O DESEJO

O DESEJO

Quando tudo é escuridão, ele é um sol inteiro dentro do quarto.
Depois do almoço, ele é um pedaço de queijo com goiabada.
Quando não se aguenta mais de vontade de fazer xixi, ele é um vaso sanitário desocupado.
Num dia de encontro de família, ele é um namorado bonito e charmoso pra exibir bastante.
No final de um dia de trabalho exaustivo, ele é um banho quente e demorado.
E no dia do seu aniversário, ele é um presente bem embrulhado com algo muito bom dentro do embrulho, algo que você não sabe o que é, mas gosta antes mesmo de saber.
Em um lugar feio, ele é estar sentando no alto de um morro de uma praia carioca olhando o mar.
Na segunda-feira de manhã, ele é a sexta-feira de tarde.
Se estiver muito frio, ele é um cobertor ( de lã e de orelha ).
Num momento de intensa solidão, ele é um abraço bem apertado, daquele de quebrar ossos.
Quando se está fazendo um texto, ele é uma frase final arrebatadora, melhor que “e foram felizes para sempre”.
Diante de qualquer coisa feita, ele é um “puxa, que máximo isso aqui, quem fez uma coisa assim, tão incrível?”.
Para a noiva, ele é um filme de romance perfeito em forma de ilusão.
Para o trabalhador cansado, um feriado prolongado com direito a viajar pra um lugar paradisíaco de graça e sem sofrer no trânsito na ida e na volta.
Para um cachorrinho, ele é uma casinha no quintal, uma tigela de ração e muita atenção do dono.
Para o asmático, ele é um aparelho respiratório descongestionado num ambiente aberto e ventilante.
Para o insone, hipnose eficiente.
Para os amantes que têm que se despedir, um relógio parado.
Para um cabelo assanhado, uma maria-chiquinha.
Para o espirro, simplesmente acontecer.
Para um dia abafado, águas de março fechando o verão.
Para a lua, céu sem nuvens e muitos espectadores olhando para o alto.
Para a pipa, vento forte e uma rabiola potente e bem cortada.
Para o bebê, mamãe, mamãe e mamãe.
Para o publicitário, uma idéia luminosa em formato de frase.
Para a amante, um final de semana com direito a passeio público e roda de choop com os amigos.
Para a partitura, um instrumento afinado e um instrumentista habilidoso.
Para o casal apaixonado, dormir abraçado depois de transar a noite toda.
Para o tímido, um auditório repleto de ninguém pra ouvi-lo falar muito e alto.
Para a fruta madura, um moleque atrevido que goste de subir em árvore.
Para a árvore, um preguiçoso pra encostar-se nela a tarde toda.
Para o desempregado, o número correto da mega sena.
Para o diabético, um suspiro ou um quindim.
Para o ansioso, uma bola de cristal que funcione.
Para a mulher do marinheiro, o barulho do barco ancorando na praia.
Para o doente, alívio.
Para qualquer um, qualquer outro.
Sede, fome, tesão, paz, alegria, vida.
O desejo é assim, pode ser tudo, pode ser nada. Só se pode desejar o que não se tem… E desejar mais ainda o que não se pode ter. Porque o desejo é isso. O eterno querer para a eterna falta. E é nada que fuja disso pode ser a seiva da vida.

Para validar, uma música linda do Chico.

Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia…
Lá todo balão caía,
Toda maçã nascia,
E o dono do bosque nem via.
Do lado de lá tanta aventura,
E eu a espreitar na noite escura,
A dedilhar essa modinha.
A felicidade
Morava tão vizinha…
Que, de tolo,
Até pensei que fosse minha.

Junto a mim morava minha amada,
Com olhos claros como o dia…
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia –
E a dona dos olhos nem via.
Do lado de lá tanta ventura,
E eu a esperar pela ternura
Que a enganar nunca me vinha.
Eu andava pobre…
Tão pobre de carinho…
Que, de tolo,
Até pensei que fosses minha.

Toda a dor da vida
Me ensinou essa modinha…
Que, de tolo,
Até pensei que fosse minha.

* Post inspirado em um verbete do Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento, da Adriana Falcão. Simplesmente genial. Se não leu ainda… Tá esperando o quê? 🙂

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7 comentários sobre “O DESEJO

  1. Meu amor, vc é uma fofa. :)))))

    Mto jóia esse texto, é isso mesmo… Nossos desejos mudam conforme mudam nossas faltas… Infeliz de quem não percebe isso e fica preso nas velhas conquistas.

    Bjo, foi mto bom conversar contigo… Bom mesmo. :))))

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  2. Seu post me traz à lembrança duas músicas: a primeira, dos Saltimbancos (A cidade ideal do cachorro/ Tem um poste por metro quadrado/ Não tem carro, não corro e não morro/ E também nunca fico apertado/ A cidade ideal da galinha/ Tem as ruas cheias de minhoca/ A barriga fica tão quentinha/ Que transforma milho em pipoca); a segunda, da Marisa Monte, “Diariamente” (Para brincar na gangorra: Dois/ Para fazer uma toca: Bobs/ Para beber uma coca: Drops/ Para ferver uma sopa: Graus/ Para a luz lá na roça: 220 volts)…
    Beijo…

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