REEDIÇÃO

Logo que comecei a escrever o Mafalda Crescida, ainda no Blogger, criei também um outro blog alternativo. Ele se chamava “Canções de Amor“. A idéia era fazer alguns posts inspirados por canções que eu (des)gostava.

Como várias coisas que eu começo, não dei conta de continuá-lo, e aos poucos ele foi ficando esquecido. Lembrei dele sei lá por que raios, e fui lá xeretar ver se havia alguma coisa que vale a pena trazer pra cá antes que alguém o delete completamente da rede. O mais legal que encontrei por lá deixo aqui.

***
TIMONEIRO


Timoneiro
(Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho)

Não sou eu quem me navega,
Quem me navega é o mar.
Não sou eu quem me navega,
Quem me navega é o mar.
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar…
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar…

E quanto mais remo mais rezo,
Pra nunca mais se acabar
Essa viagem que faz
O mar em torno do mar.
Meu velho um dia falou,
Com seu jeito de avisar:
– Olha, o mar não tem cabelos
Que a gente possa agarrar…

Não sou eu quem me navega,
Quem me navega é o mar.
Não sou eu quem me navega,
Quem me navega é o mar.
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar…
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar…

Timoneiro nunca fui,
Que eu não sou de velejar.
O leme da minha vida
Deus é quem faz governar.
E quando alguém me pergunta
Como se faz pra nadar,
Explico que eu não navego –
Quem me navega é o mar.

Não sou eu quem me navega,
Quem me navega é o mar.
Não sou eu quem me navega,
Quem me navega é o mar.
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar…
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar…

A rede do meu destino
Parece a de um pescador-
Quando retorna vazia,
Vem carregada de dor.
Vivo num redemoinho,
Deus bem sabe o que Ele faz.
A onda que me carrega,
Ela mesma é quem me traz.

Não sou eu quem me navega,
Quem me navega é o mar.
Não sou eu quem me navega,
Quem me navega é o mar.
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar…
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar…

Cantada por Paulinho da Viola, no disco “Bebadosamba” – faixa 2

Há quem acredite em destino, e quem descreia totalmente dele. Há quem queira saber do seu futuro, e há quem viva um dia de cada vez. Há quem tome decisões, e há quem deixe que os outros decidam em seu lugar. Há quem delegue os seus dias de vida a uma força superior, há quem não aceite conselhos. Mas não há quem tenha razão. Quando o assunto é a vida e as coisas que ( não ) acontecem nela, todo mundo sente e pensa, mas ninguém sabe, ninguém prova.

A vida tem um movimento estranho. Hora, parece toda sua, parece que está em suas mãos, e que tudo é decidido e acontecido lance a lance, minuto a minuto, dia a dia, e cada lance provoca o outro, e causa outro, e mais outro, estrategicamente, como num jogo de xadrez. Hora, parece que nunca lhe pertenceu, apenas lhe foi emprestada, como se o sentido de tudo fosse viver um papel que foi escrito por alguém e, por mais que se faça, a história já está marcada, e nada resta a fazer senão a sua parte, sem resistir – vida de personagem. Personagem que só existe para cumprir as idéias do autor.

Um objetivo é pensado, batalhado, construído passo a passo. Usa-se inteligência, planejamento, esforço, vontade. E, sem que se espere, sem que se possa impedir, sem que se detenha… Um cisco de fato acontece, e muda todo o curso das coisas. E nessas horas, quem fez tanto sente-se impotente e vencido pelo acaso, pelo imponderável.

Uma vida de espera, confiando na sorte, nas oportunidades, nas coincidências. Gente que explica tudo pela vontade de Deus, pela força do destino, pela sorte. Gente que abre o caminho para todas as conspirações do universo, mas, ainda assim, nada acontece. E de repente, uma decisão, um ato consciente, uma explosão pessoal, e tudo se dá perfeitamente. E nessas horas, quem sempre creu que o destino é quem dá e quem tira, entende que a vida é feita pelas mãos de quem vive, e nada mais.

O esforço e a sorte. O acaso e a decisão. A inteligência e a intuição. O mar e o marinheiro. E ninguém sabe quem navega ou é navegado. Há mistérios. E há trabalho. Às vezes, vence o rio. Às vezes, a canoa. E a magia da vida acontecendo não está nem em um, nem em outra, mas entre eles.

Não sei se o Paulinho tem razão. Talvez, nunca haja rede cheia se não se correr o risco de atirá-la ao mar. Quem não espera muito, não tem muito com que se decepcionar, e isso não é senão o medo e a acomodação.

Mas também não sei se ele não tem razão. Às vezes, o destino é muito, muito mais forte que qualquer intenção, que qualquer trabalho. E a impressão que dá é que o leme da vida não está mesmo na mão de quem vive, e não há nada a fazer.

Já ouvi que o destino vai até a metade do caminho. E o resto fica conosco. Talvez seja isso que a vida faça. Carrega, como nem fosse levar… E vamos pra onde der pra ir, pois se não tentarmos, não vamos pra lugar algum. E quem aprende essa verdade, talvez navegue mais fácil pela vida. Mas só talvez.

“Descemos de cambulhada
o rolar na vida, ao léu:
o destino é uma enxurrada,
nós, um barco de papel. . .”

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