O SEGREDO DENTRO DO BOTÃO DE FLOR

O SEGREDO DENTRO DO BOTÃO DE FLOR

Os frutos, explicam-se pela sua utilidade alimentícia. As folhas, por suas utilidades biológicas e eco-ambientais. O mundo não sobreviveria sem folhas e frutos. Mas passaria bem sem flores. A maioria delas não se pode comer, não se pode transformar, não se pode fazer nada além de olhar e admirar. São bilhões de espécies de flores, das maiores às menores, das mais cheirosas às mais inodoras, das mais belas às mais estranhas, das mais corriqueiras às mais raras. Tantas, de tantos tipos, arranjos e cores. Salvo para abelhas e beija-flores, todas sem utilidade prática. Assim como os sentimentos e outras futilidades, flores são tão dispensáveis quanto inevitáveis. Difícil não querer uma flor por perto de vez em quando, nem que seja pra ficar rodando o caule dela entre os dedos, sentindo as pétalas balançarem. Mas não são todos que querem flores sempre, por todos os lugares. Porque, tal como crianças, animais domésticos e sonhos, flores precisam de cuidado. Cuidado intenso.

No entanto, há quem dedique sua vida a cuidar das flores, corajosas e empreendedoras pessoas. Cultivá-las, pesquisá-las, catalogá-las, entendê-las, admirá-las, ofertá-las. Há quem plante jardins modestos, em espaços arrumados dentro de um quintal de concreto. Há quem faça canteiros cheios de pequenos vasos, espremidos . E há quem pode e decide plantar jardins imensos, cheios de flores. E quem é ou um dia arriscou-se a ser jardineiro, sabe que cuidar de uma flor não é tarefa fácil. Flores são seres temperamentais, em sua maioria. Mesmo as pequenas e simples exigem esforço, e mais esforço, e esforço de novo. Esforço periódico. Até as flores selvagens costumam estar protegidas pela natureza ao redor, ocultas em troncos de árvores, debaixo de folhas, cercadas por grama e folhagens. Flores raras costumam ficar em lugares quase inacessíveis, e não se deixam domesticar facilmente. Alguns biólogos passam a vida em laboratórios tentando transformar a cor, o tamanho, a simplicidade sofisticada de alguns tipos de flores – às vezes têm sucesso, às vezes não. Os biólogos modificam, mas o jardineiro é quem cuida. E cuidar de uma flor, além de técnica e esforço, exige uma decisão, um entrosamento.

Cada flor tem uma condição climática, um tipo de solo, um cuidado especial para poder sobreviver. Embora sejam frágeis, depois de arraigadas, são difíceis de extinguir. Flores precisam de poda, de adubo, de remédio, de conhecimento específico. Não podem conviver todas juntas, todo o tempo, conforme os tipos. Luz especial, nem muito, nem pouco vento, o lugar ideal, a hora certa de regar. Cuidar de flores, seja por método ou intuição, pode ser esgotante, decepcionante. Principalmente porque, de tantas sementes e mudas plantadas, nem todas vingam, e há muitos investimentos perdidos.

Flores de plástico são diferentes. De fato, são mais fáceis de cuidar. Basta ajeitá-las em um vaso, limpá-las de vez em quando e arrumar as pétalas. Podem durar para sempre, são resistentes e, dependendo da confecção caprichada, imitam quase que perfeitamente uma flor real. Uma pena que não sejam de verdade.

Jardineiros, normalmente, são pessoas simples e de grande sensibilidade natural. Colocam a mão na terra, sentem o cheiro dela, observam em detalhes as plantas que cultivam. Ao contrário dos agricultores, o interesse de um jardineiro não é a produção, não é olhar um campo cheio a perder de vista; mas sim o crescimento de poucos e conhecidos pés. O jardineiro conhece sua flor, sabe a origem dela, a dificuldade, a necessidade, o tempo. E sabe que tudo isso é cuidado.

O cuidado delicado é um reflexo da delicadeza que ele almeja ver em suas plantas, e, como bom jardineiro, ele sabe que um descuido, um relaxo, um lapso pode ferir uma planta tão profundamente que ela nunca mais volte a florescer, ou no mínimo demore anos pra isso. O cuidado é um esforço, o esforço de ver o que ainda não existe, de enxergar a flor no botão, de enxergar o novo botão na flor que morreu. O cuidado é um ato de amor altruísta, um investimento; portanto, não pode ser facilmente aprendido, é quase uma vocação. Existem plantas que demoram anos e anos para florescer, e florescem apenas uma vez para ficar mais anos e anos em silêncio. E ainda assim, o jardineiro as vê, cuida delas com paciência e constância. Outras plantas são de beleza inigualável, mas cheias de espinhos e fiapos. Algumas são atrativos para fungos e insetos parasitas. E em tudo isso o jardineiro cuida. Ao cuidar e proteger sua flor, o jardineiro cuida e protege a si mesmo, pois sabe que precisa da beleza e do perfume do seu jardim para viver. E aí, a flor não é mais um ser inútil, e sim substancial. Uma vez que ele se afeiçoa e se acostuma à beleza do jardim, nunca mais viverá feliz sem ele, ao menos não se em sua alma estiver a paixão de quem experimenta a jardinagem. Um mundo sem flores poderia ser útil, mas insuportavelmente feio e triste.

A verdade é que, no fundo, todo mundo sonha ter um jardim. Mas muitos não sabem como, não sabem por onde começar, nem como continuar. Alguns até arriscam-se a plantar algumas flores. Mas poucos conseguem chegar a colocar em sua alma o caldo do jardineiro.

E mais.

A raposa conta um segredo ao Pequeno Príncipe. Ele, que cultivara uma flor por tanto tempo – apesar dos espinhos que ela tinha – a havia deixado sozinha dentro de uma redoma. Uma flor é apenas uma flor, a raposa disse. Olhe para os campos e verá milhares delas. Mas a sua é especial. É diferente de todas as outras, pois entre vocês há um vínculo, vocês se conhecem. E então, ela diz o segredo que há escondido no fundo do botão de rosa – “foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante”. Ela diz ainda a célebre frase que muita gente repete porque soa bonito, mas pouca gente conhece – “Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa…”.

No momento em que o Pequeno Príncipe decidiu deixar-se encantar pela rosa, e em cada momento em que cuidou de sua flor, dando um pouco dele para ter um pouco dela, firmou-se entre eles um laço. Ele podia apenas admirá-la a distância, mas jamais conseguiria sentir por ela a responsabilidade e a intensidade de um carinho tão especial se não tivesse se atrevido a cuidar dela, a tirar-lhe as pétalas estragadas, a esperar por ela, a regá-la, a protegê-la, a tocá-la, no superficial e no profundo. No momento em que o jardineiro e sua planta se tocam, é inevitável que haja beleza, e inevitável que haja dor. Tanta dor quanta beleza houver. E é preciso que o jardineiro não esqueça disso para não deixar de cuidar de sua flor quando ela lhe fizer falta, ou lhe espetar com seus espinhos, ou quando exigir dele mais cuidado do que ele pode dar, ou quando ela estiver parecendo seca, sem nenhum sinal de outros botões. A dor é o outro lado do prazer, e um dá significado ao outro.

Há muitas verdades ditas em silêncio entre o jardineiro e suas flores. Eis mais uma delas:

“O sentimento é uma flor delicada; manuseá-la é machucá-la.”
( Larra )

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( MAIS ) FRAGMENTOS DE ( FIM DE ) FÉRIAS

( MAIS ) FRAGMENTOS DE ( FIM DE ) FÉRIAS

Sei que é chato gente que reclama demais. Mas dane-se, se é preciso, vou reclamar até cansar.

* INCOMPREENSIBILIDADES

Bons tempos aqueles em que os professores tinham duas férias decentes por ano. Alguns incautos achavam que era uma moleza, mas não era não. O nosso trabalho é deveras desgastante ( claro, quando é feito de verdade ). Muito mesmo. Ele é intelectual, físico e emocional, em grande e larga escala, todo o tempo. E, pelo salário que ganhamos, a maioria de nós precisa trabalhar no mínimo em duas escolas para conseguir atingir um orçamento pelo menos aceitável. No mínimo, duas. Conheço gente que trabalha em quatro, cinco escolas, em quatro períodos, e ainda faz trabalhos extras aos sábados e domingos. Isso faz com que os meus colegas professores sejam os campeões de licença saúde nos quadros do funcionalismo estadual e municipal, e as causas são muitas, mas previsíveis. Depressão, estresse, rouquidão, dores na coluna, e milhares de problemas de origem claramente somática – soma das frustrações e impossibilidades da profissão. Dá tristeza ver isso, assim como dá tristeza ver o descaso que o governo tem com a greve dos professores universitários, que já se arrasta por alguns meses. Fosse greve de metalúrgicos, ou de motoristas e cobradores de ônibus, ou de metroviários, ou de qualquer outra categoria que causasse prejuízos financeiros à sociedade, a coisa seria diferente. Mas quem dá bola pro ensino brasileiro? Bah, que bobagem. Que fiquem mais meses de greve, que ninguém se importa. Pelo menos ninguém que deveria se importar.

Hoje, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira reza que os alunos precisam ter, pelo menos, 200 dias de aula no ano. Resultado – professores cansados, alunos mais cansados ainda, e pais felizes por ter onde depositar seus filhos por mais 20 dias no ano ( sim, porque há muitos pais que não suportam seus filhos em casa e dão graças a Deus que haja uma escola pra deixá-los ). Nesses dias a mais, pouco ou nada é feito – apenas enrolação. Qualidade de ensino, que é bom, pouco, ou muito pouco. E com isso, as férias de julho, que eram as minhas preferidas por causa do frio que eu amo tanto, foram sacrificadas. Só 15 dias, e olhe lá.

Este país só não é mais hipócrita por falta de espaço, e olha que é o quinto maior país do mundo.

* O QUE FALTA

Lá está, 3000 peças encaixadinhas e unidas, formando o quadro de uma paisagem bonita. Meu quebra-cabeça gigante montado. Ou melhor, quase. São 2999 peças montadas e encaixadas.

Desta vez, quase achei que não ia conseguir. Acho que perdi a prática. Separei as peças, tentei, tentei de novo, e fui indo. Não importa os estratagemas, técnicas e intuições necessárias pra terminar o quebra-cabeça – ele ficou pronto. Uma ajudinha aqui e ali, mas a maior parte fui eu mesma quem teve que montar. E duas semanas depois, lá está aquele monte de fragmentos formando um todo lógico e harmonioso. É boa a sensação de chegar ao fim de uma tarefa tão difícil.

O fato é que, terminado, percebi um buraco não preenchido, bem no centro. Era a peça que faltava. Uma parte da torre do castelo, que não estava lá. Procurei a peça em tudo que foi canto. Embaixo do sofá, atrás do fogão, no meio das roupas, debaixo do tapete, nos vãos da mesa. Não achei. A peça, tão pequenininha, se perdeu de mim e das outras.

Não há por que ficar triste, afinal, o que é uma peça no meio de outras 2 999? Apenas um pedacinho. Mas um pedacinho que faz falta, que impede a imagem de ser completa, que impede a sensação de dever cumprido, que faz o esforço parecer inútil e que tira a graça da coisa toda. Uma peça apenas, e todo o resto encaixado parece sem sentido.

Na minha vida há uma peça faltando. Fragmentei e refiz muitas imagens, muitas memórias, muitas características minhas, muitas coisas que não pareciam bem encaixadas, e foi bom todo esse esforço. Agora, em teoria, era hora de enquadrar essas imagens e partir para uma nova fase com outros desafios. Mas tenho tido a constante sensação de que falta uma peça pra que tudo faça sentido. Uma única peça, que eu não consigo encontrar, que não sei como fazer para que venha fazer parte de todo o resto. E não é por falta de esforço. Eu tento, tento, tento encontrar, descobrir o que é, mas não consigo. Não faço a mínima idéia de onde está. E isso faz um buraco muito maior e mais profundo que aquele que eu vejo lá, bem no meio do meu quebra-cabeça montado.

Tsc.

* O QUE SOBRA

Apesar do cansaço, da chefe chata, das dificuldades, e da vontade de ficar um pouco mais nessa fase de recolhimento, sinto falta dos bebês pequenos. Eles são fofos, e acho que reencontrá-los amanhã vai ser bom. Trabalhar é muito ruim pra não ser bom.

* MARÉS

Eu nunca acreditei em azar, mas que existe, existe. Há fases ruins. Nos últimos dias, muita coisa deu errado. Pessoas que eu gosto adoeceram, não consegui chegar a lugares aos quais precisava ir, acabei me enrolando com compromissos, magoei sem querer, arrombaram meu tomatinho e levaram o rádio ( deixando no lugar dele um prejuízo financeiro com o qual eu não contava ), meu celular pifou, minha conta estourou, problemas de documentação, de adequação, de sentimentalismos inúteis, de saúde, de tudo. O que era pra ter sido descanso e leveza foi um poço de tristeza, canseira e falta de perspectiva.

A única coisa boa de uma fase ruim é que é fase. E como fase, passa. Assim espero.

* ARANHA ARRANHA A JARRA

E no meio de tanta coisa estranha que aconteceu, fui ver o Homem Aranha. Fui porque era filme obrigatório, daqueles que todo mundo vê, então eu também vejo pra saber do que se trata, pra saber o que move as multidões de pessoas como eu de casa até o cinema. Graças a Deus, minhas doses de preconceitos e restrições são baixíssimas no quesito filmes na telona.

E a surpresa aconteceu – o filme é bom. Muito bom. Bem melhor que o primeiro. Pra quem tem olhos atentos, pode ser muito mais que um amontoado de efeitos especiais. A crise de identidade do rapaz – que não se decide entre ser apenas Peter Parker, o nerd, ou o tal do Homem Aranha, o bom – é angustiante. Essa coisa de dom, destino, responsabilidade, altruísmo, sonhos impossíveis, conciliações, etc e tal são questões recorrentes nos heróis modernos, que no fundo nada mais são do que remakes dos heróis de sempre. E questões recorrentes pra todos nós também. Valeu o ingresso.

* A MAIOR DÚVIDA DE TODAS

Por que me envolvo com rapazes que insistem em não considerar meus sentimentos e necessidades e pisam pontualmente na flor delicada que eu guardo aqui dentro? Por que esses tipos se quer percebem que fazem isso? Por que escolho essas pessoas pra dedicar meus sentimentos, eles, que escolhem tudo e todos, menos eu pra agradar ou fazer feliz? Será que é verdade essa história de gostar de homem malvado ( pior, homens que parecem bonzinhos mas no fundo são muito malvados )? Por que tantas moças legais que eu conheço estão se perguntando exatamente isso neste exato momento?

Dramático, porém real. Muito real. Chuif.

* O MELHOR PROGRAMA

O cinema faz isso. Um filme bobo, mas divertido pode mudar seu dia e fazer rir até doer o estômago, quando você só queria chorar. Um filme piegas, mas romântico, pode acender seu coração e fazer acreditar no carinho entre as pessoas quando tudo a sua volta diz que não dá mais pra investir. Um filme barulhento, mas agitado, pode entreter sua cabeça e fazer sair do cinema achando uma maravilha ser um herói brutamontes. Um filme difícil, mas dramático, pode abalar suas estruturas e fazer colocar sentimentos em cheque quando você cansou de sentir. E todos eles podem fazer a cachola funcionar a toda, e a emoção vir a mil. O cinema não é bom porque é um tipo nobre de arte, nem nada do tipo que certos intelectuais adoram falar. É bom porque comunica coisas, e tira você do mundo por algumas horas – em suma, entretenimento.

Se, apesar do preço absurdo do ingresso, junto com o filme na telona, tiver jujuba, chocolate, pipoca, suco de tangerina e um amigo ou amiga maravilhos@ do lado… Aí fica perfeito.

Como é bom ter amigos que vão com você ao cinema e aguentam as suas chatices.

Avant.

TIPOS DE PESSOAS DESAGRADÁVEIS

TIPOS DE PESSOAS DESAGRADÁVEIS

Na dúvida, escreva uma lista.

Se eu sofresse de TPM, diria que é fruto dela. Mas não sofro. É que as pessoas são terríveis mesmo, e acabam me deixando de mau-humor, principalmente se resolvem atacar quase todas juntas. Aff.

TIPOS DE PESSOAS DESAGRADÁVEIS

Pessoas que vão descer no ponto final e ficam paradas na porta do ônibus, atrapalhando todo mundo que quer descer.

Pessoas que ficam esperando ansiosamente você errar alguma coisa pra tirar uma com a sua cara.

Pessoas que colocam apelidos nada inteligentes ( muitas vezes ofensivos ) nos outros.

Pessoas que conversam cutucando.

Pessoas que deixam os outros falando sozinhos sem nenhuma explicação.

Pessoas que conversam em bate-papo e perguntam, “de onde tc? qtos anos? como vc é? tem foto?”.

Pessoas que chamam de “coiza” ou “coizo” porque nunca lembram o nome da pessoa com quem estão falando.

Pessoas que cuidam de lojas e ficam impedindo você de colocar a mão nos produtos que você quer conhecer pra poder comprar.

Pessoas que ligam pra você e ficam perguntando, “adivinha quem está falando…”. E quanto menos você lembra, mais a pesssoa tortura.

Pessoas que ficam oferecendo algo que você não gosta, e quando você diz que não gosta, elas continuam insistindo e querem saber por que você não gosta.

Pessoas que ficam reparando no que você compra na farmácia, ou no supermercado, ou na banca de revista.

Pessoas que buzinam quando você atrasa um segundo pra sair com o carro quando o farol abre.

Pessoas que ligam pra sua casa vendendo coisas que você não quer e nem vai comprar, tratando como se você fosse um amigo de muitos anos.

Pessoas que ficam perguntando de seus ex-namorados em público.

Pessoas que ficam perguntando se você já arrumou um namorado novo, ou insinuando que você está velha demais “pra casar”.

Pessoas que contam final de filme ou resultado de jogo que você não viu, sem serem solicitadas.

Pessoas que bebem muito e começam a falar demais.

Pessoas que ficam mudando de canal compulsivamente, e não deixam você ver nada direito.

Pessoas que ficam mostrando milhares de fotos de viagens, festas, formaturas e outras coisas, com um monte de gente que você não conhece, mesmo que você diga que não quer ver.

Pessoas que querem tirar fotos suas quando você está se sentindo horrível.

Motoboys, motoristas de ônibus e de caminhão, em geral.

Pessoas que fazem listas criticando os modos dos outros.

AMIGOS DE NOVO…

AMIGOS DE NOVO…

Amigas para Sempre!

Nunca republiquei um post. Mas a ocasião vale. Esse aí debaixo foi um dos primeiros que eu escrevi, pra mim, um dos mais legais. Dificilmente gosto do que escrevo, quantas vezes escrevo tanto e não publico, porque não gosto do resultado. Mas esse eu gosto… Talvez porque foi feito com aquele carinho especial. Reformulei e aí está. Sei que falei do assunto há poucos dias, mas minha fixação por datas em que posso demonstrar sentimentos pelas pessoas não me deixaria não dizer nada nesse 20 de julho, Dia do Amigo.

Feliz Dia do Amigo a todos que eu amo, que me amam e que amam alguém desse jeito tão bonito e perfeito que é a amizade.

AMIZADE, ESSE NEGÓCIO BOM À BEÇA

Os moços que me perdoem, mas hoje é dia de falar das amigas. É isso mesmo, de amiga pra amiga.

Há quem diga que mulheres, quando são amigas, ficam insuportáveis, porque concordam sempre uma com a outra e não se desgrudam. Há quem diga que as mulheres são falsas e fofoqueiras ( na minha modesta opinião, boa parte delas é mesmo ), e que por isso a amizade entre mulheres é uma ilusão. Há quem diga que as mulheres brigam, discutem, se desentendem, mas nunca deixam de ser amigas. E há também quem diga que não troca uma amiga por um namorado de jeito nenhum.

A verdade é que é muito bom ter amigas. A cumplicidade, o carinho e a compreensão que pode acontecer entre duas mulheres é das coisas mais lindas que somos capazes de alcançar. A vida nos apresenta milhares de pessoas. E cada uma delas vem cumprir um papel conosco. Todas elas ficam na nossa memória, nos nossos hábitos, nas nossas fotos, nos nossos guardados… E no meio de tudo que se sente de dor, ou de prazer. Eu tenho saudade de todas as amigas que já tive na vida, mesmo aquelas que me machucaram. E tenho saudades de mim mesma quando lembro de alguma amiga que perdi.

Tem aquela amiga de infância, que brinca de casinha e de escolinha com você. Tem as amigas da família, as primas, irmãs e tias, que sempre estão indo e vindo da sua vida, provando que o tempo passa, mas certas coisas nunca mudam. Tem aquelas amigas de escola, com quem você briga, brinca, faz trabalho, apronta com a professora, escreve no caderno de recordação, troca papel de carta. E geralmente são essas as que lhe oferecem as primeiras oportunidades de dormir fora de casa, longe dos seus pais, e mostram outras possibilidades e estilos de vida. Aquela amiga pra quem você empresta sua boneca preferida. E aquela que cresceu com você e que você vê até hoje.

Tem aquela amiga mais velha, que deu o primeiro toque de que você precisava usar sutiã. Aquela amiga desbocada que só fala palavrão e se mete em encrenca, mas faz você rir muito. Tem aquela outra que é chorona, aquela que critica você a cada cinco minutos, aquela nerd / cdf que sabe de tudo e aquela melosa, que gosta de abraçar e mandar recadinhos de amor. Tem aquela com quem você anda de braços dados pra todo canto. Aquela pra quem você ligou quando veio sua primeira menstruação. Aquela pra quem você contou sobre o primeiro garoto que você gostou. Aquela que trai e fala mal de você pelas costas. Aquela com quem você saiu no braço, mas depois perdoou. Aquela com quem você partilha o código secreto do seu diário. Aquela que te dá toques sobre roupas, pessoas, corte de cabelo e comportamento. E aquela com quem você dividiu a cama naquela viagem que foi o maior programa de índio da sua vida.

Tem também aquelas que vêm e somem, mas parecem sempre as mesmas. Aquela pra quem você conta absolutamente tudo, e sente que foi entendida, e sai aliviada. Aquela que te dá broncas e manda você parar de roer as unhas. Aquela que não tem vergonha de dizer que te ama. Aquela que apresenta os melhores caras. Aquela que passa com você o momento mais difícil da sua vida. Aquela que liga todo dia. Aquela que tira sarro de você por você ser virgem ainda. Aquela intelectual, que te ensina milhares de coisas. Aquela que desistiu de um cara porque sabia que você estava afim. E aquela que roubou seu namorado. Aquela que abraçou em silêncio e sentiu você chorar, e aquela que virou as costas quando você mais precisou. Aquela que faz tudo que você pede e aquela egoísta. Aquela que ouve quando você está apaixonada e passa horas falando do mesmo assunto. E aquela que entende quando você a deixou pra ficar com seu namorado. E aquela outra que exige a sua atenção. Tem também aquela que apóia as suas loucuras. E a outra que reprime você em quase tudo.

Tem aquela idealista, com quem você discute horas os problemas existenciais da humanidade. Aquela que só liga no dia do seu aniversário, e que mesmo assim você adora. Aquela que sabe o tamanho do pênis do seu namorado. Aquela que você acoberta e passa o pano sempre que ela precisa. Aquela pra quem você conta suas performances sexuais. Aquela que te indica ginecologista. Aquela que parece sua mãe, e vive pra te dar conselho. A mãe da sua afilhada. A madrinha da sua filha. Aquela de quem você sente muito ciúme. Aquela que você invejou secretamente. Tem também aquela por quem você sente um carinho enorme desde a primeira vez que viu. Aquela que você odiou no começo, mas depois passou a amar, e aquela que decepcionou horrores. Aquela que escreve e manda poesias, e sempre na hora certa, na hora em que você mais precisava.

Aquela que te empresta apartamento pra você passar o feriadão com o namorado. Aquela que pede a Deus por você quando ora. Aquela que você conheceu pela Internet e que se tornou uma amigona do coração, e com quem você fica horas digitando. Aquela que você magoou porque trocou ela por outra que não valia nada. Aquela que te deu o conselho certo, que você não ouviu.

E aquela que você conheceu no ônibus, ou na fila de cinema. Aquela que voltava com você da faculdade. Aquela que ajudou a dar um perdido nos seus pais na primeira noite que você passou com o seu namorado. Aquela que abraçou no velório de alguém querido seu. Aquela que trabalha com você todos os dias, com quem você divide trabalho e confidências. Aquela que te avisa cochichando que a sua calça está manchada ou que o botão da sua blusa está aberto, ou que tem batom no seu dente. Aquela que presenciou o maior mico da sua vida. Aquela que segurou você na bebedeira. Aquela que segura seu braço quando você tropeça ou quando vai atravessar a rua sem olhar. Aquela que leu o trabalho que você precisava entregar e deu dicas pra mehorá-lo. Aquela que irrita, mas que você não imagina a vida sem ela. Aquela de quem você sente saudades, mas por alguma razão obscura, nunca arruma tempo pra ligar. Aquela que organiza uma festa surpresa pra você. Aquela que defende você de tudo e de todos. Aquela que paga coisas pra você quando você está sem grana. Aquela que sempre traz um presentinho.

Aquela que liga pra casa do seu namorado pra saber se ele está vivo quando ele acha de sumir e você quase enlouquece. Aquela que roga praga contra quem te fez mal. Aquela que chora a sua dor. Aquela que te deu a dica que te fez mudar de emprego e, por consequência, mudar a sua vida. Aquela que tem uma mãe boazinha que você às vezes queria que fosse sua. Aquela problemática, ou aquela esnobe. Aquela que você fica anos sem ver, mas quando encontra, parece que viu ontem. Aquela de quem você arrumou o véu antes de ela entrar na igreja pra se casar. Aquela que era a mais chegada, mas sumiu e você nunca mais soube. Tem a sua mãe. A sua avó. A sua irmã. A sua filha. A sua médica. A sua psicóloga. A sua chefe. E aquela que é uma irmã pra você. E tem também a melhor amiga. Aquela. Que é simplesmente aquela.

Claro, os homens também sabem ser bons amigos. Também deixam ótimas lembranças. Mas nada é igual a amizade entre duas mulheres.

Um grande beijo pras amigas que vierem a ler isso, pras que não vão ler, praquelas que estão perto e longe de mim, praquelas que eu lembro a todo minuto e praquelas que eu esqueci. Digo sem piscar que a vida vale a pena por causa da amizade, e quem me ensinou isso foram vocês.

Amo a todas. Feliz Dia do Amigo.


FRAGMENTOS DE FÉRIAS

FRAGMENTOS DE FÉRIAS

* Montar um quebra-cabeça de muitas peças é um exercício interessante. São muitos pequenos fragmentos de uma imagem inteira, no meu caso, 3000 pequenos fragmentos. Olhar tanta peça dá um certo desespero, daí a necessidade de se ter um método para montar. Primeiro, montar a borda. Depois, separar as peças por pequenos temas dentro da imagem, observando as cores, os tons e os detalhes de cada peça. Enquanto se faz isso, pode-se reparar em coisas que jamais se veria facilmente olhando o quadro como um todo. Depois, tentar ir montando, pecinha por pecinha. Não é fácil, principalmente se você pensa no todo, e em quantas peças ainda há pra montar. Mas se você pensar que o seu desafio é encaixar uma peça, depois mais outra, e outra mais, então, aos poucos, vai se montando e, quando se vê, boa parte da imagem já está visível. Qualquer semelhança com a resolução de quebra-cabeças da vida pode ser mera coincidência.
Me perguntaram, “se você anda cansada e precisa de sossego, por que comprou um quebra-cabeça pra ficar esquentando os miolos?”. Pensei, pensei e conclui que fazer um quebra-cabeça é a melhor forma de descansar, porque enquanto se pensa na peça e no encaixe delas, não se pensa em mais nada. E não há nada melhor pra descansar do que pensar em nada. Pelo menos de vez em quando.


* Sempre tive uma preguiça infinita de ler. Ultimamente, além de preguiça, ler me dá sono. Mas tenho um interesse enorme por certos temas e histórias, daquelas que só podiam estar escritas em um livro, então sempre faço um esforço. Para estas férias, tinha separado alguns volumes:
* Harry Potter e a ordem da Fênix;
* Estrela Solitária – um brasileiro chamado Garrincha;
* Depois daquela viagem – diário de bordo de uma jovem;
* As Brumas de Avalon;
* Homem Cobra, Mulher Polvo;
* O Pequeno Príncipe;
* As 100 melhores histórias eróticas da Literatura Universal.

Terminei três deles, um é imenso e posso ler aos poucos, o outro tem quatro volumes e pelos outros dois me desinteressei. Um dos terminados é o Pequeno Príncipe. Fazia muito tempo que não relia, acho que desde que era só uma menina ranheta. Hoje, adulta, vejo que realmente é um dos livros mais delicados e mais lindos em que já coloquei as mãos. Melhor que o encontro, só o reencontro.


* E reli a Odisséia, dessa vez com mais calma. Uma repetição de leitura, pra ser melhor digerida. Andava meio desconsolada com as repetições da vida. Parece que a gente vive, vive, vive e tudo continua sempre a mesma coisa. Há muito sofrimento, muita luta, e quando se pensa ter superado e aprendido com determinada coisa, lá está ela a se repetir; e tem horas que isso é tão cansativo que se torna triste. A vida é esse grande mar, hora com marés baixas, altas, mar revolto ou calmo, mas sempre o mesmo mar, com suas ondas imensas e seu horizonte distante, esse repetitivo e profundo mar. E ele pode causar enjôo, mesmo nos estômagos mais fortes, com tanto balanço.
Vi que Ulisses, o grande herói navegador, também sofreu com as idas e vindas do mar. Por várias vezes, quando estava quase chegando a sua casa, era surpreendido por uma tempestade que o fazia voltar ao começo, e a partir dali ter uma nova chance para fazer tudo diferente, até que venceu sua grande batalha e voltou pra casa. E é isso mesmo. As situações se repetem porque só se aprende pela repetição, e quanto mais teimoso se é, mais tudo demora a acontecer. O ir e vir, o subir e descer, o morrer e o renascer. Até conseguir estar em casa. É, marinheiro, marinheiro… Foi quem te ensinou a nadar?


* Incrível como a programação da televisão durante o dia está sofrível. Filmes péssimos, programas de fofoca, jornalismo incompetente, carniceiros do crime, novelas reprisadas, aff. E o pior, nem o Chaves eles passam mais… Chuif. Ainda bem que troquei o vício da TV pelo computador.


* Criança pequena é mesmo uma graça. Incrível como elas têm olhos abertos pra tudo, sabem tudo, e querem saber muito mais. Passando mais tempo com minha afilhada, e pegando um pouquinho emprestado da mãe dela esse prazer de observar uma criança crescer, fico encantada com cada descoberta que ela faz, e me sinto uma idiota como adulta, já que o mundo pra nós parece tão previsível e sem graça. Pra ela, tudo é uma novidade, tudo ela quer aprender e tudo faz com que os olhinhos dela se arregalem e brilhem de satisfação. É muito fácil fazer uma criança pequena feliz – um colinho, um pouco de atenção, uma voz adocicada e pronto, ganha-se de volta o sorriso mais genuíno do mundo. Conforme se vai crescendo, vai-se perdendo essa simplicidade das coisas, e vamos precisando de cada vez mais coisas pra conseguir cada vez menos alegria. Vendo-a tão pequenininha, tão inocente e frágil, me dá uma pena dela… Um aperto no peito, uma dó de vê-la crescer e ter que enfrentar essa dificuldade toda que há pra se enfrentar pela vida, uma coisa tão forte quanto inexplicável que me leva às lágrimas. As pessoas andam cheias de manias feias, de medos, de traições, de mentiras, de comodismos e muito, muito medíocres em geral… E que mundo horrível é esse ao qual a Debinha vai ter que se acostumar. Mesmo aos pedaços, deu pra sentir que ser mãe não é nada fácil, mas é um raro prazer.


* Meu tomatinho faz um ano hoje, e continua sendo o meu xodó. Mesmo raspadinho do lado graças a total incompetência da dona em saber estacionar em vagas apertadas, ele continua sendo lindo, lindo, lindo. E só eu sei em quantos lugares importantes ele tem me levado. Tudibom. 🙂

MINHA CASA

MINHA CASA

Há um tempo atrás li bastante sobre astrologia, e, tal como a Psicologia… Como opção pessoal, não creio e nem descreio, e como corrente de estudo, respeito muito e acho interessantíssimo.

Tudo o que dizem sobre o perfil dos cancerianos, se encaixa comigo ( talvez porque o meu ascendente também seja câncer ). Toda essa coisa de ser sensível, melosa, apegada, família, ter saudade de tudo e guardar tudo, inclusive mágoas e bilhetinhos de amigo secreto, tudo tem a ver comigo mesmo, eu sou bem assim. Uma vez uma colega me disse que todos os personagens de novela mexicana são cancerianos, e ela tem toda razão. Pessoas chegadas a grandes dramas. ( Tem muita coisa interessante sobre os cancerianos, mas fica pra outra hora. ) Agora, que o sol anda transitando no meu signo, vai começar a fazer aquele frio de lascar e eu estou de férias, relembrei uma coisa: eu adoro a minha casa. Mesmo, de paixão. Eu gosto de sair, conversar, estar com as pessoas, e ultimamente até que tenho aceitado bem a idéia de viajar por uns dias ( desde que sejam poucos ). Mas também gosto de ficar quieta aqui, que é o meu canto, e é onde eu consigo pensar e perceber bem o que eu sinto. O isolamento periódico me faz bem… E acho que era o que eu estava precisando ultimamente.

Minha casa, que é o meu teto há 26 anos, é assim: um sobrado antigo de bairro, com três quartos, uma cozinha, uma sala, um banheiro, um lavabo e uma área de serviço, tudo bem grande. Tem uma garagem linda que cabe o meu tomatinho e o espinafre da minha mãe, e onde tem um pequeno, mas precioso jardim, que eu deixei de cuidar quando fiz a loucura de começar a trabalhar em dois empregos. E tinha um quintal que acabou virando uma pequena casinha pra onde os meus avós, pais da minha mãe, se mudaram depois que o meu pai morreu. Em cima dessa casinha, tem uma varanda bem grande. De um lado dela, tem uma porta que dá pro meu quarto, e do outro, uma visão linda da cidade e do Pico do Jaraguá, visto que moro em Pirituba, um dos bairros mais altos e arborizados de São Paulo. Em cima da varanda, um céu maravilhoso, tanto de dia quanto de noite, que só fica meio ofuscado por causa dos varais onde a gente pendura a roupa pra secar. Mas outro dia eu falo da varanda, que é o terceiro lugar melhor da minha casa. O segundo é o meu quarto. E o primeiro…

Bem, eu estava lendo Rubem Alves, que eu sempre leio quando quero achar um rumo na vida ( se você não conhece, pelo amor de Deus, clica aí ). E ele começa o texto assim:

“Qual é o lugar mais importante da sua casa? Eu acho que essa é uma boa pergunta para início de uma sessão de psicanálise. Porque quando a gente revela qual é o lugar mais importante da casa, a gente revela também o lugar preferido da alma.” ( Se quiser ler o texto inteiro, clica aqui. )

Eu adoro a minha cozinha. Já faz um tempo que ela é predominantemente minha, apesar dos protestos invejosos da minha mãe ( essa coisa de inveja entre mãe e filha é problemática, principalmente se a coisa é entre duas cancerianas que adoram ser o centro dos elogios da família. Mas deixa isso pra outro dia também. ). Minha cozinha tem armários embutidos, muitos, que cabem de tudo um pouco. Temperos ajeitados em algumas dezenas de vidrinhos, um monte de panelas e louças, tigelas de plástico e mantimentos. Tem também um fogão de 6 bocas, e uma geladeira triplex, um liquidificador e uma batedeira, todos bem antigos. De modernidades, só o microondas, apesar de muitas vezes preferirmos um forninho velho que tem lá. Uma pia grande, uma fruteira de chão e uma mesa, que também é embutida, onde cabe um monte de gente sentada em volta. Muito mais gente do que parece, até ( atualmente, em cima da mesa está o quebra-cabeça de 3000 peças que eu comprei, pra fazer concorrência com os quebra-cabeças aparentemente insolúveis da vida ). Lá na cozinha moram também as minhas violetas e o Fifonho, meu tartarugo, que gosta que o seu aquário fique perto do vitrô, porque lá bate o sol de bebê que ele precisa. O piso, já está gasto. Os azulejos, bem antigos também. Minha cozinha de hoje se parece bastante com a cozinha de quando eu era criança.

O cheiro e o calor da cozinha de uma casa lembram o acolhimento que se sente num abraço daqueles, bem nutritivo. Dá pra enumerar uma infinidade de cheiros deliciosos que saem da cozinha. Cheiro de pipoca, de pão assando, de tempero fritando, de bolo, de brigadeiro no fogo, de doce de banana. Além de abrir o apetite, os cheiros trazem lembranças. E, de acordo com elas, sorrisos, lágrimas, ou a mais triste apatia. Eu lembro do cheiro da cozinha da minha avó, e da escola em que eu estudava, lembro do barulho das conversas e do peru assando no natal enquanto nos abraçávamos. Em cada pedacinho da cozinha mora uma história.

Aqui em casa, a cozinha é o lugar das conversas, e o lugar onde mais falamos das coisas que sentimos ou passamos. Há uma cumplicidade natural ao entrarmos lá. É também o lugar onde todos ficamos unidos fazendo alguma coisa. Na sala, não. Tem a televisão, o computador, o sofá, onde cada um senta-se e se distrai sozinho, ainda que estejamos próximos. Na cozinha, sempre conversamos, cantamos, rimos e choramos, há contato. É um lugar de emoções intensas, o lugar do estômago e do coração. E todo mundo aqui em casa adora comer. E adora mais ainda falar. Por isso a tal da nossa cozinha vive cheia, e sempre acesa. Sem falar que é o lugar mais iluminado de dentro da casa. Sempre que alguém quer conversar algum assunto, acabamos na cozinha.

Percebi isso dia desses, preparando o aniversário da minha afilhada. Estávamos lá, eu, a mãe dela, minha mãe, Dona Tereza ( a senhora que cuida da minha avó doente… Um dia conto sobre ambas ), minha prima, e a menina, que completou um ano. Todas com muita coisa pra fazer – bolo, cobertura, recheio, brigadeiro, coxinha, beijinho, carne pra sanduíche, enquanto dois meninos pequenos e meu irmão enchiam bexigas, pintavam coisas pra enfeitar a mesa e tentavam ensinar a menina a apagar a vela. Tanto espaço na sala, e todo mundo disputando um pedacinho da cozinha, simplesmente porque lá, ficávamos mais próximos. Fomos interrompidos por uma pessoa indesejada que veio bater na nossa porta, e acabou em briga. E deu quase tudo errado. O bolo não assou, o brigadeiro passou do ponto, a cobertura coalhou. Deu pra sacar o quanto de emoção colocamos nos nossos pratos. No dia seguinte, fizemos tudo de novo, mas antes, combinamos que deixaríamos nossos corações leves. E deu tudo certo. O sabor daquele bolo tinha o amor que todos sentimos pela menina, um sabor adocicado e forte, que, eu acredito, encantou quem provou e tornou inesquecível a festinha da bebê.

A cozinha é frequentemente vista como lugar de mulher ( reconheço que os homens estão cada vez mais próximos dela, mas ainda são as mulheres que ficam mais lá ). As mulheres gostam de trocar receitas, eu já dei muitas. Muita gente não gosta de cozinhar, tem até mesmo quem não goste de comer. E às vezes, essas pessoas voltam dizendo que não conseguiram o mesmo gosto. E, tal como aprendi, repito, tem coisas que vão além de misturar os ingredientes, e isso não se pode ensinar a ninguém. Na cozinha, fazemos comidas. Aprendi a cozinhar com minha avó e minha mãe. Mulheres de personalidade e tempero forte, e eu sei que nas aulas de culinária, elas me ensinaram mais do que saber com quantas colheres de açúcar se faz um glacê de bolo. Tal como a Tita, a personagem de meu romance preferido, quando cozinhamos, colocamos em prática alguma coisa de feitiço, de alquimia. Não é à toa que as bruxas fazem suas poções em caldeirões imensos, misturando com o calor do fogo os ingredientes que precisam. Aqui em casa, quase não comemos coisas prontas. Misturar os temperos, de acordo com os pensamentos, conversas e humores das cozinheiras, traz um sabor singular para a comida que vai pra mesa. Não gosto de receitas, e quando as uso, dificilmente sigo as medidas corretas. Coloco um pouco a mais daquilo, um pouco menos disso. Conquistamos, nutrimos ou afastamos alguém pela comida, muitas vezes não é preciso nem falar. Às vezes, gosto de cozinhar sozinha. Outras, conversando com alguém. O importante é que os pratos tragam mesmo o gosto do coração, seja azedo, doce, amargo ou salgado, seja pra ofertar com carinho, raiva, tristeza, dor, sensualidade ou amizade. A comida é uma forma de comunicação, a cozinheira é quem fala e quem come, digere a mensagem.

Na cozinha, aqui em casa, é onde comemos também. Sentamos juntos, e ficamos conversando, fazendo piadas, recebendo nossas visitas, conhecendo as pessoas. Às vezes, é onde brigamos também, e sentimos a comida fazer um nó na garganta e descer atravessada. Comer junto é nutrição pra alma e pro corpo. E que delícia que é. Quando o calor do fogão vai descongestionando os caminhos do sentimento, fica fácil. Talvez por isso, não me imagine morando em um apartamento. Símbolos da vida moderna, os apartamentos têm cozinhas minúsculas. Que será que isso significa?

Lá na cozinha, que tem espaço, dá pra fazer uma porção de coisas. Recortar. Pintar. Namorar. Crochetar. Estudar. Enfim, a cozinha é um lugar muito rico. E ainda por cima, sempre tem chocolate escondido em algum armário. Nham.

A cozinha é o coração da minha casa. O coração, junto com o cérebro, o órgão vital do corpo. E da alma. Coisa de canceriana, ou não… Que apetite que isso dá.

Nham, nham, nham.

DROPS DE MORANGO

DROPS DE MORANGO

Pra quem disse coisas lindas, pra quem esqueceu, pra quem ligou, pra quem mandou emails, pra quem veio dar abraço, pra quem presenteou, pra quem pensou, pra quem desejou bem, pra quem sempre está presente, pra quem fez do meu aniversário um dia lindo, e pra quem enfeita sempre os meus dias com tanta amabilidade, muito, muito, muito obrigada. Essa é a maior festa de todas, ter pessoas queridas por perto… Isso não tem preço.

E pra celebrar tanta amizade, tem post no Mondo Redondo. Passa lá!


O RECADO DA MOÇA DO ESPELHO NO DIA 4 DE JULHO ( OU, UM POST ESQUIZOFRÊNICO )

O RECADO DA MOÇA DO ESPELHO NO DIA 4 DE JULHO ( OU, UM POST ESQUIZOFRÊNICO )

Bolo de AniversárioÔ dona moça, você está estressada com o seu aniversário deste ano. Admita, você está estressadíssima. Estressada com as rugas e cabelos brancos, com os sonhos que deixou pra trás, com a impiedade do tempo, com as linhas confusas que estão adiante, com o sabor do bolo que vai oferecer aos amigos logo mais, com a roupa que vai vestir, com o medo que reste pouco tempo pra fazer tudo que você acha que ainda tem que fazer na vida. Tá estressada, sim.

Mas, por que isso, mulher? É tão bom fazer aniversário. O seu bolo preferido, um monte de brigadeiros, mimos por todos os lados. Abraços, telefonemas, sorrisos, pensamentos, palavras bonitas nos cartões, na caixa de email, tudo isso com boas intenções ( que as más você aprendeu a desprezar – graças a Deus ). Sempre tem alguém que vem puxar sua orelha muitas vezes, tentar fazer algum tipo de surpresa, ou comentar que você faz aniversário no dia da independência dos E.U.A. ( o que, atualmente, pega mal ). Sempre tem muito beijo, muita gente querida e sumida que reaparece, carinho das pessoas que a amam intensamente. Sua mãe vai lembrar de quando você era pequenininha, e trazer aquelas fotos constrangedoras pra sala pra lhe matar de vergonha. Sua avó vai fazer uma oração por você, assim como seus irmãos e seus tios e sua mãe, pedindo que sua vida continue sendo cuidada por alguma força superior ( porque você sabe, apesar dessa sua fase meio auto-confiante, que sem essa força não dá, não dá porque o páreo é duro – duríssimo, mesmo pra alguém que gosta de guerrear como você ). E vai bater uma saudade gostosa, ou doída, de quem não está mais por perto. Provavelmente, no final do dia, você vai chorar quando deitar a cabeça no travesseiro, sem nem saber por quê. Sempre tem muita coisa boa no seu dia, que é só seu, ainda que muitos milhares de pessoas estejam comemorando seus aniversários hoje. Pra que tanta resistência de constatar que sua vida tem seguido adiante, apesar de tudo e por causa de tudo? Não seja boba, garota. Fazer aniversário é legal. E fica cada vez mais legal.

Pensa aí, com sinceridade, só estamos nós – quanta coisa você já fez, quanto já aconteceu com você nesses 28 anos? Bastante. Não tudo, é claro. Mas não foi pouco, não. Você que, como boa canceriana, é tão apegada ao passado, não precisa nem fechar os olhos pra saber que já viu, ouviu, sentiu e viveu muita coisa – muito boa, muito ruim. Mas viveu. Amou tanto. Correu atrás de tanta coisa, algumas que você alcançou, outras que correram de você. E tudo foi intensamente. E tudo sempre valeu a pena. E com tudo você aprendeu tanto. Você sabe, menina, você sabe.

Eu sei, eu sei… É muito estranha essa sensação do tempo que vai indo. É estranha porque mostra o quanto somos frágeis. E que toda essa vida, tão significativa pra você, um dia acaba. Aos poucos se vai morrendo, se morre todo dia, as pessoas vivem repetindo isso toda hora. E você nem sabe quantas vezes ainda vai poder fazer brigadeiros pra comemorar os seus anos ( mesmo que pudesse, não ia querer saber ). Mas é essa sensação, a de que a vida passa e precisa ser vivida, que a tem feito agarrar-se a sua com todos os dedos, e não deixa você desistir. Você tem, sim, uma tendência a gostar de um tom meio trágico e sofrido pra pintar os seus dias, minha cara. Mas já faz tempo que você gosta de viver ( e hoje não é dia de lembrar dos tempos em que você não gostava ). Então, levante a cabeça e me encare nos olhos. A sua maior conquista é essa – eu, euzinha aqui, essa imagem que você vê no espelho, sou a pessoa mais importante do mundo pra você. Não importa o quanto você precise me maltratar, ou me sufocar, ou me ignorar, ou me deixar arrasada pra continuar seguindo, eu sei que você me ama e tem feito o melhor pra cuidar de mim. E me ama por tudo que eu sou. Esse é o seu maior presente. Eu sou ainda jovem. E estou VIVA. Muito viva. E, só pra você saber – estou só começando.

Como tem acontecido nos últimos anos quando o seu aniversário se aproxima, você viveu dias difíceis, dificílimos nas últimas semanas. Está cansada, meio triste, decepcionada, está querendo sumir. Amanhã você pode lembrar disso tudo de novo, ou pode esquecer, a decisão é sempre sua. Mas hoje, não. Hoje não pode. Hoje você vai descansar e curtir o carinho de quem a ama, vai acreditar nas coisas boas que lhe forem ditas, vai sorrir, cantar, vai respirar esse dia especial e fazer ele limpar seus pulmões. E vai cuidar bem de mim, porque eu mereço.

Todo dia você faz um aniversário, todo dia é uma chance, um presente. Mas hoje, dia 4 de julho, é dia de celebrar o tempo que passou, sim, mas principalmente o tempo que há de vir. Sobre esse, você pode e vai fazer muita coisa ainda. E a primeira a cumprimentá-la por isso vou ser eu. Parabéns!

Quero dedicar-lhe uma canção. Você, que pensa cantando, vai gostar de cantá-la enquanto lê. Depois, vai colocá-la pra tocar, de preferência na velha vitrola ( só pra não perder essa cor saudosista que você tanto ama ), e vai senti-la, sozinha. E então, você vai saber por que a escolhi.

“Todos os dias quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou.
Mas tenho muito tempo:
Temos todo tempo do mundo.

Todos os dias antes de dormir
Lembro, esqueço como foi o dia.
Sempre em frente…
Não temos tempo a perder.

Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo.
E tão sério…
E selvagem.
Selvagem.
Selvagem.

Veja o sol dessa manhã tão cinza:
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos
Castanhos.

Então me abraça forte!
Me diz mais uma vez que já estamos
Distantes de tudo…

Temos nosso próprio tempo.
Temos nosso próprio tempo.
Temos nosso próprio tempo.

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes acesas –
Agora.

O que foi escondido é o que se escondeu,
E o que foi prometido ninguém prometeu,
Nem foi tempo perdido:
Somos tão jovens…
Tão jovens…
Tão jovens. ”

( Renato Russo )

Parabéns. Se tudo o mais lhe faltar, conte comigo. Seja sempre, sempre jovem. E sempre VIVA.

PS´s:.
* Parabéns a todos os que dividem esta data de aniversário tão chique comigo: Fabi, Mônica, Anderson, Mariza, Roberta, Claudionor e Júlia. Tudo gente boa, da melhor qualidade. Parabéns mesmo, de coração. 🙂