BONS MOMENTOS DE TODO DIA

BONS MOMENTOS DE TODO DIA

Na tentativa desesperada de ganhar um gás extra pra terminar essa última semana massacrante de trabalho antes das férias, nada como lembrar os pedaços felizes de todos os dias. Não adianta muito, mas adianta um pouco. Aff.

Bons Momentos de Todo Dia

* O locutor da manhã falando piadas absolutamente infames enquanto escovo os dentes.

* Edredon, silêncio e suspiros antes de dormir.

* Gibi enquanto assisto a novela das seis com os pés pro alto no sofá.

* Telefonemas esperados ou inesperados de pessoas queridas ou mais que queridas.

* Caixa de emails cheia de mensagens carinhosas.

* Contar histórias pras crianças da manhã.

* Lua na varanda em noite de céu estrelado.

* Falar das idas e vindas com os moços e falar mal da chefa má com as amigas no estacionamento.

* Sorriso da afilhada balbuciando “oi, meu amor!” quando me vê entrar em casa.

* Chocolate depois do almoço.

* Dirigir o tomatinho na estrada.

* Banho loooongoooooo quando chego em casa, com direito a falar e cantar sozinha.

* Pessoas queridas em todos os lugares.

* Rádio do carro bem alto enquanto dirijo de volta pra casa.

* Dezenas de florzinhas – desenhadas num papel, roubadas de quintais das vizinhas furiosas ou simplesmente matinhos arrancados das beiradas das calçadas – na hora da entrada dos bebês da escola da tarde, ofertadas com todo carinho deste mundo.

* Sentar no parque com a minha ótima parceira de trabalho ( e amiga ) e ficar observando as crianças brincarem no final da tarde, morrendo de rir das coisas que eles fazem e falam.

E os seus bons momentos, quais são?


EXPEDIENTE

* Enfim sabemos quem matou o tal do Lineu, e aquela novela estúpida acabou, com todos os vilões ( impagáveis ) devidamente ferrados e os mocinhos ( chatíssimos ) recompensados com a felicidade eterna. Apesar de ter achado os últimos capítulos, como a maioria dos outros, totalmente no sense e mal feitos, eu sempre me emociono com últimas cenas de novela. Sempre, por pior que seja. Toda aquela alegria forçada me aperta o coração. Isso deve ser algum tipo de doença, não é possível.

* Chega dezembro mas não chega julho… Não aguento mais, quero minhas férias. CHUIF. Estou sentindo falta de passar nos blogs amigos pra ler tanta coisa legal que vocês sempre escrevem. 😦 Mas a semana que vem tudo vai ser diferente.

* Pra quem perguntou, o dia de meus anos é dia 4 de julho, domingo próximo.

* E uia! Sou destaque da semana do Jornal do Blogueiro! Obrigada ao pessoal de lá pela força de SEMPRE. 🙂

* Pra quem perguntou também, meu ID no Orkut é meu nome, Karina Cabral. Mas aviso que não uso muito, não consigo ver muita graça… Acho que ainda não entendi direito pra que serve. :-/

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PLANTÃO

PLANTÃO

Interrompo a programação oficial do blog desta que anda se sentindo pouco ou nada hábil no trato com as palavras, para dizer que hoje, dia 22, este espaço completa seu primeiro aninho de vida. ( Quem diria, meu blog é canceriano também. )

Mafaldinha aniversariando

Gostaria de dizer o que isso significa pra mim, como foi que aconteceu, o que me trouxe, o quanto me fez bem, e o que sinto por algumas pessoas que sempre passam por aqui, o quanto é fato especial na minha vida. Mas hoje foi um dia terrível e não deu tempo de escrever nada. Prometo tentar assim que for possível.

Por hora, fica apenas um comunicado de parabéns para mim, um agradecimento a todos e todas, e uma canção que diz tudo que eu queria dizer aqui hoje. Para quem não manja de espanhol… Apenas uma chave: cambia = muda.

Todo Cambia
Mercedes Sosa

Cambia lo superficial
cambia también lo profundo
cambia el modo de pensar
cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
cambia el pastor su rebaño
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
de mano en mano su brillo
cambia el nido el pajarillo
cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
aunque esto le cause daño
y así como todo cambia
que yo cambie no extraño

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Cambia el sol en su carrera
cuando la noche subsiste
cambia la planta y se viste
de verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
por mas lejos que me encuentre
ni el recuerdo ni el dolor
de mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
tendrá que cambiar mañana
así como cambio yo
en esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

DROPS MISTO * EXTRA-FORTE –

DROPS MISTO

Diários de Motocicleta* EXTRA-FORTE – DIÁRIOS DE MOTOCICLETA
Fui ver. E tenho que pensar nele por muito, muito tempo.

Exclua o fato que eu adoro o diretor do filme, e o estilo dele de filmar. Exclua que os dois atores principais são fantásticos. Exclua que gosto daquelas paisagens. E que gosto de ouvir o castelhano. Exclua que o filme é um tributo à amizade. Exclua que essa causa latino-americana é intrínseca em todos nós, uma ferida aberta que dói quando menos se espera. Exclua tudo isso, e o filme ainda será bom. Mostra a gênese de um ideal, através da observação sensível, corajosa e crítica da realidade por um jovem que estava apenas começando sua jornada transformadora. Não se trata de endeusar a figura do Che Guevara, mas de entender de onde ele partiu, que é o mesmo lugar de onde partiram tantos outros. E, claro, fiquei pensando que um dia já fui parecida. Já me incomodei com tanta coisa, e sonhei com tantas outras. O que será que houve com todas as causas em que eu acreditava? O que elas viraram? O que foi feito de tanta paixão? Será que me deixei abater pelo cinismo, excesso de praticidade, egoísmo e covardia dos adultos que eu criticava tanto quando era mais jovem e até sairia pra conhecer o mundo de motocicleta?

“Até bem pouco tempo atrás
Poderíamos mudar o mundo
Quem roubou nossa coragem?”

É… Vou ter que pensar nisso tudo por muito, muito tempo.

Ruguinhas* UVA – ENTRADAS

No espelho, reparei. Rugas na testa. Mais dois cabelos brancos. Algumas marcas a mais no rosto. Cabelo menos brilhante. Olheiras, um certo cansaço constante no olhar, vontade de jogar roupas fora porque não combinam mais comigo, uma impressão de que estou tão velha, e o sorriso mais difícil. De repente, reparei. E em menos de um mês, vou fazer aniversário de novo. Oh, Deus.
Se houver mais alguém que é canceriano, me avise nos comentários, please. 🙂

* CEREJA – PARA CHICOÓLATRAS E SIMPATIZANTES

Como sempre, atrasada. O aniversário foi ontem, mas ele é digno de estar presente todos os dias. Já declarei o meu amor quase que incondicional por ele ( não fossem os romances… ) um tempo atrás. Mas… Ele merece uma listinha só pra ele.

16 COISAS PARA SE FAZER AO SOM DE CHICO BUARQUE

* Passear no domingo cantarolando “Bom Tempo

* Chorar a dor de um amor perdido no travesseiro antes de dormir escutando “Retrato em Branco e Preto

* Ficar olhando a vida da janela cantando “Carolina

* Ficar na cama com aquele alguém fazendo carinho um no outro bem devagarinho ouvindo “Tatuagem

* Acordar devagar num dia de férias ouvindo “Samba e Amor

* Deitar no sofá depois de um dia de trabalho esgotante ao som de “Deus lhe Pague

* Rodopiar com alguém na sala de estar ao som de “João e Maria

* Arrumar-se para um encontro interessante cantando “Terezinha

* Arrumar armários de antigas lembranças ouvindo “Trocando em Miúdos

* Dirigir na estrada ao som de “Bye, Bye Brasil

* Olhar nos olhos de alguém e cantar “Dueto

* Beijar na boca ouvindo “Moto-Contínuo

* Passear sozinho no shopping pensando nas “Vitrines

* Cantar “Iolanda” no viodeoquê

* Despedir-se de um grande amor escrevendo “Todo o Sentimento” num papel cor-de-rosa

* Arrumar os Cds ouvindo “Paratodos

Parabéns, Chiquinho. Eu te amo.

A AVENTURA DE CADA UM

A AVENTURA DE CADA UM

Estou fazendo um curso fantástico sobre literatura. Despretensioso, divertido, cheio de informações… E tocante. A cada terça-feira, eu aprendo um pouco mais sobre os livros, a magia das histórias e sobre mim mesma.

A história que é o nosso norte chama-se Odisséia. A obra, junto com a Ilíada, é considerada o começo da Literatura Ocidental. Assim como os Contos de Fadas, as histórias gregas eram contadas oralmente; e um dia, alguém resolveu reuni-las e escrevê-las. Essas histórias contam, em suas linhas e entrelinhas, a cultura e o jeito de ser de um povo. E quem conta a história de um povo, conta a história de uma pessoa, qualquer pessoa… Porque somos feitos da mesma massa, da mesma essência.

A Odisséia é a história de Ulisses ( em grego, Ulisses é Odisseu – daí o nome ), Rei de Ítaca, que deixou sua terra, sua amantíssima esposa Penélope e seu filho Telêmaco para ir lutar por dez anos na Guerra de Tróia, ao lado de outros reis gregos como Menelau e Agamenon. Lá, Ulisses usou a força das armas e o poder de uma idéia inteligente ( um cavalo de madeira ) para vencer os exércitos e as densas muralhas de Tróia. Merecidamente, quis voltar para casa. Mas, ao sair das terras troianas, ofendeu o deus do sol, Hélio, que jurou impedi-lo de voltar para Ítaca. Também ficou ofendido Poseidon, o deus dos mares, quando Ulisses atacou um de seus filhos – o ciclope Polifemo – e saiu gabando-se de sua sina de herói invencível. Os dois deuses fizeram de tudo para que Ulisses não retornasse ao seu lar, e assim esse retorno durou mais de vinte anos – vinte longos anos de batalhas, amigos mortos, cansaço, aventuras, desistências, derrotas e vitórias. A Odisséia é a história dessa longa viagem.

Não é à toa que as aventuras do Rei de Ítaca chegaram até nós. Uma obra de arte só é obra de arte se resiste ao teste do Tempo, e continua sendo vista e sentida pelas pessoas, independente de suas crenças, nascenças, tempo histórico ou procedência geográfica. Isso quer dizer que nelas, nessas obras, há algo que diz respeito ao que é ser humano. E quando a alma se comunica com outra alma, não há barreiras de compreensão. O encantamento e reencantamento se faz. Há em histórias como a Odisséia metáforas da vida, que se dão nos mínimos detalhes e entrelinhas.

Ouvi da minha doce e inteligentíssima professora que a maior metáfora da Odisséia é que cada um pode ser o herói de sua própria história. Ler essa história e acompanhar a sofrida e vitoriosa trajetória de Ulisses me fez pensar no que faz de uma pessoa um herói, ou uma heroína. Se há pessoas vitoriosas transitando por aí, também há pessoas derrotadas e cansadas; pessoas que perderam algo, que foram aniquiladas em suas chances de vencer, e nem querem mais isso. Não se trata da obsessão maníaca de vencer por vencer, mas sim de se querer algo, nem que seja um gosto bom de tranquilidade. De tantos guerreiros que saíram das ilhas gregas, de tantas pessoas envolvidas na Guerra de Tróia e na volta de Ulisses para casa, apenas ele chegou a Ítaca e alcançou o seu prêmio, porque algo nele havia de diferente, um brilho especial. Em que forma foi feita um herói, ninguém sabe. Talvez seja um dom, uma benção, o resultado de muito esforço e preparo, uma postura diante do mundo, ou tudo isso junto. Importante é entender que um herói se faz não em um momento ou uma situação, mas por toda uma vida de aprendizagem e retomadas. Ser herói não é nada fácil.

O caminho do herói é a aventura. Para aventurar-se, Ulisses teve que deixar sua casa, sua família, seu amor, seu filho, sua segurança. O caminho da aventura exige renúncia do calmo, do tranquilo, do descanso. Há que se buscar a mudança, o movimento, aquela emoção que sacode a alma. Aventurar-se é se jogar em direção ao desconhecido, sem saber do futuro. Sempre, um caminho sem volta. Talvez, um caminho difícil. Mas, ainda assim, um caminho de glória. O herói que vive em nós, se não está amordaçado e calado, sabe que não adianta esperar e esperar para que a vida aconteça diante de nós. A vida está em algum lugar bem longe, bem perigoso e cheio de paisagens, das mais horrendas as mais belas. E para ver tudo isso, para ter a vida, é preciso buscá-la, com coragem. Essa disposição, essa força pra lutar vem de dentro. E pra dentro ela volta a cada batalha vivida, seja ela vencida ou não. O herói dentro de nós precisa ter vez pra falar, precisa ser vivo e forte.

Nenhum herói colhe só sorrisos em sua trajetória. Dos mais antigos aos mais modernos, eles passam por um duro processo de amadurecimento, de lapidação, que em boa parte dos casos, se dá pela dificuldade, pela dor. Ulisses viu seus companheiros morrerem um a um. Desceu ao Hades ( inferno ) e teve que olhar a morte. Sentiu saudades de sua esposa dia após dia. Não viu o filho crescer. Por várias vezes, teve que reviver a história de Tróia e todos os horrores que a guerra traz. Enfrentou os deuses irados. E, quando voltou, sozinho, teve que se passar por mendigo para ver sua casa tomada por homens que o traíram de diversas maneiras e destruíram seu patrimônio. Ele sofreu, e muito, como sofremos todos, os que optam por andar ou por parar. Porém, ainda que dolorido, o caminho da aventura sempre traz bons frutos para quem o trilha até o fim. Sempre.

Do passo a passo da Odisséia, várias lições. Os heróis não vencem sempre. Os heróis se cansam, mas não desistem. Os heróis usam de força e inteligência nas devidas proporções. Os heróis têm orgulho de si mesmos. Os heróis confiam em suas armas. Os heróis cometem erros banais quando deixam que a vaidade tome conta deles. Os heróis vão ao fundo da dor e ao pico da alegria e satisfação, e aproveitam ambas as situações. Os heróis ouvem os mais sábios. Os heróis lutam contra o destino, e às vezes conseguem mudá-lo. Os heróis são dispostos. Os heróis reconhecem que o caminho é mais importante que a chegada. E, acima de tudo, os heróis são apaixonados por um ideal que guia a sua própria vida, porque é da força da paixão que vem a força pra chegar ao final e encontrar a paz.

A vida apresenta-se diante de todos nós como um caminho de volta para Ítaca. Nebuloso, incerto, turbulento, longo. Cheia de mares revoltos, períodos de calmaria, aventura, e um desejo, lá no fim, de estar bem, de estar em casa, seguro e tranquilo, com a missão cumprida. Algumas pessoas passam por esse caminho e são tragadas por ele, se deixam vencer pelo desânimo, pela mediocridade, pela corrupção de seus sonhos e ideais. Outras, até tentam, mas acabam por desistir. Mas há alguns heróis. Gente que passa pelo mesmo caminho, e faz a escolha de lutar, incansavelmente, até chegar lá. O que será que há com eles?

Os gregos acreditavam que os heróis eram mortais que tinham sido untados pelos deuses em uma calda especial, que os enchia de bravura, força e coragem. Mas há quem acredite que os heróis são aqueles de espírito forte e luminoso, que escolhem ser assim, que escolhem lapidar-se para enfrentar a dor. E, o mais lindo de tudo, enfrentam. E mesmo quando perdem, acabam ganhando. Os heróis são pessoas especiais, ainda que não sejam famosos como Ulisses ou Aquiles. São vencedores não porque ganham, mas porque escolheram encarar a adversidade ao invés de evitá-la.

Há uma passagem da Odisséia que é de tocante beleza e simbolismo. Ulisses e seus marinheiros passam pela Ilha das Sereias, monstros marinhos que possuíam metade do corpo em forma de mulher e metade em forma de aves de rapina. Seu canto, extremamente belo e misterioso, atraía os marinheiros para o mar, e depois de ficarem loucos, eles atiravam-se ao mar, e acabavam por morrer afogados. Na ilha, ficavam apenas os esqueletos, recobertos por peles ressequidas, e o mar tingido de sangue. Avisado pela bela feiticeira Circe desse perigo, Ulisses amassa com as próprias mãos um pouco de cêra, e entrega aos seus marinheiros para que eles tapem os ouvidos e não se deixem envolver pelo canto. Quanto a ele, pediu que o amarrassem num mastro, bem amarrado, e que não tapassem os seus ouvidos, pois ele queria passar por ali, mas não queria deixar de ouvir o canto tão belo e sedutor. Queria experimentar o perigo para poder saber o que venceu.

Claro, Ulisses teve sorte. Mas não só isso. Ser o herói da própria história é uma escolha e um mérito de cada um. E que bom que é assim.

* Quem quiser ler a Odisséia em linguagem fácil, pode optar por este livro… Imperdível.

DROPS DE MARACUJÁ Minha


DROPS DE MARACUJÁ

Minha vez hoje, e falo sobre fadas, no Mondo Redondo… Já que veio me visitar aqui, bate , que a casa é de bamba e adora visitas.

Fadas no Mondo Redondo. Clica!

EXPEDIENTE

* Ressaca de dia dos namorados… Ai, ai. O meu foi Ó-TE-MO! Por que e como, não conto pra ninguém… Apenas digo que fiz o que me deixou feliz. E viva o amor, o encantamento, o encontro, o carinho, o respeito, o contato, o entendimento e tudo o mais que de bom pode acontecer entre as pessoas. :-))))))))))))))))

DROPS DE AMORA – TER OU NÃO TER NAMORADO

DROPS DE AMORA – TER OU NÃO TER NAMORADO

Até comecei a escrever uma listinha daquelas, mas me lembrei deste texto perfeito e achei que ele diria tudo. LINDO, simplesmente lindo.

O texto, como tantos outros, é erroneamente atribuído ao maravilhoso poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade, quando na verdade é de autoria de um outro fantástico escritor, Artur da Távola. Você pode entender mais sobre o assunto da troca de autorias clicando aqui.

TER OU NÃO TER NAMORADO

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.
Namorado é a mais difícil das conquistas.
Difícil por que namorado de verdade é muito raro.
Necessita de adivinhação, de pele, de saliva, lágrimas, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.
Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil .
Mas namorado é mesmo difícil.
Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem quer se proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia, pedindo proteção.
A proteção dele não precisa ser parruda, decidida ou bandoleira, basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado não é quem não tem amor, é quem não sabe o gosto de namorar.
Se você tem três pretendentes , dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter um namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade.
Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas, do carinho escondido na hora em que passa o filme, de flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar, de gargalhadas quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo metrô, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer sesta abraçado, fazer compras junto.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e do amado e sai com ela para parques, fliperama, beira d´agua, show de Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonho ou musical do metrô.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado.
Não tem namorado quem ama sem gostar, quem gosta sem curtir, quem curte sem se aprofundar.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, de madrugada ou no meio dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações, quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar.
Enfeite-se com margaridas e ternuras escove a alma com leves fricções de esperança.
De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passar debaixo de sua janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de conto de fadas.
Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente começar a fazer sentido.”

Artur da Távola

Enlouqueçam-se…

LOVE,LOVE,LOVE

LOVE, LOVE, LOVE

Love, love, loveE eis que chega a semana do dia dos namorados. Até pensei em fugir do assunto, não pensar, deixar pra lá, racionalizar tudo num discurso de data comercial, etc e tal. Mas não deu pra ignorar o clima romântico que pipoca nos milhares de coraçõezinhos espalhados por aí, nos olhos dos casais, nas vitrines das lojas e nos muros da cidade… Então, eu me rendo. Vamos lá.

Costumo colecionar pequenas pérolas que vou ouvindo no dia-a-dia, coisas que grudam na minha cabeça e não saem nunca mais, e que muitas vezes vêm do mais absoluto nada ou dos lugares mais inusitados.

Já fui uma “seriemaníaca”. Curtia os famigerados enlatados norte-americanos, de todo tipo – suspenses, dramas, sitcoms, comédias. Uma das minhas preferidas é a já extinta comédia Ally McBeal, protagonizada pela atriz Calista Flockhart ( a magrela que pegou o Harrison Ford ). A série, escrita pelo mega-roteirista David E. Kelley ( que, por sua vez, pegou a Michelle Pfeifer ), contava a história de uma advogada atrapalhada quase trintona, que tentava acertar-se profissional e emocionalmente na vida. Muito delirante, Ally tinha suas idas e vindas amorosas com vários homens, de todos os tipos. Suas tentativas sempre naufragavam, hora por causa dela mesma e suas esquisitices, hora por causa dos homens sacanas e/ou loucos que ela arrumava. A trilha sonora da série era perfeita, e o elenco muito acertado. A série, ao longo dos anos, contou com dezenas de participações especiais de atores, cantores e comediantes, inclusive do meu amor, Bruce Willis. Ai, ai.

Um dos melhores amigos de Ally era o excelente advogado Jonh Cage ( interpretado por Peter MacNicol ). Jonh indicou a ela uma terapeuta maluca, que ela trocou por um outro lá pela quinta temporada ( quando a série já não ia tão bem de audiência e vários atores abandonaram o barco furado ). Em um episódio, quando ela ainda tentava superar o fim de um de seus relacionamentos mais duradouros ( com Larry, representado pelo ator Robert Downey Jr – ai, ai de novo ), Ally encontra seu novo terapeuta com uma dúvida. Jonh Cage, seu amigo, racionalmente, era o par perfeito pra ela. Eles eram parecidos, se entendiam muito bem, tinham objetivos parecidos. E ela conta ao terapeuta que, cansada de sofrer, tinha chegado a conclusão que devia amar Jonh. Mas, se tudo era assim tão simples, por que ela não conseguia amá-lo? Ou será que ela amava e não tinha percebido ainda?

O terapeuta ( muito doido ), apresenta a ela uma teoria interessante que, segundo ele, poderia acabar com todas as dúvidas. Quando temos dúvida se uma pessoa é a pessoa certa pra nós, devemos imaginá-la em três situações básicas.

1 – Devemos imaginar essa pessoa conosco, em frente a uma lareira, daqui 30 anos. Na imagem, ambos conversando serenamente, depois de uma semana intensa de trabalho, sobre um livro que leram, ou uma música que ouviram, ou sobre algo que vem acontecendo no mundo.
Conversando...

2 – Imaginar essa pessoa, de acordo com tudo que sabemos dela, como pai ( mãe ) de um filho ou filha nosso.
Papai... Mamãe...

3 – Imaginar essa pessoa lambendo chantily do nosso umbigo numa noite qualquer.
extasiados...

Se as três sensações forem boas, ou muito boas, e forem recíprocas… Então, está feito. O amor pode se fazer entre o sortudo casal.

Claro, Ally descobriu que não amava Jonh Cage, e nem poderia, dada a dor no estômago que sentiu ao imaginar a terceira situação.

Mas as palavras daquele terapeuta maluco nunca mais me saíram da cabeça. E as utilizei muitas vezes na vida para entender o porquê de certas sensações. Elas me foram muito úteis para entender os caminhos do meu coração em alguns momentos cruciais de confusão sentimental. É quando você se vê em uma enrascada, uma situação de não saber se aquela pessoa que está ali perto, ou mesmo que não está perto, mas está rondando seus pensamentos, é a pessoa certa.

Pra algumas pessoas, a pessoa certa é aquela que tem uma gorda conta bancária, ou um carro do ano. Pra outras, a pessoa certa é aquela que concorda com tudo que for dito, sem questionar. Pra outras, a pessoa certa é aquela que cuida de tudo, sem que elas precisem se preocupar com mais nada. Pra outros, a certa é aquela que dispare o coração constantemente. Pra outras, é aquela que traz calmaria. Pra outras, aquela que dá a segurança, ainda que ela seja comodista. Pra outras, aquela que alimente alguma de suas loucuras. Pra outras, é aquela que desperte o desejo, ou a raiva. As possibilidades e combinações são infinitas, assim como as pessoas em seus mistérios são cheias de infinitas combinações sentimentais.

Eu já amei de forma arrasadora, daquelas que desde o primeiro momento me fizeram acreditar que o amor existia, e estava encarnado ali na minha frente. Amei daquele jeito que tive vontade de mudar minha vida de uma vez, mexer tudo de lugar, só pra estar com aquela pessoa. Amor de um jeito que apertava o peito, me deixava de sobressalto constante, até doía de tão forte. Amor de uma forma esgotante, completa, intensa. Tão intensa e embaralhada que eu não sabia mais onde eu terminava e onde começava o outro. Não sei se era amor ou se era loucura, vontade de sentir. Foi bom, foi maravilhoso, foi inesquecível. Mas não bastou. Faltava a praticidade do dia-a-dia, a clareza dos obejtivos, a capacidade de saber a hora de parar de olhar um para o outro e olhar para a vida, que não pode ser ignorada.

Também já amei devagarinho. Daquele jeito que começa no mau humor, na desconfiança, no desentendimento. E, no dia a dia, senti aquele amor ir se formando, como um quadro que vai sendo pincelado aos poucos, uma imagem confusa que ia se clareando. E quando me dei conta, estava ali, precisando daquela pessoa, como precisava ir trabalhar todos os dias, como precisava me alimentar, ou dormir. Não sei se era amor ou comodismo. Foi bom, foi maravilhoso, foi inesquecível. Mas não bastou. Faltava a intensidade de um sentimento, aquela sensação que vai durar, aquela vontade de que não acabasse nunca, aquela certeza inexplicável de encontro.

Também já briguei muito comigo mesma e esse coração velho de guerra. Às vezes, era por gostar demais de alguém que não tinha nada pra ser a pessoa certa. Gostar de quem me machucava, mas me fazia feliz também. Alguém com uma lista enorme de defeitos, mas com a principal das qualidades. Às vezes, a briga era por ter ali, perto de mim, alguém que tinha tudo pra ser a pessoa certa, mas não me despertava aquela emoção quente, não me fazia apaixonada. Às vezes, era por tentar gostar de alguém que apenas era amiguinho, ou apenas um amante incrível, ou apenas um namorado perfeito pra apresentar pros outros, mas nunca tudo isso junto. Brigava comigo e dizia, “menina, você é exigente demais. Assim, nunca vai achar a tal pessoa certa. Queira menos.”

O tempo, esse professor incrível, foi me ensinando três verdades ( que ao menos para mim, são verdades hoje ). A primeira delas, é que existem pessoas certas pra cada momento de vida, e que um relacionamento dá certo enquanto dura, seja um dia, um mês, 15 anos ou a vida toda. A segunda, é que é preciso tentar quantas vezes for necessário pra encontrar alguém que sacie essa busca, e que esse alguém tem que ter certas coisas das quais não dá pra abrir mão. E isso não é teimosia, ou exigência, não. É respeito pela minha natureza e pelos meus sonhos, e se não rolar, vai virar cobrança, mágoa, superficialidade. E a terceira, é que vale sempre a pena tentar. E que tentar, na verdade, já é viver.

Na semana do tal dia dos namorados, me vejo aqui, com algumas possibilidades, desde ficar sozinha até começar algo especial, passando por ficar com alguém por ficar, pelo momento. Seja qual for a minha escolha, será a escolha do coração. E quanto à pessoa certa…

O terapeuta da Ally está certo, independente de gostos ou personalidades. Sem afinidade, sem possibilidade de fazer planos juntos, e sem tesão… Não dá pra ter um relacionamento completo. Algumas pessoas podem até trocar por menos, e aceitar uma ou duas dessas condições, afinal… Antes mal acompanhado do que só, e isso é legítimo também. Mas quem quer bem viver o amor, em toda a sua amplitude, precisa achar a pessoa certa. Precisa sentir a satisfação do entendimento. Precisa sentir a paz de planejar e contar com um companheiro. Precisa sentir a tremedeira e o frio na barriga que dá quando a pessoa beija. Mesmo que tudo isso não aconteça sempre, o tempo todo. Mas precisa ter.

Pra quem já tem essa pessoa, feliz dia dos namorados. E pra quem ainda procura… Um dia dos namorados mais feliz ainda, que se tem alguém que merece… São as pessoas que procuram sempre sua felicidade, a despeito de tudo que diz que isso não é tão necessário assim. Que essa atmosfera romântica contagie os corações, clareie as mentes e encoraje os espíritos. Tim-tim.

EXPEDIENTE
* Obrigada às pessoas que se empenharam em fazer os selinhos para o blog. Um deles já ficou pronto. Feito pelo seu Matusca, a pedido da Helô. Obrigada, queridos!
Meu botãozinho!

PESSOAS OU PERSONAGENS? PARTE III B – BETH, A TERAPEUTA

PESSOAS OU PERSONAGENS? PARTE III B – BETH, A TERAPEUTA

Mãos dadas( Continuação do post aí debaixo. )

– Eu vim aqui porque a minha supervisora falou que pra atender bem um paciente eu preciso fazer terapia.

A Beth não segurou um sorriso. Que coisa. Eu sabia, como psicóloga, porque ela estava rindo. Sabia que ela achava que era resistência, recalque, complexo e outros conceitos que eu tinha aprendido teoricamente tão bem, e fiquei brava. Oras, podia parecer, mas no meu caso não era não. Quem era resistente, eu? Humpft.

Reparei nela. Morena, cabelo liso, impecavelmente bem vestida, olhos negros e grandes, bem brilhantes, que davam a impressão de estar enxergando dentro de mim. Cheirosa, cheia de jóias, delicada, e com um óculos por perto, super charmoso. A sala não ficava atrás, parecia com ela. Arrumada, aconchegante, cheia de quadros, figuras, uma estante com enfeites, e uma mesa com livros. Ouvi novamente a voz calma dela.

– Tá, agora me conta de verdade: o que te trouxe aqui?

Repeti a frase de antes, já um pouco impaciente. Mas me esforçando pra sorrir e parecer natural. Me lembro do nervosismo da hora… Algo quase incotrolável. Eu me sentia como se alguém que eu nunca tivesse visto fosse tirar a minha roupa e me deixar nua em praça pública, pra todo mundo olhar. Exposta. Me lembro também de ter pensado em ir embora correndo. E por várias vezes pensei em nunca mais voltar.

Ela, percebendo o meu estado, foi me acalmando, fazendo perguntas amenas, e pediu licença pra anotar alguns detalhes. Nome, idade, onde mora, o que faz, se estuda, mãe, pai, irmãos, namorado. Fui respondendo tudo, tecnicamente. Pediu que eu falasse do trabalho no consultório, com os meus pacientes. Continuei falando, animadamente. E quando eu me senti confortável, ela provocou de novo.

– Quem é você de verdade? O que você realmente quer da vida?

Olhei pra ela com medo. Medo mesmo. Depois de um longo silêncio,

– Eu não sei.

– Afim de descobrir?

– Tô…

– Ótimo. Será um prazer te acompanhar.

E seguiu um longo discurso dela sobre dias e horários da sessão, preços, combinados de férias, de faltas, de pagamentos, de propostas de trabalho. Pediu pra que eu anotasse meus sonhos. Perguntou se eu concordava com tudo. Meio tonta, respondi que sim. E antes de encerrar, ela advertiu:

– Bem vinda. Não vai ser fácil, muito pelo contrário, é dificílimo, é dolorido, é complicado, é desgastante, é caro, é tudo. Mas é possível… E vai ser lindo, você vai ver.

Saí do consultório dela sem rumo. Errei a rua, tive que dar duas voltas a mais no quarteirão, andando de noite, ainda na chuva, em outro mundo. Estava com medo mesmo, sabia que dali não tinha mais volta. Não podia ser de outro jeito, e na semana seguinte eu estava lá. E na outra, na outra, na outra.

Aos poucos, fui aparecendo lá dentro. E não gostei do que vi. Vi que não estava tudo bem porcaria nenhuma. Que a vida tinha me dado muitas pancadas sem que eu tivesse chance de revidar. E que eu precisava aprender a me defender dos outros e de mim mesma, da minha dificuldade de dizer não, minha necessidade de agradar, minha auto-estima que vivia debaixo da sola do meu sapato, experiências terríveis de infância, o alcoolismo do meu pai, o descaso e exigência agressiva da minha mãe, o meu medo de amar e ser machucada, minhas defesas doidas, minhas manias estranhas, a minha voz tantas vezes sufocada. Isso tudo vinha em sonhos que eu tinha, desenhos que eu fazia, piadinhas sem graça, olhares, posturas. Eu, tão habitualmente emotiva, não chorava, não demonstrava emoção enquanto falava, como se estivesse falando de outra pessoa. Mas nada escapava aos olhos grandes da Beth, e tudo me era devolvido à exaustão. E nas entrelinhas dos meus discursos quase prontinhos de Poliana, ela ia me desmontando, sinalizando, provocando. E eu tinha raiva disso. E me sentia triste, desprotegida. Mas ela me acolhia, e eu voltava na semana seguinte de novo.

Por outro lado, também outras coisas surgiam. Facilidades, qualidades, possibilidades, caminhos, sucessos. E isso era tão bom, que quase viciava. Essa coisa de amar a si mesmo é tão boa quanto um copo de água quando você está morrendo de sede. Bálsamo, ar, vida.

Operacionalmente, era difícil fazer terapia. Ficava a uma hora e meia da minha casa pra ir, e mais uma hora pra voltar. Custava mais de um terço do meu salário. Minha família, meus amigos não apoiavam, achavam um absurdo, afinal de contas, eu não parecia louca. Era uma luta. Exigia esforço, exigia coragem, exigia abdicar de algumas coisas e pessoas. O sofrimento, às vezes, era muito intenso e eu me perguntava se tinha necessidade mesmo daquilo. Às vezes faltava, chegava atrasada, fazia quase greve de silêncio. Mas não desisti. E em muitos momentos, era porque a Beth estava lá pra me dar a mão e me puxar a orelha.

Comecei a mudar. Parei de trabalhar que nem louca, dei um pé em uma porção de coisas que eu fazia sem querer fazer, afastei de mim pessoas vampiras que só me sugavam, comecei a conhecer outras pessoas maravilhosas. Parei de ter posturas do tipo, ” sou assim mesmo, paciência”. Fui mudando, aos poucos, o cabelo, o jeito de vestir, onde ia, as coisas que eu lia e ouvia. De repente, era tudo insuportável e inadequado. Joguei muita coisa fora, adquiri tantas outras. Comecei a ficar mais desbocada. Cuidava mais de mim. Pintei as paredes do meu quarto, e da minha vida. Mudei o tom, a cor, o jeito, o que pendurava nelas. Comecei a fazer coisas, muitas coisas. Respeitei certas dores, sabendo que nelas eu não podia mexer, e aprendi a conviver com elas. A cada passinho, uma dor. Mexer nesse vespeiro não é fácil, ela bem que me avisou. Mas era lindo. E que bom que ela tinha me avisado disso também.

Beth era muito engraçada.  A despeito da minha cara de espanto, ela seguia como se não tivesse dito nada demais. Ríamos muito juntas. Ela também me dizia coisas maravilhosas. “Escolha”. “Faça o que você mais teme”. “Aprenda a bater.” “Crie uma casca mais grossa.” “Sofra, mas não morra.” “Respeite os seus desejos, eles são tudo que você tem.” “Não sufoque a sua natureza.” “Tenha coragem.” E me enchia de questionamentos. Porquês, para quês, como assins, e se fosse de outro jeito. Tudo sem resposta.

Toda mudança exige deixar pra trás algumas coisas. E pra uma moça teimosa e apegada como eu, isso era uma dificuldade. Enquanto fiz terapia, muitas coisas aconteceram. Perdi pessoas. Mudei de emprego. Briguei inúmeras vezes com pessoas que eu amava. Aprendi a amar outras que odiava. Questionei convicções.Aprendi a perdoar. Tive um grande amor, e um coração partido, e depois amei de novo, e de novo. E tudo em pouco tempo, e rápido, e exigindo tudo de mim.

Depois de ficar um bom tempo com o Danielzinho e outros pacientes, torci o tornozelo em dois lugares, e quando voltei da licença, decidi abandonar tudo. Algo ali tinha se quebrado, e eu não sabia o que era. Depois, descobri que não aguentava mais cuidar dos outros. Precisava cuidar só de mim. E a razão que tinha me levado pra terapia desapareceu. Ficou só eu… E tudo que eu era.

Aos poucos, as sessões ficaram mais profundas e ao mesmo tempo mais divertidas. Tudo que ela mandava eu ler, todos os sonhos que eu contava, todas as frases que ela dizia, tudo eu admirava e adorava. E assim o tempo foi passando, e passando. E tudo se transformando.

Chegou um tempo na minha vida em que eu gostava de tudo. Gostava da minha casa, da minha família, dos meus amigos, dos meus empregos, do jeito que lidava com os moços, da maneira de encarar o mundo. Não deixava mais ninguém pisar nos meus sonhos. Escolhia os meus caminhos por mim mesma, e se quebrava a cara, sofria o que tinha que sofrer sem vergonha, até que eu conseguisse rir disso. Me soltei como filha, como irmã, como profissional, como mulher, como namorada. E chegou um tempo na minha vida em que olhava no espelho e tinha orgulho de quem eu era, da minha história, dos meus sonhos, e do que fazia, e principalmente orgulho do que eu sentia. Finalmente, a minha vida era minha de verdade. E eu me sentia uma pessoa. Não que não tivesse problemas. Mas eu me sentia mais forte do que eles, me sentia inteira, corajosa, firme, e ainda assim tranquila. E não tinha mais tanto medo.

Todas as semanas, eu ia lá contar pra Beth como eu estava crescida, como eu era feliz, como era bonito tudo que eu fazia, como eu era amada por mim mesma e pelas pessoas. E ela curtia comigo esses momentos, ríamos e nos divertíamos. Muitas vezes ela me olhava com o mesmo brilho nos olhos que eu admirava os meus alunos quando eles finalmente conseguiam escrever o próprio nome. Eu sabia que, fossem garis, executivos, artistas ou bandidos, eles sempre começariam dali, daquele nome escrito no papel. Em outros níveis, era assim entre a Beth e eu, ela sabia que fosse quem eu fosse, eu não esqueceria de tudo que aprendi anquele período. Até que um dia, foi inevitável.

– Escuta, Beth, eu queria tirar um mês ou dois pra me organizar financeiramente… Dar um tempinho aqui.
– Sim, sim, sim! Achei que você não ia se tocar!
– Uai, me tocar do quê?
– Que já chega, pelo menos por enquanto. É hora de você ir.

Minha cara de pânico deve ter sido igual a que eu fiz no primeiro dia, aquele da tempestade, porque ela sorriu quase do mesmo jeito. Experimentar a vida sem a Beth parecia impossível. Eu não tinha me tocado, até ali, que a mudança não era ela quem tinha feito, mas eu. E o que era meu, ninguém podia levar.

– Pensa que é fácil pra mim te dizer isso, Mafalda? Não é, não. Mas você não precisa mais de mim. Aquela menina de antes ficou lá atrás. Agora você é uma mulher. E precisa ir pra vida, se experimentar sozinha. Não se preocupe, vai dar tudo certo. E o que não vai dar certo, você vai tirar de letra. Você desabrochou. Estou assinando sua alta, se é que você segue alguma ordem de alguém.

Quis chorar. Mas não chorei. Saí de lá contente, radiante. Liguei pra alguns amigos, cheguei em casa contei pra minha mãe, mais tarde contei pro meu namorado na época. Todos felizes por mim. Fui lá, comprei um presente pra ela, fiz um cartão dizendo um pouco disso tudo, e aceitei o lance da “alta”. Quando saí de lá depois de um abraço daqueles, senti a mesma tremedeira do primeiro dia. Mas fui em frente, feliz, feliz.

Na primeira dificuldade que encontrei, pensei em ligar pra ela e dizer que ela não devia ter me dado alta. Mas ela diria pra eu me virar. E eu me virei. Muitas, e muitas vezes. E não foi tão difícil assim não.

Eu poderia ter ficado como eu era. Era uma escolha. Mas não quis. Talvez um dia eu volte a fazer terapia. Não sei. Mas se tem algo que eu digo com certeza é que encontrar a Beth e trilhar esse caminho com ela do meu lado foi a melhor decisão que eu já tomei na vida. E era tanta vida que eu nem sabia…