UMA NOITE DE MILAGRES

Quando eu era criança, eu achava que sempre acontecia um milagre na noite de natal. Não sei por que eu tinha essa idéia. Talvez por conta das milhares de luzinhas piscando, parecendo estrelinhas no chão. Ou por conta de todos aqueles filmes apelativos que passavam na TV. Ou talvez fosse por causa de toda aquela história do papai noel, que meu pai insistia em manter. Ou quem sabe era a abundância de presentes, sempre tão atrativa para as crianças… Ou pelo fato de ir à igreja e ouvir tantas canções lindas entoadas pelo coral, vendo os presépios e pecinhas de natal. O fato é que eu realmente achava que, em algum lugar, um milagre ia acontecer na noite de 24 de dezembro.

Uma vez resolvi compartilhar com meu avô essa desconfiança. Será que era verdade isso que eu pensava? De onde vinha essa idéia? Perguntei a ele, e ouvi:

– Meu bichinho querido, você sabe o que é milagre, hein?

Ora, é claro que eu sabia! Um milagre era uma coisa mágica, impossível, muito séria e que mudava a vida das pessoas. Um milagre era uma coisa tão poderosa e tão incrível que só Deus poderia fazer. Algo absurdo, notável, cheio de luzes e audiência.

Meu avô, com aquela calma e sabedoria que me dá uma saudade imensa até hoje, com aquele sorriso que cabia o mundo inteiro dentro… Me disse que, na verdade, um milagre não precisava ser assim uma coisa assim, tão suntuosa. Muito pelo contrário. Os maiores milagres aconteciam em silêncio, sem luzes brilhantes em volta, sem grandes eventos e nem reportagens de TV. Ele disse que os maiores milagres vinham de dentro pra fora. Me pediu pra observar as pessoas no natal. E que reparasse o verdadeiro milagre que o natal podia fazer na vida de algumas delas.

Desde então, antes do natal, eu fico sempre triste, porque começo a reparar nas pessoas, como meu avô ensinou. Vejo que muitas delas estão atoladas em um poço de cansaço, de injustiça, de medo, de raiva, de inveja e de outras coisas que não são nada nobres e nem bonitas. Vejo que vamos nos metendo em círculos viciosos de trabalho, de amizades superficiais, de sentimentos forjados, de mentiras, dos quais nem sempre conseguimos sair. Vejo muita gente jogando a vida pela janela com vícios, com escolhas erradas, com teimosias bestas. Vejo pessoas que não conseguem abraçar, beijar, dizer coisas bonitas, acarinhar, mostrar um afeto sincero. Vejo pessoas que não dão a mínima para as outras e só pensam em si mesmas. E pessoas que nem de si mesmas cuidam, desprezando a sorte de estar vivo. Vejo os mesmos velhos erros de sempre, gente que não aprende, e me irrito comigo mesma por ainda acreditar que eu e algumas pessoas que eu amo possamos mudar coisas que, na verdade, não têm muito jeito, porque somos humanos e vivemos pra fazer besteira, todo dia, toda hora. Vejo gente com saúde, emprego, família, oportunidades que só pensa no que é ruim, e reclama de tudo, se fazendo de vítima do mundo. E outras tantas que, quando começa essa época, começam a consumir coisas compulsivamente, se metendo em dívidaas, sem lembrar do verdadeiro sentido do natal – aquela coisa da humildade, da nobreza e do sacrifício de um pai que ofereceu seu bem mais precioso, seu filho, para vir ao mundo ensinar o que é amor de verdade. E tudo isso é muito, muito deprimente. E toda essa tristeza dura até o natal, enquanto vou sobrevivendo aos amigos secretos, aos shoppings lotados, às festinhas de fim de ano, às obrigações e compromissos e às mensagens vazias que enxergo nos outdoors e na televisão. Até que eu enxergo o verdadeiro milagre que a idéia do natal pode fazer.

Claro, sempre haverão aqueles que bebem e comem demais e estragam a festa dos outros. Sempre haverá consumismo exagerado. Sempre haverá mediocridade, pessimismo e mau humor. Sempre haverá quem não entenda nada. E sempre haverá miséria, fome, tristeza e injustiça no mundo. E eu com minhas boas intenções, com poucas ações de compartilhamento, com meus presentinhos e mensagens pros amigos, com minhas orações e meus desejos, pouco posso fazer por essas pessoas e por mim mesma. E ainda assim… Algo acontece no natal que faz um milagre. Nem que seja só por uns dias… Nem que seja só por uma noite.

O natal pode unir familiares que não se vêem faz tempo, e fazê-los se abraçarem com força e carinho. O natal pode enternecer corações duros, levando-os às lágrimas numa canção ou imagem bonita. O natal pode fazer mulheres amorosas cozinharem para seus queridos, levando sabores e beleza que enchem estômagos e olhos. O natal pode trazer uma saudade gostosa de quem não está mais aqui, mas deixou boas lembranças e bons exemplos. O natal pode levar pessoas avarentas e mesquinhas a ajudar outras que não têm quase nada para comer ou vestir. O natal pode ser a chance que as pessoas têm para escrever, dizer ou desejar em silêncio tudo de bom para aquelas que elas amam. O natal pode ser um momento de perdão. Ou de alegria. Ou de reflexão. O natal pode ser a chance de um abraço sincero que há muito estava preso. O natal pode ser uma noite cheia de pequenos milagres.

E é por isso que, apesar de tudo, eu vou sentar sozinha uma hora, e reparar no milagre que foi Jesus ter nascido um dia, e trazido, entre tantas outras coisas boas, a chance de pelo menos uma vez por ano, parte do mundo estar mais calma, mais em paz e melhor. Uma pequena parte, é certo… Mas uma parte.

Por isso, pessoas… Desejo sinceramente que, nesse natal, o milagre que vocês esperam aconteça na vida de vocês. Que haja crescimento, luz, consciência, caridade, e fartura emocional, mais do que fartura de presentes e comida. Que as pessoas que vocês amam estejam perto para que vocês possam declarar a elas o quanto elas são importantes todos os dias do ano. Que vocês relembrem o verdadeiro sentido desta data. Que não esqueçam do aniversariante. E que vocês vejam no céu, e em vocês mesmos, pedaços de dias e de pessoas melhores.

FELIZ NATAL! E uma noite miraculosa pra vocês, em todos os sentidos.

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DROPS DE LARANJA

Será que mais alguém aí tem saudades dos LPs e do tempo que não existia celular? Estou saudosíssima no Mondo Redondo… Passa !

Só mais uma coisinha importante pra dizer…

ESTOU DE FÉRIAS! AI, QUE FELICIDADE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

DROPS DE CEREJA

Fui convidada a fazer parte de um projeto incrível de uma revista eletrônica. O editor mais mimoso da rede achou que eu poderia participar, e eu aceitei o desafio, apesar de não ser jornalista e nem escritora. E assim cheguei ao Focando, e à coluna Tentando ser Prosa, que divido com pessoas muito competentes na arte de escrever. Mônica Alves, Adelaide Amorim e o próprio Arquimimo Novaes são alguns dos nomes de peso que tenho a honra de chamar de colegas lá.

Eu ficaria muito contente se vocês visitassem o Focando, lessem o Manifesto Foca e, principalmente, prestigiassem a minha estréia com o meu Conto de Ano Novo. Segue aí um pedacinho…

“Então era ele. Com suas longas barbas brancas, suas vestes brilhantes, seus olhos apertados. Fazia o seu trabalho, como sempre havia feito, momento a momento, sem falhar. Observava tudo e todos, desde sempre; e frequentemente não gostava do que via. Às vezes pensava que tantas passagens e sua barba tão longa o haviam deixado mal humorado e chato. Nada no mundo parecia agradar-lhe. Especialmente as pessoas.

As pessoas costumavam ignorá-lo no início de suas vidas, pensar que eram suas donas durante a mocidade e amaldiçoá-lo com ódio quando envelheciam. Achavam que era ele o culpado de tirar o viço e o encanto de tudo que amavam, inclusive delas mesmas. O Tempo sentia-se injustiçado. Não era verdade. As coisas e pessoas perdiam o encanto por si mesmas, e isso porque tinham uma insuportável mania de novidades. Ele mesmo não era novo, e nunca mais seria, e ainda assim era o Tempo, capaz de construir e destruir coisas e destinos apenas pelo fato de existir. Ninguém havia resistido a ele, nunca. As pessoas eram pouco sábias e volúveis, era o que ele achava. Ele, o grande incompreendido, era apenas implacável e impiedoso, fazendo o que precisava fazer sempre, brilhantemente e sem erros.”

Mas eis que um dia…

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E, de antemão, obrigada pelo carinho das pessoas que me incentivam e me seguem onde eu for. 🙂

OS MOÇOS

Peço licença pra mais um post lambe-lambe… É que tem certas coisas que não devem deixar de ser ditas… E melhor ainda se forem escritas. 🙂

Ter amigos moços foi uma coisa que eu aprendi como é bom muito tarde, infelizmente. Minha vida foi cercada de mulheres por quase todos os lados, e poderia ser assim até hoje. Magistério, Psicologia, trabalhando em escola, envolvida com instituições femininas… Só dá mulher. E por um bom tempo, eu achava que era desafio demais pra minha cabecinha tentar manter a amizade com um moço sem que eu o tivesse desejado sexualmente antes ou depois de uma boa conversa. Aquela briga do Harry e da Sally, que eles mantiveram por anos e anos, eu também tinha comigo mesma: será que homens e mulheres podem ser amigos? Ele achava que não. Ela achava que sim… E eu não sabia o que achar. Até que experienciei. E foi então que eu vi a luz…

Boba que eu era… Muito boba. As mulheres, bem ou mal, se entendem perfeitamente, mesmo sem que nada precise ser dito ( e ainda assim falamos demais ). Mas os amigos homens… Ah, esses são adoráveis, e quando a gente acha um, pode entender as outras pessoas ainda mais profundamente.

Uma vez prometi que falaria sobre eles… E hoje, que tive tantas notícias ótimas dos meus amigos, achei que era a hora.

Então, lá vai a listinha. Hehe.

ALGUNS TIPOS DE AMIGOS HOMENS

* IRMÃOZÃO
Vivido, mais velho, experiente… Ele cuida de você como um irmão cuida de uma irmã. Se preocupa, leva você ao médico numa emergência, indica o mecânico, ensina você a dirigir. Ele dá toques sobre algo que você está fazendo errado, não deixa você dar vexame bebendo demais, escuta suas histórias com atenção, e depois ainda dá o conselho certo. Dá bronca e puxa a orelha quando é necessário. Observa e participa da sua vida, e comemora cada coisa que você faz de legal como se fosse com ele, com o sorriso e o coração aberto. É uma amizade linda e duradoura, que você tem a impressão que sempre existiu e sempre vai existir, como um laço de sangue… Pelas veias da alma. Um queijo holandês e uma garrafa de vinho pro meu amigo irmãozão.

* BACKUP
Esse é aquele que você tem certeza que seria um ótimo homem da sua vida – se ele fosse o homem da sua vida. Vocês se dão bem, conversam, rola um certo climinha sexualmente tenso de vez em quando, mas por alguma razão, vocês nunca se beijaram ou fizeram outras coisas que sugerissem que entre vocês havia mais que uma amizade. Ele é alguém com quem você poderia se dar bem eternamente. Então, vocês combinam – se um dia cansarem de bater cabeça, e ambos estiverem sozinhos… Vão ficar juntos e realizar todos aqueles planos adoráveis de casal e filhinhos que todos nós fazemos. A vida é muito mais tranquila quando se tem um backup afetivo… E só uma amizade muito limpa e forte permite tamanha liberdade de ir e vir em terreno minado com a maior tranquilidade do mundo. Um beijo no cantinho da boca pro meu amigo backup.

* O AMIGO RELÓGIO
Pra todas as horas. Esse é aquele pra quem você conta tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo… E se é assim, é porque ele é confiável, discreto, compreensivo, sincero e tem um carinho imenso por você, quase tão grande quanto o que você tem por ele. Ele pergunta sobre o seu dia, e ouve tudo com atenção, fazendo parte desses pequenos pedacinhos do cotidiano. Talvez ele seja a pessoa com quem você mais converse na vida, mesmo quando você não quer falar com mais ninguém. Uma presença angelical… Como um anjo, ele brilha por perto sem ofuscar, dá segurança. Um ingresso de cinema pro meu amigo relógio, junto com um agradecimento enorme por ele estar sempre “on line” quando eu preciso… E quando eu não preciso também.

* O FALADOR
Esse é ótimo, porque conta pra você tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo… Através dele, você consegue compreender um pouco mais sobre como funciona o cérebro, a alma e o corpo masculinos, e sobre a verdade por trás das cervejas e jogos de futebol. Aos poucos, ele ensina que as diferenças são legais, e só acrescentam. Geralmente é aquele que vai ter uma namorada ciumenta de tempos em tempos, e que naturalmente se afasta… Mas volta. E é como se não tivesse ido… Um sorriso bem largo pro meu amigo falador.

* O FOFO
Com esse, o carinho, em algum momento, se expressou de forma física. Tem colinho, tem carinho no cabelo, tem abraços e beijinhos, tem contato. Quando você está carente, é nele que você pensa. Ele já viu você de pijama, ele já viu você doente, ele já deu dura em namorado sem-vergonha seu. Rola um amor profundo, amor de amigo mesmo. Essencialmente solitário, ele gosta de admirar você, e sempre tem um elogio guardado na manga pra dizer quando você se acha a lata de lixo do mundo. E é por isso que você não imagina sua vida sem essa criatura. Um abraço apertado pros meus amigos fofos.

* IRMÃO DE VERDADE
Eu tenho dois irmãos. Um deles é um irmão. O outro, além de irmão, é meu amigo. E é tão bom quando você pode confiar em alguém que convive tanto com você e te conheçe tão bem… Alguém que você viu nascer, que te ensina tanto e pra quem você pode se desnudar sem se sentir invadida ou julgada. E ainda assim afirmar, com toda certeza, que se você pudesse ter escolhido a sua família… Ele seria o seu irmão novamente mil vezes se precisasse. Um coração cheio de amor pro meu irmão, que além de irmão, é meu amigo.

* O AMIGO COLORIDO
Essa é uma situação delicada. Com esse, já rolou beijo na boca, amasso… Talvez até sexo. E poderia continuar rolando… Só que ele não é seu namorado, e nem pode ser, algo não cola. É amigo mesmo. Não se trata de alguns tipos de homens que se fazem de amigo só pra pegar você numa hora em que você se sente fragilizada, e depois do sexo, jogam a amizade no lixo com grosserias e indiferenças ( não que seja ruim transar por transar – tudo tem sua hora. Mas tem gente que não joga limpo e isso é um horror ). Pois bem, o amigo colorido é um arco-íris num momento de breu. E não há por que se sentir mal com isso… Como eu ouvi uma vez… Beijar um inimigo é que não dá. Hehe. Portanto, um beijo na boca pro amigo que já foi colorido… E hoje é amigo monocromático, mas ainda assim, amigo.

* O PARCEIRO
Essa amizade é uma delícia… Ir ao cinema junto, visitar exposições, conversar horas sobre política e o sexo dos anjos, trocar livros, enviar músicas, trocar muitas idéias, trabalhar junto… O amigo parceiro é aquele da afinidade de idéias. E é tão bom saber que suas opiniões tem colinho neste mundo… Bom demais. Tão bom que quem tem, sabe… E quem não tem, devia ter pra saber. Uma piscadinha cúmplice e charmosa pro meu amigo parceiro.

* O ADORÁVEL SEM-VERGONHA
Se ele pudesse, te agarrava. Aliás, ele te lembra o tempo todo que ele é homem, e você é mulher. E que vocês são amigos só enquanto você quiser, pois caso contrário, ele poderia ser seu objeto sexual tranquilamente. Ainda assim, ele é seu amigo, e respeita você. Deixa você cuidar dele, aceita suas broncas, protege você no estádio de futebol, te leva pra comer pastel na feirinha do Pacaembú, te chama no meio da noite quando tem crise renal… E, mesmo morrendo de dor no banco do carro ao seu lado, não perde a chance de dizer que você tem pernas lindas, hehe. Então… Um sonho erótico pro meu amigo sem-vergonha.

* AMIGOS ITINERANTES
Tem muitos outros. Virtuais, reais, distantes, frios, grosseirões, colegas de profissão, amáveis, educados, ex-namorados, namorados das amigas, parentes, queridos da mamãe, gente que eu conheço pouco e que eu conheço muito, amigos de verdade e de mentira, não importa. Sou feliz por vocês existirem e me darem espaço em suas vidas. Obrigada por tudo, hoje e sempre.

E só pra constar, hoje eu sei quem tinha razão, se era Harry ou Sally. Homens e mulheres não só podem como devem ser amigos. É por essas e outras que a vida vale a pena. 🙂

ENCONTROS E DESPEDIDAS – EDIÇÃO 2004

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O ano passado, mais ou menos por essa época, escrevi um post falando sobre essa coisa de encontrar e despedir. Falo dos meus alunos. E este ano, me vejo de novo com a mesma pontinha de angústia… E a mesma pontinha de felicidade.

Li o que tinha escrito e vejo que é exatamente o que sinto hoje. Então, vou colocar aqui novamente. Só muda a segunda parte, onde ficam as pérolas ditas pelos bebês deste ano… E as fotos. 🙂

***

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25 crianças de 3 a 6 anos de manhã… Mais 35 à tarde. Pra cuidar deles na sala, só eu e Deus, e os 5 anjos da guarda que cada um deve ter. Sim, porque criança pequena tem uma pá de anjos da guarda. Afinal, eles fazem as maiores loucuras e vão e voltam inteiros todos os dias, salvo um ou outro galinho na cabeça, pé torcido ou braço quebrado. Nas condições mais complicadas, eles conseguem se divertir. Digo isso com muito respeito. Uma das escolas em que trabalho é de latinha, aquelas, que nada mais são do que barracões de zinco onde o governo municipal literalmente depositou crianças e professores. E ainda assim, eles estão lá, sorrindo, brincando, aprendendo. E vão dividindo essa alegria de viver conosco, pobres, velhas, desvalorizadas e cansadas professoras de educação infantil.

Infelizmente, muita gente não saca que, trabalhando com crianças, dá pra colecionar gotinhas de sabedoria, carinho e felicidade todos os dias. Mesmo nos primeiros dias quando eles choram desesperados querendo ir embora, ou mesmo nos dias em que eu estou tão esgotada de cansaço que não consigo mais sequer olhar pra eles direito. Eles são fofos mesmo quando são irritantes.

Difícil essas coisas da vida. Eles chegam tão bebês. Não sabem pegar no lápis, ir ao banheiro sozinhos, não sabem tirar a blusa quando faz calor, falar o que pensam e sentem. Sofrem demais com essa coisa de ter que ir pra um lugar desconhecido, sem nenhuma pessoa familiar por perto, só porque os adultos decidiram que é bom pra eles. Choram, esperneiam, se descabelam. E aos pouquinhos vão aprendendo que tem hora pra tudo. Aprendendo a amarrar o cadarço do tênis. Aprendendo a se defender dos outros. Que por mais que demore, a hora de ir pra casa sempre vem. Vão aprendendo a contar o que pensam. A negociar. Aprendendo a conviver com os nãos, com o preconceito, com os pontos de vista diferentes. Aprendendo que é importante saber quem se é, importante saber brincar e se divertir, importante se superar. Chegam batendo na altura da minha cintura, me olhando desconfiados, com raiva ou com medo. E saem batendo na altura do meu colo, sorrindo, correndo, pulando que nem cabritos e berrando sem parar, alegres da vida, cheio de amigos e planos pro futuro. E tenho que deixar eles irem, só pra começar tudo de novo. Muito difícil essas coisas da vida. Na teoria funciona bem. Mas na prática, é complicado encontrar e separar, pra eles e pra mim.

***

“- O médico disse que eu tenho que fazer regime.
– Ah é? E o que você tem que comer pra fazer regime?
– Ah… Chocolate, pizza, feijoada, pipoca, bolo…
– Uai, que raio de regime é esse? Não tem que comer salada, cenoura, abobrinha?
– Não! O regime é meu, oras, eu como o que eu quiser. “


“( Eu, bravíssima. ) – Já que você gosta de ser tão engraçadinho, eu vou te colocar no berçário de castigo. Anda, pode vir que eu vou te levar lá JÁ.
( Começa a chorar e espernear ) – Não, eu não quero irrrrrrrrr!!!!!
– Não quero saber, você vai e pronto.
( Chora desesperado, quando vem um amigo e o abraça com força. )
– Calma! Olha, ela vai levar você, mas depois ela traz de volta! Olha só, eu fui e voltei! Seja forte! Não chora! Obedece ela!
( O condenado continua chorando desesperado, eu quase não estou aguentando de vontade de rir, quando o amigo vem e me diz, com cara de mártir: )
– Prô, ele está muito abalado. Posso ir no lugar dele? “

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“- Posso ir brincar?
– Não, você vai ficar aí sentado mais um pouco pra pensar no que você fez. Onde já se viu, morder o amigo, empurrar ele na areia? Que horrível. Isso não se faz.
– Mas prô, deixa eu ir… Por favor.
– Não.
– Eu não vou fazer mais.
– Você sempre diz isso. Não acredito mais. Pode ficar aí. E eu vou contar tudo pros seus pais.
( Chega o agredido, senta no meu colo e diz: )
– Deixa ele ir brincar, prô?
– Não, ele vai ficar aí… Ele machucou você. Olha só, ficou roxo.
– Mas não tá doendo mais.
– Não?!
– Quer dizer, tá doendo… Mas tá doendo pra ele ficar aí também, né?”

“- Prô linda, você fica tão bonita de cor de rosa… Parece uma Barbie, uma menina superpoderosa…
– Ah, muito obrigada! Fico feliz quando você me acha bonita, querida!
– Então pode ficar feliz sempre, porque eu acho você linda sempre… É que tem dias que eu esqueço de dizer. Mas você é linda todo dia, todo dia, todo dia.”


“- Toma, prô, uma cartinha de amor que eu escrevi pra você levar pro *****.
( Abro a cartinha, e está escrito, “*****, a minha prô adora você”, e um desenho de um casal dando as mãos, cheio de corações em volta. )
– Linda a sua carta, querida, obrigada, mas eu não tenho mais nada com o *****.
– Puxa, prô, você troca muito de namorado!
( Fico vermelha. ) – Ah, não é isso… É que se não dá certo com um, a gente tem que tentar de novo, né?
– E por que não dá certo com um?
– Porque às vezes, por mais que você goste da pessoa… Algo acontece e dá tudo errado.
– Nossa, que complicado, se gosta, porque acontece algo errado?
– Não sei… Só sei que às vezes as pessoas não conseguem mesmo ficar juntas, ou ficam juntas mesmo sem estarem felizes… O que é mais triste ainda.
– É, pensando bem… Você tá certa. Pode namorar quantos namorados precisar, mas tem que ficar feliz. Não faz mal, eu faço outra cartinha.”

“- Escuta, menino, porque você tem mania de me chamar me beliscando? Puxa, custa chamar pelo nome?
– Ah, prô, é que eu gosto de apertar você… ( Abraçando minha coxa ) Você é tão fofinha!”

“- A professora nova é feia.
– Mas você ainda nem sabe quem vai ser sua professora nova! E se ela for mais bonita que eu?
– Ninguém é mais bonita que você.”

“- Então o ano que vem eu vou pra primeira série?
– Vai…
– Eu tô com medo, sabe, Karina…
– Sei… Entendo o seu medo. Mas vai dar tudo certo… Além do quê… Você ainda vai passar por isso muitas vezes na vida… E vai perceber que no começo é difícil, mas depois fica legal.
– Eu queria ficar.
– E eu queria que você ficasse… Mas você vai. E vai dar tudo certo.
– Eu volto pra te visitar, tá?
– Você vai esquecer de voltar.
– Não vou… Se eu esquecer, você me lembra. Tá?
– Tá.”

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