MAIS DIVAGAÇÕES ESQUISITAS

Estava com saudade das listinhas. Lá vai.

Só por um dia, eu queria ser um guarda de trânsito andando de carro à paisana e multando em silêncio todos os palhaços que gostam de fechar as pessoas, dar uma de espertinhos ou colocar em risco a vida dos outros enquanto dirigem.

Só por um dia, eu queria ser capaz de voltar atrás em uma ou duas situações, só pra saber se eu realmente faria diferente do que fiz.

Só por um dia, eu queria ser o Manuel Bandeira, o Drummond ou o Shakespeare, pra escrever um soneto tão lindo e tão arrebatador que derreteria o coração do moço que eu queria definitivamente.

Só por um dia, eu queria ser uma dançarina espetacular como a Ginger Rogers, só pra dançar “Cheek to Cheek” com o Fred Astaire, e parecer flutuar no ar ao som daquela música linda.

Só por um dia, eu queria ser uma ameba, só pra viver sem pensar em nada.

Só por um dia, eu queria ser um homem, só pra saber como é dar nó em gravata, fazer xixi em pé, saber que graça tem futebol e pensar nas coisas de um jeito inimaginável pras mulheres.

Só por um dia, eu queria ser uma pena, pra voar leve sem destino por aí.

Só por um dia, eu queria ser uma atriz irresistível de Hollywood, só pra seduzir e dar uns catos com o Bruce Willis.

Só por um dia, eu queria ser matemática, só pra entender como se faz aquelas contas enormes que aos meus olhos mais parece um monte de sinais de palavrões.

Só por um dia, eu queria ser uma cartunista de talento, só pra ridicularizar algumas pessoas com classe.

Só por um dia, eu queria ser uma heroína de novela mexicana, só pra ter certeza que as minhas idas e vindas com os caras complicados e atormentados iam dar certo no final.

Só por um dia, eu queria ser um passarinho, pra voar com minhas próprias asas e beber devagarinho do néctar das flores.

Só por um dia, eu queria ser a Madonna, pra ser uma pessoa pública inteligentemente depravada como poucas conseguem ser.

Só por um dia, eu queria ser magérrima, loira, rica e poderosa, só pra saber como é ter alguns tipos de portas abertas sem fazer muito esforço.

Só por um dia, eu queria ser dona de uma sorveteria pra provar todos os sabores sem ter que pagar por isso.

Só por um dia, eu queria ser uma mosquinha racional pra estar em lugares que só uma mosca poderia estar e presenciar cenas que só uma mosca poderia presenciar passando desapercebida.

Só por um dia, eu queria ser chefe da minha chefe, só pra atazanar a vida dela e cobrar com juros e correções as chatices que ela me obriga a aturar.

Só por um dia, eu queria ser Presidente da República, pra pegar o meu avião de luxo e ir viajar pra qualquer lugar do mundo como quem pega um táxi e pede uma rua da cidade.

Só por um dia, eu queria ser alguém que pudesse fazer e dizer absolutamente tudo que quisesse, sem medo do depois.

Mas é só por um dia. Nos outros, ser eu mesma tá bom demais

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PROSTITUIÇÃO DE POUCO LUXO

Quando li esse texto do Clóvis Rossi na Folha de São Paulo, na sexta-feira, senti uma dor forte no coração. Juro que estava tentando ignorar as manchetes na imprensa e os comentários das pessoas com relação ao primeiro grande escândalo de corrupção do governo Lula, com medo de descobrir que o buraco era fundo demais, fingindo que nem era comigo. Mas já ouvi que quanto mais se corre das verdades, mais elas correm atrás de você. E agora, depois de me inteirar do assunto, me deu uma saudade imensa de tanta coisa.

Lembrei daquela música, onde se dizia que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude, está em casa, guardado por Deus, contando o vil metal. E é bem por aí. Assim como é triste ver a morte de uma pessoa, também é triste ver um ideal morrendo assim, de um jeito tão lento e tão doloroso pra quem se importa.

Não se trata do escândalo Waldomiro e afins em si. Todo governo possível vai ter deslizes; é composto por pessoas, e as pessoas são corruptíveis e fracas como crianças diante de um brinquedo novo quando têm algum poder, seja ele financeiro ou político. Mas se trata da postura das pessoas envolvidas. Se trata da gota d´água depois de tudo que vem sendo feito ( ou não feito ) desde o ano passado. Se trata da vergonha que está sendo a administração da cidade de São Paulo. Se trata de frustração e um sentimento de inadequação com esse quadro de relacionamentos políticos que fazem estar numa mesma base PT, PMDB e PPS. Trata-se de não saber em quem acreditar de hoje em diante. Trata-se de não querer mais ler os jornais e revistas, porque não há mais novidades. Trata-se de viver num país pretensamente democrático, mas que não tem oposição ao governo forte ( e nem se encaminha pra isso ). Trata-se dos sonhos perdidos e de uma vontade de desistir e, à revelia do que dizia o Bertold Brecht, me tornar uma analfabeta política assumida.

Sempre achei interessante o uso do termo “pessoa pública”. Um político se torna uma pessoa pública porque carrega com ele os votos, os ideais e esperanças de quem o elegeu. Ver o Lula eleito, pra mim e pra muita gente, era a realização de um sonho apaixonado; a eleição não de uma pessoa, mas de um desejo de mudança. E esses mesmos sonhos e desejos foram usados pelos profissionais publicitários que fizeram a campanha vitoriosa de 2002 como o maior motivo para que se depositasse confiança no enfim acertado plano de governo e no novo partido, menos radical, mais ponderado, mais capaz. E algo começou a cheirar mal desde esses tempos.

De mau humor, de mãos atadas, votei sim, em homenagem aos velhos tempos. Tempo em que ser simpatizante do PT era ser uma pessoa crítica, reflexiva e democrática. Tempo em que radicais e moderados concordavam em essência. Os tempos em que as sedes do partido eram um espaço interessante de discussão de idéias, onde grupos considerados excluídos tinham voz e vez pra falar. Tempos em que o tal metalúrgico vestia uma camiseta surrada e pegava espontaneamente no microfone, falando iradamente e com carradas de razão sobre o que passava o povo que ele dizia amar, e muitas vezes levava eu e mais tanta gente boa e de bem que eu conheço às lágrimas, porque naquelas palavras estavam expressos todos os sentimentos de quem luta, luta, luta honestamente e estava cansado de tanta luta sem recompensa. Tempo em que nomes como Orestes Quércia, Sarney, Maluf e ACM eram considerados a própria encarnação do mal ( como de fato são ), e não apoios políticos de peso. Tempo em que os votos eram conquistados na boca-a-boca, no esforço braçal e mental dos militantes, e não nas reuniões nos escritórios de Duda Mendonça e sua trupe. Tempo que a Luiza Erundina, como prefeita de São Paulo, fazia um bom trabalho de bases, independente de conseguir fazer o seu sucessor ou não, porque era fiel aos seus ideais. Tempo em que pessoas como Zé Dirceu, Mercadante e Genoíno eram modelos de respeito, coerência e honestidade. Tempos em que o PT era realmente dos trabalhadores.

Há quem diga que radicalismos não levam a nada, que política é assim mesmo, e que as mudanças do partido e das pessoas que o compõem foram justas, caso contrário nunca se teria chegado ao poder. Balela. Pra mim isso é venda da mais barata, da mais baixa, é trocar a ideologia por trinta dinheiros. Assisti horrorizada Lula falando manso e aceitando a sua tal mudança de imagem. Vi os outdoors na rua com ele ao lado do Quércia, do Fleury, do Francisco Rossi. Vi as concessões sendo feitas, o poder subindo à cabeça de certas pessoas conforme subiam os indicativos de votos nas pesquisas. Li o plano de governo light e politicamente correto, tão diferente do de 94, que eu ainda guardo com carinho nas papeladas no armário. Vi pré-acordos com o FMI, empresários, banqueiros. Um professor me ensinou que se deve ler no jornal a página política, mas também as colunas sociais, porque é lá, nelas, que você observa quem janta com quem e quem aperta a mão de quem. E lá, nessas colunas, eu vi abraços cordiais entre inimigos mortais. E mesmo horrorizada com a falta de escrúpulos dessa gente, mesmo com nojo disso tudo, mesmo me sentindo traída, na hora H, votei. Votei porque pensei que estava há mais de 10 anos esperando aquele momento, sem perceber que, na verdade, o momento agora era outro. Votei porque achei que não era possível que alguém ou uma instituição perdesse totalmente sua identidade, sua marca, sua alma por causa do poder. Votei porque acreditei que ninguém poderia brincar com uma coisa tão séria quanto as esperanças dos outros. Votei mal.

Conheci um rapaz que gostava de sair com prostitutas. Uma vez conversamos sobre isso, e ele me deu suas razões, e fez alguns comentários. Um deles dizia respeito às escolhas que fazia. Ele disse que não gostava de mulheres vulgares e baixas. E me disse que, até pra vender o corpo, há que se ter um pouco de dignidade e classe, caso contrário, ao invés de admiração, se causa repugnância. Ele dizia que só se metia com prostitutas de luxo. E luxo, pra ele, não era sinônimo de caro, mas sim de integridade, sinceridade e coerência.

E é isso. Pra se vender a alma, também há que se ter dignidade e elegância. E há que se ser leal, senão aos outros, a si mesmo, pelo menos. Infelizmente, estou repugnada. E pra não perder o costume de citar músicas… Eu me vali desse discurso panfletário, mas a minha burrice faz aniversário. É triste, muito triste.

PS:. Quem quiser o texto do Clóvis e não for assinante UOL ou Folha, basta pedir que eu mando.

PS 2:. Falar em eleição, clica aí no selinho e vota no Inagaki. Ele é bom de verdade, fez uma campanha limpa e vai fazer muito mais durante o mandato, tenho certeza. Eu sempre saio do blog dele mais informada e mais inteligente. E ele, ainda por cima, é gente boa, simpático e atencioso. Depois dessa propaganda toda ( não enganosa ) espero que você clique aí, vote, e ainda concorra a um carrão por ter cumprido o seu dever cívico.

Vote em Pensar Enlouquece no iBest Blog!

UPDATE
Muita gente escreveu perguntando sobre a mudança do Mafalda pro Movyble Type e pro endereço .com.br, com planos de mudar também. Estou ainda aprendendo a mexer no sistema, e a página lá ainda precisa de alguns acertos, mas logo que entender o que estou fazendo ( hehe, porque até agora eu não sei mesmo ), prometo que faço um post explicando. Por hora, só digo que é mais fácil do que parece. 🙂

FIM DE FESTA

PARTE I – ARRUMANDO A CASA

Festa com convite público é isso mesmo. Muito divertida, muito vistosa, muito bacana. Vem uma porção de gente, tem um movimento danado, a gente dá um trato especial na casa, observando o enorme entra e sai. Dá uma sensação de estranheza e euforia se alternando constantemente e muita, muita troca de todos os tipos de energia. Os amigos antigos vêm pra dizer parabéns e curtir aquele momento bom de sempre; e os novos pra sacar qual é. Claro, tem gente que conquista logo de cara, gente que entra e fica com aquela vontade de nunca mais sair, gente que gosta, gente que odeia, gente que vai voltar e gente que vai esquecer o endereço. Tem também os que arrumam confusão por qualquer coisa ( e os comentários mais ofensivos desses eu apaguei, afinal a dona do barraco sou eu, e não vou aturar desaforos gratuitos ), e gente que vem só pra pegar carona nas luzes. Não faz mal, foi ótimo.

Estar no BON da semana passada foi muito legal sim. Legal porque sei que muita gente boa veio pela indicação ( e foi por essas indicações que eu achei gente maravilhosa como o Chef, a Patilene, Ciça, Bêbada e Equilibrista, por exemplo ). Legal por saber que o que eu tinha escrito estava sendo lido por mais gente. Legal pelo número absurdo de comentários ( só acredito que um blogueiro não liga pra comentários se não tiver adotado a prática no seu próprio blog; afinal, quem escreve gosta de saber o que pensaram do que foi escrito ). Legal pelas visitas que estou fazendo em retribuição e descobrindo mais gente talentosa e cativante nesta blogosfera, que por sua vez me levará a ainda mais gente boa e assim por diante. Legal porque sim e tudo o mais.

Acalmada a confusão, hora de colocar as coisas em ordem e voltar pro cotidiano, que tem o seu charme. E a sua dor.

PARTE II – RESSACA BRAVA

Uma pena que essa indicação do Blogger tenha ocorrido numa semana simplesmente macabra para algumas pessoas por causa desse mesmo sistema que me aclamou. Não vou chover no molhado e ficar relatando em detalhes o que andou acontecendo com algumas pessoas que dependem ( ou dependiam ) desse sistema da Globo.com. Quem ainda não soube de nada, pode se inteirar do assunto lendo as experiências da Alê, do Matusca, ou lendo os maravilhosos comentários do Inagaki e da Helô. Seu Marcelo, meu querido amigo e consultor, também escreveu algo interessante em seu site. Muitos blogueiros comentaram sobre isso em suas páginas. Alguns com medo, outros muito putos, e grande parte desanimados, perdidos e sem saber o que fazer.

Já faz um tempo que blogar por aqui dá uma sensação de estar dançando na corda bamba. Já me pronunciei sobre o assunto faz algum tempo, mas o faço de novo.

Por um lado, tem a idéia de que a Globo.com, através do Blogger Brasil, tem todo o direito de cobrar por seus serviços e limitar a utilização do sistema para otimizá-lo. Não entendo de Internet, apenas uso; mas imagino que manter milhões de blogs no ar sem estar preparado pra isso, cruzado um certo limite, exija medidas drásticas como cortar novos acessos, limitar o uso e deletar páginas inativas. Ninguém está aqui pra fazer favor pra ninguém em se tratando de empresas, e o serviço, sendo bom, usa quem quer e/ou pode pagar. Até aí, esperado ( e que se espere o mesmo dos outros sistemas gratuitos ).

Por outro lado, estão os usuários. Os usuários que viram um contrato mudar de cara pelo menos 4 vezes no último ano. Os usuários que tiveram seus blogs simplesmente deletados sem aviso prévio ( mesmo tendo sido tranquilizados pelas “novas regras” que isso não aconteceria com quem era usuário antigo ). Os pobres usuários que foram, de certa forma, censurados por reclamarem da situação. Ou que tiveram o conteúdo e senhas bloqueados porque o sistema parece incapaz de reconhecer quem é ou não antigo de casa. Os mesmos usuários que, mesmo tendo assinado os serviços do portal, ainda não conseguem resolver seus problemas. Sem falar nos usuários de fora do Brasil que foram impedidos de acessar. E tem também os usuários que, ao acessar as páginas com terminação blogger.com.br, estão dando inúmeras vezes de cara com mensagens de erro de congestionamento e manutenção do sistema. Sim, os mesmos usuários que estão com medo de perderem seus posts, comentários e os pedaços de vida que andaram derramando por aqui todo esse tempo. Meros usuários que são a razão de existir do Blogger Brasil. Mas quem vai se preocupar com eles? São apenas usuários.

Me dá pena pensar que, pra muita gente, a falência do Blogger.br significa o fim da vida blogueira. Gente que não tem mais paciência e nem dinheiro pra começar de novo em algum outro lugar. Gente que se sentiu decepada por ter tanto conteúdo desaparecido ou bloqueado de uma hora pra outra na internet. Uma pena tudo isso acontecer. Pena pensar que tanta gente boa vai evaporar da web por causa disso. E uma pena pensar que com um pouco mais de gentileza e profissionalismo, 90% dessas dores de cabeça poderiam ter sido evitadas.

Eu mesma pensei em parar. Migrar para outros serviços é uma possibilidade, mas também difícil. Os sistemas que falam português não parecem muito diferente. E acho que nenhum outro oferece as possibilidades que o Blogger oferecia de maneira tão acessível para pessoas leigas. Mas, quando certas coisas se tornam hábito, passam a ser necessárias. Então…

PARTE III – THE SHOW MUST GO ON

Dentro de poucos dias, a Mafaldinha vai ter casa própria e parar de morar de aluguel. E vai se tornar mafaldacrescida.com.br . Pensei em convidar um monte de blogueiros legais pra montar um portal super-híper-mega-bacana só para blogs, mas meus conhecimentos informáticos não são suficientes para isso. Então, seguindo as orientações do meu consultor, estarei em outro domínio.

Essa coisa de mudança é muito complicada. Não tem jeito, algumas coisas que você gostava têm que ficar pra trás. E o que mais me dói são os comentários, que não vou poder levar pra lá. Por alguns deles tenho muito, muito carinho. Alguns são melhores que os textos aos quais se referem. Me dá pena deixar aqui. Mas… Outros virão, e dessa vez vai ser em um lugar mais seguro. O importante é que todos vocês continuam convidados a entrar e ficar muito à vontade. Espero que, aos pouquinhos, as pessoas consigam soluções para não tirarem seus blogs do ar. O mundo perderia muito se algumas talentosas pessoas desistissem de deixar suas marcas nessa Internet ainda doida.

Assim que estiver tudo acertado, aviso. Espero vocês por lá pra muitas outras festas.

PS:. Por conta do alto número de visitas repentinas, o concurso do visitante 10 000 foi adiado para o visitante 15 000… Mas não esqueci, não! Aguardem-me. 🙂

SOBRE GUIMARÂES, MELODIAS E AFINADORES

Limpando meus arquivos do pc, encontrei um trabalho antigo da Faculdade de Pedagogia ( eca, eca, eca ). Tive vontade de deixar por aqui. A idéia era discorrer sobre uma frase do Guimarães Rosa, que em si, já é tudo.

“O senhor mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam.”
Guimarães Rosa

Lembro-me de quando eu, ainda menina, tocava piano, e ganhei um de presente. Era um presente caro, que eu tratava com cuidado e carinho; meu piano era belíssimo, preto, cheio de detalhes entalhados na madeira cheirosa. Não era novo, pelo contrário. Minha mãe o comprou de um senhor muito idoso, que tinha uma afeição enorme por ele, afeição que eu me senti no dever de respeitar. Tudo acertado; chegou o dia… Um amigo trouxe o instrumento para minha casa, e logo que ele chegou, no meio de toda aquela confusão e euforia, e foi colocado no lugar já reservado para ele, todos se sentaram e se prepararam para me ouvir tocar. Eu já tinha escolhido a canção, a minha preferida. Porém… Quando bati nas primeiras teclas, uma decepção. O balanço da viagem tinha feito com que as cordas dos instrumentos se esticassem demais, e os tons estavam totalmente desafinados; a canção soou feia, estranha, e eu parei de tocá-la.

Ao abrir a tampa do piano, percebemos que o que víamos por fora nada era comparado ao que havia dentro das tampas de madeira. Um monte de cordas, de várias cores, espessuras, trançadas de maneira complexa. Cada uma tinha na ponta espumas coloridas, de tamanhos e cores diferentes… Uma estrutura fina e delicada, e nem eu, a jovem pianista, nem nenhum dos curiosos da minha casa seria capaz de mexer ali e consertar o piano para que ele emitisse sons perfeitos.

Chamamos um afinador. Chegou a minha casa um senhor de cabelos brancos, muito simpático e doce, Seu Avelino… Passou a tarde mexendo nas teclas, apertando e soltando cordas, ouvindo e reouvindo sons bem devagar, mexendo em tudo com cuidado e ferramentas minúsculas. Eu, ansiosa, o observava com atenção. Quando ele terminou, levantou-se satisfeito, sorrindo, e me pediu para experimentar. Toquei a música antes escolhida, e ela nunca soou tão suave e tão gostosa de ouvir; ele a ouviu inteira, atentamente, balançando afirmativamente a cabeça. A música acabou, ele se levantou e me cumprimentou. O trabalho dele estava terminado, ele se foi. Voltou muitas outras vezes, pois de tempos em tempos, eu ouvia um ou outro som dissonante… E lá estava Seu Avelino, a afinar novamente os sons do meu piano. Observando-o trabalhar, vi como era importante ter perseverança e sensibilidade para lidar com aquelas cordas que insistiam em desafinar.

Mais tarde, quando li pela primeira vez essa frase de Guimarães Rosa, me lembrei do Seu Avelino, e ao encontrá-la novamente agora, lembrei dele de novo. O piano, algum tempo depois se foi para casa de outra garota; minha vontade de tocar também se foi, mas a imagem daquele dia, de tempos em tempos, me volta à mente. “Afinar e desafinar” é algo que está na natureza dos instrumentos, das pessoas, da vida, um ciclo que nunca termina, começa e recomeça. Nossa cultura ocidental acaba nos fazendo conformar com a idéia de que as coisas se dão de maneira linear, cumulativa, estática; a linha da vida é simples, se nasce, se cresce, se envelhece e se morre. Mas quando penso no que essa frase de Guimarães me diz, vejo que, na verdade, afinar e desafinar é um movimento que todos nós fazemos todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Afinando a desafinando, nós, como pessoas, vamos mudando, isso é um fato; e nunca chegaremos ao fim enquanto existirmos.

Há pessoas que preferem não tocar muito nas próprias cordas, com medo que elas desafinem e emitam um som horrível, sem perceber que até os sons estranhos têm sua função e sua beleza, ainda que distorcida. Com medo de tocar mal, escondem o que poderiam tocar de bonito. Acabam fazendo com que as cordas, com o passar do tempo, acabem por enferrujar por pura falta de uso. Outras pessoas têm certa dificuldade de entender os ciclos, os tempos de cada um, inclusive os seus próprios. Há momentos em que as cordas, tinindo, tocam de forma fácil, harmonicamente perfeitas… Mas há também tempos em que desafinam, e isso é bonito. Um som desafinado é apenas um aviso de que é chegado o momento para que se pare de tocar, e, com a paciência de Seu Avelino, se conserte cada corda, se verifique cada passagem, se aproveite cada experiência. É um trabalho fino, delicado, que angustia, exige paciência; mas o resultado é um som novamente melodioso… Pelo menos até que se desafine novamente, e tudo recomece… E assim cada um lida de uma forma com a realidade de seu próprio instrumento de alma. O resultado é o que temos aí: belas músicas, belas melodias, péssimas harmonias… Uma sinfonia que nem sempre soa bem, mas que está aí, acontecendo.

E o que dizer de nossos sons em mistura com os de outras pessoas? Uma orquestra… Quantos instrumentos diferentes… Cada um de um jeito, uma altura, uma estrutura, um som. Uns mais delicados, outros mais fortes; uns graves, outros agudos; uns suaves, outros mais grosseiros, mas todos com sua função, seu papel. A partitura é uma só, e está escrita, é muito simples: todos querem ser felizes, realizar desejos, eliminar mágoas e angústias. Mas a maneira como cada um toca sua parte, às vezes, torna difícil a harmonia de tudo. Na vida, encontramos alguns regentes ( como o próprio Guimarães Rosa ) que nos ensinam a melhorar nossas produções pessoais… Mas é preciso que tenhamos humildade para aprendermos as lições, e para ensiná-las a outros… E paciência para aprender a ver a beleza do instrumento de cada um, mesmo quando essa beleza não é aparente. Essa convivência é difícil, muito difícil… Mas possível.

E o que dizer de pessoas como o Seu Avelino… Que trabalho lindo, que coisa mais delicada e amável é afinar um instrumento, para que ele toque canções que emocionem. Será que se pode pensar em afinadores de pessoas?

Creio que algumas vezes, as pessoas afinam e desafinam sozinhas; isso é necessário algumas vezes. Mas, sinceramente, penso que há pouca vantagem em aprender algo sozinho. Quase sempre, precisamos que alguém nos toque as cordas desafinadas, tecla por tecla, com entusiasmo, cuidado e carinho, para que possamos novamente encontrar a afinação perfeita. Eu tive vários afinadores em minha vida. Meus pais, meus avós, meus amigos, parentes, namorados, chefes, colegas de trabalho, até mesmo desconhecidos… E meus professores. Todos tiveram algo a dizer. Num momento de destoar, é preciso que alguém nos ensine o caminho para voltar a entoar belos sons; alguém que compreenda o momento e nos leve de volta à partitura. Algumas vezes, precisamos mesmo de alguém que desestabilize nossas teclas, para que possamos iniciar novamente o movimento de afinar, desafinar… O que esse alguém vai usar para nos ajudar, não sei… Pode ser um sorriso, uma poesia, uma flor, uma lágrima, uma canção, uma bronca, um abraço, uma lição. E tudo está aí, toda a hora, de todo jeito… Basta saber olhar.

A canção perfeita jamais será alcançada… Essa é a graça da vida, as pessoas mudam, nunca estarão prontas, e, afinal de contas, sequer sabemos pra que serve a perfeição, penso que ela deve ser rígida e chata. Mas é possível conseguir melodias incríveis e diferentes a cada momento da vida, e ouvi-las com prazer, e assim a vida se cumpre. Afinal, “o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam”.

* PS:. MUITO OBRIGADA por todos os parabéns, elogios e críticas ( decentes ) relacionado ao BON. Prometo retribuir as visitas assim que for possível. 🙂

DROPS DE MORANGO

Er… Hora do discurso!

( Obrigadíssima ao Marcelo, Cacau, Felicity, Ari, e Prikinha, que me ajudaram com esse lance da imagem. 🙂 )

Bem, o fato é que BloggerMan, essa entidade fantasmagórica e misteriosa, de quem a atenção é objeto de desejo oculto ( ou descarado ) de muitos dos participantes da Blogosfera… Sim, ele prestou atenção em mim! E lá está, no BON da semana, o nomezinho “Mafalda Crescida”. Obrigada, BloggerMan, pelo reconhecimento e oportunidade de saborear meus 15 minutinhos de fama. Nossa, fiquei contente, contentíssima.

Pra você que chega por aqui pela primeira vez, sinta-se em casa, deixe suas marcas e volte sempre, a casa é sua. Sei que entre essas pessoas, estão algumas que ficarão pra tomar um café, olhar o ambiente e ir embora pra nunca mais. Outras, vão virar fregueses pra vários almoços e lanchinhos na casa, e outros só vão dar uma passadinha rápida. Seja qual for o seu caso, goste ou não goste daqui, fico feliz em recebê-lo.

Pra você que sempre está por aqui prestigiando esses textos compridos e cheios de idas e voltas, mais um monte de beijos e o meu muito obrigada pelo carinho de sempre. I love you all. 🙂

Eu gostaria de dizer mais, mas vocês sabem que os discursos de agradecimento têm um tempo limitado pra não ficarem chatos ( e ainda assim ficam, hehe… ). Meus olhos estão fechando sozinhos de sono, por isso não agradeço hoje mesmo, pessoa a pessoa, os cumprimentos recebidos. Mas posso dizer só mais uma coisa:

ADOREI!

ESSE GRANDE AMOR

Um grande amor é assim: ele sempre existe antes que a gente se dê conta e sempre fica depois que a gente acha que acabou. E o meu amor por você sempre deve ter existido, antes mesmo que eu me desse conta. Não me lembro quando percebi sua presença. Pela nossa diferença de idade, quando eu era menina pequenininha, você já devia estar por aí com esse charme todo, esses olhos tímidos e penetrantes.

Na escola, me falaram de você. E eu, pequena ainda, me emocionava com seu jeito. Meu pai não gostava de você; minha mãe dizia, quando te via passando, que você era um moço muito interessante, mas agitador demais pro gosto dela. Às vezes eles brigavam por sua causa. Eu, só olhando pra você, de longe, tentando saber quem era você e o que fazia.

Quando cresci e me tornei uma adolescente romântica e apaixonada, logo prestei atenção em você. Sua presença, sua inteligência, seu charme, suas palavras sempre doces e levemente maliciosas, sua classe e elegância me seduziram. E tive um amor platônico, daqueles que toda adolescente tem. Amor que foi sufocado e virou admiração, e uma estranha amizade unilateral, baseada nessa leitura de almas que você sabe fazer tão bem, homem sensível que é. Em meu quarto, vários sinais seus. Fotos, sons, e outras lembrancinhas. Segui minha vida amorosa, mas de alguma forma, você sempre esteve comigo. Os outros tinham ciúme, mas tiveram que se conformar.

A primeira vez que estive pertinho, bem pertinho de você, fiquei ainda mais encantada. Além de belo, seu jeito único de falar, movimentar, o som da sua voz, sua voz fraquinha, mas tão adorável, seu sorriso… Tudo me fazia suspirar. Saí de perto de você mais flutuando que andando, e assim foram todas as vezes que nos encontramos depois.

Ainda hoje, mantenho por você um vício secreto. É sobre o que você diz sobre o mundo que eu gosto de pensar. É do jeito que você encara o amor que eu sonho ser amada. É nas tuas observações sarcásticas e originais do cotidiano que eu gosto de refletir sobre a vida. É na sua genialidade e inteligência que eu me afundo e morro de admiração e, confesso, grande cobiça. É no seu passado bonito que eu gosto de me inspirar. É com você que eu gosto de estar quando não suporto mais ninguém. Você me traduz. E eu me sinto acolhida pelas suas palavras… E quando me lembro e procuro por você, passamos horas unidos, como se cada coisa dita puxasse ainda outras… E não me canso de viajar nas pérolas que você derruba para o mundo.

“Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida”

“Não chore ainda não, que eu tenho um violão e nós vamos cantar…”

“A moça triste que vivia calada sorriu, a rosa triste que vivia fechada se abriu,
E a meninada toda se assanhou pra ver a banda passar cantando coisas de amor…”

“Vem ver que a vida ainda vale o sorriso que eu tenho pra lhe dar.”

“O meu samba se marcava na cadência dos seus passos,o meu sono se embalava no carinho dos seus braços…”

“Carolina, nos seus olhos tristes guarda tanto amor: o amor que já não existe…”

“Até o mar faz maré cheia pra chegar mais perto dela”

“A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu?”

“Só vim te convencer que eu vim pra não morrer de tanto te esperar…”

“Eu andava pobre, tão pobre de carinho…
Que, de tolo até pensei que fosses minha.”

“O que é que eu posso contra o encanto desse amor que eu nego tanto, evito tanto, e que no entanto volta sempre a enfeitiçar…”

“Não sei se preguiçoso ou se covarde debaixo do meu cobertor de lã
Eu faço samba e amor até mais tarde e tenho muito sono de manhã…”

“A vida é sempre aquela dança aonde não se escolhe o par
Por isso às vezes ela cansa e senta um pouco pra chorar.”

“Você que inventou a tristeza, ora, tenha a fineza de desinventar!”

“E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz.”

“Todo dia eu só penso em poder parar, meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar e me calo com a boca de feijão.”

“Andei sete léguas de amor, chorei sete litros de mar
Mas ela não se saciou, mas ela não soube esperar.”

“Quando amo eu devoro todo o meu coração
Eu odeio, eu adoro numa mesma oração.”

“Dominante, não se desembaraça; ofegante, é dona do seu senhor.”

“Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio?”

“Ele sabe dos segredos que ninguém ensina
Onde guardo o meu prazer, em que pântanos beber…”

“Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina, salta e te ilumina quando a noite vem…”

“Quantas guerras terei que vencer por um pouco de paz?”

“Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor…”

“Deixe em paz meu coração que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não: pode ser a gota dágua.”

“E a gente tá engolindo cada sapo no caminho,
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho ninguém segura esse rojão.”

“Me disse pra ser feliz e passar bem.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci, mas depois, como era de costume, obedeci.”

“O que será que me dá que me bole por dentro, será que me dá…”

“Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar o que é que a vida vai fazer de mim.”

“Eu era tão criança e ainda sou…
Querendo acreditar que o dia vai raiar só porque uma cantiga anunciou…”

“O meu amor tem um jeito manso que é só seu.”

“Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.”

“Mal sei como ele se chama, mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama e me chama de mulher.”

“O amor é feroz: faz em nós um estrago medonho.”

“Eu bato o portão sem fazer alarde, eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade e a leve impressão de que já vou tarde.”

“Eu tenho saudades da nossa canção
Saudades de roça e sertão
Bom mesmo é ter um caminhão, meu amor…”

“Quando nos apaixonamos poça d’água é chafariz
Ao olhar o céu de Ramos vê-se as luzes de Paris.”

“Pixaram no muro, mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz.”

“Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?
Bandida, cadê minha estrela guia?”

“Larga a minha mão, solta as unhas do meu coração
Que ele está apressado e desanda a bater desvairado quando entra o verão.”

“Se nós, nas travessuras das noites eternas já confundimos tanto as nossas pernas ,iz com que pernas eu devo seguir.”

“Arranca, vida, estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa, pulsa, pulsa mais…”

“Vê se tem no almanaque, essa menina, como é que termina um grande amor
Se adianta tomar uma aspirina ou se bate na quina aquela dor
Se é chover o ano inteiro chuva fina ou se é como cair o elevador”

“Mas levo esse amor com o zelo de quem leva o andor
Eu velo pelo meu amor que sonha…”

“Homem constrói sete usinas usando a energia que vem de você
Homem conduz a alegria que sai das turbinas de volta a você”

“Passas sem ver teu vigia catando a poesia que entornas no chão.”

“Sim, me leva para sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz.”

“Pelo amor de Deus, não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém abandonado, pelo amor de Deus”

“Te perdôo porque choras quando eu choro de rir – te perdôo por te trair.”

“Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito, exijo respeito, não sou mais um sonhador.”

“Quis saber o que é o desejo, de onde ele vem, fui até o centro da terra e é mais além.”

“Se me faltares, nem por isso eu morro: se é pra morrer, quero morrer contigo.”

“Mesmo sendo errados os amantes seus amores serão bons…”

” Façam muitas manhãs que se o mundo acabar eu ainda não fui feliz.”

“A gente pode se entender e não saber o que falar.”

“Depois de te perder te encontro, com certeza; talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada, nada aconteceu… Apenas seguirei, como encantado ao lado teu.”

“Eu descartava os dias em que não te vi
Como de um filme, a ação que não valeu…”

“Não se afobe, não, que nada é pra já
O amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio”

“Mas nem as sutis melodias
Merecem, Cecília, teu nome espalhar por aí…”

É impossível não me emocionar ouvindo esse Chico. Amor de verdade. Esse foi um dos posts mais difíceis que já fiz, pela quantidade de links e pela dificuldade em escolher canções e dentre elas trechos, porque, pra mim, quase todas são perfeitas. Ah, Chico, se todos fossem iguais a você…

Dedido aos amigos chicoólatras como eu, especialmente um certo carioca que tem feito meu coração bater mais forte ultimamente, e de quem eu lembro quando esse formidável artista está tocando no meu cd player. 🙂

OS DIAS ESTÃO SIMPLESMENTE LOTADOS

Minha mãe sempre dizia que o trabalho enobrece o homem. Minha vó dizia que em terra de bom homem, quem não trabalha, não come. Meu pai dizia que sem trabalho uma pessoa só pode pensar besteiras. Minha tia batia no peito com orgulho pra contar que levantava antes das 5 da manhã e ia dormir antes da meia-noite trabalhando fora e dentro de casa sem parar. Meu ex-namorado achava normalíssimo trabalhar 14 horas por dia, mais algumas horas por noite e finais de semana inteiros, sacrificando o que gostava de fazer; e achava mais normal ainda passar anos e anos sem férias. Meus professores diziam que o trabalho é necessário em toda e qualquer sociedade, e que sem ele nada teria sido possível, principalmente o Capitalismo. As pessoas na TV, nos jornais e nas ruas reclamam que sem um emprego não podem levar uma vida digna. E tudo que eu penso é que na verdade tudo isso é uma grande enganação, uma balela, um absurdo, um conceito que nos foi enfiado desde sempre goela abaixo, e que aprendemos a comer como prato saboroso todos os santos dias. Na verdade, trabalhar é um saco. Uma arbitrariedade. Uma ditadura. Um sufoco. E, nesse mundo louco, não trabalhar é pior ainda – isso é que é uma verdadeira cilada.

Não se trata de rejeitar o trabalho em si. As pessoas precisam de atividade constante. Pra isso temos polegares opositores e um cérebro pretensamente desenvolvido. A atividade permite que criemos coisas, que transformemos a natureza, que nos tornemos ainda mais inteligentes e sábios. A atividade é o que mantém o mundo funcionando. Mas trabalhar com tantos horários, padrões, sacanagens explorativas, injustiças financeiras, chefes folgados e/ou imbecis e tanta mediocridade é que mata. Tenho certeza que não era essa a intenção inicial de tudo. Houve um desvio. Ideologias e mais ideologias que já foram mais que introjetadas nos fazem trabalhar como loucos e ainda agradecer por isso, como se fosse um grande pecado reclamar de ter um emprego quando tanta gente precisa de um. Mas essa culpa eu tenho deixado de lado pra repensar o que eu estou fazendo da minha vida ligando esse piloto automático. Como dizia o Chico, Deus lhe pague, porque eu, dispenso. ( Quem não conhece a música, por favor, clique neste linkezinho, é algo, assim… Fundamental. )

Não se trata do discurso de moça preguiçosa. Não imagino a minha vida sem um trabalho, e trabalho MUITO, mas muito mesmo, desde os tenros anos de adolescência. E ainda levo uma vantagem sobre a grande maioria das pessoas: amo o que faço, adoro a profissão que escolhi e me esforço sempre pra enxergar o lado bom de todas as coisas. E tenho duas férias por ano. E em um dos meus empregos sou funcionária pública. E não tenho o pior dos salários. E não padeço muito de rotina. E trabalho com seres humanos da melhor qualidade, tanto as minhas colegas de trabalho quanto aquelas crianças lindas. Mas, mesmo assim, tenho sentido uma vontade enorme de reclamar, reclamar e reclamar dessa vida margarida. Hoje, mais velha, com menos paciência e cada vez mais cri-cri, tenho pensado muito até que ponto vale a pena entrar de cabeça nessa roda-viva. Cadê o tempo de sentir o sabor da comida com calma na hora do almoço? De acordar devagarinho depois de pelo menos 6 horas de sono tranquilo? Cadê a hora de me divertir? De ler um livro, ver um filme, curtir minha casa, passear? De ir ao médico, de resolver coisas com tranquilidade? Cadê a minha dignidade em não engolir todos os tipos de sapos por conta de um emprego? Cadê o tempo de telefonar, mandar mensagens, estar com a família e queridos, sair com as pessoas? Cadê as prioridades que realmente deveriam ser prioridades? Cadê o direito de mandar na minha própria vida? Será que não estou deixando isso tudo ficar cada vez mais massacrado debaixo dos apertos cotidianos e do cansaço que me fica nas horas pseudo-livres? Quero isso pra mim, não.

Ao mesmo tempo, todos os meses, sem falhar nenhum, as contas chegam – água, luz, cartão de crédito, telefone, prestações. Com elas também chega a sensação de que nunca tenho dinheiro pra fazer as coisas que eu realmente queria, ou para comprar as coisas que eu preciso ter, mesmo dando meu sangue. E como as contas chegam, também chegam os anos, a idade, a mudança de objetivos, e a impressão de que a tendência é piorar, e muito. Como vai ser quando eu precisar assumir a minha vida? E quando eu precisar pagar todas as contas sozinha ou, no máximo, dividindo por dois? E quando eu tiver pessoas que dependam de mim? Vai valer a pena me matar de trabalhar pra satisfazer os pequenos luxos e sonhos consumistas que aprendemos a ter, esquecendo dos meus pequenos prazeres? É pra isso mesmo que eu estou por aqui? Não posso me acostumar com isso. Não desce, não dá. Me incomoda profundamente. E não consigo engolir esse papo de que “é assim mesmo”.

Tenho medo do que vai virando normal nessa vida. Tenho medo de acabar achando normal trabalhar o dia todo, 5 dias por semana, 11 horas por dia, e ainda dedicar horas do meu tempo em casa pro mesmo trabalho. Tenho medo de voltar a fazer o que eu fazia anos atrás, quando eu fiquei doente, achando normal trabalhar dia e noite só pra conseguir uns trocados a mais. Fico pensando quanto vale o show. Quanto vale a minha saúde, o meu prazer, o meu humor, a minha sensação de bem-estar e de que não estou passando em branco por aqui.

Um certo homem sociólogo disse sobre a necessidade de prepararmos nosso espírito para o ócio, não para o trabalho. A verdade é que nem sei se isso é possível, mas hoje, eu queria parte da minha vida ociosa, sim. Queria não ter que pagar um preço tão alto pra ter as coisas que todo mundo tem, ou pelo menos gostaria de ter. Queria meu meio-período livre de volta. Às vezes, bem às vezes, eu queria que as coisas fossem mais fáceis pra mim, que eu tivesse nascido em berço de ouro, ganhado na loteria, vencido o Show do Milhão ou casado com o herdeiro de uma fortuna, pra sentir o gosto da liberdade de decidir sobre os meus dias, pra não precisar nunca me humilhar por nada nesse mundo e trabalhar só por prazer. Queria, queria mesmo.

Hoje estava conversando com os novos bebês que recebi na escola este ano ( umas graças, por sinal ) e tentando convencê-los do bem que faria pra eles ir pra escola ao invés e ficar em casa se divertindo. Por um momento, vendo aquelas carinhas inocentes e chorosas olhando pra mim, duvidei do que estava dizendo. Talvez, eles não precisem da escola pra prepará-los pra essa vida injusta que nós vivemos, não. Mas prossegui no discurso porque pensei que eles, como eu, não poderiam romper com esse sistema altamente articulado sem nos ferrar mais ainda; e a única chance que nós temos é nos preparar, sim, mas do jeito certo. O que posso fazer, por eles e por mim, é ajudá-los a pensar em soluções criativas e a ser tão, mas tão competentes como pessoas que possam viver sossegados sem ter que um dia escrever um post reclamão como este. Tomara que eles tenham mais sorte. Deve ser por isso tudo que os mais rebeldes ( claro, rebeldes conscientes ) sempre são os mais bem sucedidos e mais felizes pessoas que a gente encontra por aí.

O grande e sábio Seu Madruga é que tinha razão. No fim das contas, não existe trabalho ruim. Ruim é ter que trabalhar. Tsc.

PS: Como devem ter reparado, voltei! Estou com um pc novo, lindo, turbinadíssimo e rápido no gatilho. Uma pena esse tipo de coisa custar tanto dinheiro, me meter em mais uma dívida e ser mais um motivo pra eu nem pensar em largar um dos meus empregos… Mas vale a pena por estar com vocês, pessoas.