FILHOS SEM DONO

O artista é uma pessoa sensível, que consegue enxergar a beleza na maioria das coisas, as boas e as ruins. Como um alquimista, ele transforma em palavras, imagens, sons, movimentos, cheiros, cores, paladares, ações – aquelas sensações que todos temos na alma, mas muitas vezes não conseguimos expressar, traduzir, compartilhar, e coloca pra fora um pedaço dele mesmo. Corajoso, ele se expõe para receber os elogios e críticas de quem quiser olhar.

Ele é uma porta aberta entre os sentimentos e sonhos de quem faz e quem aprecia a obra de arte; nesse momento, o da apreciação, artista e apreciador estão unidos em um só tempo, uma só sintonia, não importa qual é a distância física entre eles. Com muita inspiração, e muito esforço também, o artista cria meios de comunicação entre as pessoas. Uma obra de arte diz um pouco sobre o que há em todos os seres humanos, as questões de todos nós, independente de tudo o mais; e por isso ela se propaga através dos tempos, por isso ela toca vários corações, por isso ela ajuda a tanta gente. É assim com uma peça de Shakespeare, com uma sinfonia de Bach, com a receita de pastel de Santa Clara bem feita, um romance de Machado de Assis, um poema do Fernando Pessoa, um filme do Kubrick, um quadro de Picasso ou Mundy, uma canção de Noel Rosa. Mesmo os artistas que não são tão originais, famosos, criativos ou geniais, conseguem atingir a alguns corações, mesmo que sejam poucos. E é aí que mora a beleza da Arte; e na minha opinião, é aí que mora a beleza da vida – na comunicação das almas. Não entendamos arte apenas como aquelas coisas que ficam encalacradas nas paredes dos museus, nas salas de concerto, nas estantes das bibliotecas. Arte é muito mais que isso. Está nas danças, sabores, melodias que vemos todos os dias no cotidiano. Um pedreiro que faz um muro criativo e coloca ali a força das suas angústias, fez arte. Uma mãe que faz um prato delicioso com amor para o seu filho, de sabor inigualável, faz arte. Qualquer trabalho, qualquer atividade, qualquer troca que seja feita de maneira criativa e sensível, de certa forma, é arte.

Se a beleza da coisa toda é esse diálogo entre quem faz e quem aprecia, se, antes de tudo, a arte nos une em reconhecimento das grandes questões humanas, quem é o dono da arte? De que serve um poema que nunca será lido? Uma pintura que nunca será vista? Uma música que nunca será ouvida? Falta um pedaço. É por isso que quem escreve, pinta, cozinha, esculpe, costura, cria, inventa… Gosta de divulgar seu trabalho, para um ou para todos. Gosta de saber que a mensagem que precisou desabafar, aquela que não coube lá dentro de tão grande que era e clamou pra sair, atingiu a alguém. O artista, quando é valorizado e apreciado ( ainda que seja criticado ), é acolhido, e se sente realizado. E quem aprecia pode recriar a partir dali, recriar, recriar e recriar ainda mais. E que bonito seria um mundo assim, coberto de todos os tipos de arte por todos os lados, coberto de sensibilidade e invenções.

Esse questionamento filosófico remete a uma questão prática muito preocupante: o dono da arte é o autor. E como autor, ele tem alguns direitos e deveres sobre o que fez. Tenho visto algumas coisas que preocupam, muito mais pelas intenções que pelas atitudes. Todo mundo acharia um crime de plágio, de roubo, punível por lei, se alguém tomasse como sua uma canção que não fez, um livro que não escreveu, um quadro que não pintou. Mas quando o assunto é Internet…

Quando o assunto é Internet, parece que já se institucionalizou um mau costume de simplesmente desprezar a autoria de qualquer tipo de texto, qualquer tipo de imagem, de idéia. Mexer no computador, depois de superados os estranhamentos iniciais, é uma coisa muito fácil e muito rápida, quase não dá tempo de pensar. É possível passar de uma idéia pra outra em segundos, mudar de site, de idéia, de autor em um espaço curtíssimo de tempo. No caso dos textos escritos, as pessoas recebem por e-mail e lêem em sites todos os dias milhares de textos que as emocionam – pelo menos enquanto estão lendo. Com menos de meia dúzia de cliques, elas podem copiar, colar, reencaminhar esses textos para outras tantas milhares de pessoas. Até aí, tudo bem, nada mal; a intenção de quem escreveu, aposto, era essa mesma: atingir a quantas pessoas fosse possível. O problema é quando aquele texto, aquele pedaço de alma que está ali, é repassado adiante sem o nome de seu pai ou sua mãe, ou o que é pior: maldosamente, com o nome de outros pais e outras mães. Isso dói em um autor. Não porque se deixe de ganhar algum retorno financeiro ( em alguns casos, pode até ser ) com isso, mas porque os nossos filhos têm dono; antes de ser de todos, eles são nossos, nasceram em nós. E temos orgulho deles. Gostaríamos de ser reconhecidos como produtores das palavras que escrevemos.

Os blogs, essa coisa interessante que foi criada para possibilitar ainda mais a expressão de pensamentos, idéias e afins, por exemplo… Têm me surpreendido a cada dia mais. No começo, eu achava que era apenas uma invasão generalizada de privacidade, onde as pessoas ficavam contando ao léo o que faziam ou deixavam de fazer, papo furado. Em alguns casos, é só isso mesmo. Mas em outros, pessoas criativas, sensíveis, alguns verdadeiros gênios, verdadeiros artistas, usam esse meio para divulgar o que pensam, o que sentem, trocar idéias, produzir verdadeiras pérolas. É incrível o talento que algumas pessoas têm com as palavras; pessoas que não ficam nada a dever aos grandes cronistas, romancistas, poetas ou colunistas clássicos. Em alguns casos, a gente lê e pensa: como essa pessoa pode estar aqui, escondidinha, sem ser reconhecida pelo mundo? Há muita coisa boa pra ler, tantas que eu gostaria muito de ter mais tempo pra apreciar. Algumas dessas pessoas não fazem questão de sucesso, usam o anonimato dos pseudônimos pra se expressar. Outras, são campeãs de audiência e ultrapassaram os limites do computador – estão escrevendo livros, fanzines, jornais, revistas. Outras, construíram, por semelhança de anseios e pensamentos, um grupo de amigos que troca idéias através das mensagens que mandam, e tudo isso é muito bom e louvável. Vivo repetindo que a comunicação de idéias é tudo nesse mundo louco, e repito mais uma vez. Tomara que cada vez mais as pessoas divulguem o que vai dentro delas e tentem se entender. Mas também essas pessoas querem o respeito de serem reconhecidas como donas do que fizeram.

Conto alguns casos: dia desses, recebi por email um texto – “A amizade entre mulheres”. Um dos meus passatempos prediletos é ler emails, leio todos. E começando a ler, tomei um susto. O texto era meu, postado aqui há um tempo atrás. Fiquei contente, de verdade, mas só até perceber que o texto estava atribuído a uma outra pessoa que eu nem sei quem é. A Moça Patrícia Daltro me conta a mesma história em seu blog. O texto dela, intitulado por outras pessoas como “Diário de uma Gorda” se espalhou como rastilho de pólvora em toda a rede em poucos dias, e vem assinado pelo tal “autor desconhecido”. Todas as segundas leio a coluna da Martha Medeiros, uma colunista extremamente hábil com as palavras, no site do Almas Gêmeas. Várias e várias vezes recebi textos dela atribuídos a Miguel Falabella, Clarice Lispector, Pablo Neruda… Ou o tal “autor desconhecido”. Recebo também muitos textos do Ziraldo, Drummond, Arnaldo Jabor, Millôr que eles nunca escreveram. Se por um lado, isso significa que as pessoas gostam do que escrevemos, por outro significa que não entenderam a pessoa que somos ( no caso da Martha, além da pessoa, a profissional ). No momento em que isso acontece, o diálogo, aquele entre quem faz e quem aprecia, se esvai, até se acabar; ou então fica unilateral. Fica de novo faltando um pedaço. O que a Patrícia e a Martha pensam sobre o assunto, você lê clicando nos nomes delas. E se informa também sobre a questão dos direitos autorais clicando aqui.

A Patrícia/ Moça, a Martha Medeiros, Veríssimo, Millôr, Jabor, Ziraldo, Lispector, Drummond… E até mesmo eu, a Mafalda/Karina, entre tantos outros, gostamos de escrever e tenho certeza que só nos sentimos satisfeitos quando sabemos que estamos sendo “lidos”, porque é nesse diálogo, entre leitor e escritor, que mora a intenção de tudo que produzimos através das palavras, no caso, transformadas em bites. Mas sem dúvida é triste, ofensivo e ilegal quando alguém pega um pedaço de nós e circula por aí sem nos apresentar como as pessoas que fizeram aquele texto, ou pior ainda, rouba esse mesmo pedaço e apresenta como se fosse seu. Isso, mais do que um crime legal, é uma inversão do sentido inicial da coisa. Alguém que faz isso até pode ter lido tudo que foi escrito… Mas não entendeu.

Como autores, não se trata de bancar os chatos, os cri-cris, as pedantes, nem de eximir-se de culpa. Eu mesma muitas vezes esqueço de procurar a autoria de textos que repasso, ou nem me lembro de citar explicitamente a fonte de certas imagens que uso ( nunca apago a origem delas, clicando na imagem com o botão direito do mouse, vocês descobrem de onde vieram ). Mas, como usuários da rede, temos que prestar mais atenção aos nossos hábitos, e tratar de mudar alguns deles. É básico citar as fontes, colocar entre aspas o que foi enxertado de outros autores em nossos textos, preocupar-se com quem escreveu aquilo que estamos recebendo por e-mail. Mais do que uma questão de cidadania… É uma questão de sensibilidade. Assim todos ficam felizes, quem escreve e quem lê. E é pra isso que estamos aqui, pra divulgar a felicidade e encher esse mundo de coisas belas, não pra perder tempo discutindo esse tipo de coisa que deveria ser compreensão básica. Vamos passar essa idéia adiante; essa vale a pena divulgar. Mesmo.

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Um comentário sobre “FILHOS SEM DONO

  1. Olá, Mafalda… Deixe-me explicar: tem sido cada vez mais difícil postar algo (conteúdo tenho saindo pra todos os lados…)o problema é o sistema. Só consigo internet no final de semana… e qdo vou escrever, o blogger estÁ sobrecarregado… tenho sobrecarga de idéias, sobrecarga de necessidades, sobrecarga de saudades, sobrecarga de textos/imagens… enfim… mando o blogger pra descarga! E minha limonada fica assim: sem nada… feito geladeira vazia (não que as coisas tenham mudado muito…)

    Ciça | Email | 30-11-2003 18:16:34

    Ainda não atualizou? Papai Noel já tá meio sem idéia, mas respondeu à sua cartinha… rs… Beijos!

    Luluka | Email | Homepage | 25-11-2003 14:06:40

    eu nem me acho, muito menos poderia achar o dos outros. 🙂 beijos

    fernando | Email | Homepage | 24-11-2003 00:19:33

    Concordo absolutamente com tudo que vc disse aqui e disse muito bem! Tenho visto pela internet pessoas discutindo sobre esse assunto também, como a autoria dada a quem não é de direito… mas muitas vezes fica dificil saber se a autoria do que vc recebe está correta ou não. E talvez até eu mesma já tenha incorrido nesse erro por não saber. Quando eu não conheço a autoria, eu coloco “autor desconhecido” mas vou mudar para “desconheço o autor”, acho que muda um pouco né… Gostei muito do seu blog! Obrigada pela visita ao meu! Volte sempre pq eu voltarei tb! Beijos!

    Luluka | Email | Homepage | 23-11-2003 19:08:15

    Ficou maravilhoso, Mafalda! Disse tudo! Sabe que ainda estou tão indignada que não consegui escrever um texto decente sobre o assunto? Mas, lendo o seu, percebo que é desnecessário, ficou ótimo! O Patolinus do blog o Batatada (tem link lá no meu blog) fez um banner excelente para divulgar essa idéia. E não sabia que também tinha acontecido com você, é engraçado, agora estou sabendo de um monte de casos assim, mas as reações são diversas, uns acham que é assim mesmo (odeio essa atitude), outros querem fazer algo para tentar mudar essa mentalidade, me incluo nesses e estou procurando pessoas afins para começarmos uma campanha. Beijos.

    Moça | Email | Homepage | 22-11-2003 22:01:01

    Bom, agora q parece q eu posso comentar, quero dizer q espero q vc se lembre dos amigos qdo for uma celebridade. Hehe. Brincadeiras de lado, vc tem toda razão em tdo q escreveu. Eu mesmo faço besteira de vez em qdo nesse sentido. Vou me policiar melhor, e prometo tomar cuidado ao repassar seus textos, pra citar bem a autoria. Bijocas.

    Zé Mário | Email | 22-11-2003 10:42:03

    Porcaria de sistema, desde ontem tento deixar comentário e não consigo.

    Zé Mário | 22-11-2003 10:20:16

    Ola karina.Sou grande admiradora dos seus textos.E meus amigos, em sua grande maioria, adoram recebe-los.Nunca deixei de colocar seu nominho como autora.Concordo com vc e muitas vezes ja enviei e-mail c autoria errada ou sem, não por maldade, mais p/q já os recebi assim.

    Penny | Email | 21-11-2003 13:49:03

    É um absurdo mesmo isso que muitas pessoas fazem – pura falta de sensibilidade. Eu, como leitora assídua do seu blog, já encaminhei alguns dos seus textos aos meus amigos… mas nunca esqueci – e faço questão – de citar e divulgar a fonte!

    Carla | Email | 20-11-2003 11:14:07

    Ai miga, que chato hein! Poxa vida! Mas, não há de ser nada, isso é só mais um sinal de q vc escreve muito bem! Beijocas!

    Catarina | Homepage | 20-11-2003 00:29:58

    Querida Mafalda, sabe a admiração que tenho por você? Pois é, cada dia que se passa, ela aumenta ainda mais. Claro que não poderia ser diferente, você é uma grande artista. Parabéns! Vou fazer minha parte, enviando seu texto, não para que sirva apenas de alerta para os grandes artistas como você, mas também para chegar aos medíocres que fazem esse tipo de coisa. Super beijo, Paty

    Paty | Email | 19-11-2003 23:19:35

    Ótimo. É isso aí, miguinha. Falou (isto é, postou) tudo. Concordo plenamente. Beijo grande. :-****

    Mulder/RJ | Homepage | 19-11-2003 23:06:37

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