PEIXINHOS NO ASFALTO

Eu e minha doce e atentada afilhadinha de 4 anos no meu Tomatinho, indo pra Zona Leste de Sampa, contornando a ponte do Piqueri pra entrar na Marginal Tietê.

– Karina, o que é esse montão de água?
– É um rio, chama Rio Tietê. Espera eu entrar na pista expressa, lá onde estão passando os carros que estão debaixo da ponte, que eu vou te mostrar ele bem de perto. Você vai ver que rio enorme!
– Tá, mas vai logo.
( Sobrevivo ao contorno da ponte e à saída da pista local para a pista expressa, apesar de todos os insanos que dirigem na Marginal, mesmo de domingo. )
– Chega mais perto, Karina, eu não tô vendo!
– Tá, mas espera, os carros não deixam eu passar de faixa assim tão rápido, tem que esperar!
( A menina grudada na janela, esperando pra ver o rio. Chego na última pista. Nesse meio tempo fico pensando que a menina não costuma passar ali todo dia, e por isso não conhece nenhum rio assim, de perto. Toda feliz pelo interesse repentino, e em tom super didático, apresento. )
– Pronto, Débora, ta aí. Esse é o rio Tietê.
– Não parece rio.
– Por que não?
– Porque rio é azul, e esse é marrom.
– Ah, sim… Bom, primeiro, nem todo rio é azul. Mas esse é mesmo marrom. É que esse é um rio muito sujo.
– Sujo de terra?
– Sujo de lixo, de xixi e de cocô.
( Espantadíssima ) – E quem jogou isso tudo aí dentro?
– Todos nós! O cocô saía da nossa privada e vinha aqui, pro rio. Sem falar no monte de gente que despejava lixo aí dentro.
– E os peixes?
– Que peixes?
– Os peixes que moram aí dentro?
( Saio da faixa da esquerda devido a um maluco que está buzinando, jogando o carro e dando farol em cima de mim. )
– Os peixes morreram.
– Morreram?
– É, eles não conseguem viver com tanta sujeira no rio.
( Longo silêncio. )
– Ei, Débora, você dormiu?
– Não.
( Percebo que ela está chorando. )
– O que aconteceu? Por que você tá chorando?
– É que nós fizemos uma coisa horrível! Jogamos lixo no rio e matamos os peixes… Agora o rio tá sujo e eu… Eu queria que ele estivesse limpo e cheio de peixes! Por que a gente fez uma coisa tão horrível dessa? Por quê?
( Saio da pista expressa para a local. Minhas explicações didáticas não valeriam muita coisa, por isso eu me calei. Fiquei pensando, que coisa horrível. Nós sujamos o rio e matamos os peixes. E pra mim o rio, com o passar dos anos, virou apenas um monte de água entre uma pista e outra da maior avenida da maior cidade do Brasil, pra eu dirigir indo ou voltando, desviando dos loucos e tomando cuidado com os radares de velocidade. )
– Não chora, Débora, ainda tem uns passarinhos na margem do rio, olha lá.
– Não quero mais olhar pra esse rio. Eu fico triste.
( Ela secou suas lágrimas e poucos minutos depois passou a se encantar com os painéis vistosos da Av. Salim Farah Maluf. E, não sei como, uma lágrima, parecida com as dela, veio parar no meu olho direito. Bem discreta. Cristalina. Mas não sei por quê, de repente, ela me pareceu mais suja que toda a água do Rio TIetê. ).

13 comentários sobre “PEIXINHOS NO ASFALTO

  1. que triste saber que até o mas sincero sorriso pode ser roubado de uma criança..
    pelo que todos nós fazemos..
    espero que ela possa ajudar a mudar isso, o mas cedo possiel.. espero poder mudar tb! 🙂

    bjos, mafalda crescida! =*

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  2. não podia deixar de retornar a este blog…

    É o que aprendemos com nossas crianças… aprendemos que as coisas não são naturais.. que a violência não é natural.. que a deigualdade não é natural.. e que a poluição dos rios, como o Tietê, tb não é… nós adultos temos o péssimo hábito de nos conformarmos a algumas coisas extremamente bizarras…

    Se vc for viajar para o oeste do estado, recomendo mostrar pra ela o rio tietê que possivelmente vc cortará pela estrada… o rio é azulzinho… ela via ficar feliz em saber que as coisas podem mudar para melhor…

    bjos

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  3. Vc nem me conhece, nem sabe que leio seu blog há mais de um ano e só agora resolvi dar um pitaco.
    Olha, simplesmente AMO o que você escreve. Deus te deu um dom maravilhoso…
    Tudo de bom pra ti!
    Esse texto realmente me comoveu…
    Beijos

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  4. Boa tarde!!

    Pesquisei sobre “boneca farofinha” no google e parei no seu blog! rs Li seu post de 2004 falando sobre a boneca. Vc não estaria interessada em vendê-la?
    É que eu ganhei esse apelido por umas amigas minhas e eu queria muuuito ter essa boneca! Se por um acaso vc puder, ao menos, me mandar umas fotos, eu ficaria muito agradecida pois assim como eu, muitas pessoas curiosas sobre a origem do meu apelido, não tiveram a oportunidade de conhecerem essa fofíssima bonequinha! rs

    Bjs,

    Pri

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  5. Olá! Recebi o texto Criando um monstro, vim parar no seu blog e gostaria de confirmar a autoria do texto, não encontrei no blog seu nome, acaso você teria como me informar por email? Como prezo pelas normas da ABNT e pela própria autoria, enquanto respeito ao autor e suas idéias. Se puder me escrever ficarei bem contente, meu email é julinh@floripa.com.br e acho que podemos trocar quem sabe algumas figurinhas…
    Grata

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