RAPIDINHAS EM VERDE AMARELO

* Odeio Copa do Mundo. Odeio, odeio, odeio, odeio, odeio. E odeio também quem odeia quem odeia Copa do Mundo.

* É relativamente fácil saber quando acaba um amor. O tédio, a monotonia, o saco-cheio, a decepção, a dor, a agressão, a indiferença… E o fim. Pronto. Mas alguém aí sabe me dizer quando a gente sabe que acabou uma amizade? Tô com dificuldade de detectar isso em alguns casos. Preciso de ajuda.

* Meu aniversário tá chegando. 30 anos. Sempre disse que faria uma festona de arromba. Mas agora não deu vontade. Por que será?

* O mundo está povoado de gente chata, ou é só impressão minha?

* Gente, vocês acreditam que eu estou fazendo um ano e meio de namoro???? EU??? Isso é inacreditível! Isso é fantástico! E não é por falar não, mas tem sido bom pra caramba. Hehe.

* Algo me diz que a próxima eleição vai ser a maior palhaçada da história do país… Bons tempos em que a urna não era eletrônica. Pelo menos a gente se divertia escrevendo alguma coisa interessante na cédula na hora de anular.

* Recebi um texto meu em power-point a semana passada. Diziam que a autoria era da Rita Lee. E, no meio das frases, tinha um monte de criancinhas vestidas com fantasias de bichinhos se abraçando e sorrindo. Seria esse o fundo do poço? Não sei, por alguns instantes, achei que era.

* Aparelhos de Celular, DVD, Liquidificadores, Batedeiras e Sons Portáteis – agora as fábricas nem estão mais dando garantia. Por que eles não avisam logo que é tudo descartável? Humpft.

* Leituras recomendadas – “Memórias de Minhas Putas Tristes”, do García Márquez; “Mentiras no Divã”, do Irvin D. Yalom; e “Almanaque dos Anos 70”, da Ana Maria Bahiana. Garantias de bons momentos. Mesmo. 🙂

* A título de esclarecimento – fiz uma boa faxina no meu quarto, no meu carro, na minha papelada e principalmente na minha lista o Orkut. Tirei algumas pessoas que não lembrava muito bem como tinham entrado. Se por acaso excluí você, querido leitor ou leitora do blog, perdoe-me e peça para adicioná-l@ novamente. Minha memória de peixe agradece.

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UM ROMANCE


Eis o que tenho aprendido sobre romances.

Um romance
Não precisa ser vistoso, cheiroso e efêmero como um buquê de flores.
Nem precisa ser aventureiro, empolgante e rotativo, como um roteiro de viagens semanais.
Não precisa ser doce como uma caixa de bombons,
Nem fofo como um bicho de pelúcia.
Não precisa ter atestado de valor e durabilidade, como um colar de ouro.
E nem precisa ser invejável e brilhante, como um vestido de noite.
Não precisa ser tecnológico,
Nem inovador,
Nem mutante,
Nem forte,
Nem invejável.
Aliás, um romance nem precisa parecer com um romance… Se assim for melhor.

Um romance
Não precisa de atestado de garantia,
Não precisa de cegueiras,
Não precisa de misticismos,
E nem de virtudes especiais.
Romance bom tem consciência, pé no chão e escolhas.

Para ter um romance,
Não é necessário ter dinheiro, beleza ou inteligência acima da média.
Não é preciso ter discussões intelectuais, nem racionalizações de nenhum tipo.
Não é preciso ter afinidade total,
Nem arrebatamento total,
Nem paixão total,
Nem cumplicidade total.
O romance nunca é feito de totalidade,
Porque é feito de duas partes que vão se unindo, combinando e descombinando… Aos poucos.

As matérias-primas do romance
Não são sonhos mirabolantes,
Não são idéias cozinhadas em banho-maria no caldo da ilusão,
Não são pré-conceitos travestidos em imagens estranhas e impossíveis.

O romance está no meio dos problemas,
Nos pequenos gestos,
Nos olhares inesperados,
Nas palavras e nos silêncios,
Nas bobagens,
No cotidiano,
No arroz com feijão de todo dia,
No telefonema corriqueiro,
No sofá de casa,
Na certeza do colo no final da tarde,
Nos ganhos inesperados e nas frustrações,
Nas concessões e nas obviedades,
Nas dificuldades e na convivência,
No trivial e no especial.

Um romance é feito somente, e tão somente de duas pessoas.
Duas pessoas com passado, mas sem amarras.
Duas pessoas com paixão, mas sem escravizações.
Duas pessoas que se gostam, mas se respeitam.
Duas pessoas que se desejam, mas não se esgotam.

O romance está no coração que bate forte… E tranquilo.

O romance bom, mas bom de verdade mesmo…
Não rouba a sua vida de você.
Mas a pega emprestada e devolve, todos os dias, transformada… E melhor.

Feliz dia dos namorados, pessoas. 🙂
Divirtam-se.

TUDO ENTUPIDO

Ontem à tarde, devido a uma gripe maldita que quase virou pneumonia e roubou o meu suposto bem-estar cotidiano, eu tive que ficar de cama, no meu quarto, sozinha. De cama porque não estava me aguentando em pé. No meu quarto porque é o único lugar do mundo que é realmente meu. E sozinha porque nessas horas é melhor ficar só mesmo. Ninguém quer ficar perto de alguém que está doente. Ninguém quer ficar perto de alguém que está sofrendo, ou que não anda de muito bom-humor. E não quer com certa razão. É chato mesmo. Alguém doente, alguém que sofre, alguém de mau-humor lembra que a vida não é perfeita. Lembra que as gripes acontecem, que as coisas ruins acontecem, que a gente é nada perto de um vírus minúsculo ou de uma minúscula situação adversa.

Ouvi dizer que a gripe são lágrimas não choradas. Acho que já disse isso aqui. Fiquei pensando que eu precisava aprender a chorar um pouco mais. Só eu sei como tenho tido vontade de chorar. Chorar de desgosto, de decepção, de mágoa, de saco cheio mesmo. Chorar por chorar. Chorar pelas coisas ruins que estão acontecendo e pelas boas que não acontecem nunca. Chorar e mandar todo mundo ir à merda. Chorar e tomar atitudes raivosas. Chorar de melancolia, de saudade… De dor na coluna. Mas não dá tempo. Não dá tempo de chorar. Não dá tempo de perceber o que me contraria, o que me magoa, o que me decepciona tanto. Aí essa minha incapacidade de chorar acaba virando gripe. Eu tenho que ficar gripada pra pensar nessas coisas. E é nessa hora que eu acho que a gripe nem é tão ruim assim. Um nariz entupido é fichinha perto de um coração apertado. Se para resolver uma coisa preciso passar pela outra… Avant.

Mas isso tudo não é importante, isso tudo passa – a gripe, o mau humor, as pessoas e eu, com meu coraçãozinho apertado. O que não passa é a poesia do Carlos Drummond de Andrade, impressa num livro de páginas amareladas que eu não abria faz tempo – perdi o bonde e a esperança; volto pálido para casa. Não passa a música do Chico que eu coloquei baixinho pra tocar – a vida é sempre aquela dança aonde não se escolhe o par; por isso às vezes ela cansa e senta um pouco pra chorar. Não passa o solzinho que entrou discreto pelas frestas da janela e deixou tudo mais aquecido e aconchegante, e me deu um sono profundo… Sem sonhos, sem pensamentos, sem interrupções – só sono. Eu queria é isso mesmo. Sono… Muito sono. E tempo pra dormir. Como a gente dorme depois que chora até os olhos ficarem inchados.

Não existe dor gostosa – é um título de livro que eu adoro ler para os meus alunos. Meus alunos, aquelas fofuras que eu adoro e que encontro todas as tardes ( os da manhã não são tão fofos, mas tudo bem ). Quando estou doente, ou triste, eu me lembro deles. Das crianças, dos poemas, do Chico, do solzinho discreto e quente. Eles funcionam como a injeção química e forte que me deram de manhã. Me curam. Me aquecem. Me acalmam. Me ensinam. Me ajudam a levar a vida. Eles entram em mim como a fumacinha da inalação. Vão descongestionando tudo. Deixam o peito mais leve. E a existência mais tranquila.

Demorei a procurar o médico. Sempre demoro. Sempre acho que posso resolver tudo sozinha. Mas não posso. Chega uma hora que preciso das injeções e da poesia da vida pra me ajudar. Engraçado isso. Mesmo sem querer, acabo escolhendo pra mim o caminho mais difícil… O caminho da dor.

E hoje, vírus e decepções quase vencidos, me deu vontade de escrever sobre a vida, mas eu não sei bem o que dizer. Acho que o que eu queria dizer é que a vida não é fácil. Não é fácil ter que trabalhar todos os dias num lugar onde não me respeitam mais como profissional e muito menos como pessoa. Não é fácil ter que conviver com os altos e baixos daqueles que me usam conforme as necessidades deles e não se lembram de retribuir e nem agradecer por nada – e ainda reconhecer essas pessoas como amigos, parentes, amados, aceitando as limitações de todos eles. Não é fácil ter que fazer escolhas, ter que pagar as dívidas, ter que comprar remédio, ter que me privar de tanta coisa, resolver tanta coisa, pensar em tanta coisa. Não é fácil perceber que não sou dona do meu tempo, da minha vida, do meu dinheiro… De nada que eu pensava que era meu. Não é fácil pedir pra me amarem sufocando milhares de sonhos e impulsos para manter uma rede imensa de relacionamentos que, no fim, eu nem sei até que ponto são verdadeiros. Principalmente, não é fácil saber exatamente o que tenho que fazer para ficar melhor e, por uma estranha preguiça e desânimo crônicos, acabar não fazendo. Não é fácil não ter planos para futuro. Não é fácil. Não é mesmo. Nem eu mesma sou fácil. Aliás, sou dificílima. Só estou aprendendo a me mostrar mais como eu sou. E, que surpresa… Nem todos gostam do que vêem. Talvez nem eu.

Eu não sou a única. Não é fácil pra ninguém. Eu sei disso. Mas isso não torna as coisas menos complicadas pra mim. De narizes entupidos e corações apertados, cada um entende dos seus. Nem adianta tentar me convencer do contrário.

Nessas horas em que dá vontade de falar sobre a vida, eu posso preferir ficar gripada mais um pouco. Procuro pela dor, como quem passa a língua numa afta, aperta um dedo com unha encravada ou tira a casquinha de um machucado. Não existe dor gostosa. Mas também não existe dor que não te deixe mais forte.

Nem sei se é bom ser tão forte assim. Talvez eu precisasse ser mais frágil. Quem sabe assim alguém ia cuidar de mim.