DODÓI

O pior de ficar doente ( doenças dessas que todo mundo tem de vez em quando ), com certeza, é a sensação de impotência. Um corpo estranho simplesmente aloja-se no seu, e vai te incomodando, segue te incomodando, até o incômodo ficar difícil de aguentar e você tomar uma providência. E você fica sem entender como é que de uma hora pra outra, quando tudo estava bem, simplesmente acontece de você se sentir mal, mal, mal.

A dor… O que dizer da dor? Essa coisa absurda que tira sua paz e te impede de pensar em qualquer coisa que não seja ela mesma – exigente, a danada. Pode ser dor de cabeça, de dente, dor muscular, dor de machucado, ardência, formigamento, fisgadas. O vocabulário patológico é imenso. Pode ser aquela dor aguda e forte, que quase faz você desmaiar de tão desgracenta. Ou aquela crônica, que vai te pegando aos pouquinhos, piorando, piorando, piorando até que você se dá conta do quanto ela pode ser mais forte que você. Na briga com ela, até que ela deixe de existir, você sempre sai perdendo. Perde a concentração, a paciência. Fica ali, com vontade de chorar feito um bebê. E em alguns casos chora mesmo.

Além da dor, as doenças vêm acompanhadas de outros poréns. Moleza. Febre. Coriza. Palidez. Falta de apetite. Manchas na pele. Olheiras. Perca do brilho e de alguns fios de cabelo. Olhos opacos. Enjôo. Gosto amargo na boca. Desânimo. Insônia. Vontade de deitar e ficar ali deitada eternamente. E uma saudade forte e dolorida de quando você estava boa e podia mandar o seu corpo fazer o que você decidisse. Geralmente é nessa hora que você percebe o valor que a saúde tem. Coisa que você misteriosamente esquece quando fica boa de novo.

A doença te joga algumas verdades no rosto. A primeira delas é essa: você pode ser grande, mas não é do tamanho de um vírus folgado, de uma bactéria malcriada, de um micróbio petulante. Você é falível. E quando eles chegam, você tem uma pequena amostra do que pode ser a vida tendo que dividir o seu corpo com esses seres. E tem a certeza que vai morrer um dia, e, o pior: pode sofrer muito até que isso aconteça.

A segunda verdade é que médico de pronto socorro, via de regra, é um profissional que só sabe dar um diagnóstico: “você tem uma virose de origem desconhecida que vai melhorando aos poucos, basta você repousar e evitar algumas coisas. Tome aqui esse remedinho, e volte se não melhorar daqui a uma semana.” E quando você volta, ele repete tudo de novo, subestimando a sua inteligência.

Outra coisa difícil é você admitir que muita coisa poderia ser evitada com um pouco mais de cuidado. Meu caso, por exemplo. Não tinha como não ficar mal. Trabalhando 10 horas ininterruptas por dia, muitas delas andando de um lado por outro e de pé; fazendo a primeira refeição só às 3 horas da tarde; convivendo com dezenas de crianças gripadas; cheia de preocupações e de coisas pra resolver e sem conseguir sair do lugar; sem ânimo pra aceitar um mísero convite de cinema ou pra tomar um café; sem tempo pra cuidar das minhas plantas, da minha tartaruga, pra fazer tudo que eu gosto; sem tempo pra pensar em mim, no que eu quero, no que eu preciso; com uma faculdade chata pra terminar; cada vez mais longe dos amigos; sem dinheiro, sem estar apaixonada, sem previsão de grandes mudanças; e com uma chefe insuportável de chata e folgada no meu pé… Claro, tinha que dar nisso. Estresse, baixa resistência, e uma tal virose somada a uma dor nos ombros que me deixou derrubada e que me obrigou a parar na marra. Minha ex-terapeuta costumava dizer que o corpo é muito mais sábio que a nossa vontade, e quando a gente teima em fazer besteira, ele avisa: “peralá, que você não é de ferro, precisa de descanso e diversão”. E quando a gente não escuta, ele berra bem alto, do jeito que pode. E faz muito bem.

Mas no meio disso tudo… Essa coisa de ficar doente tem um outro lado. O lado de sentir-se desprotegida, frágil, fraca, tonta. O lado de não poder se virar sozinha, de precisar ouvir algo bom, de ter que andar devagar e se segurando nas coisas, de se sentir feia, ridícula, boba. De querer colo. De querer quem coloque o termômetro debaixo do seu braço e leve no médico. De precisar quem dê recados e resolva coisinhas pra você. De querer alguém pra ficar do seu ladinho, preocupado com você, te garantindo que tudo vai passar dali a uns dias. Alguém que vá fazer sopinha pra você ficar forte e te lembre da hora dos remédios. Alguém que telefone pra saber se você melhorou, que te mande e-mails gentis dizendo que sente sua falta, que puxe sua orelha e diga que avisou que você estava exagerando, alguém que estranhe seu sumiço. Alguém que faça você relaxar te garantindo que você não é insubstituível, e que as coisas vão andar bem até você melhorar. Alguém que cuide de você, ou melhor ainda: que te faça entender que você pode ser cuidada, que merece isso. Alguém que, de um jeito seguro e doce, faça você entender que às vezes a gente acaba tendo que depender de alguém, e que isso não é ruim, muito pelo contrário. Pode ser a mãe, o pai, irmão, irmã. Amigos de casa, do trabalho, amigos on-line, amigos de longa data, melhores amigos. Amores, pseudo-amores, paqueras. É bom saber que quando você precisa, as pessoas aparecem pra ajudar e mostrar carinho. Claro, sua dor, seu incômodo, isso ninguém pode passar por você. Mas saber que tem alguém passando com você é reconfortante, e quase tão importante pra sua recuperação quanto as pílulas e injeções.

Se é um pouco irritante depender dos outros, e se acostumar com a idéia de que você precisa aprender a confiar em outras pessoas além de você mesma… Por outro lado, é mais doído ainda se sentir abandonada e sem proteção. Experimentei um pouco de tudo, do calor do conforto e do frio do abandono esses dias e aprendi um bocado de coisas. Duas das mais importantes: a primeira a cuidar bem de mim tem que ser eu mesma; e quando eu falho, é bom deixar que os outros façam isso por mim.

Daqui a uma semana esse mal estar todo é passado. Mas vai ficar algo parecido com os versos do Renato Russo:

“Celebro todo dia
Minha vida e meus amigos
Eu acredito em mim
E continuo limpo.”

( Sei que este blog está virando um muro de lamentações, mas essa fase de lua minguante está acabando, agora só tem um fiozinho. E depois vem aquela outra fase, de lua nova, de ficar escondida bolando as coisas incríveis que vão acontecer. E depois aquela outra fase deliciosa, de lua crescente, que vai enchendo aos poucos até brilhar com plenitude, pra depois minguar de novo… A vida é isso mesmo, esse vai e volta, esse sobe e desce. Acho que essa explicação é mais pra mim mesma do que pra qualquer eventual leitor que esteja de saco cheio de me ouvir reclamar. 🙂 Além do quê, só falta uma semana pras minhas férias. :-)))))))))))))))))))))))))))

E antes que eu me esqueça… Obrigada pelo carinho de todos vocês. :-*

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3 comentários sobre “DODÓI

  1. Kari… vc esqueceu de valorizar o lado bom de ficar dodói… (pq tem siiiim!) Td bem essa coisa de impotência, de se sentir boba ou ridícula… mas… é uma delícia ficar alguém mimando a gente… perguntando se dói (aí vc fala assim “aaai… dói muuuuuuuuito”)… Melhoras!!! Bjinhos de vitamina C!!

    Vivi | Email | Homepage | 19-12-2003 15:22:53

    Como as luas são felizes! Melhoras, mocinha =** te adoro.

    Sabina | 17-12-2003 12:06:18

    Ah, guria! Tá dodói? Sabe, não vou dizer que passa, mas vou lembrar Proust. Qdo a gente sara, parece que o mundo ganha novas cores. Então, que teu mundo fique todo colorido loguinho. Beijos,

    mafalda | Email | Homepage | 16-12-2003 15:24:13

    Não sinto como muro de lamentações não, são desabafos, é o dia a dia, quem não tem gripe? quem não sente dor? E se ela não existisse, o que seria do prazer! Beijão garota!

    Mônica | Email | Homepage | 16-12-2003 13:23:45

    É bom poder fazer um pouquinho de manha e receber cuidados e carinhos, aproveite o lado bom! Estou torcendo pela sua melhora!! Beijos

    Ragazza Pazza | Homepage | 16-12-2003 11:03:31

    Miga….q está havendo? Já percebi que você está dodói, mas tô por fora de tudo… Chego na segunda e te ligo logo q puder, beijocas! (Me diverti bastante, depois publico algumas fotos)

    Penélope | Homepage | 14-12-2003 17:58:40

    Lindíssima, como diz o filósofo: faz parte. e amigo é pra todo momento, não é mesmo? Então, não se preocupe.Reclame o que tiver que reclamar, desabafe mesmo. E descanse, se dê o tempo necessário. Afinal de contas, você nos é muito importante. E eu não sabia que teu nome é Karina. Acho liiiiiiindo o seu nome!!! beijos e fica bem.

    Cacau | Email | Homepage | 14-12-2003 12:08:27

    Sei que vc ainda não melhorou muito de saúde, mas isso tudo vai passar sim. Que post bonito, Karina, lindo mesmo, de emocionar. Vai dar tdo certo. :)))))) Bjos desse seu amigo que te adora.

    Ful | Email | 14-12-2003 10:58:01

    Ai, Mafaldinha, querida você descreveu com exatidão como eu me senti semana passada inteirinha… Melhoras para você que eu já melhorei! Beijocas!

    moonthoughts | Homepage | 13-12-2003 17:29:04

    Ficar doente é mesmo uma droga. Mas mesmo doente a srta consegue escrever textos formidáveis. Parece até jura de casamento: “Na saúde ou na doença… prometo escrever ótimos posts”. rsrs Beijão, minha querida. Melhoras, viu?! :-**

    Mulder/RJ | Homepage | 13-12-2003 14:50:35

    calma miga!!!!! as férias tão chegando e dessa vez vou trazer vc pra passar uma semana aqui em casa mas nem que a vaca tussa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! vc é amada idolatrada salve salve por tds os seus amigos, apaixonados ( pelo q eu andei sabendo, a fila tá enoooooooooorme, hehe ) e até por aqueles ex trastes que vc arrumou, então se é como vc diz, relaxa q no final dá td certo! bjos, miga, eu te amo mto, vc vai ficar boa logo.

    Jú | 13-12-2003 11:02:59

    Muro de lamentações nada! Lindo o que você escreveu… Identifiquei-me de tal forma que estou com os olhos cheios d’água… Nossa, teu blog muda de cor! Que susto! Achei que estivesse louco… Primeira vez que venho aqui, e, pelo visto, não será a última.. Que texto bem escrito… só que foi maldade sua falar assim de médico de PS! Eles sabem demais… cê nem imagina… Beijo…

    Tigre | Email | Homepage | 13-12-2003 08:58:05

    Existem certas frases que soam clichê, até mesmo bregas, e acabam resvalando no ridículo. Mas basta se deter um pouco no conteúdo para redescobrir a verdade contida desta sentença: amor é o melhor remédio, seja ele o amor de um namorado, de uma mãe zelosa ou de um amigo presente. Remédios e sopinhas são imprescindíveis, ok, mas sorrisos e carinhos certamente catalisam o efeito das medicações em nosso corpo. Torço, pois, para que você, que me parece ser uma pessoa excepcional, recupere-se logo, cercada pelos amigos que você possui, e consciente de que para reconhecer-se frágil e dependente de outras pessoas, é preciso ter bastante coragem. 🙂 Um beijabraço pra ti e bom fim de semana!

    Inagaki | Email | Homepage | 13-12-2003 07:51:33

    Que sua lua cheia chegue logo! Saúde procê!

    Carla | Email | 13-12-2003 04:01:13

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  2. Mafalda, faço minhas as suas palavras!! estar dodói é exatamente isso, é querer dormir o dia inteiro, e a noite mais ainda, é querer ser mimada e ter saudade de quando estava bem e dizia “casaco pra quê?” Melhoras pra gnt!! bjinhus

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