LEVANTA-TE E ANDA

Ressurreição

“Porque a tristeza de Deus produz mudança… mas a tristeza do mundo produz morte.” II Co 7:10

De tudo que eu ouvi nesta Páscoa, este versículo e algumas palavras que vieram dele foi o que de mais precioso eu guardei.

Andaram me ensinando que a tristeza é feia. Que ela é desnecessária. Que eu deveria fazer de tudo para evitá-la. Que chorar é feio, que é sinal de fraqueza. Que é humilhante sentir a falta de alguém, uma vez que eu deveria me bastar. Assim como é degradante admitir que a falta de algumas coisas e pessoas me fazem infeliz. Até porque a infelicidade é indesejada. Desejável mesmo é o sorriso, o sucesso, o dinheiro, o reconhecimento, os elogios. E que é nisso, nessas coisas boas, e não na tristeza, que eu devo concentrar minhas energias.

Disseram que o sofrimento é destruidor. Que ele machuca, que ele dói e que a dor não é suportável. Que os suspiros de sofrimento não devem ser proferidos. Que a vida é bela e que devo fazer de tudo para esquecer que sofro. Que eu posso tomar tranquilizantes, me viciar em trabalho, ficar em frente ao computador e à TV, arrumar a todo custo mil formas de ocupar meu tempo e minha cabeça pra não sentir solidão, vazio, tédio. E que se eu viver sempre assim, vou ter a impressão da satisfação constante, ainda que seja irreal. Sim, porque também não se pode estar insatisfeito.

Falaram que as falhas não são bem vindas. Que tudo deve ser perfeito – corpo, alma, coração. Que devo evitar contato com quem e com o que é falho, que devo mudar o que consideram falho em mim pra ser aceita. Que todo erro deve ser rapidamente corrigido, e evitado, ainda que das maneiras tortas, pois o importante é não errar. Que devo pensar em mim antes de pensar em mais nada, ser exigente com as pessoas e não tolerar delas nenhum tipo de escorregão. Que devo analisar tudo que me dizem, e que eu digo, que devo entender e desmembrar os sentimentos, para que eu os domine, e não eles me dominem. Me disseram que o amor de verdade é pragmático e intolerante. E que é feio uma moça moderna aceitar, perdoar, deixar pra lá. O certo é fazer caso de tudo, e fazer tudo certo, do jeito que tem que ser.

Me ensinaram a ter medo da morte. Me ensinaram a correr de tudo isso. E, de repente, eu quase caí nessa.

“Que gente maluca, tem que resolver…”

Pois bem, agora me concentro em não ter mais medo de sofrer. Não ter mais medo de ter medo. E nem mesmo tenho medo das pequenas mortes do cotidiano. Todos os dias, as coisas morrem. Flores, amores, animais, ideiais, sonhos, projetos, pessoas, governos, sistemas, sociedades, esperanças, idéias, vidas em geral. A morte faz parte da vida. Passamos por ela diariamente. E, se nos permitirmos vivê-la, ressurgimos dela. Como num domingo de páscoa.

A história da Paixão de Cristo é uma das de maior força da humanidade. Os incrédulos podem encarar como um arquétipo heróico importante para a sociedade ocidental. Os crédulos podem sentir-se extremamente tocados pelo que houve com aquele homem que foi tão massacrado e passou por tamanho sofrimento por causa da sujeira da humanidade. Mas ninguém pode negar que é uma história valorosa. E apesar de triste, redentora.

Todo o ritual do sofrimento pelo qual Cristo passou, desde que vislumbrou toda a dor que passaria e pediu para que seu pai afastasse dele aquele cálice, até dar o último suspiro depois de ser crucificado, não foi fácil. Simbolicamente, ele carregou nos ombros o peso das falhas de todos os homens e mulheres – e isso não deve ter sido nada leve. A Bíblia é um livro fascinante, e quem a conhece bem pode entender melhor essa história que é tantas vezes contada fora de contexto. Mas a questão principal não é essa.

Voltando ao versículo, o sofrimento divino produz mudança, porque é cheio de história, de aprendizado, de reflexão. E é necessário. O sofrimento vazio, vivido às pressas, pouco sentido, evitado, vira mais sofrimento. E quem foge dessa verdade carrega uma cruz muito pesada, e que fica cada vez mais pesada.

Muitas pessoas revivem, através de alguns dogmas religiosos, todo esse sofrimento, compadecendo-se da figura de Cristo e relembrando todo o sacrifício feito. Jejuns, orações, vigílias, abstenções, domínio da vontade do corpo, abnegação. Sofrimentos e esforços necessários para dar morte a algumas coisas que são falhas nelas mesmas. Respeito imensamente todos esses rituais práticos, e de certa forma, acho que os faço no coração, de outra forma. E anseio por me sentir assim, ressurreta. Sinto a morte me rondando ultimamente. Vazio, tédio, acomodação, incômodo. Algumas coisas vão ter que morrer, eu sei disso, para dar lugar a outras. E o importante é vencer essa morte.

A ressurreição é diferente do renascimento. Quem renasce começa de novo. Quem ressurge, volta do buraco negro da morte divinamente, mais sábio, mais completo, mais vivo. A ressurreição é assustadora e encantadora ao mesmo tempo. E vem pelo sofrimento. Sofrer não é bom. Mas pode fazer bem. E no encalço do sofrimento bem vivido ( que produz sempre as maiores pérolas da humanidade ), vem a alegria. E a vida.

Feliz páscoa a quem entendeu tudo isso, e também a quem não entendeu. Que o espírito de liberdade e ressurreição seja uma constante na vida de vocês.

Feliz Páscoa!

* Bem vindos a esta nova casa! Que seja apenas a primeira das mudanças que estão pra acontecer, e das quais eu tenho sentido o cheiro incessantemente. Peço a todos os que têm o link para este humilde bloguezinho que mudem o endereço, mas que não deixem de vir. Mais uma vez, agradeço ao meu miguinho Marcelo pela assessoria nesse processo de mudança ( logo os arquivos estarão aqui ). E, pra quem interessar… Ter casa própria é mais barato do que parece. Dêem só uma olhada aqui.

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32 comentários sobre “LEVANTA-TE E ANDA

  1. Querida, faço minha às suas palavras, e sinceramente espero que a cada “morte” você tenha “forças para prosseguir e renascer para uma nova vida”.
    Um grande beijo no seu coraçãozinho… Paty

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  2. Não sei se digo que adoraria ver vc no seu carrinho, que mais que merecida essa mudança de endereço, que fiquei fascinado com a força das coisas que vc escreveu hj, ou que estou morrendo de saudades, menina! Bjos carinhosos, te adoro. E parabéns por tudo, sempre. 🙂

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  3. “E o teu medo de ter medo de ter medo…”

    Teu texto é tocante! É a reflexão que faltou nessa minha Páscoa. Palavras que eu não disse, ruminações de idéias que apenas senti. Te aconselharam a não viver, mas viver é correr riscos, inclusive o da felicidade. Eis o que nos acalenta. E a dor sabe ser generosa, sabe sim.

    Sua casa está linda!

    Bjo na palma da mão,

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  4. Lindíssimo e comovente texto. Brilhante mesmo! uma das coisas mais bonitas que li nessa semana santa. Me fez pensar, de verdade.
    Parabéns pela nova casa. vou te linkar!
    Gostei de saber q vc tá acompanhando nossa saga pelo blog. E mais ainda q vc acha q é uma menininha, pois todo mundo só acha q é menino! Eu já tava até esquecendo q existe essa possibilidade. Beijos.

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  5. De todas as aves mitológicas a de mais bela estória sem dúvida é a Fênix, àquela que resurge das cinzas, sempre e cada vez mais bela. Dessa lenda tiramos a moral de que a dor nós fortalece e nos transforma. Sofrer não é vergonhoso, mas parte de um caminho necessário para o crescimento. Adorei sua casa nova. Beijos.

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  6. Parabéns pela nova casa. Acho nauseante esta promoção de bons sentimentos das épocas de páscoa e natal. Não é para menos que tanta gente deprimida e solitária se suicida nestes períodos. O marketing dos comerciantes nos mostra cada vez mais exemplos de vitoriosos, deixando de lado os famintos, solitários e todos os que se sentem derrotados. Por um defeito de fábrica, não tenho sentimentos religiosos e fico surpreso com a atmosfera “religiosa” criada pela propaganda. Beijo.

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  7. Sua casa antiga era linda, mas essa vai ser melhor pra vc, eu sei o qto vc está viciada nesse negócio, ehehe. Meu pc ainda está ruim, tô na casa do Cláudio, e não consigo te ligar, mas não te esqueci não, viu, garota? Nem de vc e nem desse babaca meloso do Fúlvio. Bjo de língua ( ouvi dizer que hoje é dia do bjo! )

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  8. querida, tá lindo aqui!!! Não tenho visitado ninguém, mas abri um exceção pra conhecer seu novo blog… agora é um verdadeiro site mesmo! Parabéns!!! Assim q puder, volto mais vezes… bjinhos

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  9. Oi querida..
    com licença, já tirei o chapéu e os sapatos pára adentrar a tua nova morada.
    Sofre é bom para nos fazer crescer.
    Saudade é sempre um alívio para sabermos que algo ou alguém nos faz falta..

    assim vamos vivendo.

    beijos e tudo de bom.

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  10. Post comovente, menina. Adorei a parte em que vc diz que, de repente, nos vemos na posição de parar de ter medo do medo. Tão verdade. Tão claro. Pena que a gente demore tanto tempo para sacar. Beijoca e feliz casa nova, viu?

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  11. Kari, vc tá muito chique, benhê!!!!!!!!! Eheh. Muita sorte com o seu novo endereço, e sobre o texto… Vou pensar mto sobre ele, mto mesmo, principalmente pq sei que sou uma das pessoas que te aconselha mto a abandonar essa sua natureza sensível, sem sacar que é exatamente por isso que vc é muito melhor que eu. Bjo, eu te adoro, miga. 🙂

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