ESTANTE

De uns tempos pra cá, tenho recuperado um hábito que todo mundo diz que é ótimo, mas pouca gente pratica pra valer: esse lance de ler. Eu tenho uma preguiça infinita de ler ( acho que já disse isso aqui umas vezes ), apesar de ler muitíssimo. Acho aborrecido e muito sonolento ficar deslizando os olhos por aquele monte de letras amontoadas. Prefiro mil vezes conversar, conversar e conversar ( uma pena que nem sempre eu possa convidar Shakespeare, Machado de Assis, Luís Fernando Veríssimo ou Manuel Bandeira pra tomar um goró aqui em casa ). Sem falar que alguns livros são fedidos, feios e difíceis; são poucas as pessoas que têm o dom da clareza, leveza e profundidade quando o assunto é escrita.

Por outro lado, é lendo que eu aprendo mais coisas, e como acredito piamente que conhecimento é liberdade ( já dizia o Millôr, “quem não sabe, acredita.” ), e como a liberdade é uma sensação maravilhosa… Compartilho aqui com vocês as leituras de ultimamente.

* As Boas Mulheres da China, de Xue Xinran, Companhia das Letras.
A princípio, é mais uma obra que chama a atenção para a opressão e a desigualdade social entre os sexos. Mas o livro é muito mais que isso – trata-se de uma reflexão intensa sobre o que é ser mulher e, além disso – sobre o que é ser uma pessoa em um mundo tão louco e tão cheio de atrocidades.
Nem vou dizer que essa é uma leitura obrigatória para todas as mulheres do mundo. E nem que os homens deveriam ler tanto quanto ou mais que essas mesmas mulheres. Infelizmente, as verdades que constam nesse livro não são digeríveis ou aceitáveis para muitas pessoas. Mas quem lê, não pode negar que as histórias das boas mulheres da China podem mudar uma vida. No mínimo, fazer com que os óculos com os quais você enxerga o mundo fiquem menos embaçados.
Xinran é uma jornalista chinesa. Em tempos de mudanças políticas e econômicas na China, ela tinha um programa de rádio. Nele, se tocava um pouco de música, se lia algumas notícias… E se conversava com mulheres. Aos poucos, elas foram chegando e contando suas histórias. E Xinran reconta algumas delas nesse livro.
Há histórias de mulheres oprimidas, estupradas, violentadas de diversas maneiras, diminuídas, deixadas à margem de tudo, inclusive de suas famílias e da sociedade em que viviam. Por exemplo, da mocinha que criava uma mosca como animal de estimação. Ou da senhora catadora de lixo que escondia um segredo absolutamente improvável. Ou da moça que sofreu inúmeros abusos em nome da Revolução e acabou enlouquecendo. São histórias reais, que acontecem em um lugar que fica logo ali… Há poucos anos atrás.
A leitura do livro é fácil – Xinran escreve bem, e transmite pelas palavras muito de seu conhecimento e de sua emoção; conta histórias sobre seu país e sua gente, e a história dela própria. Mas, apesar da leitura leve, o conteúdo de cada capítulo é pesado e forma bolos de angústia no estômago e na alma. No entanto, quando acabei de ler – ou melhor, enquanto lia-, algo em mim se transformou. Através da luta e da busca da dignidade humana vivida por aquelas mulheres, eu percebi que também tenho um caminho a trilhar, muito longo ainda; que também tive histórias sofridas e ainda assim estou de pé, como boa mulher que sou; e que todos merecemos a felicidade, muito embora sejamos afastados dela. Vale a leitura. Mesmo.

* Amor é prosa, sexo é poesia, de Arnaldo Jabor – Ed. Objetiva.
Como diria a minha mãe, o Arnaldo Jabor é aquele cara feio e chato que fala coisas bem rápido no Jornal Nacional. Um conhecido meu diria que é um diretor de cinema que fez filmes meio doidos nos anos 80. Tem também uma infinidade de textos circulando pela internet que, dizem, são dele – provavelmente, 90% não é. Não sou leitora assídua dos jornais e revistas onde ele assina colunas. Tenho um livro dele que nunca cheguei a ler inteiro, talvez porque quando o ganhei, fosse imatura ainda pra entender algumas coisas. E pra piorar, ele estava na lista dos mais vendidos, o que, no Brasil, costuma ser péssimo sinal. Por isso, cheguei a esse livro por mero acaso, se é que acaso existe, e torcendo o nariz. Lista de mais vendidos + promoção na livraria + intuição que nunca me deixa… Pronto, estava na minha estante.
O subtítulo diz, “crônicas afetivas”. Não podia ser mais acertado. Ele fala sobre Bush, avô, sexo, paixão, filhos, questões existenciais, amor e política sempre do mesmo jeito – emocionado, consciente, lúcido e cheio de razões-emoções que contagiam quem lê. Afetividade é isso mesmo, esse eterno olhar para si mesmo e para o mundo, banhando esse caminho em sentimentos e pensamentos, e isso ele faz muito bem. Sem falar que escreve maravilhosamente; é daqueles autores que parecem estar falando com você através das letras, sem que você nem perceba que está lendo.
A crônica que dá título ao livro ( e que inspirou uma conhecida canção ) é imperdível. Leitura rápida, agradável e, para os olhos mais atentos… Cheia de possibilidades. Adorei.

* O Código DaVinci, de Dan Brown – Ed. Sextante.
Tá, eu li. E li porque todo mundo leu. Só por isso. E quer saber? Gostei muito.
Sem entrar no mérito de questões religiosas e/ou políticas ( que originaram uma avalanche de livros caroneiros que estão infestando as vitrines por aí ), toda a trama de O Código da Vinci é muito envolvente e dinâmica. Se o livro do Jabor remete a uma conversa inflamada e tocante, esse lembra uma tela de cinema, frenética, cheia de imagens mentais que vão se movendo, se encaixando e desencaixando, tirando o fôlego e o sossego do leitor.
A história é manjada – um assassinato, um quebra-cabeças cheio de códigos secretos e investigações, um mocinho e uma mocinha, e várias pessoas em volta que, aos poucos, vão se revelando vilões ou outros mocinhos – uma surpresa atrás da outra. Lembra os adoráveis filmes do Indiana Jones, aventureiros, inverossímeis e deliciosamente divertidos. Ou então os antigos romances da Agatha Cristie. Se pegou, fica difícil largar até saber o final.
Organizado em capítulos curtos, muito bem escrito e bem amarrado, o livro ainda provoca uma curiosidade e uma vontade imensa de visitar o Louvre de perto, e conhecer um pouco mais sobre a História da Arte e da Religião. Se não houver grandes pretensões… É diversão de primeira.

EXPEDIENTE
* Todos os links foram retirados do site da Livraria Cultura que é, sem dúvida, um dos melhores lugares para se estar no mundo, e uma perdição pro meu bolso.
* Orkut em português… Ai, que benção.
* Bem, pessoas paulistanas… O que estão achando do novo prefeito? Eu ando tão emocionada com as coisas que ele vêm fazendo por nossa cidade que nem consigo escrever sobre isso. Mas logo o choque passa… Ah, se passa.

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24 comentários sobre “ESTANTE

  1. Oi, Kari!

    Fiquei com vontade de ler dois livros da sua estante (hehehe , depois eu falo quais!) . Tem alguns parados na daqui de casa esperando que eu os tire pra passear…

    Bom …Amo passar por aqui, e fico muito honrada de ser a primeira a comentar o post de hoje!

    Ah …orkut em português …rsrsrsrs

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  2. Ler é bom, não só porque “saber é poder”. Mas ler é também gostoso, muito gostoso….E ler as coisas que Karina escreve, nem se fala 😉 Beijos a vc, que escreve tão bem, para que leiamos de forma tão gostosa..nham…nham…. Besos ;-*****

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  3. Fiquei com vontade de ler as mulheres da china. Um romance que li e adorei, e vi o filme e também adorei, foi algo chamado “clube da sorte e da simpatia” – creio. Contava as histórias cruzadas de 4mulheres filhas de imigrantes chineses nos EUA.. Lembro que, quando passou o filme, liguei pra minha analista pra recomendar. Feminino até doer.

    Já li demais, mas agora, ando com essa sonolência. É a vista cansada. Ainda não me acostumei a usar os óculos como parte de mim, e a sentar com postura de velha, não dá pra ler deitada, perna pra cima, ou qualquer posição e luz como quando jovem. Aí fica brabo. Mesmo assim, consegui ler o Código. Detestei.. Veja só, mesmo você recomendando dois livros que não gosto (ahco o Jabor chatérrimo, raramente bom cronista(apesar de eu ter recortado duas crônicas dele dignas de Rubem Braga!) , fico até com vergonha de sua masturbação sexual de juventude que insiste em contar) tenho certeza de que vou adorar o livro das chinesas!

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  4. Oi Ka… você não imagina como o teu texto da boneca fez sucesso lá em casa. Minha irmã imediatamente lembrou-de do Rodrigo, um boneco bebê que ganhou no Natal de 1986 e o tem até hoje. Minha mãe, quando li para ela, ficou com os olhos molhados e só conseguiu pronunciar um “Que lindo…”. E mais uma vez, eu venho aqui, orgulhoso de te conhecer – ainda que virtualmente – e parabenizá-la por tamanha sensibilidade. Beijo grande, gatinha.

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  5. Oi Ka… você não imagina como o teu texto da boneca fez sucesso lá em casa. Minha irmã imediatamente lembrou-de do Rodrigo, um boneco bebê que ganhou no Natal de 1986 e o tem até hoje. Minha mãe, quando li para ela, ficou com os olhos molhados e só conseguiu pronunciar um “Que lindo…”. E mais uma vez, eu venho aqui, orgulhoso de te conhecer – ainda que virtualmente – e parabenizá-la por tamanha sensibilidade. Beijo grande, gatinha.

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  6. Um ex amigo meu (ex pq brigamos) me disse q ler eh coisa de desocupado, eu achei uma frase tao ignorante q nem dei resposta a ele, sorri por dentro, amo ser uma desocupada..hehe, ler eh uma viagem linda e eu amo mto me entregar a ela, bjao e se cuida

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  7. Já tinha ouvido falar do primeiro livro e do último…mesmo assim, valew pela indicação. Template novo…ficou legal, embora eu seja fã da Mafalda e sinta falta do desenho…hehehe. Abração pra ti e desculpe pela demora em aparecer

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  8. Oi Kari! De todos esses livros eu só li “O Código Da Vinci”, mas eu o li antes de ele estourar como um best seller, sem aquela “obrigação” de “mas todo mundo tá achando o máximo, e você?”. E eu gostei bastante do livro, principalmente pela parte artística! Sou fascinada por arte! Outro livro bem legal que eu andei lendo foi “Astrícia”, do Cristóvan Buarque. è uma leitura meio densa apesar do livro ser relativamente fino, mas é MUITO legal pra refletir sobre algumas coisas, e “Os 100 melhores contos Brasileiros do Século”. No mais, muitos beijinhos pra vc! Bye

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  9. Ler é, sem dúvida, uma das melhores coisas do mundo! Pena que o tempo é um bem escasso, não dá para tudo! Às vezes leio um livro num ápice, outras estou a gostar tanto que tento fazê-lo durar. E, acreditem, não é tarefa fácil. Ler transporta-nos a outras vidas, q não temos possibilidade de viver. Noutras ocasiões, parece q estamos a ler a nossa história, e pensamos: não foi só comigo q aconteceu. Karina, sou portuguesa e desde q descobri o seu site, em Dezembro 2004,não mais deixei de o visitar. Foi por acaso, uma pesquisa me levou até ao texto «as fases do fim de um relacionamento», que ajuda preciosa naquela altura, nem imaginas. Tudo de bom para ti, e continuem lendo, meus amigos

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  10. Sempre tem altas dicas assim, aqui nesse blog?? Se tiver, voltarei sempre!! Destes 3 livros que vc indicou, dois, eu tenho, e um deles já lí!! O do Jabor já acabei de ler, e o Código, estou lendo!! Viciante!!

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  11. Oi Karina!!

    É mto bom ver o Mafalada Crescida no ar de novo..!!

    Desculpe a demora =( Naum conectei no último fim de semana..

    Gostei do post do Balanço!! Vc continua escrevendo maravilhosamente bem!!

    Um abraçaum,

    Ana Paula =)

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  12. Por partes…não sei se vc sabe..mas tenho um blog de incentivo a leitura….e irei colcoar estas suas dicas lá…posso? ficam uma semana inteira…

    Já li os três…sou viciada em leitura….

    beijos de ótima semana…

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  13. nem tenho preguiça de ler, mas não tenho priorizado o tempo para isto – por isto me sinto preso, pois concordo contigo que só o conhecimento liberta as pessoas da ignorância – e quanto precisamos ser livres. Ótimas resenhas e melhor ainda saber de sua volta, Karina. beijo

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  14. Olá.Ah quanto tempo!Está cada vez mais crescida com o perdão da piada.Agora é sério,eu visitava seu blog quando ainda era um weblogger eu acho.Parei com o meu antigo,fiquei fora da net uns meses e agora voltei com um totalmente diferente do que já fiz.Eu li o livro do Jabor não fazem algumas semanas,gostei,embora eu ache que ele muitas vezes mais pareçe um pernóstico ideológico do que alguem que realmente esteja dizendo algo.Tenho três livros prontos,isto é sem absolutamente nenhuma edição,e cada dia que passa questiono-me sobre a geografia ser destino.Ou seria o infortúnio de nascer em uma época onde tudo o que há para ser descoberto está no http://www.etcetal?... não sei.Mas faço o que sei fazer.Eu sempre serei um escritor com ou sem interatividade virtual.Mas é melhor com.Me adiciona no msn,ou me deixa seu orkut,manda um e-mail,passa no meu blog sei lá…Vou virar um leitor assíduo do seu blog.Até a próxima.

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  15. Muitos livros… Bons Livros…

    A herança deixada por países comunistas a países como a China é essa… maselas e sequelas na população, e normalmente as piores marcas ficam em quem é mais oprimido, na maioria das vezes as mulheres.

    O Livro do Jabor é um que eu gostaria de ler, mas estou me dedicando mais a releituras, pois estou em ano de vestibular, e ter em mente maiores detalhes sobre os livros obrigatórios é bom, e eu quando leio não me prendo a detalhes, como nome de personagem, ou a fatos irrelevantes… gosto de pegar vocabulário e caracteristicas estéticas… então já viu…

    O Código é um livro polêmico, e não acho que seja algo além de um livro comum. (comum não do sentido literário, mas no religioso, não acho que passe apenas de um estória)

    É… Acho que é isso… Beijos.

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  16. Vixe, Karina, tô concordando totalmente com vc sobre o Código da Vinci e sobre o Jabor. Fiquei com muita vontade de ler o livro dele. Qdo chegar na Terra Brasilis, comprarei rapidinho.

    Beijão !

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  17. O meu MSN está completamente vazio…
    …por favor alguè poderia me ajudar!

    Eu queria muito ter contatos e conhecer pessoas novas, legais… Por Favor me mandem contatos novos, me adicionem em seus contatos, me dêêm
    seu e-mails para eu adicionarem vocês em meus contatos… À TODOS MUITO OBRIGADO!

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