VAMOS NOS PERMITIR

Ao menos de vez em quando, ao menos um dia ou outro, ao menos agora, ao menos em um dia de páscoa, tão propício a mudanças e renascimentos… Vamos nos permitir.

Vamos nos permitir não procurar corresponder o tempo todo ao que esperam de nós, não tentando ser boa filha, bom marido, bom empregado, bom cidadão, boa pessoa, boa mãe em tempo integral – aceitando os escorregões com bom humor, humildade e paciência. Porque ninguém é perfeito, nem tem que ser, nem consegue ser. Nem mesmo você.

Vamos nos permitir sonhar com coisas muito legais, divertidas, doidas e caras para nós, ainda que sejam utópicas ou até mesmo impossíveis. Porque tudo nessa vida é desejo. E também porque a vida dá muitas, muitas e muitas voltas, nos surpreendendo a cada minuto.

Vamos nos permitir não falar o que não estamos com vontade de falar, não ir a lugares que não queremos ir, não comprar o que não queremos comprar, não ler o que não queremos ler, não fazer o que não queremos fazer só porque alguém acha que é o correto ou o melhor pra nós. Porque não temos que nos contrariar tanto – as outras pessoas já se encarregam disso por nós. E também porque “a vida é muito curta para ser pequena”.

Vamos nos permitir faltar um dia no trabalho sem motivo, só pra dormir um pouco a mais, almoçar com calma, encontrar alguém querido ou passear de bobeira no começo da tarde. Porque, no fim das contas, o trabalho é um meio de facilitar a nossa vida, e não de tomá-la de nós.

Vamos nos permitir não deixar que abusem de nós – em família, entre amigos, no trabalho, na sociedade – sem que esbocemos qualquer reação. Porque ninguém respeita quem não respeita a si mesmo.

Vamos nos permitir fazer da organização, da ordem, do controle e das obrigações nossos aliados – não nossos carcereiros. Porque tudo que é fechado demais, sufoca.

Vamos nos permitir dizer “eu te amo” e fazer loucuras de amor – sem medo de ser perdulário com as palavras, sem medo de se comprometer demais, sem medo de ser mal interpretado, sem medo de iludir alguém. Porque o amor é esfomeado e glutão; e não se sustenta só com o que é invisível, impapável ou inaudível.

Vamos nos permitir não dar atenção para as pessoas chatas, por mais melodramáticas, egoístas e coitadas que elas pareçam. Porque é muito melhor quando não há insetos em volta da lâmpada.

Vamos nos permitir comer, gastar, transar e sorrir sem culpa, sem medo, sem tanta dificuldade e sem tanta teorização. Porque tudo que é natural é mais calmo e mais bonito.

Vamos nos permitir não saber – não saber do certo, não saber o que fazer, não saber pra onde ir. Porque nem sempre não saber onde se está indo significa estar perdido.

Vamos nos permitir acreditar em coisas como ética, decência, compromisso, respeito, integridade e paz. Porque as pessoas que não acreditam em nada disso são a minoria – embora tenham maior destaque. E também porque a vida sem esperança é perda de tempo.

Vamos nos permitir gostar de nós mesmos como somos – com quilos a mais ou a menos, com narizes tortos, com manias esquisitas, com cabelos rebeldes, com cores, cheiros e sabores estranhos. Porque a melhor coisa que alguém pode aprender a fazer na vida é rir de si mesmo – e para si mesmo.

Vamos nos permitir cuidar menos dos outros e mais de nós mesmos. Porque, no fim, é isso – ninguém tem o poder de mudar o caminho e a postura de vida de ninguém. Só podemos fazer isso por nós mesmos… E olhe lá.

Vamos nos permitir chutar o pau da barraca quando algumas situações ficam pesadas demais. Porque ninguém consegue carregar o insustentável.

Vamos nos permitir pedir ajuda para as pessoas que realmente gostam de nós quando isso for necessário. Porque só é forte quem consegue cair… E levantar.

Vamos nos permitir dizer não. E vamos nos permitir dizer sim. Porque não. E porque sim.

Vamos nos permitir mudar de idéia quantas vezes for preciso, e não ser donos da verdade. Porque a verdade nem existe de verdade.

Vamos nos permitir segurar bem forte o leme da nossa vida e ( não ) tomar decisões importantes. Porque tudo que é fraco demais, o vento leva – sabe-se lá Deus pra onde.

Vamos nos permitir experimentar a liberdade, ainda que ela seja apenas uma ilusão. Porque a busca por um espírito livre é o motivo de cada ato de respiração.

Vamos nos permitir escrever e/ou ler textos de auto-ajuda meio babacas como este. Porque, às vezes, as coisas óbvias são as mais difíceis de serem ditas e as mais fáceis de serem esquecidas.

Vamos nos permitir ouvir e cantar bem alto músicas do Lulu Santos. Porque “as canções mais tolas tendo seus defeitos, sabem diagnosticar o que vai no peito”.

“Hoje o tempo voa, amor…
Escorre pelas mãos…
Mesmo sem se sentir.
E não há tempo que volte, amor…
Vamos viver tudo que há pra viver –
Vamos nos permitir…”

Anúncios