JURAS DE AMOR

palavras.jpg

“Minha bem-amada
Quero fazer de um juramento uma canção
Eu prometo, por toda a minha vida
Ser somente teu e amar-te como nunca
Ninguém jamais amou, ninguém.”

Um amor não é feito só de sentimentos, e nem só de planos, e nem só de atos heróicos, e nem só de ações. Um amor, quando é bem grande, fica tão grande que precisa se tornar presente, precisa ser expressado e concretizado. Talvez porque todo amor, mesmo novinho, mesmo cheio de esperança de durar, sabe que é frágil e que pode acabar antes mesmo de conseguir renovar-se. E precisa deixar muitos sinais, muitas marcas para ser lembrado. Porque o sonho de todo amor, se não puder ser eterno, é ser assim: inesquecível.

“Assim como o oceano só é belo com luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim e eu não existo sem você.”

E nada – nem flores, nem laços cor de rosa, nem presentes, nem olhares cúmplices… Nada combina mais com o amor do que palavras. As palavras e o amor foram feitos um para o outro. Quem fala só consegue ser realmente ouvido se falar com amor. E um amor só consegue ser completo se for dito… Em palavras. As palavras são provas concretas e quentes de que há um sentimento. Muita gente diz que palavras de nada valem se forem vazias, e têm razão. Mas na verdade, por mais que esteja cheia de amor, uma pessoa não pode ser compreendida se não demonstrar, se não falar do que sente – abertamente, francamente… Apaixonadamente.

“Eu sem você não tenho porquê
Porque sem você não sei nem chorar
Sou chama sem luz, jardim sem luar
Luar sem amor, amor sem se dar
Eu sem você sou só desamor
Um barco sem mar, um campo sem flor
Tristeza que vai, tristeza que vem…
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém.”

As palavras são volúveis, enganadoras e fáceis. Usadas agilmente, podem iludir tanto uma pessoa ao ponto de fazê-la ver o que não existe. Como um truque de mágica, uma ilusão, uma miragem. As palavras criam imagens e produzem uma fé tão forte que não há como não se deixar levar por elas. Ninguém consegue ficar indiferente a uma declaração de sentimentos, a não ser que as pessoas envolvidas e/ou o relacionamento estejam muito doentes. Palavras podem até mesmo criar sentimentos onde tudo estava seco, ou aniquilar tantos outros que estavam no auge em segundos. Elas podem reverter situações complicadas, e modificar o rumo de uma história… Só por serem ditas.

“Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer.”

No caso das declarações de amor, a coisa se complica e de torna deliciosa um pouco mais. Porque há quem prefira não dizer palavra alguma sem ter certeza do que sente, porque não pode jurar em falso. E por isso, se cala. Acontece que os sentimentos não podem ser certos. E um amor sem palavras de amor fica murcho… Fica sem cor.

“Porque tu me chegaste
Sem me dizer que vinhas
E tuas mãos foram minhas com calma
Porque foste em minh’alma
Como um amanhecer
Porque foste o que tinha de ser.”

Não existe jura falsa, declaração mal dita, mentira… Se estamos falando de amor. Qualquer escrita ou fala inconseqüente merece perdão se veio de um coração apaixonado. Todas as poesias, todas as frases bonitas, todos os impactos… Tudo é permitido quando se gosta demais de alguém. Quem é econômico com as palavras provavelmente é econômico nos sentimentos. Eu, perdulária convicta, sempre gostei muito de ouvir todas as declarações de amor a que tive direito, e de dizer outras tantas de todas as maneiras que conseguir. Mesmo quando sabia que não eram verdade empírica, as palavras de amor me acalmaram… Me deram confiança… Tocaram meu coração… E me fizeram sentir uma felicidade imensa. E foi isso que ficou dos homens que eu realmente amei… Que me amaram.

“Se você quiser a lua
Eu lhe digo: tome, é sua
Porque eu fiz a lua pra você
Se você quiser a estrela da manhã
Amanhã mesmo
Eu pego e mando pra você
Por você todas as flores
Exibiram novas cores
Tudo pura inveja de você.”

Quando um amor acaba, a dor é grande, mas o tempo se encarrega dela e de todas as lembranças, até que aquela pessoa vire apenas uma imagem distante. O tempo apaga sinais, deixa fotos amareladas, leva embora o gosto do beijo, oferece outros perfumes. O tempo faz a memória esquecer de endereços, de caminhos, de traços do rosto, de jeitos de corpo, até mesmo de fatos. Mas as palavras… Essas ficam. As cartas, os lembretes na capa dos livros, os milhares de “eu te amo” ditos no auge de uma emoção, o cartão que veio com o buquê de flores… Esses não dá pra esquecer.

“Eu não sei tocar, mas se você pedir
Eu toco violino fagote trombone saxofone.
Eu não sei cantar, mas se você pedir
Dou um beijo na lua, bebo mel himeto
Pra cantar melhor.
Se você pedir eu mato o papa, eu tomo cicuta
Eu faço tudo que você quiser.”

Sem palavras, as emoções ficam tímidas e fracas, até que se escondem e minguam, porque ninguém pode adivinhar o que vai na alma de outro alguém. Alguns diriam que momentos sem palavras são mais ricos, mas um coração romântico discordaria veementemente. As palavras potencializam as sensações gostosas. Quem não se sentiu muito mais desejado quando ouviu “eu te quero”… Quem não se sentiu pleno quando ouviu “vou te amar pra sempre”… Quem não se sentiu forte quando ouviu “você é especial”… Quem não se sentiu brilhante quando ouviu “você está linda”… Quem não se sentiu tomado quando ouviu “você é meu”… Quem não se sentiu rendido quando ouviu “eu te amo”, pode discordar.

“Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.”

Preto no branco, é tudo balela. Sempre é um tempo que ninguém nunca viu pra dizer que existe. Amor é uma coisa que ninguém sabe o que é direito pra dizer que ama. Ninguém é de ninguém. Ninguém ( pelo menos ninguém saudável ) morre por amor. Muitas vezes não somos bonitos, nem maravilhosos, nem especiais – somos apenas pessoas comuns. Mas mesmo assim, é bom ouvir palavras de amor. Elas não garantem que o amor dure pra sempre, e nem que as coisas sejam belas… Mas fazem com que o sentimento se torne maior… E inesquecível.

“E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

Ai, eu juro que tento controlar esses ímpetos sentimentalóides. Mas essa lua cheia não pede outra coisa a não ser romance. Então… Amém.

Trilha sonora e poética por Vinícius de Moraes

EXPEDIENTE
* Pessoas, prometo que assim que der dou notícias da professora… Ela mesma quer contar a vocês o que aconteceu de uns tempos pra cá, mas anda sem tempo. Ela agradece o interesse e o apoio. 🙂

Anúncios

SOBRE CRENÇAS E DESCRENÇAS

Listinhas! Ai, como eu adoro fazê-las.

5 COISAS QUE EU SEMPRE ACREDITEI E CONTINUO ACREDITANDO
* O melhor trabalho é aquele pelo qual você se apaixona.
* O Chaves é muito legal.
* No fim das contas, a gente acaba só se arrependendo do que não fez.
* Amar é tudo. E ponto final.
* Sem o apoio de alguém que nos ama, podemos até chegar a algum lugar, mas chegamos tão infelizes que não vale a pena nem ir.

5 COISAS QUE EU NÃO ACREDITAVA ANTES, E HOJE ACREDITO
* Algumas pessoas nunca vão melhorar, não importa o que aconteça – nem mesmo se você der sua vida por elas.
* Ganhar dinheiro é bem legal, uma das coisas mais importantes da vida.
* A impermanência das coisas é a única certeza da vida.
* “Se um problema tem solução, não se preocupe, pois tem solução. Se um problema não tem solução, não se preocupe, pois não tem solução mesmo.”
* Nunca diga que não vai fazer uma coisa de jeito nenhum. Ninguém se conhece direito o suficiente para dizer “nunca”.

5 COISAS QUE EU ACREDITAVA ANTES, E HOJE NÃO ACREDITO MAIS
* Existem partidos políticos bem intencionados, só precisam de uma chance no poder para mostrar como se faz um mundo mais justo.
* Todas as pessoas são essencialmente boas.
* O meu príncipe encantado vai chegar. Num cavalo branco, e tudo mais.
* Não tem como as coisas darem errado se uma pessoa for esforçada.
* A gente só ama de verdade uma vez na vida.

5 COISAS QUE EU DEVERIA ACREDITAR, MAS NÃO CONSIGO
* É preciso conter os gastos para ter uma vida financeira saudável.
* A inveja pode destruir a vida de duas pessoas – do invejoso e do invejado.
* Do que temos de melhor nasce o que temos de pior.
* Não é bom dirigir em alta velocidade e com o pé enfiado na embreagem o tempo todo.
* Se minha mãe diz que vai chover, vai chover. Vai MESMO.

EXPEDIENTE
* Tem uma porção de pessoas bacanas que visitam este espaço e são apenas leitores – não têm os seus blogs. Às vezes, essas pessoas deixam endereços de email, às vezes não, mas o fato é que algumas delas fazem comentários muito inteligentes e pertinentes. Muitas são super carinhosas e assíduas em suas visitas. Outras, passam aqui faz tempo e não comentam, mas de vez em quando deixam um email maravilhoso e animador, se apresentando e dizendo coisas sobre o blog que eu nem mereço ler, de tão boas que são. Quero deixar aqui o meu agradecimento a elas por todas as coisas boas que têm escrito nos comentários e nos emails. A minha alma, sempre sedenta de amizades e contatos agradáveis com as pessoas, agradece alegre tanta troca legal que o Mafalda Crescida me trouxe desde que nasceu… 🙂
* Lembra aquela professora da denúncia, da escola de madeira? Pois é, tive notícias dela… Esta semana ainda conto a vocês o que anda acontecendo por lá. Vocês nem vão acreditar. Hehe.

A DISTÂNCIA ENTRE OS MIOINHOS E PASÁRGADA

Eu gosto muito da poesia do Manuel Bandeira. Ela tem um eterno balançar entre a dureza da vida e a pureza da alma tomada pelos sentimentos mais fortes e febris. Em dias frios, como hoje, é bom ler poemas. E agora, enquanto estava pensando em escrever algo pra deixar aqui que explicasse exatamente o que eu sentia, foi nas palavras dele que eu encontrei a minha tradução. No fundo, o que eu queria era isso. Ir embora pra Pasárgada por uns tempos.

Não se trata de nenhuma atitude negativa, e muito menos de uma vontade real de sumir do mapa. É que tem momentos que a vida da gente forma um “mioinho”. Mioinho era o nome que a minha avó usava pra chamar aqueles tufinhos de lã enroscada que apareciam de vez em quando, enquanto ela fazia tricô. Minha avó era mestra em desembaraçar mioinhos. Dentro dos mioinhos, está um único fio, uniforme, contínuo. Só que esse fio se enrola em si mesmo de uma tal maneira, dá tantas voltas e fica tão complicado, que fica difícil saber onde ele começa, onde ele termina.

Hoje sentei na beirada da cama da minha avó, que hoje está doente e com um lado do corpo totalmente paralisado. Perguntei se ela se lembrava dos mioinhos. Ela me disse que sim. E eu perguntei como era possível ela desembaralhar tantos deles. Não existia um que ela não conseguia, mesmo os que tinham nós terríveis. Ela me lembrou de duas coisas importantes. Primeiro, que não se pode puxar com força, senão eles se embolam mais. E depois, que para fazer um mioinho desaparecer, é preciso muito tempo e muita calma para puxar o fio devagar, passar, desenroscar… Até que ele volte a ser um único fio desembaraçado… Como se fosse mágica. Mas não é mágica, não. É produto de muita paciência, muito esforço e muito tempo.

É isso que eu estou precisando para desembaraçar o meu mioinho: calma pra enxergar as coisas como elas são, tempo pra pensar e esforço, pra tomar decisões e fazer as coisas que preciso fazer. E aí, me lembrei de Pasárgada. Que lugar lindo… Justamente onde eu queria estar.

Já li muitas explicações acadêmicas sobre o que seria Pasárgada, cheia de nove-horas, interpretações difíceis e blá-blá-blá. Mas pra mim, Pasárgada é só isso: um lugar interior perfeito pra gente ir passar uns tempos quando quer desembaraçar mioinhos. Eu costumava ir pra Pasárgada antes. Só preciso lembrar o caminho.

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada