DESISTENTES


Quando comecei a fazer Psicologia, eu queria muito entender a cabeça das pessoas. E uma das primeiras coisas que me ensinaram é que é da natureza do ser humano buscar o prazer e evitar a dor. Invariavelmente. Com o tempo, vamos achando a medida disso; nem tudo pode ser só prazer e nem toda a dor pode ser evitada – é o preço de viver em grupo com outros seres humanos. Mas, basicamente, o que foge da nossa natureza de querer estar bem é distorção. É anormal.

Depois de algum estudo, eu descobri que entender a cabeça de alguém ( inclusive a minha ) era impossível, mas descobri também que as pessoas, em geral, não costumam ser criativas quando o assunto é conduzir a própria vida, e acabam repetindo certos padrões – para o bem e para o mal. E, com relação ao sofrimento, muita gente acaba se acostumando a ele. Normalmente, as pessoas tendem a esquecer o gosto da felicidade muito facilmente quando expostas a momentos ruins. Tendem a normalizar as dores, e, passado algum tempo, esquecem completamente de que há sempre – SEMPRE – alternativas para a superação. Desenvolvem pânicos, depressões, síndromes, paranóias, estresses, somatizações e outros tipos de problemas que, no fundo, são sintomas evidentes de que algo não vai bem. E, não raro, preferem lidar com esses sintomas do que com a realidade que os causam.

É o que acontece, por exemplo, com mulheres espancadas pelos maridos, mas que não os denunciam e nem os deixam; com pessoas doentes que não procuram o médico; pessoas perturbadas que não buscam ajuda psicológica; com pessoas insatisfeitas com seu emprego, mas não mandam um currículo sequer para tentar outra coisa; com pessoas viciadas que não largam o vício; com amantes que não dão um basta na condição de ser a outra; com filhos que são reféns dos pais, e vice-versa; com pessoas que não conseguem dizer “não” aos abusos; com outras que não conseguem dizer sim a uma boa oportunidade. São pessoas que buscam o sofrimento, embora, muitas vezes, a solução seja extremamente simples. Pessoas que desistem. Simplesmente desistem de si mesmas e dos outros.

É uma força misteriosa essa que nos faz desistir. Ela vem devagar, sorrateira. Vai ganhando espaço aos poucos. É anti-natural. E, normalmente, invisível. Um desistente só percebe que desistiu quando já perdeu tudo que tinha – dinheiro, tempo, dignidade, saúde, talento, chances. E para alguém que já perdeu tudo, só resta continuar desistindo. E essa é a melhor receita para ser infeliz.

Alguém me disse uma vez que, salvo casos de extrema arbitrariedade e violência, não existem vítimas, e que as coisas andam exatamente do jeito que escolhemos que elas andem. Na época, achei um posicionamento radical e simplista. Caramba, nem sempre as coisas saem como planejamos. Somos constantemente surpreendidos pela vida, não há meios. E, para muita gente, não é possível sequer escolher porcaria nenhuma, porque as opções não existem.

Aí eu fui vivendo e vendo gente caída por todos os cantos, tentando olhar amorosamente para a dor dessas pessoas e aprendendo com elas; e por isso não as julgo – tento compreender. Mas vi também muita gente que com nada, ou quase nada, fez muito. Gente que foi humilhada, abusada, violentada; gente que não recebeu de graça absolutamente nada de ninguém; gente que nasceu com o selo de desistente na testa, mas o retirou brilhantemente. E aí penso que realmente não há vítimas – apenas motivações que levam as pessoas a deixarem pra lá essa coisa de viver decentemente.

Comecei a escrever esse post porque vi o resultado das pesquisas eleitorais. Fiquei pensando – por que raios as pessoas querem manter no poder alguém que comprovadamente roubou, corrompeu-se e corrompeu, manipulou, ofendeu e cuspiu simbolicamente no voto de milhões de brasileiros? Por que as pessoas estão desistindo desse jeito? Por que essa dormência? E aí pensei que a sociedade é só um espelho do que são as pessoas que a compõem. O buraco é mais embaixo – as pessoas estão, cada vez mais, desistindo. Os números das pesquisas apenas mostram uma maioria de pessoas desistentes. E isso é muito triste aos meus olhos.

Tudo diz que somos um lixo. O salário que ganhamos. A vida estressante que levamos. O que vemos na TV. Os padrões estéticos, éticos e econômicos. Os relacionamentos superficiais. Nós somos nada perto de um bandido nervoso com um celular no presídio; nada diante de um vírus ou uma bactéria. Nossa existência chega a ser ridícula. E vamos acreditando que não vale a pena pensar, não vale a pena fazer, não vale a pena argumentar, não vale a pena acreditar. Vamos acreditando que somos um lixo. E então, vamos desistindo.

Uma vez, conversei com uma pessoa que tinha assumidamente desistido de viver. Ela me disse: “o problema é que continuo a respirar”. Sim, seria fácil desistir se não fosse isso. Continuamos a respirar. E o tempo não pára. E a vida é tão curta. E há tanto a fazer.

Ultimamente – não sei se é a vida que anda mais dura, ou eu que estou mais sensível e sem paciência – tenho sentido que há muitos convites para a desistência em minha vida. As pessoas dizem, com atos ou palavras – desista. Desista, Karina, desista. Desista de ter um salário que seja justo com a nobreza e a importância da sua profissão, ninguém vai dar valor. Desista de tentar não se submeter às regras imbecis, as pessoas são medíocres. Desista de ser sincera, as pessoas querem ser enganadas. Desista de ser honesta, ninguém presta mesmo. Desista de querer amar e ser amada profundamente e intensamente pelas pessoas a quem você dá amor profundo e intenso, conforme-se com migalhas. Desista de tentar achar um candidato honesto, que mereça o seu voto, todo político é safado. Desista de querer fazer as coisas direito, ninguém reconhece o que é bom na gente, só o que é ruim. Desista de tentar conversar sobre o que você sente com os outros, você se expõe demais. Desista, deixe a vida te levar. Desista, não dê pérolas aos porcos, não invista em coisas demoradas, não sonhe tanto. Desista de querer tanta coisa. Desista. Desista. Desista. A vida é dura. Conforme-se. E espere a sua morte chegar.

É sábio desistir do que não tem jeito. Mas é mais sábio ainda continuar tentando se há uma pequena chance de dar certo.

E aí eu pensei que ninguém vai me fazer desistir de algo que eu não consigo. Eu só desisto daquilo que eu não quero mais. E talvez essa seja a minha maior qualidade… E o meu maior defeito.

Só sei que, hoje, eu precisava escrever esse post pra dizer pra mim mesma que eu não quero ser uma desistente. Não quero. É bom que essas coisas fiquem registradas. Bem registradas.

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22 comentários sobre “DESISTENTES

  1. Querida Karina, obrigada por esse texto. Acho que foi um dos melhores que li aqui. Me inspirou a não desistir, pq afinal, as coisas são tão difíceis, q às vezes essa é a melhor e mais fácil saída. É muito penoso ouvir tantos NÃOS e receber migalhas qdo vc esperava muito. Mas, vamos seguindo…
    Beijos!

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  2. Ultimamente tenho vivido mtas situações em q uma vozinha dentro de mim me repreende: “pra q tentar melhorar e fazer o q acha certo, se as pessoas à sua volta não vão dar a mínima para o q quer q vc faça? Independentemente do seu ato, elas vão te julgar pelo q elas querem ver em vc, não pelo q vc realmente é!!” DESISTA!!! É um acalento ler suas palavras em meio a essa demência e ignorância q pairam sobre nós e tentam nos enlouquecer. Sempre é bom saber q não estamos sozinhos em nossos pensamentos ‘utópicos’. Obrigada! Mta força, fé e paz pra vc, Karina!! =)

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  3. Nem que vc quisesse, vc seria uma desistente, querida… Tem certas coisas que estão no sangue, na alma da gente.
    Obrigado pelas palavras, me inspiraram mto num dia especialmente difícil.
    E olha, se posso de dar conselhos ( eu sei que posso ), evite ficar perto de tanta gente derrotista. Vc merece mais. Mto mais.
    Um bjo, pra uma grande e admirável VENCEDORA. :)))))))

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  4. Depois da minha mãe, voce é a única pessoa nesse mundo que eu permito me dar um tapa na cara desse jeito. A única que tem moral pra isso, a única, Kari.
    Olha, eu sei que voce desabafou com o texto, que tem muitas coisas na sua vida que te fazem pensar se vale a pena, e eu não preciso te dizer… É uma fase, prenúncio de boas mudanças.
    Mas hoje, pela nossa amizade, eu sei que voce escreveu pra mim. Obrigada. Te amo. E não desista, nunca mesmo, de mim. :o)
    Beijo, meu e do Biel!

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  5. Olá. è a minha 1ª visita ao blog e achei este seu textyo simplesmente demais! Desistir? Jamais!!! Mesmo que para juntar forças e superar a(s) dificuldade(s) tenhamos que empregar um tempo maior do que gostaríamos. Um abraço ( e não desista!!!)

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  6. Nada de desistir, estar aqui agora já uma grande vitória, e o que me importa, se fulaninho ou sicraninho, não ligam, e o importa se todos desistiram, vou continuar a lutar, porque se não vou acabar desistindo de tudo que eu tenho, que é a mim mesmo e meus poucos, sonhadores, mais verdadeiros ideais. Desistir nunca!!!

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  7. Sabe quando a gente lê ou escuta algo e fica simplesmente sem palavras?
    É isso… Estou assim…
    Com vergonha e com raiva de saber que desisti de muitas coisas, de me ver exatamente como vc descreveu : desistente…

    Só que também serve de ‘chacoalhão’ pra acordar e parar de desistir do que eu quero…
    Vou aprender com vc: desistir só do que eu não quiser mais…

    Beijinhos….

    Excelente texto… Pra variar…rs

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  8. Karina… obrigada pelo texto.
    Acho que cai como uma luva pra qualquer pessoa que o leia. Acho que todo mundo, de um jeito ou de outro, sente, diariamente, uma vontadezinha de desistir de alguma coisa.
    Não desanimemos. Continuemos.

    Beijão!!!

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  9. Desistir…..
    Nunca desisti de estar perto de alguém que amo. De alguém que me faz sorrir.
    Não desisti da “secret soul”. Mesmo sabendo que ela desistiu de mim.
    Não faz diferença. Nunca vou desistir de ama-la. Por que eu deveria ?

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  10. Perfeito esse texto!
    Também sinto que todos, ou quase todos, querem que desistamos sempre… Acho que não só porque seja prática comum para elas, como também, porque se não desistirmos e conseguirmos, nós estaremos provando que eles é que estavam errados e não nós…
    Eu mesma já desisti algumas vezes, mas sempre volto, sempre acordo, sempre abro os olhos e recomeço a lutar… Cada dia é um novo dia, e a vida é curta e bela, por que desistir?
    Beijos

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  11. E é justamente esse sentimento de não desistência que fez um ex-operário tornar-se o homem mais importante de uma nação e talvez – o termpo vai dizer – o homem público mais importante do Brasil. Lembre-se que foi justamente o Ministério Público e a Polícia Federal, submetidos a presidência da república que estão tirando o lixo de debaixo do tapete, por outro lado, essa sensação que temos de corrupção por todos os lados – não que ela não exista – se dá justamente pelo fato de que não está ficando pedra sobre pedra nesse mar de excrecências. Você se lembra do noticiário sobre a Itália na época do desmantelamento da máfia?

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  12. Seu texto foi muito bacana…tem coisas na vida da gente que são complicadas mesmo, mas a vida não é curta, nós é que ficamos morto tempo demais….Devemos colocar sempre Deus a frente, pq se as coisas não saem do jeit que a gente quer, é pq Ele tem sempre o melhor pra gente, da melhor maneira possível, por isso que amo muito o versículo: A Deus nada é impossível !
    Deus te abençõe e boa semana !!!
    Eve

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  13. Karina
    Muito interessante o que vc escreveu, eu tbm pretendo estudar psicologia, para tentar entender a cabeça das pessoas, mas o meu objetivo e entender e ajudar…
    Eu só não concordo com o que vc falou em relação ao presidente, porque pode ser que tenha pessoas que votou por votar, por achar que tdo iria continuar a mesma coisa…
    Mas o meu caso não foi esse, eu votei nele, porque na minha opinião, minha vida melhorou muito, a cesta básica ficou bem mais barata, e os preços de muitas coisas cairam bastante, pra mim ele foi um bom presidente e ainda está sendo…
    Em questão aos roubos e outros tipo de coisa que acontecerem em seu governo, pra mim a diferença e que teve CPI e os culpados foram julgados e punidos, a diferença e que nos outros governos, as falcatruas foram escondidas.

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  14. Bom, lendo este texto, confesso que me senti muito triste ao perceber que sou uma desistente, que em muitas horas eu sinto vontade de largar tudo e, pelo menos por um instante, poder desaparecer deste mundo. É algo que me domina, parece nunca ter fim. Mas as palavras da Karina me tocaram, e por incrível que pareça eu entrei nesse site por um mero engano, mas quando comecei a ler fui ficando cada vez mais interessada. São palavras que nem sei como explicar o que significaram pra mim neste momento, e ao ler pude ter mais a certeza de que eu quero e vou ser uma psicóloga, e vou deixar de fazer o que os outros me dizem, me mandando desistir do meu tão grande sonho.

    E eu só tenho que agradecer por ter lido o texto, que, pelo menos agora me fez mudar de pensamento, e eu espero poder contar com essa mudança pra sempre!

    Parabéns, Karina!
    Beijos.

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