PROSTITUIÇÃO DE POUCO LUXO

Quando li esse texto do Clóvis Rossi na Folha de São Paulo, na sexta-feira, senti uma dor forte no coração. Juro que estava tentando ignorar as manchetes na imprensa e os comentários das pessoas com relação ao primeiro grande escândalo de corrupção do governo Lula, com medo de descobrir que o buraco era fundo demais, fingindo que nem era comigo. Mas já ouvi que quanto mais se corre das verdades, mais elas correm atrás de você. E agora, depois de me inteirar do assunto, me deu uma saudade imensa de tanta coisa.

Lembrei daquela música, onde se dizia que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude, está em casa, guardado por Deus, contando o vil metal. E é bem por aí. Assim como é triste ver a morte de uma pessoa, também é triste ver um ideal morrendo assim, de um jeito tão lento e tão doloroso pra quem se importa.

Não se trata do escândalo Waldomiro e afins em si. Todo governo possível vai ter deslizes; é composto por pessoas, e as pessoas são corruptíveis e fracas como crianças diante de um brinquedo novo quando têm algum poder, seja ele financeiro ou político. Mas se trata da postura das pessoas envolvidas. Se trata da gota d´água depois de tudo que vem sendo feito ( ou não feito ) desde o ano passado. Se trata da vergonha que está sendo a administração da cidade de São Paulo. Se trata de frustração e um sentimento de inadequação com esse quadro de relacionamentos políticos que fazem estar numa mesma base PT, PMDB e PPS. Trata-se de não saber em quem acreditar de hoje em diante. Trata-se de não querer mais ler os jornais e revistas, porque não há mais novidades. Trata-se de viver num país pretensamente democrático, mas que não tem oposição ao governo forte ( e nem se encaminha pra isso ). Trata-se dos sonhos perdidos e de uma vontade de desistir e, à revelia do que dizia o Bertold Brecht, me tornar uma analfabeta política assumida.

Sempre achei interessante o uso do termo “pessoa pública”. Um político se torna uma pessoa pública porque carrega com ele os votos, os ideais e esperanças de quem o elegeu. Ver o Lula eleito, pra mim e pra muita gente, era a realização de um sonho apaixonado; a eleição não de uma pessoa, mas de um desejo de mudança. E esses mesmos sonhos e desejos foram usados pelos profissionais publicitários que fizeram a campanha vitoriosa de 2002 como o maior motivo para que se depositasse confiança no enfim acertado plano de governo e no novo partido, menos radical, mais ponderado, mais capaz. E algo começou a cheirar mal desde esses tempos.

De mau humor, de mãos atadas, votei sim, em homenagem aos velhos tempos. Tempo em que ser simpatizante do PT era ser uma pessoa crítica, reflexiva e democrática. Tempo em que radicais e moderados concordavam em essência. Os tempos em que as sedes do partido eram um espaço interessante de discussão de idéias, onde grupos considerados excluídos tinham voz e vez pra falar. Tempos em que o tal metalúrgico vestia uma camiseta surrada e pegava espontaneamente no microfone, falando iradamente e com carradas de razão sobre o que passava o povo que ele dizia amar, e muitas vezes levava eu e mais tanta gente boa e de bem que eu conheço às lágrimas, porque naquelas palavras estavam expressos todos os sentimentos de quem luta, luta, luta honestamente e estava cansado de tanta luta sem recompensa. Tempo em que nomes como Orestes Quércia, Sarney, Maluf e ACM eram considerados a própria encarnação do mal ( como de fato são ), e não apoios políticos de peso. Tempo em que os votos eram conquistados na boca-a-boca, no esforço braçal e mental dos militantes, e não nas reuniões nos escritórios de Duda Mendonça e sua trupe. Tempo que a Luiza Erundina, como prefeita de São Paulo, fazia um bom trabalho de bases, independente de conseguir fazer o seu sucessor ou não, porque era fiel aos seus ideais. Tempo em que pessoas como Zé Dirceu, Mercadante e Genoíno eram modelos de respeito, coerência e honestidade. Tempos em que o PT era realmente dos trabalhadores.

Há quem diga que radicalismos não levam a nada, que política é assim mesmo, e que as mudanças do partido e das pessoas que o compõem foram justas, caso contrário nunca se teria chegado ao poder. Balela. Pra mim isso é venda da mais barata, da mais baixa, é trocar a ideologia por trinta dinheiros. Assisti horrorizada Lula falando manso e aceitando a sua tal mudança de imagem. Vi os outdoors na rua com ele ao lado do Quércia, do Fleury, do Francisco Rossi. Vi as concessões sendo feitas, o poder subindo à cabeça de certas pessoas conforme subiam os indicativos de votos nas pesquisas. Li o plano de governo light e politicamente correto, tão diferente do de 94, que eu ainda guardo com carinho nas papeladas no armário. Vi pré-acordos com o FMI, empresários, banqueiros. Um professor me ensinou que se deve ler no jornal a página política, mas também as colunas sociais, porque é lá, nelas, que você observa quem janta com quem e quem aperta a mão de quem. E lá, nessas colunas, eu vi abraços cordiais entre inimigos mortais. E mesmo horrorizada com a falta de escrúpulos dessa gente, mesmo com nojo disso tudo, mesmo me sentindo traída, na hora H, votei. Votei porque pensei que estava há mais de 10 anos esperando aquele momento, sem perceber que, na verdade, o momento agora era outro. Votei porque achei que não era possível que alguém ou uma instituição perdesse totalmente sua identidade, sua marca, sua alma por causa do poder. Votei porque acreditei que ninguém poderia brincar com uma coisa tão séria quanto as esperanças dos outros. Votei mal.

Conheci um rapaz que gostava de sair com prostitutas. Uma vez conversamos sobre isso, e ele me deu suas razões, e fez alguns comentários. Um deles dizia respeito às escolhas que fazia. Ele disse que não gostava de mulheres vulgares e baixas. E me disse que, até pra vender o corpo, há que se ter um pouco de dignidade e classe, caso contrário, ao invés de admiração, se causa repugnância. Ele dizia que só se metia com prostitutas de luxo. E luxo, pra ele, não era sinônimo de caro, mas sim de integridade, sinceridade e coerência.

E é isso. Pra se vender a alma, também há que se ter dignidade e elegância. E há que se ser leal, senão aos outros, a si mesmo, pelo menos. Infelizmente, estou repugnada. E pra não perder o costume de citar músicas… Eu me vali desse discurso panfletário, mas a minha burrice faz aniversário. É triste, muito triste.

PS:. Quem quiser o texto do Clóvis e não for assinante UOL ou Folha, basta pedir que eu mando.

PS 2:. Falar em eleição, clica aí no selinho e vota no Inagaki. Ele é bom de verdade, fez uma campanha limpa e vai fazer muito mais durante o mandato, tenho certeza. Eu sempre saio do blog dele mais informada e mais inteligente. E ele, ainda por cima, é gente boa, simpático e atencioso. Depois dessa propaganda toda ( não enganosa ) espero que você clique aí, vote, e ainda concorra a um carrão por ter cumprido o seu dever cívico.

Vote em Pensar Enlouquece no iBest Blog!

UPDATE
Muita gente escreveu perguntando sobre a mudança do Mafalda pro Movyble Type e pro endereço .com.br, com planos de mudar também. Estou ainda aprendendo a mexer no sistema, e a página lá ainda precisa de alguns acertos, mas logo que entender o que estou fazendo ( hehe, porque até agora eu não sei mesmo ), prometo que faço um post explicando. Por hora, só digo que é mais fácil do que parece. 🙂

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Um comentário sobre “PROSTITUIÇÃO DE POUCO LUXO

  1. Tamara, vote na Erundina, ou nos partidos pequenos… Temos que parar de achar que só podemos votar nos vencedores. Gabi, obrigada, você não enche, não. Quanto aos outros… Colegas, eu não sou derrotista, mas sou mesmo radical nas minhas convicções. Ainda assim… Vou queimar tudo até a última ponta. Beijocas pra todos…

    Mafalda | 28-02-2004 22:30:04

    Olá! A algum tempo visito seu site para dar uma o lhada em seus fabulosos posts! Falando sério, você escreve bem de mais! Acho que já te enchi bastante né? Bom um beijo e meus parabéns, Gabi!

    Gabi | Email | 26-02-2004 15:21:47

    A respeito dessa falcatrua do Lula… Eu fiquei sabendo agora, estava alheia a tudo antes! Que pena. Eu apoiei sempre o Lula nas decisões e agora dá isso… Paciência! Obrigada por visitar o blog, um dia eu arrumo os comentários. Um beijo!

    Isabella | Homepage | 26-02-2004 13:35:08

    Karina querida, Vc sempre diz coisas que me tocam fundo. A morte de um ideal é muito triste…muito! Beijos muitos

    Mônica | Email | Homepage | 25-02-2004 16:36:15

    acabou a folga… voltamos a vida normal..

    ari jr | Email | Homepage | 25-02-2004 08:56:36

    A prefeita vagabunda foi a primeira decepção; antes, eu achava que o PT fosse sério… humpf… me enganei e feio. beijos

    Cacau | Email | Homepage | 24-02-2004 19:08:17

    Eu tb estou tentando ficar alheia, sabe. Mas é pq já estou decepcionada há muito e o q vier de agora em diante vai ser só indignação…. =// beijos.

    Sabina | Homepage | 24-02-2004 11:16:10

    Gostei de ler esse texto! Agora eu me pergunto sobre as eleições em São Paulo… Não voto DE JEITO NENHUM na Marta, muito menos no Sr. Paulo Maluf, e não anulo meu voto! E agora???Situação difícil, muito difícil… Bjos

    Tamara | Email | 24-02-2004 00:43:14

    Concordo, concordo e concordo. Também senti a mesma dor. Abraços.

    Fábio | Email | 24-02-2004 00:28:53

    Oi miga! And sem tempo para a net, uma correria só entre estágio e facul! Olha, nao é só vc q está triste com a nossa política atual nao, viu? Esperávamos uma coisa mto diferente da que estamos vivendo hoje… Beijinhos! Saudades, linda!

    Ragazza Pazza | Homepage | 23-02-2004 19:21:33

    Mafalda, acho que ainda estou meio zonzo com tudo o que anda acontecendo nesses dias. Realmente, ser oposição é diferente de ser governo. O “povão” que levou o Lula à Presidência do Brasil tem pouca, ou quase nenhuma, representatividade no Congresso e Senado nacionais. Não dá pra trabalhar ficando contra tudo e contra todos os fascínoras que aplicam o sistema de coronelismo no poder há tanto tempo. Eu fico pensando: Como deve estar a cabeça do Lula desde o momento em que ele percebeu que o oba-oba tinha acabado e que os que jogam contra o país começavam a colocar suas cabeças pra fora da toca? Eu ainda acho que dá, ainda tenho fé. Aqui em São Paulo a coisa não é diferente, já imaginou mais quatro anos de Dr. Paulo? Beijos admirados!

    alan davis | Homepage | 23-02-2004 14:53:46

    A gente se sente traída, né?

    Angela | Email | Homepage | 23-02-2004 12:48:12

    Oi Mafalda, nem vou falar muito. Estou decepcionada também! As situações como a fome no nordeste, por exemplo, são tratadas de maneira errada. Paternalismo não resolve problemas, cria mais alguns. E em cima de nós, classe média (??) caem enormes pedras, que às vezes me fazem ter vontade de ir para o nordeste. Cheguei a conclusão de que para se viver bem neste país, tem-se que estar num dos extremos (riqueza ou pobreza). Estar no meio disso é a pior coisa que existe! Não consigo ver luz no fim do túnel. E ir perdendo o que se conquistou ao longo da vida de luta, dói muito! Beijos!

    Luluka | 23-02-2004 10:59:02

    Karina querida, você nunca foi tâo Mafalda quanto foi neste post. Sinto também a decepção, e correndo o risco de vc me achar um conformado… Acho que o Lula era “menos pior” que o Serra ou qualquer outro. Vamos esperar pra ver. Bjo carinhoso.

    Fúlvio | Email | 23-02-2004 00:38:18

    A trajetória de Lula é algo magnífico e que me comove, mas a atual política não. Tanto que, mesmo votande nele, eu sabia que a imagem do herói iria se desintegrar antes que o primeiro ano de governo terminasse. Por isso uma certa tristeza me abateu com a vitória dele. Não sei se fazer política seja igual a fazer concessões pq não sei fazer política, só amor. Beijos, querida.

    Beta | Email | Homepage | 22-02-2004 23:37:50

    vc está certa na sua indignação, fofa, o problema é que o partido perdeu a identidade antiga e ainda não arrumou uma nova, mas isso é assim mesmo, td muda; e se o partido não se encaixa mais em nós e no que acreditamos, precisamos de outras alternativas, e aí me sinto meio órfão feito vc, pq não vejo ninguém capaz de cobrir esse buraco no momento. Eu tb não aceito esse jogo político sem limite que está sendo feito pra tornar o governo possível. A verdade é que esse país é uma palhaçada, é revoltante. Bjos.

    Zé Mário | 22-02-2004 21:56:06

    Mafalda, meu bem, as coisas que vc disse estão na cabeça de muita gente. Pode ter certeza. Também refleti como vc sobre a evolução do partido (sou petista quase de carteirinha) e sobre o que se tornou o governo Lula. Votei nele com o coração, porque, para mim, ele sempre foi um herói. Talvez por tudo isso não consiga, ainda, ter uma opinião definitiva sobre o que ele virou e como vão ficar as coisas. Mas, te falo uma coisa: não se faz política sem concessões. É uma merda? Sim, é. Das grandes. Mas, as coisas funcionam assim desde que o mundo é mundo. Talvez o que as pessoas decepcionadas (como eu e você) tenham que fazer é dar tempo ao tempo, primeiro, porque um ano de governo é muito pouco para uma avaliação adequada. E, segundo, parar e pensar o que realmente esperam do PT. Querem que ele seja sempre a oposição que critica, apenas, quem governa? Ou preferem que ele ponha as mãos na massa, nem que seja para realizar menos do que sempre sonhou? Espero que consigamos nos encontrar, em meio a tudo isso. Beijoca.

    Patileine | 22-02-2004 19:37:33

    Valeu pela visita ao meu Blog. Acho a MTV uma merda! Mas o Rock gol é fantástico. : ) Beijos Alan

    alan | Email | Homepage | 22-02-2004 19:14:38

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