NEOLOGISMOS

Em um dos meus trabalhos, peguei de novo a classe de bebês de 3, 4 anos, por escolha minha. São os ingressantes na escola. Admito, é uma tremenda sacanagem. Planejamos, lemos, pensamos em mil estratégias pra tornar menos traumático o ingresso dos pitocos de gente na escola, mas… É fatal. É daquelas coisas da vida que não tem como ser fácil, e exige muita paciência de todos os envolvidos – pais, bebês, e nós, as professoras. Eles choram, se descabelam, colocam a gente doida, e estranham tudo e todos – e com razão. Não precisa ser muito sensível pra se colocar no lugar deles e imaginar o que eles sentem nos primeiros dias longe de casa e perto de quem nunca viram. Vão-se semanas de muito choro, muito colo e muita macaquice pra distraí-los.

Em pouco tempo, a maioria supera e acaba achando a escola divertida, e cá estou eu, um mês depois de iniciadas as aulas, babando por todos eles. E apesar de eles serem absurdamente encapetados, como há tempos não via… Os novos bebês são fofíssimos, espertos e muito, mas muito engraçadinhos.

É interessante como todos os anos a gente acaba encontrando mais ou menos o mesmo tipo de criança nas classes. Tem sempre o moleque que dá trabalho, não pára um minuto. A menina fofoqueira que cuida da vida dos outros o tempo todo. O tímido de óculos que não curte correr, e é metódico e estressado, mesmo aos 3 anos de idade. O descolado que não precisa de mim pra quase nada. A chata que fala e chora demais. Aquele esperto simpático que já no primeiro dia desponta como líder natural no grupo. A menina meiguinha cheia de trancinhas milimetricamente aprontadas no cabelo, cercada de mais outras tantas que falam sem parar. Aquela topetuda que não aceita ordens. Aquela outra engraçadinha que sempre tem uma tirada espirituosa. Aquela manhosa que só quer colo e acaba virando meu chaveirinho. Aquele fofo que é lindo, aquele outro insuportável que você não vai com a cara. Aquele mimado, que de tão mimado fica dependente ou inconsequente. Aquele briguento, aquele que tem a mãe pentelha, aquela outra que é saidinha e só fala em namorar. Aquela inteligente e cheia de vontade de aprender, e aquele que vive no mundo da lua e que eu demoro meses pra ouvir a voz. Cada um do seu jeitinho, a gente vai se afeiçoando e se conhecendo aos poucos. E é tão gostoso. Fico um trapo de tão cansada, mas rio a tarde toda das idas e vindas deles. Me sinto acolhida com tanto carinho, tanta esperança e tanta expectativa depositada sobre os meus largos ombros. E, mesmo com tantos tipos parecidos… Cada classe é única e deixa um tipo de lembrança especial.

Eles têm muitos obstáculos pra superar nesses primeiros dias, até se acostumarem com a escola. Meu lado profissional faz de tudo para acolhê-los bem, mas também se esforça em estimulá-los a se virar e se tornar cada vez mais independentes e seguros. Meu lado levemente sádico gosta de vê-los perdidos no corredor da escola, procurando em que porta entrar, ou de vê-los tentar resolver os problemas que pra nós, adultos, são facílimos – fechar uma mochila; tomar água num copo grande; respeitar a infinidade de horários e regras da escola; segurar a bolacha, o leite e andar ao mesmo tempo; guardar tudo que bagunçam; se relacionar com tanta gente diferente e esquisita, que eles nunca viram mais gorda ( no meu caso, mais magra, hehe ); entender o porquê disso tudo. E ainda tendo que ouvir dos pais: ” filho, obedeça a sua professora!”. E ainda assim eles conseguem sorrir e se adaptar a nós muito mais rápido do que nós a eles. Ah, essa facilidade e alegria de vida que mora na simplicidade das cabeças e corações das crianças… Um adulto interessante normalmente cobiça tal qualidade.

Meu lado carente adora saber que, no meio desse fuzuê todo, sou eu a referência deles. Onde eu estou, eles têm que estar também, somos companheiros inseparáveis. Eles gritam de felicidade quando me vêem no portão, e correm sorrindo pra me dar um abraço, tentando não tombar com o peso das mochilas – que são maiores que eles. Tudo que eu faço, falo e peço, eles fazem, e me olham com um carinho enorme e compreensão, mesmo quando estou brava, dando uma de louca, berrando e colocando meio mundo de castigo ( não me condenem, vocês não sabem como é complicado colocar ordem num barraco desses… São 35 criancinhas geniosas acostumadas a fazer o que querem, oras bolas ). E sendo eu a referência, a coisa mais natural é que eles vivam pra me cercar e, principalmente, me chamar o dia todo, pra tudo que precisam, ou só por chamar mesmo.

E é aí que está a maior sacanagem da coisa. Não gosto dessa história de me chamar de “tia”, por razões pedagógicas e porque acho horrível mesmo, dói nos ouvidos; então, peço pra eles que não me chamem assim. Tirando o “tia”, fica a opção de me chamarem pelo nome ( que alguns, sabiamente, escolhem ), mas a maioria escolhe usar aquele termo que designa a minha profissão, “professora”. É uma judiação. PROFESSORA é um substantivo comum feminino, composto por nada menos que 4 sílabas, sendo duas delas complexas, contendo encontros consonantais de difícil pronúncia, dois dígrafos. Isso é um trava-língua dos mais terríveis, quando você tem 3 anos, está nervoso e depende de uma pessoa ainda estranha pra se orientar. Judiação da grossa.

Por outro lado, eles terem que pronunciar a palavra PROFESSORA tantas vezes nos rendem boas gargalhadas com as palavras que eles acabam inventando. É uma das coisas mais legais da infância – não ter tanto medo de errar e criar novas e melhores formas de conceber palavras e idéias, o que torna tudo mais divertido e criativo. Claro, temos que corrigi-los, mas tudo a seu tempo. E, do que mais escutamos de engraçadinho, os neologismos partidos da palavra PROFESSORA são os mais frequentes e marcantes. Seguem alguns deles, que fiz questão de anotar nesses dias:

Prô
Pelessola
Pissora

Professola
Pessola
Pissola
Pifossora
Porossora
Pefessora
Profechora
Psora
Pissolinha
Pichora
Pofessora
Perefessora
Possora
Pisola
Pessossola
Porfessora
Plefessora
Plofessola
Prozinha
Prôfi
Prifessola
Pofessola
Fessora
Pafessora
Professora

O importante é que, seja como for, eles me chamem, muito. Significa que, no mínimo, confiam em mim. E enquanto eles dobrarem a língua de mil jeitos diferentes, com aquela vontade, só pra me chamar, eu vou saber que estou no lugar certo fazendo a coisa certa. Isso compensa muitas e muitas coisas. Ainda bem. 🙂

PS:. Grata pela força com a perguntinha aí debaixo… Ajudou um bocado. Hehe.

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Um comentário sobre “NEOLOGISMOS

  1. Querida Mafalda, depois de muito tentar daqui e tentar de lá quem resolveu o problema dos meus comentários foi meu marido – santo de casa! Quero agradecer sua atenção em carinho naquele momento. Obrigada. Beijocas

    Ronize Aline | Email | Homepage | 07-03-2004 20:28:35

    Mafalda, flor, eu imagino que deva ser super-complicado o dia a dia da profissão, mas, poder conviver com pessoinhas tão inocentes, em relação às quais podemos fazer diferença, deve ser uma experiência muiiiiiito bacana. No meio de tantas outras coisas que queria ter virado, em vez de advogada, lidar com crianças é uma das que imagino ser mais bacana. Beijoca.

    Patileine | Homepage | 07-03-2004 17:58:20

    Pessossola foi demais… dá vontade de fazer Pediatria na hora!!! Tenho muita chance de fazer… também adoro lidar com as crianças… Tenho uma irmã que agora já está com onze, mas imagina o quanto já não a curti! Beijo!

    Tigre | Homepage | 07-03-2004 02:37:00

    Ai, qdo vc tiver seus filhos… Vai estragar todos eles com tanto dengo. E eu vou ajudar. ehehe Bjo, adorei o post.

    Zé Mário | 07-03-2004 01:01:40

    Posso dizer que meu primeiro dia de aula foi um dos dias mais felizes da minha vida! Triste foi ver minha mãe ir embora com um olhar ao mesmo tempo orgulhoso e preocupado com minha reação. Mas foi muito importante e facilitou muito a a-do-ra-ção que tive pela “Tia” Mary. Foi uma mãezona pa nós, alunos do Pré daquele longíquo ano de 1979…

    alan | Homepage | 06-03-2004 13:45:23

    Amiga de tantas paradas, eu que já trabalhei com você sei o quanto você lida bem com esses pequenos, tem uma comunicação e sensibilidade com eles que poucas vezes eu vi na vida; talvez seja por isso que você seja tão feliz na sua escolha de trabalho, e que Deus te conserve assim, porque faço questão absoluta de colocar meu filho onde você estiver quando ele estiver na idade de ir pra escola, mesmo que seja longe, porque sei que ele vai aprender muito do que é ser gente perto de você e te adorar, como todas essas crianças te adoram de paixão. Beijos com saudades!

    Adri | Email | 06-03-2004 12:01:17

    AMEI!!!! A lista dos jeitos de chamar chegou a me emocionar. Vi as criancinhas!! Delícia de texto!!!

    Angela | Homepage | 06-03-2004 11:48:23

    Menina, já tive esta fase, mas agora estou do lado de cá…;))) Só de “zoio”;)) Aguardarei os netos para ter uma vida mais participativa …;))

    GH | Email | Homepage | 06-03-2004 11:43:14

    Kari, muito bem colocada essa coisa das semelhanças de toda classe, que porfim tornam-se particularidades. Em minha rotina, também trabalho com ingressantes que estão assustados e inseguros, mas bem dispostos. No entanto, meus ingressantes já tem muitos anos dentro das mochilas, e a dependência que fatalmente terão na sala de aula pode ser um tanto desconfortável pra muitos deles… rs… No final, acaba sendo a mesma coisa que vc relata com tanta perfeição: depositam em nós tamanha confiança, que qdo estamos carentes, é na “carência” deles que nos encontramos… Ser professora é uma benção e ver a mágica que se processa ao final de um semestre ou um ano é um presente, um privilégio… Amei seu post, pelessola! Beijão!

    Vivi | Homepage | 06-03-2004 10:55:18

    Interessante ver o processo pela outra ótica. É realmente dororoso. Tenho experiência no assunto. E essa idade de 3, 4 anos é deliciosa!

    Sabine | Email | Homepage | 06-03-2004 10:37:39

    Deve dar trabalho, mas….que delícia!! E vc não falte! Lembre-me de um sobrinho pequenininho que chegou em casa um dia e disse: Hoje a Professora faltou e tive aula com uma prostituta! Gostava de falar didícil e achou substituta muito pouco…. Beijos linda!

    Mônica | Email | Homepage | 06-03-2004 08:48:26

    Ai, miga, lembrei do meu tempo… Lembrei da saudade da “tia” quando fui pra 1ª série… Eu voltava lá com meu avô pra levar uma rosa de vez em quando pra ela. Que gostoso, que saudade.:-)

    Taty* | Homepage | 06-03-2004 03:15:40

    Crianças são o máximo!!! Quarta passada ganhei um sobrinha… tô babando! Adorei os neologismos! Belo post! Beijinho.

    Carlinha | Email | 06-03-2004 00:42:58

    Mafaldinha estou de volta. Estava com saudades daqui… Beijos.

    moonthoughts | Email | Homepage | 06-03-2004 00:29:22

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