PENSAMENTOS VESPERTINOS DE UMA TARDE CHUVOSA DE VERÃO

* A FRASE
Outro dia estava dirigindo em uma rua congestionada, em Osasco.
Tenho o estranho hábito de ficar lendo as placas de carros e caminhões que estão na frente quando estou parada em um cruzamento ou presa no trânsito. Arranjos de letras e números, cidades distantes, gente furando o rodízio, adesivos esquisitos… E principalmente as frases de pára-choque de caminhão.
E lá, em uma dessas placas, estava escrito, bem grande:
“VIVO PORQUE INSISTO”
Na hora, achei a frase interessante. Dei um jeito de passar na frente do caminhão para ver a cara do motorista. Parecia cansado, mas estava cantando. Fui embora, pensando nele. Porque ele escolhia insistir e não desistir? Afinal, nem sempre a vida vale a pena. Dependendo do caso, quase nunca vale. Mas ele insistia. E ainda pintava uma frase daquelas cheia de florzinhas em volta para dizer a todos que está vivo. E insistindo.
Pensei muitas vezes nessa frase e naquele motorista desde então. E concluí que a frase não é apenas interessante, mas é genial. Não há outro jeito de viver a não ser insistindo. A insistência é a prova definitiva da esperança.
E a gente vive porque insiste mesmo. Apesar das desilusões, das decepções. Apesar dos políticos, dos patrões, da pilantragem, da violência. Apesar da falta de beleza, de consciência, de sensibilidade. Apesar de todos os sonhos que são jogados fora. Apesar da falta de amor. Apesar da falta de grana, do excesso de dívidas, da dificuldade constante. Apesar dos tropeções, dos tombos, e de tudo e de todos… Ainda assim a gente vive. Porque insiste.
E isso é maravilhoso.

* DECISÃO
Há um tempo para sonhar. Outro para querer. Também há o tempo para planejar. Há um tempo para lutar. Um tempo para ganhar, e outro para perder. Um tempo para desistir, e fechar os olhos. Há um tempo para evitar a vida. E um tempo para amá-la desesperadamente. Há um tempo de descanso, de negação, de distância. Há tempo de falta e de saudade. E há um tempo para acordar e recomeçar. E em todos esses tempos, eu.

Eu, com meu coração incansável batendo. Eu, com meus desejos hora cansados, hora vivos como bichinhos de luz em volta da lâmpada. Eu, com meus esgotamentos e com uma vontade imensa de fechar os olhos e só abrir depois de muito, muito tempo. Eu, com minha inabalável e calada esperança.

Não sei se estive deprimida, triste, cansada, se estive doente, se estive com raiva ou com medo. Não sei. Não sei o que houve comigo que deixei a vida ficar sem paixão, sem gosto. Não sei onde foi que me perdi daquilo que sempre soube ser o meu caminho, o meu destino – morrer de tanto amar. Amar o que quero, amar quem eu quero, amar o que faço, amar do jeito que eu quero. Não sei onde foi que esqueci quem eu sou, e me escondi de todos, inclusive de mim mesma. Não sei onde aprendi a ser covarde e fria. Não sei. E não preciso mais saber.

Só sei que decidi que vou voltar a sorrir. Isso, mais que uma necessidade, é uma escolha. Mais que um desejo… É uma decisão. Pode levar algum tempo, pode custar algumas coisas, pode valer a segurança e tranquilidade de certos relacionamentos. Mas vou voltar a sorrir como antes. E foi preciso apenas um pouco de descanso para que eu descobrisse a falta que me fazem os meus sorrisos… E como eu anseio vê-los de volta no espelho. Foi o Caetano que disse, e eu adoro cantar – “respeito muito minhas lágrimas… Mas ainda mais minha risada.”

* O MAR
É impressionante como a linha do horizonte parece tranquila e infinita quando estamos olhando o mar. O desenho geométrico da linha do mar encontrando o céu, a mistura perfeita de cores e a distância do movimento das ondas quebrando na praia dão a impressão de que nada, nada pode ser muito ruim se uma imagem como aquela existe de verdade. À tardezinha, um bando de gente desacompanhada e pensativa pára pra se sentar em frente ao mar e ficar olhando o horizonte. Finalmente eu entendi o que eles tanto olhavam.
A cor do mar também é uma coisa interessante. Dependendo da distância, o mar pode ser verde, pode ser cinza, marrom, azul escuro, azul clarinho ou transparente. O mar também pode ser vermelho ou amarelo, conforme a cor do sol. A temperatura da água varia conforme a hora. De manhã, ela é gelada. De noite, morna. De madrugada, é da temperatura do ar. O barulho das ondas na praia vai longe e chega até dentro do quarto, não importa onde ele seja, quando finalmente todos se aquietam e fazem silêncio.
Nada pode ser tão lindo, tão inconstante e tão cheio de mistérios como o mar.
Eu nunca gostei daquele agito insano e esquisito que acontece na praia nos meses de verão. Mas nunca o mar foi tão lindo e nunca ele me chamou com tanta força pra vida quanto nos dias em que fui encontrá-lo um dia desses. Tanta beleza encheu os meus olhos… E o meu coração.

* DICA LITERÁRIA
O CAÇADOR DE PIPAS” é o livro das minhas férias. Não que tenha demorado tanto para lê-lo – bastou apenas um dia e meio. Percorri as 365 páginas sem perceber o tempo passar. Gostei do livro não apenas porque ele me ensinou coisas sobre a cultura afegã, nem só porque ele é tecnicamente envolvente e bem escrito. Gostei porque ele me lembrou como é dura, sofrida e gratificante a tarefa de ser uma pessoa de verdade.
A história é simples. Um escritor muçulmano, Amir, morador dos Estados Unidos, retorna ao passado e ao Afeganistão, ansioso por acertar contas consigo mesmo e com um passado que ele preferiu esquecer, mas não pôde. Para isso, revisita seu relacionamento com seu país, sua religião, seu pai, a mãe que ele não conheceu e principalmente seu amigo de infância, Hassan, com quem ele tem uma dívida que vale a paz de uma vida inteira. Essa comovente viagem ao passado revela muito sobre quem ele é, e muda totalmente o seu futuro.
O que há de bonito no livro é a sensibilidade e a emoção que transpira em cada página. Como se estivesse vendo um filme que me fazia chorar a cada reviravolta, fui levada a um encontro com o questionamento de vida de um homem – e através dele, a um encontro comigo mesma e com o que faz de alguém ser o verdadeiro herói de sua própria história. Lindo demais.

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FRAGMENTOS DE FÉRIAS DE VERÃO

Nem me lembro qual foi a última vez em que fiz listinhas. Aliás, nem me lembro quais foram as últimas vezes em que fiz coisas que eu realmente gosto de fazer. Minhas tão sonhadas, merecidas e esperadas férias mereciam uma lista bem caprichada.
Ei-la!

COISAS ADORÁVEIS QUE ACONTECEM DURANTE AS FÉRIAS DE VERÃO

* Ir dormir às 3 da manhã em plena segunda-feira.

* Desligar o despertador da tomada.

* Organizar os armários e jogar muitos sacos de lixo com coisas velhas fora.

* Montar um quebra-cabeça de 3000 peças.

* Dar uma voltinha no parque do Ibirapuera com amigos queridos em plena tarde de quarta-feira.

* Ter todo o tempo do mundo para tomar café da manhã com calma.

* Ler historinhas de lobo mau pra afilhada.

* Ouvir e registrar as histórias da minha avó.

* Fazer cartõezinhos apaixonados pro namorado.

* Parar pra mandar e-mails e visitar blogs interessantes.

* Arrumar as fotos da família em novos e caprichados álbuns.

* Ir almoçar e jantar no restaurante chinês mais barato, tranquilo e gostoso da cidade no meio da semana.

* Inaugurar a agenda nova, que traz uma surpresa maravilhosa a cada dia. ( DUVIDO que alguém tenha uma agenda mais linda que a minha. )

* Olhar o mar. Longa e apaixonadamente.

* Tomar muito sorvete.

* Passar o dia na preguiça.

* Não ter que encarar tanto trânsito dentro de São Paulo.

* Passar um tempo totalmente sozinha.

* Fazer muitos quadros com aquarela, giz pastel e carvão.

* Andar debaixo da chuva grossa no fim da tarde.

* Pegar sessão da tarde no cinema.

* Ir visitar e encontrar amigos e parentes queridíssimos.

* Assistir o Jack Bauer explodir todos os terroristas.

* Ter tempo pra conversar com minha mãe e meu irmão.

* Passar uma tarde na Pinacoteca.

* Ter tempo pra pensar na vida.


COISAS DETESTÁVEIS QUE ACONTECEM DURANTE AS FÉRIAS DE VERÃO

* Resolver pendências de banco, oficina de carro, sindicato, documentação disso e daquilo, etc.

* Passar calor até suar. Eca.

* Ter que aguentar a praia cheia de gente e animais de estimação.

* Pegar trânsito na estrada.

* Aguentar mosquitos, baratas e pernilongos saindo de todos os buracos possíveis pra incomodar.

* Pagar IPVA e as contas altíssimas de cartão de crédito do natal.

* Aguentar as chuvas grossas do fim da tarde.

* Observar os homens no cio competindo pra ver quem passa as cantadas mais podres do mundo.

* Ouvir todo mundo comentar sobre a porcaria do Big Brother Brasil.

* Ouvir e ver aquela música de carnaval da Globo.

* Comercial de cerveja.

* Resolver pendências de médicos e exames. ECAAAAAAAAAAAAA.

* Ter tempo pra pensar na vida.


Acho que as férias só não são mais gostosas porque um dia acabam… Chuif.