A MÃE-LUA


Eu gosto de datas. Todo mundo que já passou por aqui com alguma frequência sabe disso. Me dá vontade de escrever sempre que tem alguma data afetiva rolando por aí – dia da mulher, do amigo, dos namorados, dos professores, das crianças, natal, ano novo, dia dos pais… Dia das mães.

Dia das mães é especial. Sempre me lembro das diversas mães que eu já tive na vida. Das incríveis e surpreendentes mães que eu conheço. Das pessoas que não tiveram ou não têm mais mãe. De como é difícil e emocionante uma relação tão doida e intensa como a de uma mãe e um filho. Da mãe que eu um dia vou ser.

Jaci, é o nome da minha mãe. Em tupi, Jaci significa Lua. Noturna, misteriosa, encantadora, brilhante e mutante Lua.

Nunca gostei do Sol. A claridade do dia me parece invasiva demais, quente demais, óbvia demais. O Sol é tão quente, tão gigante, tão ardente, se faz tão necessário que não posso sequer olhar diretamente para ele. Mas a Lua sempre me aprisionou em sua beleza e posição astronômica. É fácil para uma gigantesca estrela de gás incandescente iluminar e aquecer um minúsculo planetinha frio, sem luz e dependente, e que além de tudo se acha o centro do Universo. Mas é difícil para um satélite natural viver em torno de um planeta tão fértil e tão inconsequente quanto a Terra. O Sol existe longe e indiferente, magnânimo e poderoso. Mas a Lua, não. A Lua fica lá, rodando em volta da Terra – modesta, pequena e prateada – acompanhando-a, observando seu curso, fazendo conjunto com as estrelas. Hora, se mostra cheia, inteira e bonita, iluminando toda a escuridão. Hora aparece de dia para competir com o brilho do sol. Hora, está encoberta pelas nuvens, brilhando ocasionalmente. Hora está só um pedaço, enchendo ou minguando. Hora some de perto, ficando obscura e silenciosa. Mas sempre, sempre está lá, pronta para ser contemplada. Pessoa alguma jamais conseguirá tocar o Sol, sequer chegar perto dele. Mas há muito alguém já visitou, já estudou, já pisou e fincou bandeira na Lua.

No que me diz respeito, a Lua sempre foi minha companheira. Mesmo quando não tenho tempo de olhar para o céu e admirá-la, sei que ela está lá. Embora eu a deixe, sei que ela nunca me deixará. Basta que eu olhe, e ela estará lá. Me esperando… Me observando.

Fico pensando o que a minha Mãe-Lua pensava antes de me ter. Com certeza, ela sonhou comigo. Me esperou. Me quis. Deixou que eu me instalasse dentro dela. E depois que eu vim para o mundo, decidiu me amar e me acolher. Com certeza também, não sou como ela pensou que eu seria quando eu ainda não existia. Talvez, nos sonhos dela, eu tivesse outros olhos. Outra cor de cabelo. Outro jeito de corpo. Outro temperamento. Outro cheiro, outra voz. Talvez, nos sonhos dela, eu nunca ficaria doente. Seria saudável e eterna. Talvez, nesses mesmos sonhos, eu fosse uma médica, ou uma advogada. Talvez ela quisesse que eu fosse mais calma, mais dócil, mais obediente, mais esforçada… Ou menos rebelde, menos crítica, menos sossegada, menos perdulária. Talvez ela sonhasse com uma filha que a amasse tanto, e de uma forma tão incondicional, que jamais a questionasse, jamais a desagradasse, jamais fizesse algo que pudesse desapontá-la, magoá-la ou entristecê-la, e que compreendesse todas as demonstrações de carinho que ela desse, mesmo quando não fossem explícitas. Nos sonhos da minha Mãe-Lua, talvez eu fosse uma Terra-Filha que nunca a abandonasse… Nunca a trocasse pela escola, pelos amigos, pelo namorado, pelos irmãos, pelo pai, pela avó. Minha Mãe-Lua, como toda a mãe, teve uma vontade secreta de me ter só pra ela, de me fazer do jeito dela.

Mas a minha Mãe-Lua me ama. Ela me ama, e não ao sonho que ela teve. Me ama tanto que aprendeu a me conhecer. Aprendeu os meus jeitos, minhas manias, minhas facilidades e dificuldades. Respeitou os meus sonhos, mesmo quando eles eram diferentes dos dela. Não foi fácil, eu imagino. Ela me fez. Era natural que quisesse que eu fosse como ela quis. Tanto que de vez em quando, ela esquece de me ver como sou, e quer que eu seja como ela quer. Mas eu sei que ela me ama.

Minha Mãe-Lua não é perfeita. Mesmo cheia, tem sombras que formam desenhos incompreensíveis em sua imensa claridade branca. Às vezes desaparece e me deixa só… Às vezes toma todo o meu céu. Mas, mesmo imperfeita e inconstante, minha Mãe-Lua é o brilho da minha vida.

Minha Mãe-Lua me influencia mesmo de dia. Altera minhas marés, regula meus meses, sugere meus regimes, aconselha minhas épocas de cortar o cabelo, rege meus signos, atiça meus romantismos, estimula minhas artes, ilumina minhas noites.

Minha Mãe-Lua está lá em cima. Mas o brilho dela se espelha em meus olhos, e faz morada dentro de mim. Não dependemos mutuamente… Mas nos amamos. E de alguma maneira, nos entendemos perfeitamente. Eu sei que fomos feitas uma para a outra.

Um beijo para Jaci, minha mãe. E para todas as outras mães, sóis ou luas, estrelas ou satélites, que iluminam e encantam seus filhos.

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