TRILHA SONORA

TRILHA SONORA

Tem gente que escuta música porque prefere isso a não ouvir os ruídos secos e malvados do cotidiano. Tem uma pequena parte de pessoas que prefere o silêncio. E tem até quem não gosta de música nenhuma. Tem gente que tem ouvido delicado e erudito, e que seleciona tudo que ouve com cuidado e precisão. Outros têm ouvido pior que estômago de avestruz – primeiro ouvem, gostam, decoram, e só muito tempo depois, fazem um julgamento da qualidade ou falta dela – se fizerem. E outros, como eu, pensam cantando. E assim como entra na nossa cabeça todo tipo de pensamento, quem pensa cantando escuta no radinho interno todo tipo de música nas mais variadas horas.

Faz um tempo já ( desde que eu achava que era louca de pedra ) que eu reparei que sempre tive essa mania, a de ser dj da minha própria festa. Não era raro no meio de uma discussão, de um beijo, de um amasso quente, de uma conversa, de uma situação de evidência ou simplesmente quando não estava acontecendo nada… Lá dentro começar a tocar uma música. Às vezes eu ficava brava porque isso me desconcentrava, às vezes ficava contente porque me tranquilizava, às vezes ficava satisfeita porque me dava o insight que eu precisava praquele momento. O fato é que a rádio interna sempre foi muito eficiente, e nunca me deixou viver sem trilha sonora, mesmo quando, no mundo real, só havia silêncio ou barulhos estranhos.

Quando eu era pequena e via nas novelas aquelas cenas românticas em que tocava alguma música, achava o máximo, o ápice. Aquela música era daquele casal, e onde quer que eu a escutasse, lembraria da história deles – geralmente uma história perfeitamente novelística. A música sempre faz isso, remete, remete, remete. Remete ao passado, a uma imagem, aos sentimentos, sensações. Manda você pra onde ela quer que você vá, mesmo se você não aceitar o convite.

Romance sem “nossa música” não é romance. O namorado mais fofo que eu já tive adorava músicas românticas. E vivia me dedicando uma penca delas, das mais variadas maneiras. Até que escolhemos uma ( ou foi ela quem nos escolheu? ) que era só nossa, a nossa música. Mesmo hoje, tanto tempo depois, escuto essa canção e lembro dele – é automático e inevitável. E junto com a lembrança vêm aquele calor gostoso que vinha do jeito que ele tinha de cantá-la pra mim. É como se o mundo parasse pra ouvir. E não é raro, numa noite de frio, solitária, melancólica, dessas que eu tenho de vez em quando, rolar na minha rádio interna aquela batida melosa, aquelas palavras doces, aquela música, e eu conseguir dormir tranquila, como se a música me embalasse tanto quanto os braços dele faziam. Às vezes, tenho raiva dele. Mesmo quando estou com outra pessoa, toca uma música que ele me dedicou uma vez, e pronto – lembro dele. Ele quase acabou com o estoque de baladinhas sentimentais. Ainda bem que é quase. E que outras músicas são criadas todos os dias. A fonte é infinita.

Tem também aquelas músicas que você odiava, mas que de alguma forma marcaram sua vida como ferro quente marca pele de gado, forte, profundo e inesquecível. O meu primeiro beijo, por exemplo. Eu planejei tudo pra ser com a música que eu gostava. Estávamos no carro, eu e ele, e o rádio tocando. Tímida e morrendo de medo, finalmente escutei a tal música tocar. Era uma voz feminina, cantando em inglês. Os primeiros toques começaram, um piano suave, e eu pensei, “é agora, se ele me ama, ele vai me beijar e vai ser tudo perfeito”. Ele já estava acariciando meu rosto, eu já estava derretendo, quando ele fez uma cara séria e meteu o dedo no botão pra mudar de estação:

– Música insuportável. Odeio isso.

Claro, não beijei, pelo menos não naquele dia. Oras, que sujeitinho desagradável, não adivinhou meus desejos. Mas aquela música nunca saiu da minha cabeça, como o primeiro beijo que não aconteceu. No fim, beijei pela primeira vez num lugar público ao som de “Biquini de Bolinha Amarelinha”. O beijo foi bom. E essa música do meu primeiro beijo… Bem, deixa pra lá.

O inverso também acontece. Tinha uma música que eu adorava, achava linda, emocionante, bem feita, letra perfeita. Foi quando um infeliz que eu amava muito mandou essa, com aquele ar distante e saudoso:

– Essa música me lembra tanto fulana…

Daquele dia em diante, ouvir a tal música me dava embrulho no estômago, raiva incontrolável e vontade de morder alguém – exatamente o que eu senti na hora. Ou seja, a canção acabou pra mim.

E é assim. Tem música pra formatura, casamento, festa de 15 anos, velório, igreja, mãe, pai, festa de família, primeira transa, namorado, amizade. A música que estava rolando quando você pagou aquele mico, ou quando foi assaltada no ônibus, ou quando recebeu a melhor, ou a pior notícia da sua vida. Trilhas involuntárias.

Tem também as trilhas pensadas. Essas são assim: você tem algo a dizer, sente algo, e pensa, pensa numa música que diga tudo por você, uma música que explique, que dê esperança, que acalme, que esclareça, e que faça você ter aquela sensação de “puxa, como essa pessoa sabia exatamente o que eu sinto??”. E acha – e aquela passa a ser a sua música, ou a música daquela situação, porque conta a sua história, diz o que você sente.

Teve um tempo em que eu escolhi uma canção tema, pra me acompanhar. Uma canção tema era isso, algo que me traduzisse, que fosse toda eu, que eu pudesse cantar pra mim mesma toda vez que me sentisse mal, como se fosse mesmo a introdução de um capítulo importante da minha história que estivesse pra acontecer, e que eu tinha que protagonizar direitinho, da melhor forma que conseguisse. A canção tema me dava força, ânimo, e fazia com que eu fosse reconhecida, ainda que esse reconhecimento fosse só por mim mesma. Como o tema do Hawaí 5-0, do Mad About You, do Harry e Sally, do Missão Impossível. E eu até empinava o nariz quando andava na rua escutando a canção tema dentro da minha cabeça, como se o mundo parasse pra me ver passar. Com o tempo, aquela canção deixava de fazer sentido, e eu percebia que era hora de mudá-la. E percebia também que eu tinha mudado. E escolhia outra, e outra, e outra. Que mudar é bom e faz bem. E nenhuma música fica eternamente nas paradas de sucesso.

Agora, agorinha mesmo, estou sem canção tema. Fase difícil essa, a de escolha, a de indefinição. Acho que é porque uma canção tema tem que dizer quem eu “estou” agora, e eu ainda não sei direito. Sei que não sou aquela de antes. Mas também não sou ainda aquela de agora. Saco.

Mas tudo isso era pra perguntar pra você: qual é a sua canção tema? Diga-me. Assim posso lembrar de você sempre que eu a ouvir por aí. Porque a música é, acima de tudo, um excelente lembrador de pessoas. 🙂


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15 comentários sobre “TRILHA SONORA

  1. Oi, Ká… Adorei a idéia do radinho interno…tenho exatamente essa sensação…Sabe quando você caminha por uma rua qualquer, pensando em milhões de coisas…ou em especialmente uma que você precisa resolver logo? Pois é …sempre lembro de uma música…E penso : Vou mandar a letra pra fulano (a)…E então, quando se chega em casa, que música era mesmo? Pois é…foi trilha sonora do pensamento, e eu geralmente não consigo lembrar…

    Vou pensar em qual música me traduz no momento e volto a escrever…Eu também ando sem tema…ou com muitos temas, sei lá !

    Beijo grandão pra você!
    Com carinho, Sarinha

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  2. Valeu a pena reclamar… *rs
    Você é muito gracinha, Karina. E vicia, de verdade… Sinto sua falta quando você não dá sinal de vida, oras.
    Sobre a canção tema, eu não sei algo que me traduz, isso é ruim… Sou muito inconstante. Mas vou pensar, acho uma e volto pra te dizer.
    Esse seu texto tem frases peroladas, muito legal.

    Beijo grande…

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  3. krambaaaaa este texto é simplesmente a minha caraaaa, sou completamente movida a música, eu sinto mesmo elas com toda intensidade, é estranho a minha relação com a musica, sinto a letra, os instrumentos, as vozes…toco violao e canto um pokin..e acima de tudo pesquiso demais sobre musica, conheço coisas q a maioria das pessoas da minha idade nao fazem idéia, coisas muito antigas tb q descobri sozinha sem q minha mae ou outra pessoa da familia q seja fã daquilo me mostrasse…cancoe tema??? ixiii…muitas….uma q sempre achoq tem a ver a qualquer momento é : “Eu Te Amo Calado” – milton nascimento, na interpretação de lulu santos, “violão e voz” – ana carolina, “wave” – tom jobin, e qdo to mal humorada, “implicante” – ana carolina, minha cara. sao concepçãoes e momentos né..as tem muito mais..abraço, demais o texto!!!

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  4. Linda, vc é mesmo toda musical… :)))))
    Minha canção tema atualmente é aquela do Lulu Santos, que ele diz que tá voltando pra casa… Faz muito sentido pra mim agora.

    Bjo, bjo, bjo. ( divida esses com a Carlinha e com a Taty. :)))))

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  5. Música é essencial na minha vida. Gosto de muitos estilos, começando pelo erudito – inclusive ópera – passando pelo jazz, MPB, New Age (algumas), samba (pagode eu odeio!) e etc. Fiquei aqui pensando se tenho música tema e achei difícil, pois elas mudam conforme as circunstâncias. Mas pensei em uma que, nas minhas inquietações e questionamentos, se faz sempre presente: “O que será (à flor da pele)”, de Chico e Milton.
    Beijos e bom Domingo.

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  6. Adorei seu texto, como sempre, pra variar um pouquinho só né…
    Hoje posso dizer que a minha canção-tema é a mesma que eu postei no meu blog, mas isso muda a cada dia, e cada fase… Há uma semana acho que eu também não teria escolhido ainda…
    Mas agora: CASA PRÉ-FABRICADA dos Los Hermanos me acompanha… e que bom que ela me acompanha!
    Beijocas

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  7. Minha canção tema vc sabe qual é, Sentimental do Chico…
    Façam muitas manhãs, que se o mundo acabar eu ainda não fui feliz…
    Sei que já foi a sua também. :)))))
    “A música sempre faz isso, remete, remete, remete. Remete ao passado, a uma imagem, aos sentimentos, sensações. Manda você pra onde ela quer que você vá, mesmo se você não aceitar o convite.”
    Adorei essa frase, ela é perfeita. Vc é perfeita, queridona. 🙂 Se não for, é quase. ehehe
    Beijo!

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  8. Oi, Ka. Para esse post só faltou tocar uma midi enquanto descíamos a barra de rolagem. Rererere.
    Q música lembra o seu amigo aqui?! Huuuum… qualquer uma de rock com boas batidas. Para facilitar, pode ser as do The Offspring ou a “Show me how to live” do Audioslave. 😉
    Ah! Por falar em fase musical, coloquei uma obra-prima no meu blog. Dê uma passada e confira.

    Beijão, minha DJ favorita. :-***

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  9. Muito legal este texto, parecia que meus pensamentos tivessem sido escritos por outra pessoa. Pelo perfil do que eu li tenho certeza que vc é alguém muito especial. Ficaria muito feliz se vc me falasse sobre as trilhas sonoras da sua vida.
    UM ABRAÇO…..
    JULIANO

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