SABE?


Sabe quando você cheira, olha, ouve, procura, revira, sacode, observa todos os ângulos de todos os cantinhos da vida procurando algo que você precisa encontrar, mas… Não acha?

Sabe quando a imagem no espelho parece cansada, esquisita, e você reparte o cabelo para o outro lado, tenta outra cor de batom, tenta vestir aquela roupa diferente, mas… Não fica bom?

Sabe quando você fala, fala, fala, fala e fala tentando explicar alguma coisa que você está sentindo mas… Não consegue?

Sabe quando as coisas por fazer – uma folha em branco, uma tela vazia, um violão parado, uma gaveta sem nada, ingredientes na despensa – atraem enormemente, porque você sabe que alguma coisa precisa ser feita, transformada ou colocada ali, mas… Não sabe o que é?

Sabe quando os móveis estão fora de lugar, e você troca, e você arranja, e você tenta outras disposições, e você pede idéias, e você compra coisas novas e joga coisas velhas fora, mas… Não adianta?

Sabe quando você pensa que deveria conhecer alguém diferente, alguém que te diga algo que ainda não foi dito, alguém que com uma frase ou olhar te ilumine, e você espera por essa pessoa, mas… Ela não chega?

Sabe quando tem um presentimento, uma idéia, um sonho, algo que ainda está por vir, que você sabe que está lá, que você sabe que é muito importante, que você sabe que falta só um pedacinho pra se materializar na sua cabeça, que está quase, mas… Não acontece?

Sabe quando você pára de frente para um monte de portas, e não há tempo para abrir e verificar a todas, e você tem que escolher algumas delas para abrir, e tudo parece tão indefinido, e você fica esperando um sinal que te indique o caminho certo a seguir mas… Nada pisca?

Sabe quando a insatisfação toma conta de você, e você reclama, e você se motiva, e você desiste, e você volta a tentar, e você faz, e você descansa, e você tenta se concentrar, mas… Não dá?

Ah, esse comichão do desejo que nasceu e vai morrer comigo…
Ah, essa vida que é tão linda, e tão ampla, e que é tão cheia de possibilidades…
Ah, esse querer que nunca acaba…
Ah, essa natureza interior que não me deixa passar em branco…
Ah, essa mudança que tem que acontecer, mas… Não acontece…

E sabe quando apesar disso tudo, disso tudo que é muito mesmo, você pensa que a vida é difícil, mas… É boa?

É boa porque se movimenta.

O que está parado, está morto.

“- O que é que houve, meu amor, você cortou os seus cabelos?
– Foi a tesoura do desejo… Desejo mesmo de mudar.”
( Alceu Valença )

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E AÍ, PRÔ!


O professor Eugênio era educadíssimo e apaixonado, e falava de Filosofia como quem recitava um poema.
A professora Rose aguentava as nossas caras feias para as equações de segundo grau e tinha a maior paciência do mundo para ensinar o que eu nunca consegui aprender.
A professora Sônia tinha a língua presa e gostava de abraçar as alunas.
A professora Zezé sempre iniciava as aulas de Química com uma meditação bem zen.
O professor J.P. era bonitão e derretia o coração das normalistas nas aulas de Educação Física.
A professora Patrícia gostava de poesia e foi a primeira pessoa que me disse que gostava do que eu escrevia.
O professor Diógenes era inteligentíssimo e ensinou a diferença entre equinócios e solstícios de um jeito que eu nunca mais esqueci.
A professora Kátia era chata, mas manjava muito de arte.
A professora Cida teve coragem para começar do zero com adolescentes que não sabiam sequer fazer contas de dividir no segundo grau.
A professora Maria Antonieta era sábia e tranquila, e me ensinou sobre a responsabilidade e a delícia de ser psicóloga de crianças.
A professora Sílvia ensinava História, OSPB e EMC de um jeito consciente e divertido.
O professor Ruberval me desafiou, e por causa disso eu descobri que gostava de ser psicóloga clínica.
A professora Mara colocava três estrelinhas de prêmio no meu caderno cada vez que eu acertava a lição.
A professora Maria peitou o reitor da faculdade para defender os alunos da falta de segurança nos arredores do prédio.
O professor Ricardo tirava meleca do nariz enquanto corrigia nossos cadernos de mapas.
O professor Carlos me deu um susto quando ensinou que o Tiradentes não passava de um herói nacional fabricado.
A professora Ana Rosa queria que a gente aprendesse – e não decorasse – os mistérios da Biologia.
A professora Dora fingia que não via que eu não gostava de estudar piano em casa.
A professora Marinella era linda e poliglota.
O professor Arnaldo era petista roxo, e recitava poemas de Castro Alves em suas aulas de português.
O professor Beto não economizava para ensinar arte, e suas aulas eram um banquete pros sentidos, pra cabeça, pro corpo e pro coração.
O professor Marco me derrubou da minha impáfia adolescente quando me deu uma lição de moral que eu nunca mais esqueci.
A professora Rita era ruiva e linda, e me ajudou a aprender a ler e a recitar a fala da personagem Leopoldina no teatrinho de 7 de setembro.
A professora Gilda era minha fã, e perto dela eu me sentia especial sempre.
O professor Gilberto era chato de galochas, e brigávamos todos os dias, mas ele foi o primeiro que percebeu que eu tinha um certo talento pro desenho e pra pintura.
O professor Carlos me ajudou a entender que adolescentes gordas também podem jogar vôlei, handball e fazer ginástica olímpica sem o menor problema.
A professora Terezinha me defendeu da maldade de algumas coleguinhas esnobes.
A professora Clélia me ensinou que na vida a gente não pode fazer só o que quer.
A professora Gisele era a paixão da minha vida, e eu perdi a conta de quantas cartinhas de amor e poemas eu fiz pra ela.
Todos eles, os outros que não citei e os outros que eu não lembro o nome ( ou fiz questão de esquecer ), estão em mim, em quem eu sou, em quem eu me tornei.
Que coisa mais linda é ser professora…
É um jeito nobre e certeiro de marcar a vida das pessoas para sempre.

PEIXINHOS NO ASFALTO

Eu e minha doce e atentada afilhadinha de 4 anos no meu Tomatinho, indo pra Zona Leste de Sampa, contornando a ponte do Piqueri pra entrar na Marginal Tietê.

– Karina, o que é esse montão de água?
– É um rio, chama Rio Tietê. Espera eu entrar na pista expressa, lá onde estão passando os carros que estão debaixo da ponte, que eu vou te mostrar ele bem de perto. Você vai ver que rio enorme!
– Tá, mas vai logo.
( Sobrevivo ao contorno da ponte e à saída da pista local para a pista expressa, apesar de todos os insanos que dirigem na Marginal, mesmo de domingo. )
– Chega mais perto, Karina, eu não tô vendo!
– Tá, mas espera, os carros não deixam eu passar de faixa assim tão rápido, tem que esperar!
( A menina grudada na janela, esperando pra ver o rio. Chego na última pista. Nesse meio tempo fico pensando que a menina não costuma passar ali todo dia, e por isso não conhece nenhum rio assim, de perto. Toda feliz pelo interesse repentino, e em tom super didático, apresento. )
– Pronto, Débora, ta aí. Esse é o rio Tietê.
– Não parece rio.
– Por que não?
– Porque rio é azul, e esse é marrom.
– Ah, sim… Bom, primeiro, nem todo rio é azul. Mas esse é mesmo marrom. É que esse é um rio muito sujo.
– Sujo de terra?
– Sujo de lixo, de xixi e de cocô.
( Espantadíssima ) – E quem jogou isso tudo aí dentro?
– Todos nós! O cocô saía da nossa privada e vinha aqui, pro rio. Sem falar no monte de gente que despejava lixo aí dentro.
– E os peixes?
– Que peixes?
– Os peixes que moram aí dentro?
( Saio da faixa da esquerda devido a um maluco que está buzinando, jogando o carro e dando farol em cima de mim. )
– Os peixes morreram.
– Morreram?
– É, eles não conseguem viver com tanta sujeira no rio.
( Longo silêncio. )
– Ei, Débora, você dormiu?
– Não.
( Percebo que ela está chorando. )
– O que aconteceu? Por que você tá chorando?
– É que nós fizemos uma coisa horrível! Jogamos lixo no rio e matamos os peixes… Agora o rio tá sujo e eu… Eu queria que ele estivesse limpo e cheio de peixes! Por que a gente fez uma coisa tão horrível dessa? Por quê?
( Saio da pista expressa para a local. Minhas explicações didáticas não valeriam muita coisa, por isso eu me calei. Fiquei pensando, que coisa horrível. Nós sujamos o rio e matamos os peixes. E pra mim o rio, com o passar dos anos, virou apenas um monte de água entre uma pista e outra da maior avenida da maior cidade do Brasil, pra eu dirigir indo ou voltando, desviando dos loucos e tomando cuidado com os radares de velocidade. )
– Não chora, Débora, ainda tem uns passarinhos na margem do rio, olha lá.
– Não quero mais olhar pra esse rio. Eu fico triste.
( Ela secou suas lágrimas e poucos minutos depois passou a se encantar com os painéis vistosos da Av. Salim Farah Maluf. E, não sei como, uma lágrima, parecida com as dela, veio parar no meu olho direito. Bem discreta. Cristalina. Mas não sei por quê, de repente, ela me pareceu mais suja que toda a água do Rio TIetê. ).