PARA O MEU AMIGO MARCO

semear.gif

Marco, eu tenho assistido a tudo em silêncio. O silêncio de quem se decepciona profundamente com um grande amor, e precisa de um tempo para recuperar-se da dor, para pensar, para entender melhor o que houve. Sem pedras na mão, e também sem sorrisos ou flores. Só assistindo… E pensando.

Eu não acreditava no governo Lula, você sabe. Mas votei nele. E não me arrependo, não. Votar no Serra é que não dava. O PSDB é o partido mais perigoso que eu já vi. Você trabalha pra eles, Marco, eu também… Olha só o que eles estão fazendo. O Serra é o administrador mais nojento que eu já tive notícia. Milhões de vezes pior que a Marta, e é nos detalhes, nas sutilezas que a gente vê isso, e só pode ver quem está dentro da máquina. O povo diz, “ele foi exilado, ele no fundo é de esquerda, como o FHC e o Alckmin”. Que balela. Foram lá pro Chile tomar vinhozinho e discutir o futuro das esquerdas, enquanto outros ficaram aqui, lutando e morrendo. Pra mim, um tipo desses é muito pior que um Maluf da vida, que pelo menos mostra quem é. E é um homem como esse Serra que queríamos que estivesse no lugar do Lula? Nem. Por isso não me arrependo. Votei mesmo. E assumo.

Mas… Não era isso que eu esperava. Isso que está acontecendo superou todas as minhas expectativas negativas. E agora, Marco? Que é que a gente vai fazer? Em quem a gente vai votar? Você, como eu, não é do tipo que elege pessoas, mas partidos. E que partido podemos eleger a partir de hoje, hein?

Dia desses, você me liga. E fala comigo de um jeito terno, como se os anos não tivessem passado. Querida, estou com saudades. Vamos nos ver? Quero fazer um convite. Companheira, vamos participar da convenção do nosso partido?

Dei risada. Ah, Marco, que partido? Ele não é mais nosso. O abandonamos faz algum tempo, antes mesmo de o Lula ser eleito, lembra? E agora, estamos vendo que fizemos certo. Ele está afundando… Que bom que não estamos afundando junto com ele. Vamos pegar nosso salva-vidas e tentar boiar, se conseguirmos. Fazer como todo mundo faz. Dizer, fomos enganados, que gente horrível, olha só que desgraça é ser brasileiro. Vamos fazer como todo mundo que vai virar a casaca e rejeitar tudo que sempre pregou na vida, e vamos fazer de conta que não temos nada com essa gente. É melhor pra nós. Voltar pra quê?

Enquanto conversamos, uma nostalgia molhou os meus olhos aqui. Tenho certeza que molhou os seus olhos também. Você lembra? Lembra de quando o NOSSO partido era um emblema de todos os excluídos e marginalizados pelo poder econômico-social das elites capitalistas? Lembra de campanhas onde nós, militantes apaixonados, até comprávamos o material para fazer boca de urna… Tempo em que o nosso partido não contratava pessoas para o dia da eleição e não dependia de Caixa 2, nem de marqueteiros?

Lembra? Lembra quando o comitê eleitoral, aquele, na Avenida Angélica, era uma festa democrática? Lá, grupos de empresários, de sem-terra, de negros, crianças, índios, de professores, de evangélicos, de marxistas, de moradores de rua e de integrantes da luta antimanicomial e muitos outros representantes da sociedade discutiam semanalmente os pontos do programa de governo para reformulá-lo e, assim eleger o presidente que significaria a última esperança para o Brasil. Que orgulho tínhamos disso… Ah, Marco, a gente era tão jovem… A gente se iludia com tão pouco. Lá, ingenuamente, mantínhamos vivo o sonho de uma sociedade justa. Que partido era tão aberto e tão convicto de suas bases? Lembra que deputados, vereadores e candidatos tinham que apresentar atestados de idoneidade e capacidade para integrar o corpo do partido, e discutiam e prestavam contas mensalmente aos seus eleitores? Lembra?

Lembra do sentimento e das razões que moravam em nós… Lembra quem eram os homens e mulheres nos quais confiávamos? Para onde foi tudo isso?

Não, nós não fizemos certo. Deixamos nosso partido de lado na primeira derrapada, e ele acabou virando o que virou. Se hoje o PT está lá, e é essa maçã podre, é porque gente como eu e você o abandonamos. Um câncer cresceu dentro do partido. Um câncer chamado poder. E nós assistimos a tudo isso torcendo o nariz, mas sem fazer absolutamente nada. Nos tornamos os alienados que tanto criticávamos. Que triste isso, Marco… É por isso esse vazio. É por isso essa sensação de traição. Na verdade, como uma esposa traída, somos culpados por fechar os nossos olhos e não trabalhar pela manutenção dos nossos sonhos, achando que tudo se manteria sem esforço. A nossa dor é culpa disfarçada de revolta. Esquecemos que tudo tem um preço, e que tudo muda. E não podíamos ter esquecido.

E depois de desligar o telefone e bater um papo com o meu travesseiro, Marco, eu entendi o seu convite. É que você se tocou da verdade que, por preguiça, comodismo, egoísmo ou desilusão, eu não quis enxergar.

O Partido dos Trabalhadores não é só de obssessivos como José Dirceu e José Genoíno, que fazem tudo pela governabilidade e manutenção do poder – inclusive esquecer os ideais que quase morreram para defender em outros tempos, e principalmente esquecer o significado de uma palavra tão bonita e tão necessária para homens e mulheres públicos – decência.

O Partido dos Trabalhadores não é só de deslumbrados como Marta Suplicy, que em nome de uma gestão pseudo-democrática e igualitária, mostraram-se autoritários e inconsequentes no trato com o dinheiro público e um total descaso com o voto de pessoas como eu e você.

O Partido dos Trabalhadores não é só de alienados como Lula, que parou no tempo e não quer ver que a política e o governar é muito mais que um jogo, ou uma vitória pessoal. O partido não é dele, que mostra-se irresponsável e desesperado no momento que mais precisávamos que ele retomasse a paixão de antes com a maturidade que ele deveria ter hoje.

O Partido dos Trabalhadores não é só de oportunistas como João Paulo Cunha, Delúbio Soares e afins, que não entenderam que as pessoas, seus ideais e suas vidas não são simples números em uma planilha de negócios.

O Partido dos Trabalhadores não é só de capitalistas como Duda Mendonça, que falam e pensam a vida de milhões de eleitores brasileiros como quem mexe as peças de um jogo de xadrez.

O Partido dos Trabalhadores não é só de radicais reclamões como Heloísa Helena e dissidentes que foram para o PSTU, que não mostram a que vieram e guardam na manga apenas um discurso bonito sem o carimbo da realidade.

Não, Marco. O partido não é só deles.

O Partido dos Trabalhadores é de homens e mulheres honestos, que entendem que a política é uma vocação, um trabalho, e um trabalho que, mais que qualquer outro, tem que ser bem feito e ser levado com seriedade. O partido é da minoria de deputados, vereadores e senadores que não são picaretas. E, enquanto o mundo pega fogo, eles fazem questão de continuar trabalhando e dando a cara pra bater no Congresso e no Senado.

O Partido dos Trabalhadores é de todos os operários que o iniciaram junto com Lula, e que desde então construíram uma história digna de ser lembrada e que não pode simplesmente ser manchada por causa desses canalhas.

O Partido dos Trabalhadores é de todas as discussões em mesa de bar, em universidades, em prisões políticas e exílios. É de pessoas que tinham a coragem de não ficar em cima do muro e assumir suas posições com paixão e dignidade. É de gente comum, e não de estrelas avermelhadas ( antes de radicalismos, hoje de vergonha ).

O partido que eu amava, e quero voltar a amar, é de todas as facções sociais que continuam levantando cedo, lutando o dia todo contra a opressão e o descaso, e buscando uma saída pacífica e democrática para o Brasil. É de gente que, apesar de tudo, não desiste nunca, como diz aquela propaganda esquisita. O partido é dos trabalhadores de verdade.

O partido no qual eu votei a minha vida toda é a expressão dos meus ideais, não dos ideais dessa gente hipócrita e calhorda. É de Cristovam Buarque, do Suplicy, do Tarso Genro e de outros políticos que, até agora, provam que são gente de bem e estão tão perdidos quanto nós no meio desse tiroteio.

Marco, me diz: é justo abandonar o barco agora? É justo entregar uma história tão bonita, um punhado de sonhos e tudo isso que hoje é apenas uma memória emocionante de bandeija para aqueles que cuspiram na bandeira do PT pelas costas? Não, menino, não dá!

Para que a maturidade viva, é necessário que aquela crença ingênua de que tudo se resolveria magicamente morra, e seja enterrada. Já vimos que não é por aí. Olha só quanta caca jogaram no ventilador… E deve ter muito mais. Mas não vai adiantar engrossar a fila de quem vai ficar sentado no telhado vendo a lama afundar a própria casa reclamando, não. Temos que olhar as saídas, e reconstruir aquilo que é nosso.

Marco, o PT também é nosso. É nosso. Não vamos deixar que levem até isso de nós. Vamos sim, fazer a nossa parte pra expulsar quem não presta e recomeçar do zero, se for preciso. Não tínhamos medo de ser malhados, nem de trabalhar, nem de pensar e discurtir, nem de críticas direitosas ou ignorantes antes. Por que vamos ter agora?

Faz o seguinte: quando tiver a próxima convenção, você me convida. Eu vou. Ah, se vou. E tenho certeza que muitas outras pessoas de bem estarão lá também. É nelas que vamos nos concentrar.

Amigo, vamos voltar a ter a tal esperança. Não em nenhum outro salvador da pátria… Mas em nós mesmos e no que acreditamos.

Obrigada pelo telefonema… E por tudo o mais.

Anúncios

BOBEIRINHA

meia.jpg
A MEIA
A meia é uma coisa engraçada. Talvez porque ela não seja apenas uma coisa, e sim várias coisas. Ou meia coisa, conforme o caso.
Dizem, por exemplo, que meia pode ser o nome chique do número seis, principalmente se a gente estiver ditando números para uma pessoa e não quiser que o seis se confunda com o três. Então a gente diz “dois-nove-meia-três-cinco-oito-sete”. Talvez tamanho luxo reservado apenas a um número se deva ao fato de que seis é meia dúzia. Mas aí já é outro meia.
Meia também é uma coisa que é quase aquilo, mas não é aquilo tudo. Por exemplo, quando não é frio nem calor, é meia-estação. Quando não se é nem muito jovem, nem muito velho, se está na meia-idade. Quando não está nem claro nem escuro, se está num ambiente à meia-luz. Quando não se fala nem forte, nem fraco, se fala à meia-voz. Dizem, inclusive, que os meios termos como esses costumam ser mais saudáveis, mais envolventes e mais tranqüilos. Nem lá, nem cá… No meio do caminho.
E por falar em meio do caminho, essa coisa de meia também pode ser o ponto central entre dois pontos distantes, entende? Talvez você não esteja entendendo, porque esse texto tende a ficar meio confuso, como ficam todos os textos nos quais um assunto se repete. Mas então, o ponto central entre dois pontos distantes. Nesse caso, meia quer dizer metade. Existem metades muito saborosas, como, por exemplo, quando você come meia maçã, ou paga meia-entrada no cinema. Outras metades podem ser belas e meio tristes, quando você vê a meia-lua no céu, minguando; ou mesmo alegres, quando você vê a mesma meia-lua crescendo para se tornar cheia. Podem ser metades táticas, como aquele jogador meia-direita que cobre uma parte específica do campo de futebol ( para que o outro time não faça a festa inteira ). Metades inspiradoras, quando você olha no relógio e deu meia-noite – e você pensa que ainda tem um dia inteirinho pela frente pra fazer o que quiser. Ou então metades familiares, quando se tem uma meia-irmã – que nem por isso precisa ser meia amiga.
Tem também o meia que é ponto de tricô. Apesar de chamar meia, ele faz um ponto inteiro pelo avesso. Afinal, o direito é só meio lado da coisa.
Meia também pode ser peça de vestuário, aquela que, apesar de viver pisoteada e esquecida, é fundamental. Meia é um treco meio pessoal, que nem calcinha, cueca e escova de dente, principalmente o usuário da meia tiver chulé. Pensando em chulé, não dá pra entender como tem gente que usa meia pra fazer declaração de amor e pedir pra ser a meia do sapatinho do ser amado. Na realidade, precisa amar muito pra pedir pra ser a meia de um pé com chulé. Nessa área de meias, tem muitos tipos de meia. Meia calça ( que tem esse nome não por que cobre apenas uma perna e a outra não, mas sim porque é uma meia que queria ser calça ), meia-soquete, meia de um quarto e meia de sete oitavos. Aliás, como uma coisa pode ser meia e ser um quarto ao mesmo tempo? Ah, que bobagem, deixa isso pra lá. Importante é saber que meia é meia e acabou.