REFORMAS

Como é horrível esse lance de reforma. A gente passa por várias fases difíceis.

A primeira, é a da constatação. Mofos, buracos, rachaduras, coisas que caem, instalações vencidas, descascados, vazamentos, azulejos e pisos fora de moda. Minha casa tem mais de 30 anos, e nunca tinha passado por uma reforma. Embora tudo tenha sido construído com capricho e qualidade, não tem jeito – uma hora, as coisas começam a ficar velhas, quebradas e gastas. Então a gente se dá conta de quanto tempo passou… De quanta coisa aconteceu aqui. Crianças cresceram, gente nasceu e morreu, muitas festas, brigas e sonos tranquilos e intranquilos rolaram dentro destas paredes. E foi a dona da casa, minha mãe, quem decidiu – hora de reformar geral. Tudo, tudinho. E com a gente morando dentro. Em teoria, isso é ótimo. Mas só quem passa por uma reforma sabe quanta dor de cabeça isso causa. Eu já intuia isso… Por isso nem me animei. Mas se a dona da casa falou, está falado. Vamos reformar geral.

Aí vem outra fase difícil, que é a das decisões. Onde vamos mexer? Como? Com que dinheiro? Quem vai nos ajudar? Hora de fazer contas, se inteirar do assunto, fazer planejamento, contratar bons profissionais. E é então que a gente passa a saber o que é uma viga, quantos sacos de cimento são necessários para encher uma laje, quais os tipos de tinta para as paredes. A gente percebe que é duro achar pessoas competentes e de confiança para cuidarem da reforma da nossa casa. A gente se assusta com o preço das coisas e se dá conta que não deveria ter esperado tanto tempo pra reformar. Outras horas, a gente se arrepende de ter tocado no assunto. Mas com o tempo, tudo se ameniza, e percebemos o que é possível e o que não é.

Depois de planejar, é hora da ação. Começa a pior fase de todas. Poeira, barulho, batidas, gente estranha circulando onde antes só você e seus chegados pisavam. Onde se mexe, se descobre mais coisas que antes pareciam andar bem. Canos corroídos por ferrugem. Paredes podres por dentro. Móveis detonados por insetos. Coisas velhas que estavam guardadas em buracos que você nem sabia que existiam. Fios descascados que por pouco não causaram um acidente sério. Você tem que tirar tudo do lugar, cobrir as coisas, ver um cenário de destruição dolorido. O que era para durar 3, 4 meses começa a durar 8, 9, 10… E você fica sem pouso, sem lugar. É quando começam os maus humores, as brigas, os desentendimentos, as decepções. Mas, uma vez que a reforma começou, não dá pra voltar atrás. Tem que se ir até o final.

Agora, nada se compara ao lance de não saber onde se está as coisas que antes você sabia exatamente onde tinha deixado. Chinelos, roupas, papéis, livros, controle remoto, desodorantes, e até a minha própria cama eu tive que procurar pela casa toda até achar, quando achei. Isso faz você se sentir estranha dentro da própria casa, e não tem sensação mais esquisita neste mundo.

No meio dessa confusão, é verdade, tem alguma coisa boa. É gostoso escolher uma cor nova para as paredes, um tipo novo de lustre, um novo piso. É interessante descobrir partes da casa que, reformadas, ganham outro significado. É legal ir acompanhando os serviços que vão ficando feitos, e ir curtindo esses momentos. Mas, para quem, como eu, tem uma ligação tão intrínseca com a concha, reformar é dolorido. Dá a impressão que estão lixando, raspando, martelando e jogando cimento em cima de mim mesma.

Antes do final da reforma, vem a parte da arrumação. E nas arrumações a gente tem que fazer algumas despedidas. Caixas e caixas de coisas velhas que precisavam ir pro lixo. Por várias vezes peguei minha mãe perdida em lembranças de como tal coisa tinha sido feita, como tal armário tinha sido escolhido, como foi quando fulano era pequeno, quando meu pai era vivo, quando minha avó andava. E tudo isso vai girando na nossa cabeça. Mas arrumar é bom. É bom porque a gente sabe que, quando as coisas velhas vão, novas chegam. E dá um alívio danado jogar a mesmice fora e pensar em novos enfeites, novos jeitos de arrumar as coisas, novos armários vazios prontos para serem enchidos de coisas legais.

Esse lance da reforma é realmente horrível.

Mas depois… Depois vem a parte boa. O cheiro de novo começa a tomar conta da casa. Tudo fica com um ar de recomeço. Parece que a casa transpira saúde. E pede novidade. Novas pessoas chegando, novas crianças nascendo, novas cores, novos momentos para se viver. E a gente percebe que até vai sentir saudade dos pedreiros, pintores e encanadores que dividiram os almoços e tomadas de decisão com a gente. A gente percebe que valeu a pena. E que, por pior e mais longa que tenha sido, a reforma acabou. Fica até aquela promessa, aquela vontade de dizer que vamos cuidar melhor da casa.

Então a gente percebe que o horrível não é reformar, e sim ficar com o que era antigo e decadente. A gente percebe que a vida é assim mesmo. As coisas velhas tem que ser revistas e refeitas, porque o novo é bom. E por mais que isso doa, é esse mesmo o caminho.

A casa de fora está quase pronta, linda, novinha em folha e esperando por tudo de legal e de ruim que vai acontecer aqui.

Só falta começar agora com a reforma da casa de dentro.

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