OS SETE DESEJOS CAPITAIS

Por que pecar é tão gostoso? O que seria de todos nós se todos os fofos e fofas resolvessem apenas seguir os próprios desejos? Seria possível a convivência humana sem o freio moral, intelectual, psicológico e social que traz a idéia do pecado, do proibido, do perigoso?

Por outro lado, haveria um mundo possível sem mentiras? Quem suportaria tanta sinceridade? O que seria de tantas uniões longas se não houvesse a infedelidade de um dos dois ( ou de ambos ), o que muitas vezes é o sustento de um relacionamento? Seria possível que a humanidade crescesse em graça, beleza e dinheiro se não houvesse a cobiça, a inveja? E nem mesmo humanidade haveria se não houvesse o desejo de sexo e procriação. Na verdade, a tal maçã pecaminosa que um dia foi mordida, seria mordida de qualquer jeito; isso estava nos planos iniciais. Era um destino a ser cumprido, a eterna luta do bem contra o mal que, antes de ser travada entre as pessoas, é travada dentro de cada um de nós.

Estava revendo o filme “O Retrato de Dorian Gray”. A história do Oscar Wilde conta que havia um jovem belo, rico e poderoso, que uma vez foi pintado em um quadro de maneira assombrosamente real. Ao fazer um pedido, o retrato passou a ser o retrato de sua alma. A feiúra externa e interna não atingiam a Dorian, mas ficavam registradas em seu retrato. Aos poucos, ele começa a se tornar uma pessoa ardilosa, má, egoísta, desprezível. Mas seu rosto continua angelical e terno. Essa idéia, a de que as nossas maldades e fraquezas ficam registradas em nosso rosto, em nosso currículo, em nossa existência é contada por milhares de povos e culturas, desde que o mundo é mundo. Há uma frase no filme que eu gosto muito. “Enviei minha alma à mais funda das profundezas, afim de saber o que havia lá. Depois de um tempo, ela retornou a mim, e disse: eu mesma sou, em mim, céu e inferno”. E é mesmo.

A questão não é religiosa, e tanto faz no que se acredita ou deixa de acreditar. É essencial. O pecado é aquilo que mancha a nossa estima e a nossa reputação, e geralmente se manifesta nos desejos, sejam eles do corpo ou do espírito. Frequentemente, o pecado prejudica alguém, mesmo que esse alguém seja a nossa própria pessoa.

A alma humana pode ser nobre, solidária, tranquila, feliz, amável, bela. Mas também pode ser corrupta, destrutiva, invejosa, egoísta, malvada, amarga. Os artistas de qualquer espécie, naturalmente sensíveis às verdades da alma, cansam de falar sobre essa dualidade em suas obras. Oscar Wilde, Dante, Shakespeare, Pessoa, mitólogos, a Bíblia, os freis e sacerdotes intelectuais, os cineastas, os pintores, os dramaturgos… Todos um dia se rendem a pensar sobre o anjinho e o diabinho existentes em cada um de nós. A sociedade debate sobre isso constantemente, e cria mecanismos diversos para frear o desejo de pecar. E assim vamos seguindo, perdidos entre nossas escolhas, tentando resistir ao lado negro da força – ou não. E, admitamos, fazendo o bem, ou o mal… Pagamos um preço, e às vezes este preço é bem alto. O importante é que compense.

Até um tempo atrás eu tentava ignorar totalmente os apelos do meu diabinho. Era boazinha demais. Só que um diabinho ignorado se alimenta da energia que gastamos pra sufocá-lo, e fica cada vez mais forte. E antes que ele ficasse mais forte que eu, resolvi deixar ele falar, mostrar seu ponto de vista… E até ganhar algumas vezes. E até que o resultado foi interessante. Hoje, não sou mais tão boazinha, mas sou mais normal que antes, com certeza.

Um dia alguém teve a idéia de enumerar os 7 pecados capitais, aqueles mais graves, as matrizes de todos os outros. A maioria deles se relaciona aos desejos do corpo, a todas as fomes graves que sentimos – de sexo, de comida, de descanso, de ter, de ser. Todos nós já entramos nos caminhos obscuros de todas essas fomes; todos já sentimos culpa, e muitos de nós acham que não é tão ruim assim. Alguns de nós já perderam o controle, outros tentaram se arrepender e não conseguiram. Todos têm um pecado que cometem mais, e outro que cometem menos. Alguns erros são até louvados, outros ninguém confessa que fez, nem pra si mesmo. Mas ninguém está livre de conhecer as veredas do mal…

Pecado bom de verdade mesmo não se confessa, nem pro padre, nem pra melhor amiga, nem pro espelho. Não sei por que comecei a pensar nisso, mas achei que seria legal escrever um pouquinho sobre cada uma das 7 maiores faltas. Aguardem a série, e até lá, pequem bastante pra me contar depois, porque, quase tão bom como cometer os seus próprios pecados é saber dos pecados dos outros.

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Um comentário sobre “OS SETE DESEJOS CAPITAIS

  1. Lindíssima, há pouco tempo fiz uma enquete no meu blog. Eu queria saber qual o pecado capital considerado o pior. E para minha surpresa, a inveja ganhou. É mesmo muito ruim; mas acho a vaidade muuuuuuuito mais cruel. beijins

    Cacau | Email | Homepage | 11-11-2003 22:32:33

    Fantástico, Ká, estou aguardando a próxima confissão… Adorável Pecadora, isso é nome de filme. Bjão do seu amigo.

    Zé Mário | 09-11-2003 21:06:53

    Concordo plenamente, Mafaldinha, q seria dos mocinhos se não houvesse os vilões? Bjinhos.

    Kamila | 08-11-2003 12:44:48

    Que texto bom! Ando precisando ouvir mais meu diabinho e calar meu anjinho, pois estou enjoada de mim mesma e minha eterna mania de menina boazinha… [recebeu o e-mail que mandei?] Beijos

    Moça | Email | Homepage | 08-11-2003 01:18:27

    Post sensacional. A maneira luxuriosa com que escreveu está despertando em mim a mais voraz das cobiças…rsrs. Aguardarei ansiosamente os próximos posts. Espero não ser traído pela gula. 🙂

    Mulder/RJ | Homepage | 07-11-2003 21:34:47

    Nossa senhora, a menina anda atacada… *rs Muito interessante seu texto, querida. Juízo. Hehe.

    Ful | Email | 07-11-2003 16:05:45

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