno racionalizar.

Sou Chico Buarque, Cecília Meireles, Renato Russo, Regina Casé, novela das 6, desenho das Meninas Superpoderosas, Manuel Bandeira, Harison Ford, Chaves, Carlos Drummond, Laura Esquivel, Beatles, Diana Krall, Tarsila, Quino, Monteiro Lobato, Bruce Willis, filme romântico, Boca Livre, Herbert Vianna, Fernando Bonassi, José Simão, Madonna, Rubem Alves, novo cinema nacional, Laerte, Elvis Presley, Internet com conexão rápida e milhares de emails, Luiza Erundina, George MIchael, Fernando Pessoa, Ronaldinho, Mário Prata, Maurício de Souza, música de todos os jeitos.

Sou mais madrugada que manhã, mais Boris Casoy que Jô Soares, mais frio que calor, mais campo que praia, mais silêncio que briga, mais escrever que ler. Sou mais ponderações que definições, mais momento que depois, mais mochila que bolsa, mais flauta que piano, mais calma que desespero, mais medinho que pânico, mais calor do que frieza, mais comprimido que remédio via oral, mais chopp que cerveja, mais pepsi que coca-cola, mais cinema que teatro, mais esquerda que direita. Sou mais vermelho que qualquer outra cor, mais parque que shopping, mais hamburguer que cahorro-quente, mais crianças que adultos, mais Magistério que Psicologia, mais interior que exterior, mais dar presente que receber, mais caminhar que correr, mais música que pintura, mais dança que ginástica, mais encontro que telefonema, mais poesia que prosa, mais trabalho que descanso, mais periferia que centro, mais sim que não. Sou mais sonho que realidade. E muito, mas muito mais emoção que razão.

Não sou de jeito nenhum ( por mais que eu tente ): suco de cajú, incenso, grosseria, esporte na TV, academia, Maluf, beterraba, comida japonesa, matemática, Bonde do Tigrão, Débora Secco, noite de calor, ir ao médico, lamentação, gente preguiçosa, tempero pronto.

Sou assistir um filme debaixo da coberta num dia frio. Ligar o rádio bem alto enquanto arrumo a casa. Andar de mãos dadas no Ibirapuera no friozinho calmo de outono. Sonhar no escurinho do cinema. Surpreender e ser surpreendida. Contar histórias pras crianças. Ouvir palavras doces e elogios sinceros. Comer manga lambuzando. Receber ligação no celular durante o dia. Gritar gol no estádio. Descobrir que eu estava certa. Ser desculpada quando piso na bola. Flores, flores e mais flores. Cheiro de neném. Imaginar, imaginar e imaginar. Sou o blog da Mafalda.

Sou a soma de tudo isso, e infinitamente mais. E sou toda coração. Toda. E além de tudo isso, sou eu mesma. E gosto demais de saber quem eu sou de verdade.

E você, quem é? 🙂

OS SETE DESEJOS CAPITAIS

Por que pecar é tão gostoso? O que seria de todos nós se todos os fofos e fofas resolvessem apenas seguir os próprios desejos? Seria possível a convivência humana sem o freio moral, intelectual, psicológico e social que traz a idéia do pecado, do proibido, do perigoso?

Por outro lado, haveria um mundo possível sem mentiras? Quem suportaria tanta sinceridade? O que seria de tantas uniões longas se não houvesse a infedelidade de um dos dois ( ou de ambos ), o que muitas vezes é o sustento de um relacionamento? Seria possível que a humanidade crescesse em graça, beleza e dinheiro se não houvesse a cobiça, a inveja? E nem mesmo humanidade haveria se não houvesse o desejo de sexo e procriação. Na verdade, a tal maçã pecaminosa que um dia foi mordida, seria mordida de qualquer jeito; isso estava nos planos iniciais. Era um destino a ser cumprido, a eterna luta do bem contra o mal que, antes de ser travada entre as pessoas, é travada dentro de cada um de nós.

Estava revendo o filme “O Retrato de Dorian Gray”. A história do Oscar Wilde conta que havia um jovem belo, rico e poderoso, que uma vez foi pintado em um quadro de maneira assombrosamente real. Ao fazer um pedido, o retrato passou a ser o retrato de sua alma. A feiúra externa e interna não atingiam a Dorian, mas ficavam registradas em seu retrato. Aos poucos, ele começa a se tornar uma pessoa ardilosa, má, egoísta, desprezível. Mas seu rosto continua angelical e terno. Essa idéia, a de que as nossas maldades e fraquezas ficam registradas em nosso rosto, em nosso currículo, em nossa existência é contada por milhares de povos e culturas, desde que o mundo é mundo. Há uma frase no filme que eu gosto muito. “Enviei minha alma à mais funda das profundezas, afim de saber o que havia lá. Depois de um tempo, ela retornou a mim, e disse: eu mesma sou, em mim, céu e inferno”. E é mesmo.

A questão não é religiosa, e tanto faz no que se acredita ou deixa de acreditar. É essencial. O pecado é aquilo que mancha a nossa estima e a nossa reputação, e geralmente se manifesta nos desejos, sejam eles do corpo ou do espírito. Frequentemente, o pecado prejudica alguém, mesmo que esse alguém seja a nossa própria pessoa.

A alma humana pode ser nobre, solidária, tranquila, feliz, amável, bela. Mas também pode ser corrupta, destrutiva, invejosa, egoísta, malvada, amarga. Os artistas de qualquer espécie, naturalmente sensíveis às verdades da alma, cansam de falar sobre essa dualidade em suas obras. Oscar Wilde, Dante, Shakespeare, Pessoa, mitólogos, a Bíblia, os freis e sacerdotes intelectuais, os cineastas, os pintores, os dramaturgos… Todos um dia se rendem a pensar sobre o anjinho e o diabinho existentes em cada um de nós. A sociedade debate sobre isso constantemente, e cria mecanismos diversos para frear o desejo de pecar. E assim vamos seguindo, perdidos entre nossas escolhas, tentando resistir ao lado negro da força – ou não. E, admitamos, fazendo o bem, ou o mal… Pagamos um preço, e às vezes este preço é bem alto. O importante é que compense.

Até um tempo atrás eu tentava ignorar totalmente os apelos do meu diabinho. Era boazinha demais. Só que um diabinho ignorado se alimenta da energia que gastamos pra sufocá-lo, e fica cada vez mais forte. E antes que ele ficasse mais forte que eu, resolvi deixar ele falar, mostrar seu ponto de vista… E até ganhar algumas vezes. E até que o resultado foi interessante. Hoje, não sou mais tão boazinha, mas sou mais normal que antes, com certeza.

Um dia alguém teve a idéia de enumerar os 7 pecados capitais, aqueles mais graves, as matrizes de todos os outros. A maioria deles se relaciona aos desejos do corpo, a todas as fomes graves que sentimos – de sexo, de comida, de descanso, de ter, de ser. Todos nós já entramos nos caminhos obscuros de todas essas fomes; todos já sentimos culpa, e muitos de nós acham que não é tão ruim assim. Alguns de nós já perderam o controle, outros tentaram se arrepender e não conseguiram. Todos têm um pecado que cometem mais, e outro que cometem menos. Alguns erros são até louvados, outros ninguém confessa que fez, nem pra si mesmo. Mas ninguém está livre de conhecer as veredas do mal…

Pecado bom de verdade mesmo não se confessa, nem pro padre, nem pra melhor amiga, nem pro espelho. Não sei por que comecei a pensar nisso, mas achei que seria legal escrever um pouquinho sobre cada uma das 7 maiores faltas. Aguardem a série, e até lá, pequem bastante pra me contar depois, porque, quase tão bom como cometer os seus próprios pecados é saber dos pecados dos outros.

DE MOLHO

Uma vez caí feio e torci o tornozelo. Foi coisa séria, torci dos dois lados de uma vez.
Ele ficou inchado, enorme, roxo, cheio de hematomas. Era uma dor terrível, às vezes doía tanto que deixava de doer, eu nem sentia mais. Fui socorrida, me levaram ao médico, ele examinou… E foi fatal: gesso, analgésico, anti-inflamatórios e repouso, muito repouso. O doc disse: “esse pé você não pisa no chão pra absolutamente nada.
Tudo que você precisar peça aos outros. Se você não me obedecer, vai ficar com sequelas pro resto da vida”.

Claro, eu não obedeci. O analgésico, forte, entorpecia e tirava a dor, maquiava a gravidade da coisa. E eu achei que estava ótima. Me dava um nervoso absurdo ficar ali deitada, sem fazer nada, sem poder andar. A vida correndo lá fora e eu ali parada, doente. E se eu fosse insubstituível? Quem ia fazer as minhas coisas por mim? Pra que tanto repouso? Sentia cada minutinho do tempo escorrer pela minha mão e isso me dava um faniquito. Sem falar que me era revoltante a idéia de depender dos outros, de ver os outros com dó de mim. Comecei a dar uma pisadinha aqui, outra ali… Em pouco tempo estava andando com o pé engessado pra lá e pra cá, e quando voltei ao doc…
Broncas e mais broncas. O pé estava pior e não ia sarar se eu não fizesse repouso, pouco adiantava o anti-inflamatório. Eu, claro, não obedeci de novo. Mais uma semana e o pé estava mais horrível ainda. Pedi a ele que tirasse o gesso, ia trabalhar assim mesmo. Não queria mais ficar de repouso. Ele, a contragosto, tirou, mas disse: “as coisas machucadas têm o tempo certo pra se curar. Não adianta correr contra isso, o tempo tem que passar você querendo ou não… Caso contrário você vai ter sequelas pro resto da vida.” Eu insisti, e como o tornozelo é meu… O gesso foi tirado, sob inúmeros protestos.

Doc recomendou 30 sessões de fisioterapia no mínimo. Fui a duas e desisti. Eu, a super mulher, estava curada, pra que aquela frescura toda de exercícios lentos, luzes, ondas magnéticas, choques térmicos? Bah. O importante era se mexer, mesmo que mancando. Comecei a andar, pegar ônibus, subir escada. Fiquei com aquele pé inchado durante meses e até hoje, tal como o doc tinha dito, ele dói quando faz frio, incha quando faz calor. Nunca mais vai ser o mesmo. E tudo por causa da minha teimosia.

Por que eu não queria ficar de repouso? Todo mundo fica doente de vez em quando. É legal ser cuidada e bajulada pelos outros, é bom sentir as pessoas preocupadas com a gente, é bom dar um tempo. Por que essa necessidade de estar bem o tempo todo?
Que problema tem em ser fraca, em sofrer, em admitir que tropecei? Por que querer evitar o sofrimento a qualquer custo? O que de tão assustador ele tem? O sofrimento é tão ilusório e passageiro como a felicidade. As pessoas caem, se machucam, erram a pisada e se estrepam. Todo mundo passa por isso. E não tem nada de mal em sofrer de pé quebrado de vez em quando. E muito menos de cotovelo dolorido.

As coisas machucadas têm um tempo de ser curadas, o doc avisou. A gente pode passar por cima, mas a realidade é essa. Com os machucados da alma também é assim. A gente tem que ter paciência pra eles curarem totalmente, e ainda aceitar que vai ficar uma cicatriz. Precisa ter paciência pra juntar os caquinhos e colar pedacinho por pedacinho. E ainda aturar a idéia que, mesmo assim, nunca mais vai ser a mesma coisa. Sem falar no medo e na constante insegurança de pisar com firmeza no terreno em que antes se caiu. Em resumo… É complicado. É difícil. É sofrido. É cansativo.
Mas faz parte da vida. E gente grande de verdade passa por isso com dignidade, não foge. Não sei por que cargas d’água eu tinha esquecido dessa lição.

Acho que já está mais do que na hora de deixar de ser teimosa, parar de meter os pés pelas mãos… E dar um tempo pra mim mesma, antes que eu faça mais besteiras e magoe mais corações além do meu. Ficar em repouso. Quieta, curando.

E é isso. Estou de molho, fechada pra balanço. E posso voltar atrás quantas vezes precisar.

Às vezes tenho vontade de bater minha cabeça na parede.