A DISTÂNCIA ENTRE OS MIOINHOS E PASÁRGADA

Eu gosto muito da poesia do Manuel Bandeira. Ela tem um eterno balançar entre a dureza da vida e a pureza da alma tomada pelos sentimentos mais fortes e febris. Em dias frios, como hoje, é bom ler poemas. E agora, enquanto estava pensando em escrever algo pra deixar aqui que explicasse exatamente o que eu sentia, foi nas palavras dele que eu encontrei a minha tradução. No fundo, o que eu queria era isso. Ir embora pra Pasárgada por uns tempos.

Não se trata de nenhuma atitude negativa, e muito menos de uma vontade real de sumir do mapa. É que tem momentos que a vida da gente forma um “mioinho”. Mioinho era o nome que a minha avó usava pra chamar aqueles tufinhos de lã enroscada que apareciam de vez em quando, enquanto ela fazia tricô. Minha avó era mestra em desembaraçar mioinhos. Dentro dos mioinhos, está um único fio, uniforme, contínuo. Só que esse fio se enrola em si mesmo de uma tal maneira, dá tantas voltas e fica tão complicado, que fica difícil saber onde ele começa, onde ele termina.

Hoje sentei na beirada da cama da minha avó, que hoje está doente e com um lado do corpo totalmente paralisado. Perguntei se ela se lembrava dos mioinhos. Ela me disse que sim. E eu perguntei como era possível ela desembaralhar tantos deles. Não existia um que ela não conseguia, mesmo os que tinham nós terríveis. Ela me lembrou de duas coisas importantes. Primeiro, que não se pode puxar com força, senão eles se embolam mais. E depois, que para fazer um mioinho desaparecer, é preciso muito tempo e muita calma para puxar o fio devagar, passar, desenroscar… Até que ele volte a ser um único fio desembaraçado… Como se fosse mágica. Mas não é mágica, não. É produto de muita paciência, muito esforço e muito tempo.

É isso que eu estou precisando para desembaraçar o meu mioinho: calma pra enxergar as coisas como elas são, tempo pra pensar e esforço, pra tomar decisões e fazer as coisas que preciso fazer. E aí, me lembrei de Pasárgada. Que lugar lindo… Justamente onde eu queria estar.

Já li muitas explicações acadêmicas sobre o que seria Pasárgada, cheia de nove-horas, interpretações difíceis e blá-blá-blá. Mas pra mim, Pasárgada é só isso: um lugar interior perfeito pra gente ir passar uns tempos quando quer desembaraçar mioinhos. Eu costumava ir pra Pasárgada antes. Só preciso lembrar o caminho.

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

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30 comentários sobre “A DISTÂNCIA ENTRE OS MIOINHOS E PASÁRGADA

  1. Poxa, que lindo texto…a sabedoria dos mais velho é de uma simplicidade tão boa…Parabéns pelo texto, pela reflexão e pelo ensinamento. E espero que a sua avó melhore o mais rápido possível. Abração pra ti e tudo de bom pra vcs duas!

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  2. Ai, flor, também precisava passar uma temporada nas termas de Passárgada, viu? A vida não tem sido fácil e as minhas avós não tricotavam, de modo que, do meu ponto de vista, os mioinhos são enigmas indecifráveis…

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  3. queria ter tempo para ler todas essas coisas tão gostosas que vc escreve aqui, mas não tenho computer(sou praticamente uma excluida digital) ascesso a internet na universidade(apenas 1 hora por vez).uma pena! te descobri a pouco tempo e agora sempre divido meu pouco tempo com seu blog. um bjo! tchau

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  4. Um lugar pra ir onde ninguém nem nada te incomodasse, onde tudo seria perfeito ou se não fosse nós os transformariamos. Queria ter um lugar assim onde tudo se acalmasse onde pudesse ouvir o pensamento e uma voz doce que dissesse a toda hora: “calma tudo vai passar” mais enquanto não acho esse lugar, vou conversando com umas pessoas, umas pessoinhas que chamamos de amigos, acho que se esse lugar existisse seria chamado de amigolândia, onde cada problema se transformaria em uma bela gargalhada e tudo acabasse com um grande pote de sorvete.

    Bjs pra você minha querida amiga, saudades…

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  5. Ai, Karina!

    Eu me sinto assim, mas essa ida pra Pasárgada eu costumo chamar de um encontro comigo mesma… Infelizmente também estou sem tempo pra esse encontro, pra essa viagem pra olhar por mim e pra mim… Mas que a gente às vezes precisa… Ah … Isso precisa!

    Lindo texto, sábia avó… Paciência e tempo são coisas que me faltam, então… o mioinho vai ficar por um tempo ainda…

    Beijinhos, querida amiga, continue a nos encantar com suas palavras, ok?

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  6. Caramba, que texto magnífico. Que linda sua avó, que linda vc.

    Vou te contar um segrêdo: sou capaz de desembaraçar mioinhos. Não só os de lã, mas também de correntinhas bem fininhas! Preciso lembrar-me disso frente a certas coisas que me acontecem no dia-a-dia.

    E vc sabe que no alto da minha pré-adolescência tive a visão concreta de como que seria Pasárgada? Provavelmente muita gente pensará: credo, que comparação. Mas é! LOST HORIZONT!

    Então, menina, q vc desembarece todos seus mioinhos e se torne amiga do rei, rápido!

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  7. Oi Karina! (Andei meio ausente… que absurdo!)

    Bom… e quem não tem mioinhos para desembaraçar? Quem não tem vontade de sair correndo para Pasárgada de vez em quando, não é mesmo?!

    Mas uma coisa só você tem: essa sensibilidade absurdamente impressionante de conseguir transcrever coisas tão singelas de uma forma tão profunda, clara e emocionante! Lindo texto!

    Beijo para vc!

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  8. Karina, vc me fez voltar no tempo. Lembro que minhas avos tambem tinham extrema habilidade para desembaracar o mioinho. Sera que as outras geraçoes eram mais pacientes do que nos ? // Bandeira, tambem quanto tempo nao o lia! Puxa como foi bom vir ate aqui. E se podemos ir a tantos lugares, por que nao a Pasargada ? Que em minha concepcao e um lugar onde preferencialmente a gente chega de trem, onde a casa nao tem cerca, em meio a um gramado lindo, atras corre o riacho, depois dele o pomar e muitos animais. La dentro, uma cozinha que e sala de estar, com um fogao queimando lenha para as panelas de barro e de ferro aquecer. Na varanda uma rede que embala a vista do bosque. E lá na frente, quase desaparecendo, outra casinha, onde mora uma caipirinha solteira, doidinha para amar. // Beijao Karina.

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  9. Oi Ka… hoje o meu beijo não será pra ti… mas sim para a tua vozinha. Cheghe bem perto dela, afague sua mão e dê-lhe um beijo quente e suave, cheio das energias positivas que estou mentalizando pra ela. E pra ti, nada? Nada disso: um cheiro no cangote!! Te adoro.

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  10. Lindo, lindo texto. É uma lástima, no entanto, viver em um país no qual a sabedoria e a experiência de pessoas como a sua avó é neglicenciada. Preciso buscar a Pasárgada exilada dentro de mim…

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  11. Descobri essa página hoje e adorei. Será que você não consegue encontrar Pasárgada num canto da casa, assim no silêncio do teu quarto? Bom, a minha eu encontro aí, com um livro na mão e nenhuma preocupação na cabeça. Parabéns pela página!

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  12. Odeio sentir vc triste assim, mas não me preocupo mais… vc é daquelas pessoas que sempre saem melhor do que entraram de uma crise, qqer que seja.

    Qdo vier essa tristeza, essa vontade de fugir… foge sim, se de um tempo e manda todo mundo esperar. E as pessoas esperam, pq vc é daquelas que realmente fazem diferença na vida de quem convive com vc… talvez as pessoas só precisem sentir a sua ausência pra te valorizar, como eu… que sinto mto a sua falta, miga… mas respeito o seu tempo e o seu sentimento.

    Se precisar de ajuda para desembaraçar o seu mioinho… sou estabanada, mas posso tentar! :o)))

    Bjo, eu te amo, te amo, te amo… Sorria.

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  13. karina, seu nome rima com carinho. É tanta delicadeza, mas tanta e tamanhã a delicadeza dos seus textos que tem dias que leio e fico sem palavras. Vc é uma escritora da alma e da vida. Tão plena!

    Ps: Perdoe meus desleixos! Eu não me esqueci da minha promessa. É que estou buscando minha Pássargada. Quase chegando lá…Enquanto isso, preparo brinquedos que façam sorrir, pode acreditar.

    Beijo.

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  14. Me identifico muito com o q vc escreve. Passo horas lendo o q vc escreve, geralmente o q eu gostaria de falar.Essa do mioinho foi demais…

    Moro no Mato Grosso do Sul.

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