OS DIAS ESTÃO SIMPLESMENTE LOTADOS

Minha mãe sempre dizia que o trabalho enobrece o homem. Minha vó dizia que em terra de bom homem, quem não trabalha, não come. Meu pai dizia que sem trabalho uma pessoa só pode pensar besteiras. Minha tia batia no peito com orgulho pra contar que levantava antes das 5 da manhã e ia dormir antes da meia-noite trabalhando fora e dentro de casa sem parar. Meu ex-namorado achava normalíssimo trabalhar 14 horas por dia, mais algumas horas por noite e finais de semana inteiros, sacrificando o que gostava de fazer; e achava mais normal ainda passar anos e anos sem férias. Meus professores diziam que o trabalho é necessário em toda e qualquer sociedade, e que sem ele nada teria sido possível, principalmente o Capitalismo. As pessoas na TV, nos jornais e nas ruas reclamam que sem um emprego não podem levar uma vida digna. E tudo que eu penso é que na verdade tudo isso é uma grande enganação, uma balela, um absurdo, um conceito que nos foi enfiado desde sempre goela abaixo, e que aprendemos a comer como prato saboroso todos os santos dias. Na verdade, trabalhar é um saco. Uma arbitrariedade. Uma ditadura. Um sufoco. E, nesse mundo louco, não trabalhar é pior ainda – isso é que é uma verdadeira cilada.

Não se trata de rejeitar o trabalho em si. As pessoas precisam de atividade constante. Pra isso temos polegares opositores e um cérebro pretensamente desenvolvido. A atividade permite que criemos coisas, que transformemos a natureza, que nos tornemos ainda mais inteligentes e sábios. A atividade é o que mantém o mundo funcionando. Mas trabalhar com tantos horários, padrões, sacanagens explorativas, injustiças financeiras, chefes folgados e/ou imbecis e tanta mediocridade é que mata. Tenho certeza que não era essa a intenção inicial de tudo. Houve um desvio. Ideologias e mais ideologias que já foram mais que introjetadas nos fazem trabalhar como loucos e ainda agradecer por isso, como se fosse um grande pecado reclamar de ter um emprego quando tanta gente precisa de um. Mas essa culpa eu tenho deixado de lado pra repensar o que eu estou fazendo da minha vida ligando esse piloto automático. Como dizia o Chico, Deus lhe pague, porque eu, dispenso. ( Quem não conhece a música, por favor, clique neste linkezinho, é algo, assim… Fundamental. )

Não se trata do discurso de moça preguiçosa. Não imagino a minha vida sem um trabalho, e trabalho MUITO, mas muito mesmo, desde os tenros anos de adolescência. E ainda levo uma vantagem sobre a grande maioria das pessoas: amo o que faço, adoro a profissão que escolhi e me esforço sempre pra enxergar o lado bom de todas as coisas. E tenho duas férias por ano. E em um dos meus empregos sou funcionária pública. E não tenho o pior dos salários. E não padeço muito de rotina. E trabalho com seres humanos da melhor qualidade, tanto as minhas colegas de trabalho quanto aquelas crianças lindas. Mas, mesmo assim, tenho sentido uma vontade enorme de reclamar, reclamar e reclamar dessa vida margarida. Hoje, mais velha, com menos paciência e cada vez mais cri-cri, tenho pensado muito até que ponto vale a pena entrar de cabeça nessa roda-viva. Cadê o tempo de sentir o sabor da comida com calma na hora do almoço? De acordar devagarinho depois de pelo menos 6 horas de sono tranquilo? Cadê a hora de me divertir? De ler um livro, ver um filme, curtir minha casa, passear? De ir ao médico, de resolver coisas com tranquilidade? Cadê a minha dignidade em não engolir todos os tipos de sapos por conta de um emprego? Cadê o tempo de telefonar, mandar mensagens, estar com a família e queridos, sair com as pessoas? Cadê as prioridades que realmente deveriam ser prioridades? Cadê o direito de mandar na minha própria vida? Será que não estou deixando isso tudo ficar cada vez mais massacrado debaixo dos apertos cotidianos e do cansaço que me fica nas horas pseudo-livres? Quero isso pra mim, não.

Ao mesmo tempo, todos os meses, sem falhar nenhum, as contas chegam – água, luz, cartão de crédito, telefone, prestações. Com elas também chega a sensação de que nunca tenho dinheiro pra fazer as coisas que eu realmente queria, ou para comprar as coisas que eu preciso ter, mesmo dando meu sangue. E como as contas chegam, também chegam os anos, a idade, a mudança de objetivos, e a impressão de que a tendência é piorar, e muito. Como vai ser quando eu precisar assumir a minha vida? E quando eu precisar pagar todas as contas sozinha ou, no máximo, dividindo por dois? E quando eu tiver pessoas que dependam de mim? Vai valer a pena me matar de trabalhar pra satisfazer os pequenos luxos e sonhos consumistas que aprendemos a ter, esquecendo dos meus pequenos prazeres? É pra isso mesmo que eu estou por aqui? Não posso me acostumar com isso. Não desce, não dá. Me incomoda profundamente. E não consigo engolir esse papo de que “é assim mesmo”.

Tenho medo do que vai virando normal nessa vida. Tenho medo de acabar achando normal trabalhar o dia todo, 5 dias por semana, 11 horas por dia, e ainda dedicar horas do meu tempo em casa pro mesmo trabalho. Tenho medo de voltar a fazer o que eu fazia anos atrás, quando eu fiquei doente, achando normal trabalhar dia e noite só pra conseguir uns trocados a mais. Fico pensando quanto vale o show. Quanto vale a minha saúde, o meu prazer, o meu humor, a minha sensação de bem-estar e de que não estou passando em branco por aqui.

Um certo homem sociólogo disse sobre a necessidade de prepararmos nosso espírito para o ócio, não para o trabalho. A verdade é que nem sei se isso é possível, mas hoje, eu queria parte da minha vida ociosa, sim. Queria não ter que pagar um preço tão alto pra ter as coisas que todo mundo tem, ou pelo menos gostaria de ter. Queria meu meio-período livre de volta. Às vezes, bem às vezes, eu queria que as coisas fossem mais fáceis pra mim, que eu tivesse nascido em berço de ouro, ganhado na loteria, vencido o Show do Milhão ou casado com o herdeiro de uma fortuna, pra sentir o gosto da liberdade de decidir sobre os meus dias, pra não precisar nunca me humilhar por nada nesse mundo e trabalhar só por prazer. Queria, queria mesmo.

Hoje estava conversando com os novos bebês que recebi na escola este ano ( umas graças, por sinal ) e tentando convencê-los do bem que faria pra eles ir pra escola ao invés e ficar em casa se divertindo. Por um momento, vendo aquelas carinhas inocentes e chorosas olhando pra mim, duvidei do que estava dizendo. Talvez, eles não precisem da escola pra prepará-los pra essa vida injusta que nós vivemos, não. Mas prossegui no discurso porque pensei que eles, como eu, não poderiam romper com esse sistema altamente articulado sem nos ferrar mais ainda; e a única chance que nós temos é nos preparar, sim, mas do jeito certo. O que posso fazer, por eles e por mim, é ajudá-los a pensar em soluções criativas e a ser tão, mas tão competentes como pessoas que possam viver sossegados sem ter que um dia escrever um post reclamão como este. Tomara que eles tenham mais sorte. Deve ser por isso tudo que os mais rebeldes ( claro, rebeldes conscientes ) sempre são os mais bem sucedidos e mais felizes pessoas que a gente encontra por aí.

O grande e sábio Seu Madruga é que tinha razão. No fim das contas, não existe trabalho ruim. Ruim é ter que trabalhar. Tsc.

PS: Como devem ter reparado, voltei! Estou com um pc novo, lindo, turbinadíssimo e rápido no gatilho. Uma pena esse tipo de coisa custar tanto dinheiro, me meter em mais uma dívida e ser mais um motivo pra eu nem pensar em largar um dos meus empregos… Mas vale a pena por estar com vocês, pessoas.

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2 comentários sobre “OS DIAS ESTÃO SIMPLESMENTE LOTADOS

  1. Primeira visita. Parabéns pelo blog: vc, realmente, faz juz ao seu epíteto – já é bem crescidinha, a julgar pela segurança de suas palavras e de seus pontos de vista. E se eu contar que sempre fui fã da Mafalda vc acredita? Pois acabou de ganhar mais um admirador… Um doce beijo.

    Rufus | Homepage | 09-02-2004 14:07:47

    Achamos legal sermos independentes financeiramente, mas pagamos o preço de não podermos curtir essa independência por pura falta de tempo, porque o pouco que resta é pra dormir um pouquinho, certo? Contraditório. Com tempo livre pra fazermos o que quisermos não temos a condição financeira para realiza-las. Oh vida cruel!!! Mas, sei que um dia, não sei quando vamos chegar a um equilíbrio de ganharmos o mínimo suficiente trabalhando o mínimo possível. Assim espero e essa é a força que me mantem na labuta. Alê.

    Alê | 08-02-2004 20:37:23

    Oi miguinha estou voltando a ativa. Saudade. Beijocas!

    Virgulina | Homepage | 08-02-2004 13:43:16

    Vamos ver se agora o servidor deixa eu comentar. Se vc, que sempre foi apaixonada pelo seu trabalho, está assim cansada… É pq a coisa tá feia mesmo. Acho que o jeito é a gente rever os conceitos mesmo. Eu estou tentando colocar os meus em xeque, faz tempo… Mas tá difícil tomar uma decisão. Bjos, minha querida, e não case com ninguém que não seja eu. :)))))))

    Ful | Email | 08-02-2004 13:41:00

    ontem passei por aqui, escrevi pra caramba e o blog me sacaneou…não consegui deixar o comment..:( bom, deixo meu “olá” e digo que gostei do texto. e também que o fim dele justifica o por que do tanto trabalhar, afinal, queiramos ou não, os artefatos nos seduzem. a uns mais que aos outros, bem verdade. beijos

    fernando | Email | Homepage | 08-02-2004 10:10:21

    Q bom vc de volta, miguinha!! 😀 e de pc novo 😉 olha, eu acho q o problema do trabalho é q qdo vc sente vivamente q é uma obrigação, fica td mais complicado. Beijão.

    Sabina | Email | Homepage | 07-02-2004 12:58:07

    todos os dias… prefiro conviver com a falta de dinheiro, o que diminui as possibilidades de lazer do que ficar doente por trabalhar demais e ficar com sentimento de culpa. Parabéns pelo pc! Beijos!

    Luluka | Email | 07-02-2004 09:39:39

    Oi Mafalda, eu gosto da minha profissão, especialmente do setor onde trabalho. Posso trabalhar como plantonista, dia sim, dia não, com os fins de semana livres ou diariamente por meio-expediente. Muitos me perguntam por que eu não arranjo mais um emprego, já que o governo nos paga mal e tenho as noites livres. Eu respondo que de noite eu quero dormir. Eu já trabalhei à noite, mas pra mim isso era um suplício e agora que tenho uma filha e sou separada, quem iria ficar com ela à noite? Quem iria nas horas do dia não trabalhado, ajudá-la e incentivá-la nos deveres da escola se eu estivesse dormindo por ter trabalhado à noite? Considero que já tenho um segundo “trabalho” que é o de ser mãe. Este por vezes é prazeroso e por vezes desesperante. Outra coisa: não saberia conviver com a falta de folgas para consultar um médico ou fazer um exame, ir ao dentista, resolver assuntos no banco, etc se tivesse que ficar saindo mais cedo ou faltando ao trabalho por esses motivos… não sei como fazem as pessoas que trabalham

    Luluka | 07-02-2004 09:37:52

    Seu post, para variar, está perfeito. Disse tudo. Só acrescentaria ai que todo esse discurso de que o trabalho engrandece o homem e de que quem não trabalha fica à parte da sociedade faz um mal terrível na mente de quem não consegue um emprego. Fica aquela sensação de fracasso e culpa que não cabe dentro da gente. Beijos amiga e muito obrigada pelas palavras que sempre deixa lá no blog.

    Moça | Email | Homepage | 07-02-2004 01:32:07

    Ah, já estava com saudades! Eu já chutei o balde legal. Agora só falta saber o que fazer disso. É um tipo de questionamento lindo o seu. Eu penso a mesma coisa. Imagina se todo mundo pensasse assim, a confusão que ia dar. É lamentável mesmo, mas a gente só faz o que nos mandam fazer.

    Ana Beatriz Guerra | Homepage | 06-02-2004 22:00:27

    Gostei tanto do seu post. Li, reli, pensei… E ainda estou em estado de choque. Nem sei o que comentar. É assim mesmo! O que vc não queria ouvir né? Mas não consigo pensar em outra frase… Talvez, INFELIZMENTE é assim mesmo. Desculpa. Vc é professora, então? Belíssima profissão. Pelo menos vc tem boas e ingênuas companias durante o trabalho. E com certeza aprende muito com eles… não é o caso de muitas outras pessoas. Beijão.

    Kal | Email | Homepage | 06-02-2004 18:05:12

    Salve Seu Madruga! Meu herói! Tb tô de SACO LOTADO de trabalhar, um inferno isso, qualquer dia marcamos um sábado à noite pra gente se divertir vendo o Chaves e desestressar um pouco… eheheh. Só não quero saber que a senhorita anda fazendo mais do que pode, cuidado, menina. Beijo na boca, bem desestressante.

    Zé Mário | 06-02-2004 17:24:30

    Vou te contar uma coisa: quem inventou essa frase “O trabalho dignifica o homem” deveria ser fuzilado! hahahahahahahaha.

    Rô | Email | Homepage | 06-02-2004 12:25:34

    É incrível o quanto eu me identifico com seus posts. Além do que você escreve muito, muito bem. Eu tenho deixado de fazer as coisas por obrigação e me dado o tempo que eu preciso. E que se dane se o chefe vai brigar, se o amigo vai olhar feio…eu quero o meu tempo tb! Beijo/

    Carol | Homepage | 06-02-2004 11:49:16

    Leio estes post no meu trabalho, e te garanto, eles contribuem pra o meu dia valer a pena…Sentimos sua falta… A propósito..é muito bom qdo temos a alegria e o prazer de trabalhar fazendo o que se gosta, eu adoro o que eu faço, mas isso não quer dizer que eu não canse…canso sim, mas é bom!!!

    Jô!!! | 06-02-2004 09:04:09

    ihhh.. este post dá para mim.. trabalho mais de 11 horas por dia e ainda uso as madrugadas, quando dá… beijos

    nefertari | Homepage | 06-02-2004 08:59:05

    Eu gostava é dos tempos da Renscença…rs 🙂 Bjo, querida

    Beta | Email | Homepage | 06-02-2004 02:16:23

    Concordo com você em uma coisa: trabalhar não devia ser o propósito de nossa vida, não a coisa mais importante; mas aquilo que nos dá a capacidade de aproveitá-la melhor. Trabalhamos pra viver, não vivemos pra trabalhar. Penso muito nisso, especialmente porque vou ser médico, e você sabe como é trabalho de médico hoje em dia: dois ou três empregos diferentes, plantão aqui e acolá, e por aí vai… Agora, que trabalhar faz que a gente não pense e nem faça bobagem, isso é MUUUITO verdade! Beijo!

    Tigre | Email | Homepage | 06-02-2004 01:13:08

    Miguinha, tou feliz pelo seu pc novinho.:-) E acho que você deve mesmo fazer como eu e fugir no Carnaval, menina! Afinal, depois de estressar recomeçando tuuudo, uma folguinha é muito bem-vinda. Putz, trabalhar pode até ser bom, mas de vez em muito enche mesmo, rs.;-)))

    Taty* | Homepage | 06-02-2004 01:09:27

    oi Mafalda. Eu gosto de trabalhar porque faço aquilo que gosto. Trabalho com cultura há 30 anos e isso me dá uma enorme satisfação. Penso ser o principal. Beijos

    Ana | Homepage | 05-02-2004 23:54:24

    É estranho mesmo essa coisa de achar tudo normal. A gente se acostuma e vira mais um robô nessa sociedade. Mas vc já leu o Ócio Criativo, de Domenico de Masi? Tem tudo a ver com o que vc escreveu. É um dos melhores livros que li atualmente. Beijos Felicity

    Felicity | Email | Homepage | 05-02-2004 23:42:14

    Ai, sorry, mas PRECISO fazer isso: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!! Amei, amei e amei!!! Trabalhar é um pé no rabo, um saco, principalmente qdo a chefa é medíocre (briguei com a minha ontem, às 8:10 da manhã). Eu não tenho vergonha de falar, não: ODEIO trabalhar. beijokas PS: tou quase me enfiando numa dívida tb e comprando outro computador… o meu tá uma joça

    Cacau | Homepage | 05-02-2004 23:21:16

    Karina, só você pra misturar Chico Buarque, seu madruga, Domenico di masi e sua avozinha linda num post! rsrsrs Ficou legal! Eu também ando de saco cheio e tenho pensado muito quando to lá naquele escritório infernal – o que é que eu to fazendo aqui????? Acho que é a idade mesmo,estamos ficando velhas e esse período longo sem namorado tá matando, hahaha. Falar nisso, vc já decidiu se vai dar uns beijos naquele ” você sabe quem” que não parece ser esse aí debaixo?? rs A vida é curta, aproveita! hahaha. Beijos, te adoro.

    Adri | 05-02-2004 23:04:24

    Bem…… acho que vc devia aproveitar mais a vida com esse “Voce Sabe Quem”… risos… bem, sem ser intrometida, Mafaldinha, não tem jeito… a vida é trabalho. Mas, podia mesmo termos tempo para os pequenos prazeres como almoçar com tranquilidade, ler o jornal… etc… mas, vamos nós ! Beijão!

    Deize | Email | Homepage | 05-02-2004 22:56:04

    Casa comigo, te dou casa, comida e roupa lavada… rs resolvo teu problema… E o meu. Beijos, linda. O post está ótimo.

    Você Sabe Quem | Email | 05-02-2004 22:40:00

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