GRANDES LIÇÕES DA NATUREZA PARTE I – A METAMORFOSE DAS BORBOLETAS

Inventamos, minha parceira Adriana e eu, de estudar os bichos de jardim com nossos alunos ( para quem não sabe, sou professora e trabalho com crianças de 5 anos ). Além de montar um terrário, estamos pesquisando os jardins da própria escola, uma unidade do SESI que também é clube. Os jardins de lá são lindos e enormes. E olhando daqui e dali, achamos, entre outros bichinhos, muitos casulos de borboletas. Aprender sobre esses bichinhos está sendo um grande aprendizado para minha vida. Penso que quando a gente não se entende mais em pensamentos e práticas demasiadamente humanas, resta lembrar que somos apenas parte da natureza, e que ela, a natureza, explica tudo. Basta olhar.


Os pequenos pesquisadores caçando casulos debaixo dos bancos

A borboleta, invertebrado da classe dos lepdópteros, deve ter surgido a cerca de 70 milhões de anos atrás. É um bichinho que causa grande fascínio por sua capacidade de transformação. Depois de se reconhecerem pelas cores e formatos das asas, machos e fêmeas flertam, cruzam, e a fêmea deposita seus ovos em uma folha, deixando-os lá e indo borboletear em outros cantos por aí. Se as condições climáticas estiverem favoráveis, a larva ( lagarta ) vai sair do ovo. Senão, ela espera. E espera, espera, espera… Até conseguir nascer. Isso é uma coisa interessante para se aprender com os embriões de borboletas – a espera e a sensibilidade às condições do ambiente. Embrião apressado é lagarta morta.

E quando nasce, a lagarta nasce voraz. Devora a própria casca do ovo, e é capaz de comer uma planta com o triplo de seu tamanho em poucos minutos. Talvez porque a lagartinha, em sua sábia programação biológica, sabe que a maior responsabilidade de ser lagarta é a de extrair do ambiente o máximo que conseguir guardar em si mesma, para que consiga ficar forte depois. A vida da lagarta, que pode durar de meses até um ano, é andar por aíe se alimentar. Como acontece com todos os animais, ela está sujeita ao ataque de predadores. Por isso, ela guarda em si uma substância ácida e fedida que pode queimar, desagradar e afungentar os bichos que tentarem devorá-la. E não hesita em usá-la quando necessário. Espertinha, essa menina.

Durante essa fase, a lagarta troca de pele várias vezes. Imagina o que aconteceria se ela resistisse em abandonar a velha pele… Iria explodir apertada dentro de uma casca que já não lhe serve mais. É que as lagartas, como agente, crescem muito. E quando a gente cresce, deixa pra trás um pedaço de si mesma, para poder ganhar novas formas e cumprir o ciclo da vida. A lagarta, mais uma vez espertinha, não perde tempo quando está de casca nova. Começa a comer mais e mais, até crescer e ficar enorme, forte, gordinha e pronta pra virar borboleta.


Lagarta, já grande, se arrastando embaixo do banco, numa foto horrorosamente desfocada

Fiquei pensando, como a lagarta sabe que é hora de se pendurar, tecer alguns fios de seda e começar a montar um casulo? Será que ela escuta um sinal, sente alguma dor, tem alguma alucinação?


Casulo de borboleta, também chamado pupa ou crisálida, em fase inicial de formação

O fato é que, na hora certa, nem antes nem depois, ela procura um lugar seguro, muito seguro para iniciar seu processo de reclusão. Nesse momento, ela perde todas as pernas, e fica incapacitada de andar. Troca de pele uma última vez, enquanto vai tecendo seus fios. Alguns lepdópteros se enterram, ou constróem uma espécie de casinha com gravetos e fios. E pronto: ela se fecha lá dentro, e vira uma pupa ( ou crisálida, ou casulo ).

Lá dentro, nem eu e nem as crianças conseguimos descobrir direito o que acontece. Tivemos algumas informações vagas, mas saber direitinho o que acontece, não conseguimos não. Talvez porque não seja mesmo da nossa conta. Se a lagarta se fecha em pupa, é porque quer ficar sozinha e isolada do mundo, em total repouso, trocando seus tecidos e se preparado para virar uma outra coisa, totalmente diferente da lagarta. E é uma coisa que ela só pode fazer sozinha, quieta e em segredo.


Casulos de todos os tipos abrigados debaixo de um quiosque

As crianças me perguntaram se ela sente dor enquanto se transforma em borboleta. Não achei a informação correta, mas respondi a elas o que sabia: todo processo de transformação costuma ser dolorido, e quanto maior a mudança, maior a dor e maior o prazer depois de terminado. E olha que não existe mudança maior do que, de uma lagarta, um bicho rastejante, curioso, lento e pesado, virar uma borboleta, tão leve, tão bonita, tão… Tão.


Marimbondos que, junto com morcegos e pássaros, são um dos piores inimigos dos casulos de borboletas

O lugar onde fica o casulo é fundamental para a sobrevivência da borboleta. Lá, a borboleta vai ficar reclusa de uma semana a um mês; portanto, ele tem que estar bem protegido. Em nossas andanças, vimos um casulo ser atacado por um bando de marimbondos. As crianças ficaram apreensivas, mas, depois de investir ferozmente contra o casulo, eles foram embora. Não conseguiram derrubá-lo nem penetrá-lo. Aíque fomos entender como realmente é importante que a lagarta espere o tempo que for necessário até poder se fechar em pupa. Tudo em sua hora… Sem ansiedade nem pressa.


Crianças observando um casulo aberto de borboleta

Não tivemos oportunidade de observar um casulo abrindo, e nem os momentos iniciais da borboleta adulta. Mas lemos e aprendemos que, quando finalmente está pronta para sair, ela vai abrindo o casulo devagar. Este esforço de abrir o casulo éfundamental para que ela se fortaleça o suficiente para poder voar depois. Ela sai com as asas molhadas e envoltas em um líquido gosmento. Por isso, precisam ficar no sol secando, esticando as asas. Lemos que o esforço que elas fazem para esticar as asas é enorme, mas necessário. É que nascer, ou renascer, é mesmo difícil.

Depois… As borboletas começam a voar. São bichos bonitos, lindos, uma pintura em forma de bicho. Causam encantamento imediato. Dizem algumas crendices que onde a borboleta pousa, leva sorte e sorrisos. Ao contrário de suas irmãs mariposas, elas têm hábitos diurnos e amam as cores e sabores das flores. Por suas antenas, conseguem sentir cheiros e gostos. Ajudam a levar material genético de uma flor para outra, e enfeitam qualquer jardim.

A principal razão da vida da borboleta adulta é se reproduzir para reiniciar o ciclo – coisa que a lagarta não pode fazer. E, olha sóque interessante: a maioria das borboletas, depois de passar cerca de um ano ( em alguns casos, bem mais que isso ) se transformando, não vive muito mais que duas semanas. Duas semaninhas só. Algumas duram apenas três dias. Pouquíssimas espécies conseguem sobreviver por uns seis meses… Mas não muito mais que isso.


Claro que as crianças ficam loucas quando vêem borboletas, saem correndo desesperadas atrás delas e espantam as coitadas, e por isso fica difícil fotografá-las. Mas fica uma aí de presente.

Essa última informação deixou as crianças desoladas. É difícil para nós, seres humanos perseguidores de ideais de beleza, leveza e felicidade parecidos com as asas das borboletas adultas, compreender porque temos que ficar tanto tempo lutando com nosso crescimento para depois aproveitar tão pouco a vida. Disse a elas o que pensava – errados somos nós, certa é a natureza. Aproveita-se a vida sempre, inclusive nas fases de lagartas e isolamento. Tudo é uma questão de ponto de vista.

A verdade é que estudar as borboletas me fez ganhar uma simpatia tremenda por esse bicho que antes era insignificante para mim – a lagarta. É que na verdade, o grande barato da coisa não éo final, mas o durante. O mais divertido, o que mais ensina, o que é mais fascinante não é ver uma borboleta voando, mas acompanhar todas as mudanças pela qual ela passa para chegar até lá. Todo processo de transformação envolve alimentar-se; envolve se sensibilizar; envolve cautela e percepção do ambiente; envolve lidar com pequenas mortes e mudanças; envolve tomar a decisão de se proteger; envolve silêncio, reclusão, paciência; envolve espera e envolve esforço. Sem isso tudo, o prazer de ser borboleta não se concretiza.

Olhar um casulo aberto é triste e feliz ao mesmo tempo. Sei lá, dá uma sensação de missão cumprida e sonho acabado. Mas é só olhar do lado pra ver uma outra largartinha começando tudo de novo. E aí a gente se dáconta da maior beleza de todas.

“Na natureza, as histórias são assim: voltam pro começo quando chegam no fim.”

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