DROPS DE JILÓ

Pessoas, que coisa… Meu pc, velho companheiro de tantas letras e leituras finalmente deu sua derradeira participação em minha já atribulada vida ( como se eu precisasse de mais uma dor de cabeça ): incendiou-se dia desses, nos dando um susto enorme aqui em casa e sinalizando que, agora, definitivamente, não tem mais conserto. Ele me deixou na mão! Por isso a ausência nos posts e nos comentários dos blogs de vocês, que eu adoro ler.

O vício me fez vir a uma dessas casas que oferecem acesso pago à Internet ( não sabia que sentiria tanta falta de escrever… Acho que realmente viciei ). Quero avisá-los que em breve, muito breve, volto, de pc novo, mais rápido, mais bonito, mais tudo… E com uma vida mais sossegada. Aguardem-me. 🙂

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UMA ESTRADA LONGA

Quando alguém vai embora, o dia, ainda que o sol brilhe e o céu esteja azul, fica cinzento, chuvoso, amuado. Um frio constante abaixa a temperatura do corpo, fazendo com que se fique encolhido e com o olhar perdido, como se tivessem apagado uma chama de dentro do coração. Chama esta que pode até voltar a se acender ( e é desejável que reacenda ). Mas sempre haverá uma falha nela – a falha deixada pelo alguém que foi embora.

Quando alguém vai embora, para nunca mais voltar, a alma leva um grande choque, por mais que a cabeça entenda que tudo, absolutamente tudo nessa vida é provisório e passageiro, que os caminhos se cruzam e se descruzam, e que certas coisas são inevitáveis. Então, a alma se veste do mais suntuoso negro, recolhendo-se, e ficando vazia e triste. Às vezes, os olhos, as mãos, a boca vazam essa tristeza; outras vezes, não há ânimo nem para isso. E assim, vestida de negro, a alma contempla a vida, esperando a hora de voltar a sorrir, ainda que o sorriso tenha um traço leve de tristeza – o traço deixado pelo alguém que foi embora.

Quando alguém vai embora, o tempo castiga quem ficou. O dia tem mais horas, os minutos mais segundos, e tudo é mais demorado e difícil. Às vezes, sente-se a densidade dos momentos passando, quase tão pesada que se poderia tocar com a mão. E, nessas horas, chega-se a ter certeza que jamais se poderá seguir com a vida em frente com a falta tamanha que aquele alguém que foi embora faz. Mas a vida segue, e quem ficou segue com ela.

Quando alguém vai embora, quase sempre vem um arrependimento, e a sensação estranha de que não há mais chances. Fica-se pensando na conversa importante que não houve, na declaração que não foi feita, no carinho que se deixou pra depois, nos erros que foram cometidos, no desabafo que não foi externado, no amor que ficou pra ser sentido, no tempo que era pra ser vivido juntos e cheio de tantas coisas, e agora tem que ser passado em solidão. E tudo isso vai formando um nó que tampa a garganta, interrompe a respiração durante o sono, não te deixa comer e provoca uma sensação de abandono que só poderia ser deixada por aquele alguém que foi embora, porque cada história é única.

Quando alguém vai embora, quem ficou percebe coisas que antes não eram percebidas, e quanto mais o tempo passa, mais se percebe. Começa a fazer falta aquele olhar de carinho ou reprovação, aquela voz invadindo a casa, aquela obrigação quase chata de ter que dar um telefonema, aquele jeito de falar e abraçar; e no começo dá a impressão de que tudo isso ficará perdido em algum lugar inatingível. As datas especiais ficam doloridas. Os códigos que só podem existir entre uma e outra pessoa que se gostam ficam sem sentido. A voz daquela pessoa soa em momentos inesperados, e o coração dói levemente. E quem ficou percebe que ninguém pode tomar o lugar daquele alguém que foi embora.

Quando alguém vai embora, as dúvidas começam a rondar a cabeça, e a fé sofre um abatimento. Percebe-se que o mais forte dos homens, a mais abençoada das mulheres, o mais saudável ser, um dia, sucumbe. Percebe-se que a existência é frágil. Vem a raiva, a percepção da impotência, o medo. Duvida-se da vida, da morte, de Deus, das pessoas, do amor. Assim como vem, as dúvidas vão e voltam sem resposta, porque não há respostas. E tudo isso pode virar amadurecimento ou amargura, dependendo de como quem fica quer aproveitar a experiência de perder o alguém que foi embora.

A verdade é que o mundo todo acaba quando alguém vai embora. E não dá a menor vontade de reconstruir nada. Nada.

Quando alguém vai embora, normalmente, se tem o carinho dos outros que ficam, e, passando pela mesma dor ou não, se preocupam em ser um consolo. E os abraços, os carinhos, as palavras, as lágrimas solidárias, o calor da alma dessas pessoas vai começando a esquentar a alma fria de quem ficou, a fazer efeito e recuperar o coração quebrado. E é nessas horas que se percebe o valor que tem dividir a vida com muitas pessoas em todos os momentos, porque são elas, e não o alguém que foi embora, que vão ajudando a levantar e olhar pra frente.

Quando alguém vai embora, quem ficou começa a trilhar uma estrada longa, que tem um nome melancólico – saudade. Essa estrada, a princípio, é enlameada, escorregadia, escura, esburacada; e muitas vezes faz cair, machucar, e quase desistir de andar. A dor é tão profunda, e parece estar enraizada em um lugar tão inacessível, que parece que nunca vai sarar. Mas ela sara. Aos poucos, ela sara. E aí chega a hora de deixar o tempo fazer seu trabalho. Chega a hora de sorrir de novo. De deixar as lembranças serem somente lembranças. De tirar o manto negro da alma. E, de repente, a estrada, apesar de a cada dia ter mais uns passos de distância, vai se tornando cada vez mais leve, mais iluminada, bonita até. E quem ficou percebe que, na verdade, aquele alguém pode até ter ido embora, mas nunca deixou de existir, e isso é uma forma de vida. A mesma vida que segue por tantas outras estradas que vão se cruzando, descruzando, e nunca voltam. E percebe-se que só se tem a agradecer a oportunidade de ter estado com aquele alguém que foi embora, mas sempre estará presente, de alguma forma. E então vem aquela paz que só o amor de verdade pode dar.

Amiga querida, coloque a salvo o seu coração, porque não há como evitar a dor. Mas ela fica mais leve se você segurar nas mãos de quem te ama. A nossa está estendida pra você. Todos nós um dia passamos pela dor de perder alguém que vai embora. E todos podemos sobreviver, como você vai sobreviver.

SÃO PAULO, MEU AMOR!

( Este é um post coletivo, com colaborações de alguns amigos. Não resumi e nem mudei nenhum texto, por isso o post ficou gigante, e confuso, mas bonito, como a própria Sampa. Os trechos que não estão em itálico são de minha autoria. 🙂 )

Ontem estávamos, eu e mais 50 000 pessoas, reunidas na esquina mais famosa de São Paulo ( o cruzamento da Ipiranga com a São João ) para comemorar o aniversário de 450 anos dessa cidade tão amada e tão odiada. Difícil dizer o que se sente nessas horas. Quando Caetano Veloso, no final do show, começou a entoar “Sampa”, a canção que ele fez para a cidade, de fato, alguma coisa aconteceu no nosso coração, independente de todo o resto. Naquela hora, os prédios, as ruas, as pessoas, a música, éramos todos uma coisa só, e deu pra sentir o que realmente é essa tal Sampa.

“Sabe, eu já tinha decidido não escrever nada. Hoje é dia 23, e o prazo que você, miga querida, deu é até amanhã. Mas aí, pensei que não poderia – mesmo que modestamente – deixar de homenagear a nossa São Paulo. Sim, nossa! O que eu mais amo neste bendito lugar é o fato de ele ser de todos. De termos saído sei lá de quais cantos do mundo para nos encontrarmos aqui. E sou feliz porque aqui não me sinto diferente de ninguém, simplesmente porque ser igual não faz muito nosso estilo, não é mesmo?
Somos diferentes, estranhos, excêntricos, chamem do que quiserem. Somos da cidade que tem pessoas demais, carros, barulho, poluição. Somos da cidade que é demais. A cidade de concreto, embelezada por quem vive nela, e tem orgulho de ter fama de trabalhador. Um centro de desigualdade e injustiça. Um sonho para os que procuram oportunidades, festa para os baladeiros e para a gastronomia.
Eu não sabia que amava São Paulo, até conhecer tanta gente de fora dela, e passar um tempo longe. Foi então que percebi que existem lugares paradisíacos, sol aberto o dia todo, gente tranqüila passeando lentamente… E aí senti falta daqui. Não que eu não tenha gostado dos lugares, mas é aqui o meu lar. É aqui, com aqueles edifícios, magníficos ou horrorosos, com o solzinho da manhã, o friozinho e a garoa da tarde, com o estresse, com a paz no final de um dia de luta, com a noite que não pára, com a vida.
É aqui. É nesta mistura de raças e religiões. É nas muitas São Paulo em uma só. É neste lugar absurdo onde nasci, e sinto que jamais conseguirei deixar de dar uns pulinhos para cá, seja lá qual caminho a minha vida tome, e para onde eu vá. Porque paulistano que é paulistano, é um cidadão do mundo nato, mas leva sempre a terra da garoa no coração. Parabéns, São Paulo!”
Tatiana

“Sampa

Sampa – duras ruas caóticas e deslineares
Sampa – sintaxe confusa de sonhos e sons
Sampa – olhares montagem controle remoto
Sampa – broto cinza de crescimento desconexo
Em tuas esquinas me perco e me reencontro
Monstro de gentilezas insuspeitadas
Peito forjado em luz e arabescos
Teu luar anêmico fura o céu sem estrelas
E observa impassível os homens cansados
Sampa, teus sinais verdes são escoamentos de gente
Teus ônibus cheios são viagens redentoras
Nas filas de banco pensando em nada
Pensando pensando pensando e nada
Parques de concreto e lutas abstratas
Putas e pivetes famintos na esquina
Praças, latrinas abertas ao público
Sampa – pútrida, mas tão bela cidade
Sampa que amo e suporto
O silêncio incômodo dos elevadores
A música dispersa das paixões sem espelho
Bocas amargas de palavras recolhidas
E a solidão realçada pela multidão
O vento da madrugada na saída do bar
O azul do céu quando nasce a manhã
A beleza inesperada de tua aurora
Como inesperado é o sorriso banhado em sol e esperança
Uma queda e um reerguer-se contínuos
Sampa, meu coração e minhas angústias

E caminham apressados carregando suas dores
Caminham apressados como se fugissem
Como se pudessem fugir”
Alexandre Inagaki

O show que abriu as comemorações do dia 25 era um retrato perfeito da cidade. Gente demais ( quase 50 000 pessoas se apertando em um espaço pequeno ). Problemas de estrutura, apesar do planejamento ( o som estava péssimo ). O clima estranho ( pessoas colocavam e tiravam o agasalho ). A garoa insistente que não parou um segundo. A separação entre os ricos, chiques e famosos ( que ganharam um lugar especial bem em frente ao palco com direito a cadeiras e capas de chuva ) e o restante da população. Todo, absolutamente todo tipo de gente: velhinhos de terno e gravata, rappers, mauricinhos e patricinhas, manos adolescentes, artistas famosos e não-famosos, políticos, amigos abraçados, mulheres, homens, crianças, policiais, mendigos, maconheiros de carteirinha, mulheres com medo de estragar o penteado por causa da chuva, gente animada e desanimada – milhares de paulistanos orgulhosos de sua terra, felizes em estar ali, apesar dos problemas, comemorando o aniversário da cidade que adoram acima de tudo.

“Sempre achei difícil definir minha relação meio sado-maso com esta megalópolis… às vezes tenho vontade de sumir por causa de tantas injustiças, de tanta solidão, do custo de vida exorbitante, de tanta violência, de tanta coisa feia que vejo por aqui. Por outro lado, lembro da liberdade que o anonimato da cidade grande confere a seus habitantes, da vida cultural intensa, das oportunidades de trabalho, dos salários (que são melhores que em muitos lugares…), enfim de tudo de bom que São Paulo nos oferece. O saldo, no final, sempre pende para o lado positivo e vou ficando… Já são 37 anos e acho que não vou mudar daqui tão cedo! Mesmo se mudar, tenho certeza que voltarei periodicamente para curtir tudas as coisas boas e ignorar as ruins!”
Carla Capelo

“Sampa para todos
Eu tinha tudo para nascer em São Paulo. Porque ela é uma cidade de oportunidades, e, antes de tudo, uma terra acolhedora. Acolheu meu pai vindo de Minas Gerais, que para cá teve de vir pois na cidade onde ele morava não havia curso de Humanas no colegial, só o tal do Científico. Ele teve de vir cedo, morou em pensão. Sampa acolheu também minha mãe vinda do Noroeste Paulista, já que naquele lugar não havia espaço para mulheres que ambicionavam mais que uma modesta vida rural.
Mas meu avô paterno quis que eu nascesse mineiro, como todos os outros netos, ainda mais sendo eu o primogênito de seu primogênito. Fazer o quê. Virei o quarto José Marcos Resende de Varginha. Mas com quinze dias de vida já estava de volta, para morar em Perdizes, bairro muito bom de se viver. E foi assim até os 19 anos.
Meu bairro é uma delícia, tranqüilo pra se morar. Quando eu era pequeno, ia muito ao Parque da Água Branca, havia rodeios o ano inteiro, além de feiras de bichos onde eu conseguia pintinhos grátis e balões de hélio do Pato Donald. Os palmeirenses dominam, a casa deles fica perto, de minha janela posso ouvir o êxtase alviverde quando sai gol.
Efervesce cultura, vinda do SESC Pompéia – quem conhece o lugar, volta com certeza. Os shows que acontecem são escola pra muita gente boa. Titãs, Ira, Zeca Baleiro, Chico César são os que me vêm a cabeça agora. Tem um monte de loucos que fazem arte como ninguém (Quem quer ser normal por aqui?) e organizam uma feira anual que reúne milhares de pessoas.
Um dia, porém, tomei o caminho contrário de meus pais:
fui para o interior, para estudar medicina; deixei Sampa.
No entanto, já há três anos, a 250 km de distância, reconheço a multiplicidade da Terra da Garoa, que me bota para repensar o conceito de qualidade de vida. Dizem que o interior é muito melhor, pois lá não se enfrenta congestionamento, não se estressa. Que lá não há violência, não há medo, pode-se jogar bola na rua. Vá lá.
Mas só São Paulo reserva as mais belas surpresas que se pode ter.
Cite-se a Avenida Paulista, cartão-postal paulistano. A tal da qualidade de vida, afinal, nada é senão simplesmente caminhar por ela procurando e encontrando qualquer coisa, parque ou livraria, igreja ou shopping, hospital ou hotel, em plena hora do rush, olhando roupas e cabelos os mais contrastantes possíveis.
Lá na avenida é onde acontece um mundo de coisa que nem sabemos: ao lado dos principais bancos, verdadeiros centros financeiros da América Latina, pode haver um palco escondido abrigando um mini-concerto de jazz, na frente do qual pode estar o oriental a vender o saboroso yakissoba na calçada. Ao mesmo tempo em que coreanos vendem contrabando eletrônico desconfiados, Picassos e Mirós expõem-se dois quarteirões à frente, no MASP. É uma profusão de executivos engravatados passando calor quando saem para almoçar ao meio-dia, esbarrando nos hippies que lhes tentam vender esculturas de durepox na calçada de um prédio de arquitetura ultramoderna.
Ainda que não tenha nascido em São Paulo, radico-me paulistano desde já, se inconscientemente ainda o não tivesse feito antes. Obrigado, seu Anchieta.”
Tigre

Como paulistana, me emocionei, sim. Me emocionei por sentir que sou parte daquela esquina, daquelas ruas, daquela garoa, daquela gente. É bom saber que tenho um lar. E que o meu lar tem tantas facetas, é tão complexo, está cheio de coisas para descobrir. E bom saber que tudo isso é um retrato de mim mesma.

“O que é São Paulo? Em uma descrição fria e calculista seria o centro social e econômico de um país chamado Brasil, como diz uma propaganda recente, ou a locomotiva que carrega esse mesmo Brasil, ou a cidade que nunca para, enfim, tantas definições que enaltecem a grandiosidade de nossa cidade, mas que nem chegam perto de seu verdadeiro tesouro: nós, seus ilustres moradores. Nós, que fazemos com que ela seja muito mais do que arranha-céus de concreto e vidro, mas lhe damos alma em cada de nossos passos apressados, de nossas tentativas de acelerar os carros em vias congestionadas, de compras em horários impensáveis, nas mordidas dos deliciosos pastéis de feira, nos casacos tirados as pressas do armário por causa de outra frente fria, nos restaurantes que enchemos com gargalhadas e rodas de amigos, nos passeios nos parques , seja ele do Ibirapuera ou Villa Lobos, nos exercícios de fim de semana nas vias públicas, na pizza de sábado à noite, no cineminha das quartas-feiras…
E basta ver a cidade na semana entre Natal e Ano Novo para percebemos isso. Em um primeiro momento podemos achar até divertido poder atravessar a rua em paz ou dirigir usando a quarta marcha pelo menos uma vez no ano, mas logo bate a sensação de estranheza, de que algo está errado, está faltando alguma coisa. Sim!!! É a vida, somos nós, o seu povo que faz de São Paulo um lugar tão especial, que guarda na sua grandiosidade assustadora olhares e semblantes que a torna bela.”
Alessandra

“Gosto do caos e, sobretudo da energia que é preciso desenvolver para enfrentá-lo.
Gosto do vigor que emana das cidades, da luta e do trabalho que elas representam. Tenho, portanto, um amor enorme por São Paulo. Amor bandido? Não sei dizer…
São Paulo é linda, feia, generosa, violenta, absoluta. Custa a dar conta do recado.
Muito grande, é como um filho que cresceu demais, antes da hora, perdeu roupas, personalidade, mudou…
Bizarra é a forma dos antigos descreverem o Rio Tietê, sua beleza, clareza e limpeza.
Rio genuinamente paulista corria com soberania e altivez pelo interior. Hoje é irracionalmente cruel e imundo! De qualquer forma, faz parte da cidade, faz parte de nós paulistanos, que contemplamos tristes sua triste decadência.
São Paulo pecou, cometeu pecado grave!
Amou, demais, se entregou demais, recebeu demais, se doou, foi muito generosa!
Coração bom, não avisava que não havia mais espaço. A casa não era tão grande como todos pensavam, os convidados e os que se convidavam, não caberiam, ficariam mal acomodados.
A cidade não dizia nada. Ia ajeitando como podia. Um canto ali, um espaço acolá, bastava chegar: “Pode entrar, que a casa é sua!”.
Como exagero tem preço, hoje paga caro.
Ao amar, não tinha consciência de receber alguma recompensa. Os generosos nunca têm. Mas ela veio… Chegou rapidamente, sem cerimônia, sem pedir licença.
São Paulo assim, foi erguida por imigrantes vindos do interior paulista, nordestino, do mundo todo.
Árabes, judeus, italianos, armênios, japoneses, incontáveis raças, incontáveis nacionalidades. Todos trabalharam duro, construíram e no afã da labuta, esqueceram de organizar a “Torre da Babel”.
O país de todo ser humano é sem dúvida, aquele que os acolhe.
E a “Paulicéia Desvairada” aqui de braços abertos, sempre generosa!
Escolhendo São Paulo sua terra, os muitos que aqui chegaram, fizeram desta metrópole um caos divino, agitado, inquieto, irresistível…
Obras primas, reminiscências… ora imperiais, ora falidas, interessantes e devastadas, não perdem a majestade!
E a favela, no meio desse caos absoluto e pitoresco, é cheia de vitalidade.
São Paulo que amanhece trabalhando…abraça artistas, escultores, pintores, cantores, os incentiva, sempre generosa!
“Bandeira da minha terra, Bandeira das treze listas.
São treze lanças de guerra cercando o chão dos paulistas”.
As listas não são mais treze, há muito são infinitas. E os que aqui ficam são guerreiros, são verdadeiros paulistas!
Vejo-te linda! Diva, morena, brejeira, viciada, mal amada, ansiosa, cheia de feridas.
Precisam ser tratadas.
Mesmo doente, vale a pena ficar perto de você, viver a seu lado.
Se cuide minha amada, precisamos de você.Todos precisam!!!”
Mônica

“Sampa foi a minha casa quando deixei Recife, com 18 anos, pra tentar minha vida sozinho em outro lugar. No começo, me assustei. Muita gente, muita pressa, pessoas andando pra lá e pra cá, cada um cuidando da sua vida, e parecia que ninguém reparava naquele menino assustado que tinha duas malas na mão e um endereço de uma pensãozinha no bolso. Nem um parente, nem um conhecido. Achei que não ia mais ver o rosto de um vizinho sorrindo, conhecer o dono da padaria da esquina, ou pedir uma xícara de açúcar na porta do lado, como minha mãe fazia numa emergência. Depois de instalado na pensão, eu fui passear na Avenida Paulista. E lá eu sentei em um banco do ponto do ônibus e chorei horas, sentindo aquela solidão no meio de tantos prédios.
Aos poucos, fui descobrindo as pessoas e os lugares. Quando se faz um amigo por aqui, o tem para toda vida. Fui reparando nas esquinas atrás dos prédios, cheia de gente interessante, que conversa, sorri, diz bom dia, é solidária, trabalha, e muito. Aqui é uma terra produtiva, charmosa, agitada, cheia de coisas boas pra se fazer. Eu, que sempre amei o conhecimento e a arte, achei aqui um paraíso que eu curtia aos poucos nos sebos de livros raros, nos cinemas, nos teatros, naquela Cidade Universitária linda, nas pessoas que lêem jornal nas praças e gostam de saber de tudo, nos muros pintados como quadros e nas frases inteligentes rabiscadas nos orelhões públicos. Essa cidade respira cultura e bom gosto, e é extremamente democrática!
É uma cidade nervosa, cheia de coisas pra oferecer, e que exige muito de nós também. Me recebeu de braços abertos, me fez crescer, me ajudou a virar um homem de verdade, honesto, esforçado, batalhador, como a grande maioria das pessoas que moram aqui. Nasci no Rio, cresci em Recife, mas aí é a casa que eu escolhi.
Hoje estou longe demais, num lugar estrangeiro, cheio de gente estranha que não fala a minha língua, um lugar que é bonito, sim, mas nem se compara à beleza de São Paulo. Porque a beleza de Sampa é interior e duradoura. Pode não encher os olhos, mas enche a alma! Este admirador, cidade querida, te parabeniza e deseja muitos anos de vida, sabendo que quando voltar, serei recebido de braços abertos. Saudades de quem te ama.”
Fúlvio

Sim, São Paulo, meu amor… Nós, os seus filhos, vamos passear na tua garoa e te curtir numa boa. Caetano disse que essa terra deu tudo a ele. Faço coro também nisso. Essa terra me deu tudo, e sei que tem ainda muito mais pra me dar. Fica aqui o meu mais sincero parabéns… Pra cidade, mas principalmente pra todos os fortes que sobrevivem aqui, para os que já passaram nesses 450 anos, para os que passam e para os que ainda vão passar. A cidade somos nós e o que construímos aqui. Parabéns para nós.

“Alguma coisa acontece no meu coração…
Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui, eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente não vi o teu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto o mau gosto
É que narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes, quando não somos mutantes
E foste um difícil começo, afasto o que não conheço
E quem vem de um outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso, do avesso, do avesso, do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Panaméricas de áfricas utópicas,
Túmulo do samba, mais possível novo quilombo de Zumbi
E novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa…”
Caetano Veloso

Fotos enviadas pela Cacau e ajeitadas pelo Marcelo.

* Agradeço a todos os paulistanos, de nascença ou de coração, que colaboraram com este post, mesmo quem não pode ou não se sentiu inspirado para produzir algo, mas comemorou em silêncio cúmplice esse aniversário especial. 🙂

SÓ AMOR?

Estranho, você. Acha que dizer “eu te amo” muda o curso de uma história, assim, magicamente; acha que isso apaga os momentos sofridos, mantém aquele brilho que a nossa incompetência apaga com tanto “deixa como está pra ver como é que fica”. É uma frase linda, sem dúvida. Boa de ouvir, fácil de dizer, difícil de sentir…. E linda. Encerra e inicia com ela muitas coisas. Porém a vida vai ensinando uma lição importante que, já grandinhos que somos, deveríamos saber. Amor não basta. Amor, às vezes, fica pouco, mas tão pouco, que fica insignificante. Sem falar que é exigente e precisa de uma série de aparatos pra fazer a manutenção. Pra dar certo a dois… Precisa muito mais que amor. Mais que um encontro feliz. Mais que inspiração e bons desejos. Mais que um começo arrebatador. Pra dar certo, meu caro, precisa de tudo e mais um pouco.

Precisa de sedução pra fazer o coração disparar no gatilho daquele olhar. De suavidade e delicadeza pra sondar a alma do outro aos poucos, pra evitar as respostas automáticas e ser sincero sem machucar. Precisa de ternura pra achar bonitinho aquele jeito de mexer no cabelo ou aquele cacuete de arrumar os óculos. E também de gentileza pra puxar a cadeira na lanchonete, ou pra dar uma costuradinha no botão da camisa em uma emergência, sem achar isso um peso. Precisa de mistério, muito mistério, que sem ele tudo perde a graça, mas também de revelações e segredos a dois. E de conexões sobrenaturais, aquelas que fazem um sentir uma pontada no peito quando o outro torce o pé no futebol, ou saber que é hora de ligar mesmo quando não era a hora de sempre, mas era a hora que o outro mais precisava ouvir um alô. Precisa de cortejo pra oferecer uma flor numa hora inesperada, mesmo depois de tanto tempo juntos, ou pra mandar um e-mail apaixonado sem razão. Admiração pra sentir-se sortudo ao lado daquela pessoa, porque nenhuma outra poderia ser melhor. Cortesia pra dar aquele presente que o outro queria faz tempo, mesmo não sendo aniversário ou data especial. E muito romantismo pra abraçar de repente na saída do cinema, pra beijar na boca molhado atrás da porta escondidinho, e pra olhar as estrelas e a lua encantados e dizer, “eu nasci só pra beijar você aqui, agora”.

Precisa também de lambida nos lábios quando vê aquele decote, de prazer em derrubar aquele chantilly no colo e lamber, de alegria pra brincar com todos os pedaços do corpo do outro. De muito tesão no jeito de andar, de falar, de vestir, de fantasiar, de beijar, de tocar. De muito calor naquele abraço no sofá, naquela passadinha de mão debaixo da mesa do restaurante, naquele sorriso malicioso pelo retrovisor, naquela carícia mais ousada. Precisa de muita paixão nos gestos, atos e palavras. Precisa, de repente, achar graça de novo no cheiro, e ter vontade de beijar e tudo o mais de mil maneiras diferentes e inesgotáveis; precisa desse desejo renovado a cada dia, sentir aquele frio na barriga ao encontrar, daquela mão correndo perigosamente no corpo do outro enquanto se dirige, aquele tremor ao ouvir sussurrado na orelha “eu te quero”, mesmo quando todo mundo acha que já deu o tempo de deixar de querer. Precisa da paz que se sente depois de uma noite de loucuras, e de saber que só há um lugar onde é possível descansar sossegado depois de tanta respiração acelerada, gritos abafados, apertões e pele na pele: os braços daquela pessoa.

Já cansou? Mas peraí, tem muito mais. Precisa também de amizade, coleguismo, cumplicidade. Precisa dar o ombro quando tem briga com a mãe, desentedimento com o chefe, problemas de saúde com o melhor amigo ou quando o time de futebol cai pra segunda divisão. Precisa entender a chateação do outro, mesmo quando se está exultante de contentamento. Precisa de respeito pra não escancarar maldosamente as fraquezas, e nem tocar o dedo na ferida durante uma briga. Precisa de discordância também, afinal, ela é a maior prova de que um não se anulou por causa do outro. Mas também de compreensão pra olhar de um outro lado, mesmo quando ele é o oposto do seu. Precisa da torcida dos amigos, parentes e conhecidos, e aprender a dividir os problemas a dois com pessoas de confiança, que podem enxergar mais do lado de fora e iluminar os pontos escuros. Fidelidade é desejável, mas, além dela, é preciso muita lealdade pra não enganar, não trapacear, não fingir, ou pelo menos fazer tudo isso o mínimo possível. Precisa de um bocado de sorte, sim, mas o quádruplo desse bocado de esforço pra ser a força do outro e deixar ele ser a sua.

E precisa de um pouco de ciúme pra olhar feio pra uma saia muito curta, pra torcer o nariz pra voz de mulher no telefone, pra abraçar forte quando tem alguém olhando demais; mas tudo sem barraco, que isso não precisa. Precisa também de um pouco de insegurança pra lembrar que nada é pra sempre quando não se trabalha, e muito, pra isso. Precisa do medo que dá de perder aquela criatura quando se olha ela dormir tranquila ao seu lado, ou quando ela demora a ligar depois de uma briga, ou quando pinta aquele olhar de desânimo.

Precisa de sinergia, de objetivos em comum, desde os planos pro final de semana até o número de filhos que se quer ter. Precisa de muita força pra lutar junto, pra sentir a dor do outro, pra colocar a mão na testa quando ele vai vomitar, pra ir lá interceder por ele quando ele já desistiu de tentar. Precisa de uma mão pra apertar nas fases difíceis e aquele monte de frases piegas, mas eficientes, como “estou com você”, e “isso tudo vai passar, calma”. Precisa de muita fé em si mesmo, no que há entre os dois e em algo maior. E também de ambição e espírito de equipe pra trabalhar juntos, e não um contra o outro. E de muita, muita coragem pra enfrentar o que for contra as suas certezas; sim, porque é preciso muitas certezas, sem esquecer de se dar o direito de duvidar.

E é preciso não se ser somente em conjunto, mas sozinho principalmente; ser você mesmo também. E, pro bem dos dois, plantar em você o equilíbrio, o desprendimento, a liberdade, a necessidade de privacidade, e ainda incentivar isso tudo no outro, no que você puder ajudar. Precisa de humildade pra admitir que errou o caminho, abaixar o vidro do carro e perguntar pra alguém pra onde ir; e também pra admitir que falou demais naquela hora, que o outro tinha razão naquele dia, que sente saudade e precisa de uma outra chance, ou que precisa de ajuda quando for fazer aquele trabalho da faculdade. Às vezes, precisa de sacrifício. Precisa cuidar da beleza, de seduzir sempre, de comprar uma camisola nova ou fazer a barba de um jeito diferente. Precisa de muito, muito perdão, pedir e dar: por ter atrasado tanto, por não ter reparado o corte de cabelo novo, por ter esquecido do aniversário de namoro, por ter sido sarcástico e ferino, por não ter feito o necessário, por ter gozado do pai dele, por ter criticado agressivamente o que ele fez com tanto carinho e esforço. E precisa de superação. Muita.

É… Nada fácil. Mas tem o principal, ainda. Precisa de senso de humor, pra rir de si mesmo e fazer gracinha com a meia furada, o cheirinho esquisito, a estria imensa na barriga, a palavra escrita errada no cartão, a cara amassada ao acordar. Criatividade, pra criar novas formas de paixão, e fazer algo surpreendente e diferente a cada dia, mesmo que seja um jeito de pegar na orelha mais enfático, ou um bilhetinho apaixonado na geladeira ou no bolso do casaco. De altruísmo, e pelo menos algumas vezes pensar no outro primeiro do que em si mesmo, abrindo mão do baralho na casa dos amigos ou do chá de bebê com as amigas só porque o outro precisa ficar juntinho. Precisa de diálogos, falar o que está engasgado, aprender a ouvir sem fugir, e a não deixar de dizer nada, mas não necessariamente dizer gritando ou xingando. Precisa fechar os olhos pra alguns defeitos irremediáveis do outro. E muita paciência pra aturar as manias e esquisitices que todo mundo tem, como a história de conferir mil vezes o troco, ou aquele barulho irritante que o infeliz faz com a boca enquanto cozinha ou dirige. Precisa entender que o tempo seu nem sempre é o tempo do outro, e saber esperar. Precisa de muita afinidade pra curtir aquela música juntos, assistir aquele filme, sonhar juntos com aquela casa na praia, planejar as férias, ir àquele lugar ou tentar ver alguma graça no jogo de futebol na TV. Precisa receber e dar proteção, saber botar no colo e fazer o outro ficar quieto, ouvindo o seu coração. Precisa de muita perseverança pra insistir quando tudo parece dar errado, pra ir atrás, pra pedir “não me deixe”, pra dizer “preciso de você aqui”, pra suplicar “me salve”, e ainda lembrar de fazer tudo isso com dignidade e elegância; e depois disso tudo, insistir mais um pouco e só desistir quando sentir o ponto final calando lá dentro. Precisa intimidade pra olhar nos olhos sem medo, e pra saber qual a cor da cueca que ele mais gosta, ou onde ele tem uma marca que esconde de todo mundo, ou o que ele mais gosta de comer, ou o que ele mais gosta de ouvir. E precisa ceder. Muito. Mas muito mesmo.

E tudo isso com o coração alegre e aberto. E tudo isso sabendo que pode acabar. E tudo isso olhando na mesma direção. E tudo isso em meio ao tédio e essa doença que é a rotina. E tudo isso sem perder a esperança. E tudo isso sabendo que tem muito mais. E tudo isso mesmo quando se está cansado. E tudo isso sabendo que não é fácil e que a maioria fracassa… E tudo isso.

E você vem dizer que basta apenas o amor? Infelizmente, não. O amor não mora só no “eu te amo”. Ele se faz nisso tudo aí e em tudo o mais. E quem ama de verdade não pode deixar por menos… E nem consegue. Um “eu te amo” real traz implícito todos esses momentos, vividos, mas agora passados; por isso que ele é doce na boca de quem diz e apaixonante no ouvido de quem fala. E deve ser por isso que, pela primeira vez, essa frase, tão cheia de beleza, me soou tão vazia de sentido…

ANDAR, ANDAR

Passeando no sábado com minha amiga querida pelo Centro Velho de São Paulo, percebi quanta coisa linda tem escondida naquele concreto todo. A Caminhada Histórica foi tudo de bom: bem organizada, democrática, agradável, tranquila, animada e praticamente sem incidentes ( o único que eu fiquei sabendo e presenciei foi a queda de uma folha gigante de uma palmeira malcriada da Praça da Sé, que despencou em cima da cabeça de uma senhora, prontamente socorrida pelas pessoas de perto e pelos gentis policiais que fizeram a proteção das mais de 5000 pessoas presentes ).

A idéia é fantástica: percorrer a pé, durante aproximadamente duas horas, pontos do centro histórico de São Paulo e, pelo menos uma vez, parar e olhar para cada esquina, cada cantinho, cada prédio, sem o medo de assaltos, sem a pressa de sempre, num clima agradável de festa e de carinho pela cidade… De quebra, contar com a explicação de monitores e de um folheto muito bem feito contando histórias que muita gente não conhecia. Páteo do Colégio, Mosteiro São Bento, Marco Zero, esquina da Ipiranga com a São João, Praça da República, Solar da Marquesa, Catedral da Sé, Teatro Municipal, Bovespa. Do nosso lado, caminharam senhoras com bengala, crianças e carrinhos com bebês, cachorros, mendigos, mulheres de vestidos finos e salto alto, jovens casais, amigos em bando, escoteiros, negros, orientais, loiros, brancos, gente de todas as idades, tipos e raças. Todos juntos ali; a cidade era de cada um de nós. E é isso que esse lugar é: a casa de todo mundo que o procura como lar, independente de onde nasceu ou pra onde vai. Emocionante ( juro que não foram os meus olhos de Poliana, a coisa estava emocionante mesmo ). Bonito ver toda essa gente fotografando, filmando, subindo nos canteiros, sorrindo, correndo pelas ruas do centro, e ocupando a sacada chique do Teatro Municipal ( que estava com as portas escancaradas ) vibrando de realização e fascínio. Bonito o olhar de contemplação, liberto depois de ser tantas vezes reprimido. E o tempo todo, o que mais se ouvia era, “olha, que bonito!”, “olha, que interessante!”, “olha, que legal!”, “olha, como não tinha visto isso antes?”,”olha, pai, que da hora!”. O que acontecia ali era uma troca de olhares carinhosa entre os moradores e a cidade, esta que o tempo todo pede, “olhem pra mim com jeitinho”. E no sábado passado, ela foi olhada. Os passantes, quem diria, gostaram muito do que viram e amaram o seu lar ainda mais. Eu, pelo menos, me senti em comunhão com São Paulo como há muito tempo não acontecia.

Em um dado momento, paramos para tirar uma foto nossa, em frente ao Largo São Francisco. Pedimos a uma caminhante que tirasse a foto pra nós, e vejam só, ela pergunta:

– Vocês são de São Paulo?

Prontamente respondemos que sim, somos paulistanas da gema, como não?!

– É que vocês estão com cara de turistas…

De fato, a moça tinha razão. Encantadas com o que víamos, descobrindo coisas em lugares que passamos tantas vezes sem notar. Pensei no quanto eu tinha pisado naquelas calçadas sem me dar o direito de olhar para cima, para os lados. Quantas construções bonitas, quanta história pra contar, quanta gente diferente e interessante. Assim como, muitas vezes, convivemos com as pessoas que mais amamos sem notar o quanto são importantes, também esquecemos de reparar que lugar maravilhoso pra se viver é este. Pra se reapaixonar, é preciso isso mesmo: olhar com olhos de estrangeiro o que é tão familiar, e ceder aos encantos dessa cidade que é tão maravilhosa quanto as outras de belezas naturais.

Chegando em casa, fiquei pensando que o Centro Velho não é o único lugar bonito daqui, nem a única coisa boa pra se fazer. Uma cidade tão grande, que abriga tantas pequenas cidades em si mesma, tem muito para oferecer e para explorar. Lembrei-me de um e-mail que me chegou faz um tempinho, simplesmente maravilhoso. Como ele me veio SEM AUTORIA, dei uma xeretada nos sites de busca e pesquei essa página no IG, que me pareceu ser a fonte. Atenção paulistano ou visitante: se tem uma coisa que vale o click do seu mouse… É isso. São 200 sugestões de passeios pela cidade, desde comes e bebes até arquitetura, passando por arte, diversão e compras. A reportagem completa, bem escrita e cuidadosamente selecionada, você encontra no link aí em cima. É o tipo de coisa que vale a tinta da sua impressora, pra guardar mesmo.

Selecionei algumas sugestões sentimentalmente relevantes pra mim. Espero que curtam a dica do site. Não somente pra ler, mas pra aproveitar na prática.

Você que não é de Sampa… Leia e inveje… E quando quiser e puder, venha nos fazer uma visita. A casa é sua… É de todos. 🙂

PARA FAZER EM SÃO PAULO…

* Visitar o Parque da Luz, na av. Tiradentes, que passou recentemente por uma recuperação como poucas realizadas na cidade. ( Verdade, o parque está lindo… Ótimo pra relaxar. )

* Ver o show dos padres do canto gregoriano no Mosteiro de São Bento, no Largo de São Bento, que acontece aos domingos, às 11h da manhã. ( O lugar é simplesmente mágico. )

* Ir às festas gênero “mamma mia” das igrejas Achiropita, na rua 13 de Maio, 478, na Bela Vista (realizada aos finais de semana do mês de agosto), São Vito, na rua Poliana Amare, 51, no Brás (no dia 15 de junho), e São Genaro (no dia 19 de setembro), na Moóca ( Além de se comer muito bem todo tipo de massa… Poucas coisas são mais divertidas pra se fazer em Sampa! )

* Encostar o carro na Praça do Pôr do Sol, no Alto de Pinheiros, no finalzinho de uma tarde de verão. A vista é fantástica… ( E de noite… Hummmmmmm… Que delícia de praça. Lá eu dei meu primeiro beijo, e muitos outros depois. Pena hoje em dia ser meio perigoso. )

* Embarcar num programa em família no Simba Safári, que agora está menos emocionante, com os animais presos, mas ainda vale uma visita. Av. do Cursino, 6338. ( Programa preferido do meu pai, só íamos nós dois… )

* Assistir a um clássico no Estádio do Pacaembu, na Praça Charles Müller, sem número. ( Apesar de preferir o Morumbi pra ver futebol… Foi no Pacaembú que eu vi os Rolling Stones tocando, numa noite chuvosa de sexta-feira. )

* Ir aos jardins do Museu do Ipiranga, na av. Nazaré, s/n, e fazer de conta que está no Jardim de Luxemburgo, em Paris. ( E tem museu mais lindo? )

* Fazer um tour histórico pela Ladeira da Memória, que fica na saída da rua Xavier de Toledo da estação Anhangabau do metrô, e que abriga o primeiro monumento público de São Paulo: um obelisco em forma de pirâmide erguido em 1814. ( Esta é em homenagem a você, Mafalda, minha xará querida. 🙂 )

* Incorporar um caça-vampiros antes de visitar os túmulos grã-finos do Cemitério da Consolação. ( Adolescente faz cada coisa… )

* Surpreender-se com o vão livre do MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), na avenida Paulista, 1578. ( Lindo por dentro e por fora… )

* Escalar o Pico do Jaraguá para espiar o visual lá de cima. ( E me ver acenando da janela da minha casa, que fica bem pertinho. )

* Conferir a imensidão do Vale do Anhangabau de cima do Viaduto do Chá. ( Não sei quantos shows eu vi ali na época que a Erundina era prefeita… )

* Assistir a um concerto na Sala São Paulo, na antiga estação Júlio Prestes, que tem uma das melhores acústicas da América Latina. Telefone: (11) 3337 5414. ( Maravilhoso é pouco praquele lugar. )

* Dar uma passadinha no Museu Lasar Segall, que funciona no imóvel que serviu de residência ao artista até sua morte, em 1932, fincado na Rua Berta – que abriga as primeiras construções modernistas do Brasil; Visitar o Museu de Arte Sacra, na avenida Tiradentes, 676; aproveitar o passeio para conhecer a Pinacoteca, também na avenida Tiradentes. ( Um mais interessante que o outro. )

* Manter-se antenado na programação eclética do Sesc Pompéia. ( Lugar simples, divertido e cheio de boas opções! ), na rua Clélia, 93.

* Procurar preciosidades na biblioteca Mário de Andrade, na Praça Dom José Gaspar. ( Sem palavras pra descrever esse recanto tão lindo. )

* Circular pelas bancas do Mercado Municipal, na avenida do Estado, e consumir, sem medo de ser feliz, toda a sorte de guloseimas que encontrar pela frente. ( E procurar o pastel de bacalhau, que é tudo de bom. )

* Comer uma das especialidades do Bar Sujinho, o frango caipira, a qualquer hora da madrugada. A salada de repolho já faz parte do couvert. Coma sem preconceitos, é divina. O Sujinho fica na rua da Consolação, 2063. Telefone: (11) 3231 5487. ( Muitas noites terminaram ali.. Ótima comida e ambiente agradável. )

* Conferir toda a tradição do Capuano, restaurante italiano fundado em 1912. Fica na rua Conselheiro Carrão, 416, no Bexiga. Telefone: (11) 288 1460. ( Na minha humilde opinião… A melhor cantina do Bixiga, e ainda por cima é barata. )

* Degustar, sem peso na consciência, a dobradinha pastel de feira com caldo de cana em qualquer feira livre da cidade – de preferência na do Pacaembu, que acontece de segunda a sábado em frente ao estádio. ( O ruim do pastel do tiozinho do Pacaembú é a fila… Mas vale cada minuto de espera. )

* Passar pela Cidade Universitária só para saborear o cachorro quente do Super Hot Dog. Fica na Rua do Estádio, Travessa C, logo atrás do Crusp. ( E tem uma banquinha perto da FFLCH que também é tudo de bom! Vale um almoço, pelo menos valeu o meu várias vezes, hehe. )

* Surpreender-se com a mesa inacreditavelmente farta do As Mestiças. Nessa casa de chá em Moema, o cliente paga um preço fixo e tem direito a pães, bolos, salgadinhos, doces, chás, sucos… Alameda dos Aicás, 50. Telefone: (11) 5051 2547. ( Nham, nham, nham… )

* Comer o quanto puder no rodízio da churrascaria Fogo de Chão, na avenida Moreira Guimarães, 964, em Moema. Telefone: (11) 5530 2795. ( Eu comi lá no dia que vi o Chico Buarque!!!!!!!!!!!! )

* Conferir o acervo do Sebo Messias, o mais tradicional da cidade, com seus corredores estreitos e toda a sorte de relíquias. Fica no centro da cidade, na praça João Mendes, 166. ( Muito da minha biblioteca pessoal veio de lá. )

* Passar a tarde ouvindo CDs e folheando livros na gigantesca Fnac de Pinheiros. Fica na Avenida Pedroso de Moraes, 858. Telefone: (11) 3097 0022. ( E agora também tem na Paulista!!! )

DESMONTANDO UM RELICÁRIO

Dias pra arrumar armários, guarda-roupas, estantes. Prateleira por prateleira, vou sentindo o cheiro de poeira escondido nos cantos dos livros que não foram abertos, nas caixas que ficaram fechadas, nos papéis que ficaram guardados, nas roupas que não uso mais. Não sou alérgica, mas pela primeira vez, em muito tempo, tanta poeira chegou a me sufocar. Foi entrando nos pulmões e não queria mais ficar, e foi espirrada muitas vezes. Sinal que dessa vez, a arrumação não era comum. Era sim, um reencontro, uma faxina especial. Um momento de olhar pro passado de uma maneira diferente da que se fazia até aqui.

Dizem que é característica do meu signo guardar tudo, montar verdadeiros relicários, concretos e abstratos, de tudo a que fui ligada emocionalmente. Dificilmente esqueço um rosto, uma lembrança, um cheiro; e mais dificilmente ainda jogo fora um pedacinho que seja de papel, se ele me provocou uma emoção verdadeira, por mais barata que ela tenha sido. Sou capaz de reconstruir mentalmente diálogos e situações inteiras. Outro dia falava com minha mãe, e perguntava a ela coisas sobre a minha infância que ela mesma não lembrava mais. Admirada com a minha memória, disse, “pra quê guardar tudo isso dentro da cabeça? Melhor é esquecer. Você guarda demais.”. O espaço de dentro é infinito, o de fora nem tanto, mas tanta coisa guardada, de repente, começou a me incomodar, a pesar; veio uma enorme necessidade de fazer o ar circular dentro de cada compartimento. Dessa vez, prometi a mim mesma liberar espaços, de dentro e de fora. E comecei. Ao fundo, lá dentro da minha cabeça e depois no cd player, ouvia a canção:

“Eu hoje joguei tanta coisa fora
Eu vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias, gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim.”

Sim, tudo foi passando por mim, diante dos meus olhos, que às vezes sorriam, às vezes enchiam-se de lágrimas tristonhas. O caderno de recordações do primário, onde colegas que me esforcei pra lembrar do rosto registraram que seríamos sempre amigos e que eu nunca seria esquecida. Os desenhos que a professora do jardim avaliou com 3 estrelinhas. A carta da melhor amiga, que foi morar no Japão há tanto tempo, de quem eu nunca mais soube, me contando que estava com medo e que se sentia muito sozinha longe de casa. Cartões-postais, de aniversário, de natal, tantos desejos de felicidade. Muitos caderninhos cheios de anotações, idéias, poemas que eu escrevi a mão, páginas molhadas por lágrimas, frases desconexas; cadernos de um tempo quando escrever era uma catarse quase incontrolável de uma menina tímida, insegura, que não conversava sobre si mesma com ninguém além do papel. As provas da faculdade e do magistério, tanto as elogiadas como as criticadas, uma delas com um recado do professor querido, “você ainda vai longe” ( e pensar que tantas vezes eu não sei se fui tão longe quanto deveria, ou se fui longe demais ). As apostilas xerocadas, de tão antigas, ficaram manchadas e estão ilegíveis. Livros que eu nunca mais li, e nem vou voltar a ler; alguns com bilhetes, notas de dinheiro antigo, pétalas de flor e marcardores esquecidos dentro das páginas. Roupas que eu nunca mais usei. Documentos com prazo de validade vencido. O projeto de trabalho elogiado, e que deu certo, e também aquele outro que deu errado. Relatos de casos que atendi no consultório; histórias de vida de pessoas sofridas, que eu nem imagino como estão hoje. Os bilhetes das crianças dizendo que eu era a professora mais linda e amada do mundo. O convite do casamento do amigo querido, que já se separou. A coleção de papéis de carta. Fotos dos meus artistas preferidos. A boneca que dormia comigo todas as noites. Uma lembrança de nascimento de uma criança que nunca mais vi. A agenda de adolescente escrita em códigos e cheia de lembranças concretas, como a fitinha que eu coloquei na testa no dia da passeata a favor do impeachment de Fernando Collor. As pastas imensas com os e-mails do namorado mais amado, centenas de páginas escritas diariamente durante meses; escritas com o coração e cheias de juras eternas, minhas e dele, que ficaram assim, esquecidas e amareladas como os outros papéis e objetos. Tanta, tanta, tanta coisa.

Alguns sacos de lixo, algumas caixas. Algumas coisas ainda podem ser aproveitadas por outras pessoas. Livros para a biblioteca comunitária, roupas para o abrigo aqui perto, brinquedos numa sacola para levar para a escola depois. Coisas que não tinha devolvido, dei falta de outras que se foram e nunca mais voltaram. Papéis e mais papéis saindo direto do meu relicário pessoal para dentro daquele saco preto. Tentei colocar um critério racional para decidir o que ficava comigo mais um, ou muitos anos… E o que tinha que ir embora. Mas era impossível. O critério foi mesmo o do coração. Aquilo do qual doía se separar ainda, ficou. Mas a maior parte foi embora. E tudo ficou tão mais leve. Tão pronto pra ser completado com novas coisas, novos papéis, novas experiências que depois virarão lembranças.

Esse espírito de desapego, de desprendimento… De onde ele veio? Por que, de repente, guardar tanta coisa pareceu tão sem significado? Talvez o inevitável tenha sido finalmente percebido. Tive a sensação de antes acreditar que, se os armários ficassem vazios, também eu me esvaziaria de tantas lembranças que me ensinam, me impulsionam, me acalentam. A tentativa de guardar tanta coisa, no fundo, é só um jeito de não enfrentar o temor bobo e quase infantil de, repentinamente, ficar sem passado, esquecer quem eu era, o que fazia, quem me rodeava, quais eram os sonhos que eu tinha. Em alguns momentos, em que o presente é tão monótono ou opressor, e o futuro é tão distante e desesperançado… O passado é só o que se tem.

Encontro fotos também. Muitas. Um rosto de menina inocente, aquela que acreditava que o Pico do Jaraguá era roubado quando a neblina chegava, e era devolvido no dia seguinte, quando o tempo mudava e o sol aparecia. Fotos de uma garota com a boneca de pano, a única “pessoa” que não poderia deixá-la sozinha. Fotos do pai, avô, amigos e parentes que já morreram. Fotos da adolescente com poucas marcas no rosto, que tinha tanto medo e se sentia insegura por tantas coisas que hoje são fáceis. Fotos da moça que tinha tantos planos que hoje viraram poeira, e que foi surpreendida por muitas surpresas agradáveis ( ou nem tanto ). Fotos do sofá antigo, do carro velho, da casa que hoje nem existe mais. Tantas imagens do passado. Tanta coisa que hoje é tão diferente.

Há quem tenha horror de pensar no passado. Eu não. Claro, hoje sou mais feliz que ontem, e com um pouco de sorte e muito de esforço, menos feliz que amanhã. Mas o que sou é a soma disso tudo que já vivi. Todos esses objetos e papéis, todas essas pessoas que já passaram pela minha vida, todas esses momentos que, bons ou ruins, passaram… Tudo isso está em mim e faz parte do aprendizado de viver, da sabedoria que foi construída para tomar as decisões de hoje. Que estranha é essa vida, que faz as coisas mudarem de sentido com o tempo, de uma forma tão intensa. E não adianta combater essa força guardando tanta coisa. O tempo passa e não se pode trancafiá-lo dentro dos armários e guarda-roupas. E, algumas vezes, o melhor é deixar certas coisas irem, confiando que já foram encalacradas e incorporadas ao coração. Não é preciso esquecer de nada. Mas é preciso que novas coisas venham ocupar o lugar das velhas. É assim que a natureza e a vida funcionam.

Nem tudo muda, isso também é bom de perceber. Algumas pessoas não se foram. Algumas palavras ainda fazem sentido. Alguns olhos ainda brilham com a mesma intensidade com que brilhavam nas fotos de antes. Algumas coisas ainda são fortes, e sempre serão. O essencial, isso não muda. E que bom que é assim. O essencial, isso ainda fica, em mim e nos armários.

De qualquer forma, despedidas, pra pessoas que se apegam facilmente a tudo, nunca são fáceis. Nunca. Talvez seja por isso que, de repente, fui invadida por um sentimento de nostalgia, daqueles que são quase uma tristeza, que fazem a gente ficar divagando sobre coisas inúteis e que daqui a pouco tempo nem serão mais lembradas. Daqueles momentos em que se fica pensando no que já foi, no que poderia ter sido e no que não foi, e, antes que se possa pensar, os olhos ficam banhados nas mais puras lágrimas de saudades do ontem e também do amanhã; uma saudade tanto tardia quanto antecipada. E tudo isso sem que se possa descobrir o porquê. Talvez a poeira, talvez a lua, talvez os sonhos perdidos, as mudanças inevitáveis e a consciência de que a vida nem sempre segue como a gente quer, mas normalmente segue da melhor maneira que poderia seguir. Atrás da capa de um dos cadernos, encontrei um poema do Drummond.

“(… )Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo. ”

E põe comoção nisso…

INSISTÊNCIA

* Você, paulistano ou não, ainda não escreveu algumas linhas sobre São Paulo? Ohhhhhh!!! Vai mesmo ficar de fora do post coletivo que estamos fazendo para homenagear a cidade? Não me diga! Em vez de dizer, escreva e mande para mafaldacrescida@hotmail.com, até dia 24 próximo. 🙂

* E não é que é verdade? O UOL, que se auto-proclama o portal que tem”o melhor da internet”, enfim está oferecendo aos assinantes e visitantes um serviço de hospedagem de blogs, com direito a algumas ferramentas interessantes, comentários, e uma promessa de, dentro em breve, oferecer maneiras de levar os arquivos e conteúdo de outros servidores para lá. Muito fácil de mexer, e ainda pouco congestionado ( vejam bem, AINDA ). O blog Mafalda Crescida já existe por lá, que é para onde ele vai se o Blogger resolver expulsar os não-assinantes daqui. De qualquer forma, é mais uma opção. Quem quiser conhecer, pode clicar aqui.

* Quem não gosta de prêmio e reconhecimento? Meu sorriso está aberto de orelha a orelha: o template do Mafalda Crescida foi escolhido o Template Show da semana pela High Society Blogueira. Obrigada ao pessoal do site que sempre me deu a maior força… E a todos que prestigiaram este belíssimo trabalho do Dr. Marcelo. Camarada, eu te disse que você ia ficar famoso. Hehe. Novamente, obrigada a você também.

EU TÔ VOLTANDO PRA CASA

“Um velho calção de banho,
O dia pra vadiar…
Um mar que não tem tamanho,
E um arco-íris no ar.
Depois, na Praça Caymmi,
Sentir preguiça no corpo
E numa esteira de vime
Beber uma água de coco, é bom.

(..) Depois sentir o arrepio
Do vento que a noite traz,
E o diz-que-diz-que macio
Que brota dos coqueirais.
E nos espaços serenos,
Sem ontem nem amanhã,
Dormir nos braços morenos
Da lua de Itapuã, é bom…”

Não, infelizmente não estive em Itapuã, muito menos na Califórnia; mas sim, eu fui passear e senti o poder que alguns dias de descanso, longe de tudo e de quase todos, têm na vida de uma pessoa confusa, cansada e estressada. Lagartear no sol e na sombra é vital pra renovar-se e propor-se a renovar a vida, e eu tinha esquecido disso. Que bom lembrar o quão simples e maravilhosa pode ser a vida.

É mais ou menos assim: arrumar uma mala cheia de roupas leves, livros legais, walkman, produtos de beleza, óculos escuros e desejos de muita paz no coração. Depois, despedir-se de tudo e todos – família, amigos, computador, dívidas, problemas, más lembranças – com aquela alegria de quem está partindo pra fazer um bem enorme a si mesmo. Depois, pegar o meu Tomatinho e levá-lo pra viajar pela primeira vez, estreando, ele e eu, no ato de percorrer estradas de longa distância, sem nem uma pontinha de medo ( de quebra, descobrir que ele é o carro mais econômico que eu conheço – fez quase 18 Km por litro! ). Chegar a um lugar desconhecido, simples, barato e cheio de gente legal, e despejar a bagagem, o corpo e a alma por ali, sabendo que não fazer nada, às vezes, é a melhor coisa pra tomar um fôlego necessário pra depois saber como fazer tudo ( ou quase tudo ). E aproveitar muito. Sem falar na corzinha muito mais morena da minha pele e da minha alma. Eu andava desbotando faz muito tempo, e, apesar de adorar o frio e a noite, eu estava precisada de muito, muito sol pra me esquentar.

Relógio, só pra saber a hora da comida ( ma-ra-vi-lho-sa, por sinal ). De manhã, sol, piscina, música, livros, cavalo, hidroginástica, leite fresquinho, cheiro de pomar, caminhada no meio do mato respirando um ar diferente e observando as borboletas mais lindas que eu já vi. De tarde, passeios em volta da represa, barco, conversas à toa ( ou nem tanto ), vinho suave, fazenda de doces, bicicleta, e mais caminhada, mais piscina, mais pernas pro ar. De noite, videokê ( quem diria, hehe ), bingo, baile, jantar à luz de velas e com música ao vivo, ver vagalumes, ver lua e estrelas com um brilho que não se vê por aqui, televisão, e muita, muita risada e suspiro profundo. Tudo isso acompanhado de rostos e vozes conhecidos e desconhecidos, gente boa e simpática que torna mais cheios de sentido qualquer dia vazio de compromissos. Um monte de crianças correndo, casais andando de mãos dadas, famílias unidas, amigos conversando e se divertindo juntos, outro monte de gente sozinha observando as águas da represa indo e vindo, e dando um tempo pra si mesmo. E quer saber? Tudo merecido. Todo mundo ali merecia um vidão por ter trabalhado tanto durante o ano.

Saudades? Claro. Saudade da minha cama, do computador, dos amigos, dos telefonemas de paquera, do cinema de tarde, da TV paga, do cd do Zeca Pagodinho, do cheiro da comida da minha mãe, do meu irmão aborrescente e folgado, deste bloguezinho. Mas, apesar das saudades, foi ótimo viajar e olhar outros horizontes, daqueles que, além de bonitos, são inspiradores. E, apesar de eu ter tomado sol demais e estar trocando de pele que nem uma cobrinha, hehe… Estou aqui, pronta pra de novo matar um leão por dia, se precisar. 🙂

“O vento beija meus cabelos…
As ondas lambem minhas pernas…
O sol abraça o meu corpo…
Meu coração canta feliz…

(…) A vida passa lentamente
E a gente vai tão de repente
Tão de repente que não sente
Saudades do que já passou.”

MAIS DO MESMO…

* E adianta agradecer mais ainda a todas as visitas, a tantos comentários deliciosos, tanta companhia, novas e velhas amizades, e tudo mais? Adianta, claro! Então lá vai: obrigada, obrigada, obrigada. Eu estava torcendo por todos ( juro ), mas fiquei contente que tenha sido a fiel Penny Lane, minha leitora desde os primórdios, a emblemática visitante 5000. 🙂 Você vai ganhar um livro lindo com tirinhas da Mafalda, menina!

Entro em contato contigo pra acertarmos a entrega desse prêmio. O mais engraçado é que hoje mesmo ouvi os Beatles cantando “all the people that come and go stop and say hello”. Que coisa. Quem não levou o prêmio, não fique triste: o 10 000 vem aí! Hehe.

* E você, já mandou sua colaboração para o post sobre Sampa? Hein, hein? Se não, ainda está em tempo! Escreva um pequeno texto e envie para mafaldacrescida@hotmail.com. Pense bem, não é todo dia que uma cidade como esta faz 450 anos. Se você mora aqui, e quer se inspirar, pode participar da Caminhada Histórica pelo centro de São Paulo, neste sábado, 17, às 16h, saindo do marco zero da Praça da Sé. Se você for, pode me procurar pra tomar um “chopps” depois, porque estarei lá. 🙂

* E começou outro Big Brother Brasil… Valha-me Deus, que ninguém merece tanta mediocridade… Aff.

RECEITA PARA CURAR CORAÇÃO PARTIDO

Especialmente para minha amiga Adriana

Muito bem, nem tudo é fácil. Nem pra você, nem pra mim, nem pra maioria das pessoas. Você diz que cansou de blá-blá-blá, que tanto otimismo irrita, que não vê maneiras de eliminar esse mau-humor, e que não se lembra do que quer dizer a palavra romance. Diz também que quer orientações claras e diretas do que fazer para dar passos adiante, por que não quer se tornar uma pessoa amarga. Pois bem, as pessoas sempre passam por isso, e algumas delas produzem textos, sons e imagens pra expressar essa confusão interna toda. Ok, aí vai: hora de arregaçar as mangas pra colar os caquinhos pouco a pouco e partir pra outra. Vide bula e receita, tratamento intensivo de resultados nem tão rápidos, mas duradouros. Espero que sirva.

INDICAÇÕES:

Dor de cotovelo, amargura, vazio existencial, medo de tentar novamente, dificuldades em aceitar o fim, descrédito e auto-estima temporariamente em baixa.

Atenção: não desaparecendo os sintomas, procure orientação profissional.

CONTRA-INDICAÇÕES:

Hipersensibilidade decorrente de abandono recente. Nesse caso, espere o tempo passar um pouco pra depois iniciar o tratamento.

REAÇÕES ADVERSAS

Choro, medo, dificuldades de sorrir, sarcasmo, desânimo, desesperança. Ainda assim, insista em seguir o tratamento à risca.

POSOLOGIA / DESCRIÇÃO

1 – Uma vez a cada 3 ou 4 dias, de preferência só, e sem preocupações com críticas ( e críticos ) desfavoráveis, submeta-se à exposição cinematográfica de algo como:

Tarde Demais para Esquecer
O Fabuloso Destino de Amelie Poulain
Ata-me!
Caminhando nas Nuvens
A Bela e a Fera
Um toque de Infidelidade
Frankie e Johnny
Lisbela e o Prisioneiro
Don Juan de Marco
Simplesmente Amor
Harry e Sally – Feitos um para o Outro
O Feitiço de Áquila
Como Água para Chocolate
Escrito nas Estrelas
Feito Cães e Gatos
Sabrina

As sugestões acima podem ser modificadas, atentando para o detalhe de que o filme deverá, obrigatoriamente, acabar bem, ter final feliz. Durante e após a exposição, suspire e sorria à vontade.

2 – Tire a poeira do aparelho de som e ouça, de preferência diariamente, cantando junto ou não, algo como:

Djavan – Djavan ao Vivo
Trilha Sonora – “Um lugar chamado Notting Hill”
Chico Buarque – Coleção “Chico 50 anos” – O Amante
Elvis Presley – Hits # 1
Nat King Cole – Love Songs
Renato Russo – Equilibrio Distante
Coletânea Rádio Sucesso – Love Songs
Simply Red – Greatest Hits
Pedro Camargo Mariano – Voz no Ouvido
Flávio Venturini – Noites com Sol
Coletânea – Love Metals
Ana Carolina – Ana Carolina
Maná – Unplugged
Roberto Carlos – Acústico
Sade – Greatest Hits

3 – Leia, em doses pequenas, durante o dia:

Carlos Drummond de Andrade -Poesia Completa
Jostein Garder – Vita Brevis
Milan Kundera – Risíveis Amores
Roland Barthes – Fragmentos do Discurso Amoroso
Cecília Meireles – Poesia Completa
Coleção Para Gostar de Ler – Histórias de Amor
Vários – 13 Histórias de Amor
Fernando Bonassi – As Boas Vibrações e O Amor é uma Dor Feliz
Sthendal – Do Amor
Vinícius de Moraes – Antologia Poética / Para Viver um Grande Amor
Charles Lamb – Shakespeare em Contos

AÇÕES RECOMENDADAS:

* Passeie;
* Perdoe;
* Flexibilize;
* Compreenda;
* Sensibilize;
* Extravaze;
* Observe;
* Aceite;
* Saia;
* Xingue;
* Abrace;
* Esqueça;
* Lembre;
* Arrisque;
* Acredite;
* Enterneça;
* Chore;
* Sorria;
* Desabafe;
* Faça;
* Concorde;
* Preserve;
* Tente;
* Planeje;
* Reforme;
* Reflita;
* Sonhe;
* Aprenda;
* Toque;
* Permita;
* Seduza;
* Sinta;
* Ame-se;
E acima de tudo…
* Olhe para a frente e siga.

SUPERDOSAGEM
Caso comece a suspirar demais, sorrir à toa, ficar com cara de boba e sentir uma vontade irresistível de abrir o seu coração novamente… Simplesmente abra e seja feliz.

alea jacta est…

Boa sorte.

E ATENÇÃO PARA OS AVISOS!
1 – Vou viajar por uns poucos dias… Sentirei saudades, mas I’ll be back. Provavelmente, o contadorzinho chegará ao 5000 por esses dias. Peço que o felizardo não esqueça de deixar um comentário e me mandar um e-mail; vale um presente surpresa. Mais informações nos posts anteriores.

2 – E continuam chegando pequenos textos sobre Sampa… Não deixe de participar! 🙂

VIDA BOA

Imagens by Belas Palavras – cartões virtuais de EXTREMO bom gosto e sensibilidade.

Sim, eu andava cheia de tudo, e ao mesmo tempo vazia. Problemas sentidos, doídos, alguns resolvidos, outros esquecidos até que se possa resolvê-los.

E agora, a vida é isto:

* Acordar bem tarde, sentir cada hora do dia passar bem passada e ir dormir de madrugada, quando as estrelas brilham mais forte no céu e quase todas as luzes estão apagadas;
* Ir caminhar no parque por horas, sem ninguém por perto e sem hora pra voltar;
* Ter tempo e disposição pra resolver pequenos probleminhas que estavam na fila de espera – consertar a batedeira, tirar documento novo, arrumar papeladas, jogar muita coisa fora, etc, etc – problemas que são tão pequenos quanto aquelas pedrinhas que entram no nosso sapato, e que depois de resolvidos, dão aquele alívio;
* Ouvir velhas canções que estavam esquecidas no fundo do fundo do fundo do armário e de mim, e recuperar velhos sorrisos;
* Ficar no computador até enjoar;
* Fazer bolo de fubá e chá de erva-doce pra tomar café da tarde com aqueles amigos queridos que eu não via faz tempo;
* Le e reler velhas cartas de amor, poesias e livros;
* Paquerar pelo telefone em pleno horário de expediente;
* Planejar a minha pequena, mas fundamental viagem de férias;
* Pensar na vida até que ela comece a fazer algum sentido;
* Pegar sessão das 14h no cinema e alugar filmes em plena terça-feira de manhã;
* Ter tempo para escrever muitos posts, pra desenhar mandalas, pra fazer caixinhas e outras coisas fofas que eu adoro;
* Ver novela de tarde;
* Acordar bem devagarinho, sem pressa, abrindo os olhos devagar e lembrando de todos os sonhos que tive;
* Conversar horas com a minha vó e dar gargalhadas altas com as coisas profundamente engraçadas que ela diz;
* Ter tempo de ficar horas me produzindo pra encontrar alguém especial, sem correria, e voltar a achar alguma beleza no espelho;
* Limpar gavetas do armário e do coração;
* Organizar a agenda;
* Fazer muitos planos, anotá-los, rasgá-los;
* Sentir a liberdade de decidir o que fazer do meu tempo;
* Tomar sorvete na Av. Sumaré olhando os carros passando e pensar que eu não tenho hora pra chegar e nem pra ir pra lugar nenhum;
* Comprar coisinhas gostosas pra comer, pra vestir e divertir;
* Olhar e cuidar muito bem das minhas plantas, dos fifonhos e da minha afilhada, que é o bebê mais lindo que eu conheço;
* Descansar muito, descansar mais ainda e depois mais um pouco, sentindo a minha saúde voltar a ser aquela de antes;
* Deixar de sentir dor de cabeça, dor nas costas, rouquidão e aqueles sinais indicadores de estresse;
* Sentir saudade do trabalho, mas só um pouquinho;
* Passear de carro sem rumo;
* Ir visitar e receber visitas adoráveis e conversar, conversar, conversar, conversar e colocar todos os assuntos em dia;
* Ficar sozinha admirando a paisagem de fora e de dentro;
* Simplesmente não fazer nada.

Benditas sejam as férias. Justo seria se trabalhássemos um mês e descansássemos no outro… Mas como o mundo quase nunca funciona do jeito que poderia funcionar… Aproveitemos ainda mais o pouco tempo de descanso e todas essas sensações maravilhosas que ele traz.

Pessoas, não esqueçam:

* O contador avança… rs E o visitante 5000 corre sério risco de gostar do presente do blog da Mafalda. Fiquem ligados.
* Já recebi alguns belos pequenos textos sobre Sampa por e-mail (mafaldacrescida@hotmail.com ). E você, vai ficar de fora? Declare seu amor ou seu ódio pela cidade, afinal… São 450 anos. Estou esperando!

SOBRE O MEU LAR… PARTE I

Aos amigos e/ou frequentadores deste espaço… Dois comunicados importantes e potencialmente divertidos:

1 – Meu contador andou sumido por uns dias e deixou de marcar alguns números, mas o fato é que ele está marcando quase 5000 visitas. Como este fato me deixa um bocado contente, e como alegria pra ser boa de verdade tem que ser dividida, vamos combinar assim: o visitante número 5000 que estiver afim de ganhar um presente SURPRESA e bem legal do blog da Mafalda, favor deixar um comentário dizendo algo do tipo “sou o 5000!” e depois me mandar um e-mail ( mafaldacrescida@hotmail.com ) pra acertamos os detalhes. Prometo fazer o possível e o impossível pro prêmio valer a pena. Se o visitante 5000 comer bola, ou não quiser comentar… Fica valendo o 5001, 5002 e assim por diante. 🙂

2 – Aos paulistanos e/ou frequentadores de São Paulo que estiverem afim de colaborar comigo para montar um post diferente por ocasião dos 450 anos da cidade, peço que me enviem por e-mail (mafaldacrescida@hotmail.com ), até dia 20/01, algumas palavras sobre Sampa. Publico tudo aqui, com os devidos créditos e links. Os amigos mais chegados estão intimados a participar. E os menos chegados também estão. Só relembrando: não precisa ser paulistano nem morador pra participar. Afinal, não é só família que a gente chama pra comemorar aniversário… É ou não é? 🙂

Obrigada, obrigada, obrigada.

Segue o primeiro post da nova série sobre Sampa. Eu sei, eu sei, já estou devendo várias séries. Mas essa é especial. 🙂

SOBRE O MEU LAR – PARTE I

( Fotos by Juca Martins, encontrado na net pela Cacau )

“De onde você é?” “Qual a sua cidade?” “De onde vc tc?” “Onde você mora?” Qual é o seu lugar? Onde é o seu lar?

MINHA cidade está para completar 450 anos no próximo dia 25. Digo MINHA porque é minha, sim. E ai de quem disser o contrário. Nasci aqui, cresci aqui, vivo aqui, e salvo poucas vezes que cruzei estas fronteiras, estive aqui quase o tempo todo da minha existência. Meus avós migraram e imigraram pra cá. Meus pais nasceram e cresceram aqui. Aqui eu estudo, trabalho, me divirto, faço amigos, transito, pago impostos, convivo, namoro, sou e estou. Mais do que o lugar onde eu moro, aqui é o meu lar. O lar, para além de um lugar, é uma sensação de acolhimento. E nada pode ser mais acolhedor do que a idéia de que você pertence a um lugar, e que aquele lugar lhe reconhece como parte integrante dele. É assim que me sinto aqui. Piso nas calçadas com segurança, porque me sinto em casa.

Tenho com a minha cidade uma relação intensa de amor e ódio. Sempre achei que deveria ter nascido em outro tipo de lugar. Um lugar mais bonito, no mínimo menos poluído e menos estressante. Uma cidade pequena, com menos gente, mais tranquila… Pra um ser tão pastel como eu sou, seria melhor. Às vezes me sinto agredida por São Paulo, oprimida com o tamanho, o poder e a desigualdade deste lugar. Todo esses quilômetros, estatísticas e números gigantescos; essas longas distâncias; esse comportamento truncado das pessoas; esse jeito meio estúpido e cimentado de ser que a cidade tem; esse monte de problemas de estrutura que atingem a tanta gente – especialmente pessoas suburbanas como eu… E por aí vai. As mazelas são muitas. Ao mesmo tempo, penso que não me acostumaria longe daqui. Saber que tenho tantas opções de tantas coisas me faz sentir livre, mesmo que eu decida não usufruir delas. Sei que está tudo ali, ao alcance da mão, das marginais ou das linhas de metrô. Acho que esse ar poluído já faz parte dos meus pulmões; esse estresse já faz parte da adrenalina que me empurra pra frente. E mesmo que assim não fosse… Mesmo que eu fosse embora, eu saberia que São Paulo sempre vai ser a minha casa. E só é assim porque a cidade já faz parte de mim.

Para algumas pessoas, tanto faz estar aqui ou ali. São pessoas de espírito livre, nômades, não se apegam. Para outras, é de extrema importância o lugar onde constróem seu ninho; pessoas que por mais que viajem por aí, gostam de saber que podem voltar pra casa uma hora, e que lá vão poder assimilar tudo que viram e aprenderam em outros cantos. Há certas pessoas que mantêm uma relação intrínseca com o lugar onde nasceram, como se aquele espaço tivesse feito parte do útero materno que as abrigou. De um jeito ou de outro, o lugar onde você cresceu e o lugar que escolhe pra ser sua morada sempre passa a fazer parte da sua identidade, de quem você é. É por isso que ainda que eu fugisse de São Paulo, ela iria comigo pra onde eu fosse. Mais ou menos como o Caetano Veloso cantou sobre a cidade natal dele, “um gosto muito raro trago em mim por ti… Meu trabalho é te traduzir”.

À primeira vista, São Paulo não é um lugar bonito, pelo menos não se comparada a cidades de beleza natural como o Rio de Janeiro, Florianópolis ou Fortaleza. Também não é lá muito charmosa como Belo Horizonte. Nem organizada como Brasília ou Curitiba, nem tão interessante como cidades históricas do tipo de Ouro Preto ou Salvador. Muito menos acolhedora como a maioria das cidades interioranas. A graça de São Paulo está em organizar o caos que ela aparenta à primeira vista, e só se consegue isso entrando em convivência profunda com a cidade. São Paulo é do tipo que se descobre aos poucos. Tímida, grosseira até, mas muito complexa e cheia de oportunidades pra todos os gostos. Sempre se pode ser surpreendido por aqui.

Fico pensando qual é a identidade da minha cidade. Seria esse concreto todo? O cinza no céu? A loucura do dia-a-dia? A tal garoa gelada? E quando vejo, do alto dos arranha-céus ou dos picos dos montes cobertos de asfalto aquele monte de espaços claustrofobicamente tomado de casas e prédios, penso que o que há de melhor por aqui, com certeza, são as pessoas. Essa cidade transborda de pessoas por todos os lados, todos os tipos de pessoas. Pessoas com suas histórias, sonhos, medos, dores e amores. Pessoas que, como eu, têm na cidade o seu lar. E é principalmente por isso que São Paulo vale a pena.

Continua…