O PIOR FUNERAL

Quem já enterrou o corpo de alguém querido, sabe como dói. Dói porque a gente pensa em tudo que deixou de fazer, tudo que deixou de dizer, tudo que poderia ter sido e não foi. Dói porque a gente fica pensando naquela saudade antecipada, aquela sensação ruim de perda, aquela idéia insistente de que jamais poderemos retomar aquele contato de novo. É uma dor palpável, quase materializada. É como se o peso da morte viesse pressionar seus pulmões, seu coração. E você, muitas vezes, deseja secretamente morrer também.

Quem já enterrou o corpo de alguém querido, sabe como é estranho. A gente demora a acreditar que é verdade. Por mais que a gente veja, sinta, toque o que morreu, fica uma sensação esquisita de que a pessoa não está realmente morta. Sua idéia de futuro parece desmoronar, como se tudo que você tinha previsto, planejado antes precisasse ser revisto e refeito, com lacunas. É esquisito porque, com a morte de alguém querido, morremos um pouco também, pois constatamos nossa própria mortalidade.

Quem já enterrou alguém querido, sabe como é triste. O preto, o caminhar devagar, o cheiro de flores, o caixão pesado, todo aquele ritual doloroso e necessário. Tudo é pesar, tudo é lágrima, tudo é desgaste. Mas ai de quem se negar a trilhar esse caminho…

A gente precisa enterrar quem morreu para que depois, no dia a dia, quando a falta realmente se tornar perceptível, a gente consiga superar sem morrer junto. A gente precisa usar caixões bem lacrados, covas bem fundas, muita terra e muita lágrima pra fazer essa passagem.

Eu não sei o que acontece com quem morre. Tenho até algumas suposições, mas não sei. Mas sei o que acontece com quem fica. A gente precisa reinventar a vida sem aquela pessoa. E isso é um processo mágico e difícil, mas que todo mundo tem que fazer algumas vezes. Talvez passar pela morte dos outros seja um jeito de aprendermos a passar pela nossa própria morte quando for a nossa hora.

É duro enterrar uma pessoa que morreu. É duro demais. Uma dor que eu não desejo, nem pra mim nem pra ninguém. Mesmo sabendo que é um desejo inútil.

Mas, tão duro quanto ( ou até pior ) enterrar uma pessoa, é enterrar um sonho.

É que o sonho não mora no corpo; não mora na ação; não mora no banal. O sonho mora nas idéias… Mora no coração. E é duro quando um sonho morre. Porque a gente fica sem saber como fazer o funeral. Fica sem saber como enterrar aquilo que nem mesmo chegou a existir.

Tem horas que a gente precisa admitir que um sonho doente precisa morrer. Precisa morrer porque chegou a hora. Precisamos desistir, deixá-lo ir em paz. Precisamos nos vestir de preto e fazer um funeral bem longo e bonito para cada sonho que deixamos pra trás. Não importa se o sonho caiu do alto de um prédio, se ele morreu de câncer, se ele foi atropelado por alguém, se ele morreu por abandono, se morreu de fome, de sede, de frio. Um sonho morto é duro de se olhar. É duro.

É o que acontece com alguém que não pôde trabalhar naquilo que era sua vocação; com alguém que viu seu ideal ser corrompido; com alguém que vendeu sua integridade; com alguém que viu um amor acabar sem entender o porquê; com alguém que cansa de lutar contra a cabeça dura e a intransigência de outros; com alguém que, na velhice, olha para trás e vê que não conseguiu fazer nada de que se orgulhasse, nada que pudesse ficar.

É duro velar um sonho porque não há corpo. É como aquelas pessoas que desaparecem de repente, e a gente fica supondo o que aconteceu, com a impressão de que qualquer hora elas vão voltar. Mas elas não voltam. Pelo menos não do jeito que as vimos antes.

Dói demais enterrar o sonho, o projeto, o ideal, o objetivo. Mas assim como sabemos que é preciso que algumas pessoas morram para que outros bebês fofos e sorridentes nasçam, e que toda vida vale a pena enquanto dura… Sabemos também que quem enterra um sonho, pode voltar a sonhar. E voltará. O tempo vai passar, e os sonhos voltarão. Mais maduros, mais bonitos, mais fortes. Cheirosos, carentes de embalo e cuidado, gostosos e lindos como bebês. Sonhos novinhos e cheios de esperança.

Mas até que eles voltem… Fica o vazio triste. E a necessidade urgente de reinventar a vida.

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