MINHA CASA

MINHA CASA

Há um tempo atrás li bastante sobre astrologia, e, tal como a Psicologia… Como opção pessoal, não creio e nem descreio, e como corrente de estudo, respeito muito e acho interessantíssimo.

Tudo o que dizem sobre o perfil dos cancerianos, se encaixa comigo ( talvez porque o meu ascendente também seja câncer ). Toda essa coisa de ser sensível, melosa, apegada, família, ter saudade de tudo e guardar tudo, inclusive mágoas e bilhetinhos de amigo secreto, tudo tem a ver comigo mesmo, eu sou bem assim. Uma vez uma colega me disse que todos os personagens de novela mexicana são cancerianos, e ela tem toda razão. Pessoas chegadas a grandes dramas. ( Tem muita coisa interessante sobre os cancerianos, mas fica pra outra hora. ) Agora, que o sol anda transitando no meu signo, vai começar a fazer aquele frio de lascar e eu estou de férias, relembrei uma coisa: eu adoro a minha casa. Mesmo, de paixão. Eu gosto de sair, conversar, estar com as pessoas, e ultimamente até que tenho aceitado bem a idéia de viajar por uns dias ( desde que sejam poucos ). Mas também gosto de ficar quieta aqui, que é o meu canto, e é onde eu consigo pensar e perceber bem o que eu sinto. O isolamento periódico me faz bem… E acho que era o que eu estava precisando ultimamente.

Minha casa, que é o meu teto há 26 anos, é assim: um sobrado antigo de bairro, com três quartos, uma cozinha, uma sala, um banheiro, um lavabo e uma área de serviço, tudo bem grande. Tem uma garagem linda que cabe o meu tomatinho e o espinafre da minha mãe, e onde tem um pequeno, mas precioso jardim, que eu deixei de cuidar quando fiz a loucura de começar a trabalhar em dois empregos. E tinha um quintal que acabou virando uma pequena casinha pra onde os meus avós, pais da minha mãe, se mudaram depois que o meu pai morreu. Em cima dessa casinha, tem uma varanda bem grande. De um lado dela, tem uma porta que dá pro meu quarto, e do outro, uma visão linda da cidade e do Pico do Jaraguá, visto que moro em Pirituba, um dos bairros mais altos e arborizados de São Paulo. Em cima da varanda, um céu maravilhoso, tanto de dia quanto de noite, que só fica meio ofuscado por causa dos varais onde a gente pendura a roupa pra secar. Mas outro dia eu falo da varanda, que é o terceiro lugar melhor da minha casa. O segundo é o meu quarto. E o primeiro…

Bem, eu estava lendo Rubem Alves, que eu sempre leio quando quero achar um rumo na vida ( se você não conhece, pelo amor de Deus, clica aí ). E ele começa o texto assim:

“Qual é o lugar mais importante da sua casa? Eu acho que essa é uma boa pergunta para início de uma sessão de psicanálise. Porque quando a gente revela qual é o lugar mais importante da casa, a gente revela também o lugar preferido da alma.” ( Se quiser ler o texto inteiro, clica aqui. )

Eu adoro a minha cozinha. Já faz um tempo que ela é predominantemente minha, apesar dos protestos invejosos da minha mãe ( essa coisa de inveja entre mãe e filha é problemática, principalmente se a coisa é entre duas cancerianas que adoram ser o centro dos elogios da família. Mas deixa isso pra outro dia também. ). Minha cozinha tem armários embutidos, muitos, que cabem de tudo um pouco. Temperos ajeitados em algumas dezenas de vidrinhos, um monte de panelas e louças, tigelas de plástico e mantimentos. Tem também um fogão de 6 bocas, e uma geladeira triplex, um liquidificador e uma batedeira, todos bem antigos. De modernidades, só o microondas, apesar de muitas vezes preferirmos um forninho velho que tem lá. Uma pia grande, uma fruteira de chão e uma mesa, que também é embutida, onde cabe um monte de gente sentada em volta. Muito mais gente do que parece, até ( atualmente, em cima da mesa está o quebra-cabeça de 3000 peças que eu comprei, pra fazer concorrência com os quebra-cabeças aparentemente insolúveis da vida ). Lá na cozinha moram também as minhas violetas e o Fifonho, meu tartarugo, que gosta que o seu aquário fique perto do vitrô, porque lá bate o sol de bebê que ele precisa. O piso, já está gasto. Os azulejos, bem antigos também. Minha cozinha de hoje se parece bastante com a cozinha de quando eu era criança.

O cheiro e o calor da cozinha de uma casa lembram o acolhimento que se sente num abraço daqueles, bem nutritivo. Dá pra enumerar uma infinidade de cheiros deliciosos que saem da cozinha. Cheiro de pipoca, de pão assando, de tempero fritando, de bolo, de brigadeiro no fogo, de doce de banana. Além de abrir o apetite, os cheiros trazem lembranças. E, de acordo com elas, sorrisos, lágrimas, ou a mais triste apatia. Eu lembro do cheiro da cozinha da minha avó, e da escola em que eu estudava, lembro do barulho das conversas e do peru assando no natal enquanto nos abraçávamos. Em cada pedacinho da cozinha mora uma história.

Aqui em casa, a cozinha é o lugar das conversas, e o lugar onde mais falamos das coisas que sentimos ou passamos. Há uma cumplicidade natural ao entrarmos lá. É também o lugar onde todos ficamos unidos fazendo alguma coisa. Na sala, não. Tem a televisão, o computador, o sofá, onde cada um senta-se e se distrai sozinho, ainda que estejamos próximos. Na cozinha, sempre conversamos, cantamos, rimos e choramos, há contato. É um lugar de emoções intensas, o lugar do estômago e do coração. E todo mundo aqui em casa adora comer. E adora mais ainda falar. Por isso a tal da nossa cozinha vive cheia, e sempre acesa. Sem falar que é o lugar mais iluminado de dentro da casa. Sempre que alguém quer conversar algum assunto, acabamos na cozinha.

Percebi isso dia desses, preparando o aniversário da minha afilhada. Estávamos lá, eu, a mãe dela, minha mãe, Dona Tereza ( a senhora que cuida da minha avó doente… Um dia conto sobre ambas ), minha prima, e a menina, que completou um ano. Todas com muita coisa pra fazer – bolo, cobertura, recheio, brigadeiro, coxinha, beijinho, carne pra sanduíche, enquanto dois meninos pequenos e meu irmão enchiam bexigas, pintavam coisas pra enfeitar a mesa e tentavam ensinar a menina a apagar a vela. Tanto espaço na sala, e todo mundo disputando um pedacinho da cozinha, simplesmente porque lá, ficávamos mais próximos. Fomos interrompidos por uma pessoa indesejada que veio bater na nossa porta, e acabou em briga. E deu quase tudo errado. O bolo não assou, o brigadeiro passou do ponto, a cobertura coalhou. Deu pra sacar o quanto de emoção colocamos nos nossos pratos. No dia seguinte, fizemos tudo de novo, mas antes, combinamos que deixaríamos nossos corações leves. E deu tudo certo. O sabor daquele bolo tinha o amor que todos sentimos pela menina, um sabor adocicado e forte, que, eu acredito, encantou quem provou e tornou inesquecível a festinha da bebê.

A cozinha é frequentemente vista como lugar de mulher ( reconheço que os homens estão cada vez mais próximos dela, mas ainda são as mulheres que ficam mais lá ). As mulheres gostam de trocar receitas, eu já dei muitas. Muita gente não gosta de cozinhar, tem até mesmo quem não goste de comer. E às vezes, essas pessoas voltam dizendo que não conseguiram o mesmo gosto. E, tal como aprendi, repito, tem coisas que vão além de misturar os ingredientes, e isso não se pode ensinar a ninguém. Na cozinha, fazemos comidas. Aprendi a cozinhar com minha avó e minha mãe. Mulheres de personalidade e tempero forte, e eu sei que nas aulas de culinária, elas me ensinaram mais do que saber com quantas colheres de açúcar se faz um glacê de bolo. Tal como a Tita, a personagem de meu romance preferido, quando cozinhamos, colocamos em prática alguma coisa de feitiço, de alquimia. Não é à toa que as bruxas fazem suas poções em caldeirões imensos, misturando com o calor do fogo os ingredientes que precisam. Aqui em casa, quase não comemos coisas prontas. Misturar os temperos, de acordo com os pensamentos, conversas e humores das cozinheiras, traz um sabor singular para a comida que vai pra mesa. Não gosto de receitas, e quando as uso, dificilmente sigo as medidas corretas. Coloco um pouco a mais daquilo, um pouco menos disso. Conquistamos, nutrimos ou afastamos alguém pela comida, muitas vezes não é preciso nem falar. Às vezes, gosto de cozinhar sozinha. Outras, conversando com alguém. O importante é que os pratos tragam mesmo o gosto do coração, seja azedo, doce, amargo ou salgado, seja pra ofertar com carinho, raiva, tristeza, dor, sensualidade ou amizade. A comida é uma forma de comunicação, a cozinheira é quem fala e quem come, digere a mensagem.

Na cozinha, aqui em casa, é onde comemos também. Sentamos juntos, e ficamos conversando, fazendo piadas, recebendo nossas visitas, conhecendo as pessoas. Às vezes, é onde brigamos também, e sentimos a comida fazer um nó na garganta e descer atravessada. Comer junto é nutrição pra alma e pro corpo. E que delícia que é. Quando o calor do fogão vai descongestionando os caminhos do sentimento, fica fácil. Talvez por isso, não me imagine morando em um apartamento. Símbolos da vida moderna, os apartamentos têm cozinhas minúsculas. Que será que isso significa?

Lá na cozinha, que tem espaço, dá pra fazer uma porção de coisas. Recortar. Pintar. Namorar. Crochetar. Estudar. Enfim, a cozinha é um lugar muito rico. E ainda por cima, sempre tem chocolate escondido em algum armário. Nham.

A cozinha é o coração da minha casa. O coração, junto com o cérebro, o órgão vital do corpo. E da alma. Coisa de canceriana, ou não… Que apetite que isso dá.

Nham, nham, nham.

26 comentários sobre “MINHA CASA

  1. Ka, olá, que saudades…
    Estive passeando por seu blog, li a parte das chefias e confesso que não retiro nenhuma palavra do que você escreveu sobre a Dna Z… Claro que vc trocou nomes (rsrs).
    Adorei o que você escreveu sobre o lugar preferido de sua casa… e com este friozinho, deu vontade de me convidar pra um cafezinho neste lugar tão aconchegante…Beijinhos.. Me escreva!

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  2. Como água pra chocolate também é um dos meus prediletos! Tenho o vídeo, leio sempre e sempre me emociono. Os outros dois que disputam o primeiro lugar com ele são O carteiro e o Poeta ( que originalmente se chamava Ardente Paciência) e Encontro de Turma, do Uhlman.

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  3. Adorei devorar esse teu texto, Mafalda… como quem devora uma boa lasanha cheio de apetite. Também sou fanzaço do Rubem Alves (atualmente, tô lendo dele o “Cenas da Vida”). Não sou nada caseiro, mas adorei a atmosfera poética que há nessas tuas nerrações… cheguei a ficar com um sentimento de culpa por não “namorar” tanto o meu quarto, minha sala, cozinha… Um grande beijo e uma ótima semana.

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  4. Sua casa é aconchegante, sua comida é maravilhosa e vc é muito gracinha.

    Bjo, procê e pra Carlinha… Voltei, fofa, agora nenhum pastel rouba mais vc de mim. :)))))))))))))

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  5. Oi obrigada pela vista no meu blog, vou te linkar lá.

    Na minha casa gosto mais do meu quarto, não sei se o lugar mais legal, mas é o meu preferido.
    A sua casa parece ser super aconchegante.

    Aqui em casa a cozinha não tem muita história para contar, pq moro só com minha mãe e a gente nmão cozinha, compramos congelados, almoçamos fora, o gaz demora para caramba até acabar… a cozinha é na verdade praticamente só uma passagem, pq entramos por ela. Mas na minha nova casa darei mais valor a ela.

    Como água para chocolate é maravilhoso, tb adoro.

    bjs e boa semana.

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  6. Ai, menina, que saudade deu da nossa cozinha da Sampaio Vidal. Era muito parecida com a sua (pergunta pra Mô, ela há de te contar). Era tão quente (no sentido de calor fraterno), tão aconchegante. Grandona. Linda. E à noite, depois do jantar, nosso lugar de fazer lição! Ai, que saudade…

    Ah, vc já lei lá na Casa de Rubem Alves a receita de Pipoca?
    Beijos

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  7. Que texto gostoso! Fiquei com vontade de conhecer sua casa e fazer um lanchinho na sua cozinha! 🙂
    Beijos!

    Ps.: Zé!!!! Que bom que vc voltou!!!!! Beijo pra vc tb, e para o Ful.

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  8. Boooom dia, Ka! Uma ótima terça-feira. “Quem não sabe amar fica esperando alguém que caiba no seu sonho como varizes que vão aumentando, como insetos em volta da lâmpada” (Cazuza). Beijão, gatinha.

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  9. Oi… bem sua casa,seu quarto,seu mundo. Hoje minha casa faz parte de mim como a sua faz parte de ti e o meu lugar preferido talvez seja a cozinha ou quem sabe o quarto? Mais com certeza a minha casa ou a sua casa comporta sentimentos como um coração. Que sente e vibra com cada dia com cada amor. Felicidades pra vc Ká,adorei seu blog.

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  10. Aqui em casa tb era assim: a cozinha era o pint de tudo. Principalmente, quando mamys era viva.
    Agora, não parece fazer muito sentido ficar lá, sem ela.

    😦

    E então, meu quarto é o segundo melhor lugar. E o primeiro, é minha cama. 😛

    beijins

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  11. Oi amiga!!

    Esse papo realmente abriu o apetite! 🙂
    Sabe que eu não me encaixo em TODAS as características do meu signo (peixes), mas na grande maioria sim! Também sou sensível, apegada, chorona, e tantas coisas do gênero…rs

    Beijos, saudades!!

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  12. eu costumava ter mais espaço pra mim antes. Hoje em dia, divido o quarto. É por isso que meu atual lugar preferido dentro da minha casa é o banheiro, por ser o menos bagunçado pelos outros e por poder ficar sozinha lá e ser expontânea!
    Eu adoro fazer caretas pro espelho.. e cantar no chuveiro.. e coisas bestas que só se faz sozinha!
    Gosto do banheiro.

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  13. Adorei o post inteiro… tem tanta coisa pra comentar, tanta coisa com que me identifiquei… mas o principal pra mim foi a citação de que a cozinha é o lugar da casa onde acontecem as conversas mais gostosas… quantas vezes cheguei de Botucatu à minha casa em Sampa e fiquei horas conversando com minha mãe na cozinha… já amanheci dia conversando ali com primos e amigos… nem é uma cozinha grande, aliás é bem pequena, mas tão aconchegante…
    Você tem um tartarugo – ou um jabuti? Ouvi dizer que tartaruga mesmo é só marinha.
    Um beijão pra você, adoro aqui.

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  14. Belo texto, Mafalda. A cozinha foi o coração da casa onde morava antes; agora, morando com a Claudia o coração da casa mudou-se para nosso quarto. Temos uma enorme cama, onde 4 assitem televisão, brigam e lancham juntos. Mas sinto saudades de minha ex-cozinha e até da tua, que conheci hoje.

    Publiquei hoje um post com TODA nossa história com Chico Buarque na FLIP. Verás que não cometi nenhuma ofensa a nosso amado herói. A propósito, minha mãe faz 77 anos dia 5. Portanto, saí da barriga de uma canceriana.

    Beijo.

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  15. Minha linda…

    Que delícia de texto… apertei o pause do meu mundo pra saborear este post e só tenho a agradecer a vc… Nesta receita vc mexeu muito comigo… a simplicidade das tuas palavras e a forma inteligente com que passa tua mensagem me deu um nozinho bom na garganta… e, que fome!

    Lindo texto… de fato, uma obra de arte…

    Beijo enorme pra vc… bom dia e outra vez, obrigada!

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  16. Nossa, moça…
    Seu texto foi muito gostoso… Daqueles que a gente começa a ler e pensa “não acredito que ela vai falar da cozinha” e, com a fluência e o sabor das idéias, vai se seduzindo e termina o texto como estou agora, um tanto quanto reflexivo, lembrando de várias passagens de “cozinha” e tentando ir mais p’ra dentro das suas…
    Como é bom….
    Engraçado que, sentindo um pouco do que vc falou, me lembrei que a minha doce vó Adelaide (a pessoa que mais tive afinidade nessa vida) me dava os melhores caminhos e me ouvia justamente na cozinha…
    Obrigado pela lembrança!
    Beijos,

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  17. Outra curiosidade/coincidência…
    Clicando no “link” do seu livro preferido, acabei encontrando a obra que deu origem ao filme que eu tava pensando enquanto lia seu relato que, acredite, é um dos filmes que mais gostei…
    Beijos…

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  18. Adorei o seu texto… estou escrevendo a minha monografia do curso de terapia familiar sobre “o significado do compartilhar a refeição em família”, acho que podemos trocar algumas idéias..

    bjo

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