TUDO ENTUPIDO

Ontem à tarde, devido a uma gripe maldita que quase virou pneumonia e roubou o meu suposto bem-estar cotidiano, eu tive que ficar de cama, no meu quarto, sozinha. De cama porque não estava me aguentando em pé. No meu quarto porque é o único lugar do mundo que é realmente meu. E sozinha porque nessas horas é melhor ficar só mesmo. Ninguém quer ficar perto de alguém que está doente. Ninguém quer ficar perto de alguém que está sofrendo, ou que não anda de muito bom-humor. E não quer com certa razão. É chato mesmo. Alguém doente, alguém que sofre, alguém de mau-humor lembra que a vida não é perfeita. Lembra que as gripes acontecem, que as coisas ruins acontecem, que a gente é nada perto de um vírus minúsculo ou de uma minúscula situação adversa.

Ouvi dizer que a gripe são lágrimas não choradas. Acho que já disse isso aqui. Fiquei pensando que eu precisava aprender a chorar um pouco mais. Só eu sei como tenho tido vontade de chorar. Chorar de desgosto, de decepção, de mágoa, de saco cheio mesmo. Chorar por chorar. Chorar pelas coisas ruins que estão acontecendo e pelas boas que não acontecem nunca. Chorar e mandar todo mundo ir à merda. Chorar e tomar atitudes raivosas. Chorar de melancolia, de saudade… De dor na coluna. Mas não dá tempo. Não dá tempo de chorar. Não dá tempo de perceber o que me contraria, o que me magoa, o que me decepciona tanto. Aí essa minha incapacidade de chorar acaba virando gripe. Eu tenho que ficar gripada pra pensar nessas coisas. E é nessa hora que eu acho que a gripe nem é tão ruim assim. Um nariz entupido é fichinha perto de um coração apertado. Se para resolver uma coisa preciso passar pela outra… Avant.

Mas isso tudo não é importante, isso tudo passa – a gripe, o mau humor, as pessoas e eu, com meu coraçãozinho apertado. O que não passa é a poesia do Carlos Drummond de Andrade, impressa num livro de páginas amareladas que eu não abria faz tempo – perdi o bonde e a esperança; volto pálido para casa. Não passa a música do Chico que eu coloquei baixinho pra tocar – a vida é sempre aquela dança aonde não se escolhe o par; por isso às vezes ela cansa e senta um pouco pra chorar. Não passa o solzinho que entrou discreto pelas frestas da janela e deixou tudo mais aquecido e aconchegante, e me deu um sono profundo… Sem sonhos, sem pensamentos, sem interrupções – só sono. Eu queria é isso mesmo. Sono… Muito sono. E tempo pra dormir. Como a gente dorme depois que chora até os olhos ficarem inchados.

Não existe dor gostosa – é um título de livro que eu adoro ler para os meus alunos. Meus alunos, aquelas fofuras que eu adoro e que encontro todas as tardes ( os da manhã não são tão fofos, mas tudo bem ). Quando estou doente, ou triste, eu me lembro deles. Das crianças, dos poemas, do Chico, do solzinho discreto e quente. Eles funcionam como a injeção química e forte que me deram de manhã. Me curam. Me aquecem. Me acalmam. Me ensinam. Me ajudam a levar a vida. Eles entram em mim como a fumacinha da inalação. Vão descongestionando tudo. Deixam o peito mais leve. E a existência mais tranquila.

Demorei a procurar o médico. Sempre demoro. Sempre acho que posso resolver tudo sozinha. Mas não posso. Chega uma hora que preciso das injeções e da poesia da vida pra me ajudar. Engraçado isso. Mesmo sem querer, acabo escolhendo pra mim o caminho mais difícil… O caminho da dor.

E hoje, vírus e decepções quase vencidos, me deu vontade de escrever sobre a vida, mas eu não sei bem o que dizer. Acho que o que eu queria dizer é que a vida não é fácil. Não é fácil ter que trabalhar todos os dias num lugar onde não me respeitam mais como profissional e muito menos como pessoa. Não é fácil ter que conviver com os altos e baixos daqueles que me usam conforme as necessidades deles e não se lembram de retribuir e nem agradecer por nada – e ainda reconhecer essas pessoas como amigos, parentes, amados, aceitando as limitações de todos eles. Não é fácil ter que fazer escolhas, ter que pagar as dívidas, ter que comprar remédio, ter que me privar de tanta coisa, resolver tanta coisa, pensar em tanta coisa. Não é fácil perceber que não sou dona do meu tempo, da minha vida, do meu dinheiro… De nada que eu pensava que era meu. Não é fácil pedir pra me amarem sufocando milhares de sonhos e impulsos para manter uma rede imensa de relacionamentos que, no fim, eu nem sei até que ponto são verdadeiros. Principalmente, não é fácil saber exatamente o que tenho que fazer para ficar melhor e, por uma estranha preguiça e desânimo crônicos, acabar não fazendo. Não é fácil não ter planos para futuro. Não é fácil. Não é mesmo. Nem eu mesma sou fácil. Aliás, sou dificílima. Só estou aprendendo a me mostrar mais como eu sou. E, que surpresa… Nem todos gostam do que vêem. Talvez nem eu.

Eu não sou a única. Não é fácil pra ninguém. Eu sei disso. Mas isso não torna as coisas menos complicadas pra mim. De narizes entupidos e corações apertados, cada um entende dos seus. Nem adianta tentar me convencer do contrário.

Nessas horas em que dá vontade de falar sobre a vida, eu posso preferir ficar gripada mais um pouco. Procuro pela dor, como quem passa a língua numa afta, aperta um dedo com unha encravada ou tira a casquinha de um machucado. Não existe dor gostosa. Mas também não existe dor que não te deixe mais forte.

Nem sei se é bom ser tão forte assim. Talvez eu precisasse ser mais frágil. Quem sabe assim alguém ia cuidar de mim.

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10 comentários sobre “TUDO ENTUPIDO

  1. …é, eu também nao sei se é bom ser forte…nem sei se sou frágil…concordo contigo..eu também sou dificílima..ou não, dizem que eu que transformo as coisas.. Tudo é tão simples,segundo os outros…bom…vontade de chorar…
    bjos,seus textos são ótimos e sempre caem como uma luva em mim!

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  2. Eu chorei ao ler… Podia?

    Se não podia, já foi… EU te acho tão forte, tão forte… e ler vc assim, dói… Queria poder te ajudar ,como vc me ajuda com suas palavras…

    Ai ,Karina… Por que a vida tem que ser tão complicada, por que? Por que? Por que???

    Deixa prá lá, né?

    Beijos!!!!!!

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  3. São exatamente 4 horas da manhã do início de uma quinta feira…. depois de muito resistir e me mostrar insistentemente que o relógio não tem a menor importância, o bebê dormiu…. mas meu sono se foi….
    Entrei no blog e comecei a ler os seus textos que aprecio muito. Em verde e amarelo uma prosa…. um romance em poesia…. e agora, neste texto o desabafo…. Meu Deus! Era o que precisava…. Me senti acolhida ao saber que não é só a minha cabeça que explode em dúvidas no momento de ser obrigada escolher um ou outro caminho e computar, no âmbito do “se” …possíveis perdas e ganhos. Saber que das minhas decisões dependem a vida e o bem estar de pessoinhas inocentes e tão frágeis…. tão vulneráveis…
    Estou num momento de ter que tomar decisões…. separação….. momento da dor do corte do cordão umbilical de um parto que aconteceu há quase 4 meses atrás…. e que não será o único…. dor de sentir que algo que faz parte de você definitivamente não te pertence.
    Dói….mas não mata… já vivi essa experiência antes e consegui superar….outros tempos….agora, novos desafios…é preciso seguir em frente porque, graças a Deus, a vida continua…..

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  4. Karina, querida, uma das maiores crises dos últimos tempos, na minha vida, passou por todas essas reflexões que vc fez nesse texto tão comovente. E aconteceu no início desse ano. Ali por janeiro / fevereiro. Claro que cada um encontra uma solução, uma fórmula de efeito analgésico, secativo e curativo para o coração. Mas, de qualquer modo, compartilho com você o que me ajudou a superar esse momento punk. Em vez de esperar ser levada no colo por quem eu esperava que o fizesse sem precisar pedir, eu passei a dizer (quase morrendo a cada vez…) o que esperava das pessoas que me rodeavam. A pedir ajuda, a pedir colo. De algumas, continuei não tendo a acolhida que esperava. E para essas fiz questão de dizer quanto doía não poder contar com elas, o quanto era caro o preço de ser forte. Já de outras, fui docemente surpreendida, tamanho o aconchego que encontrei. E por elas a minha força se renovou, nasceu de novo, se mostrou indispensável. Enfim, cada um de nós encontra seu caminho, que, de qualquer modo, é sempre de crescimento.

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  5. Oi amiga, que saudades de ler frases tão bem escritas…
    Amei o texto!

    Bom, me identifico muito com ele, mas, eu, pelo contrário, choro muito. Talvez, seja por isso que não fico muito gripada. rsrsrs… Aliás, nem sei como ainda sai tanta lágrima dos meus olhos. rsrs

    A verdade querida, é que, mesmo sendo frágil e chorando diante de tantas situações, estou me tornando uma pessoa amarga, sem paciência… Sabe de algum outro vírus que tome o lugar desse sintomas???

    Beijos… TE AMO!!!

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