EU E AS REGRAS

Outro dia fiz uma escultura interessante no meu curso de Arteterapia. Peguei uma tela de galinheiro e fiz um cercadinho bem alto. No alto dele, pendurei um balanço feito com arame. E no balanço, coloquei uma bonequinha feliz. Como ela não queria ficar sentadinha, amarrei ela com arame no balanço. E por fora pendurei umas borboletas coloridas amarradas com umas fitas. Eu colocaria aqui uma foto dessa escultura se eu soubesse fazer isso, mas posso dizer que olhar pra ela é até meio chocante. Depois que ficou pronta, eu mesma pensei: como foi que eu fui colocar uma menininha amarrada em um balanço dentro de uma jaula?

Estar num balanço é uma das sensações mais gostosas da minha infância. Enquanto o balanço vai e vem, você sente o vento passando forte por você. As pernas, os braços, o corpo todo parece muito mais leve. É inevitável sentir vontade de gritar, de sorrir e principalmente de ir cada vez mais alto.O balanço é quase um vôo. E a borboleta, aquele bicho bonito que voa tão suave, e tão gostoso, e vai sempre perto da beleza, das flores. Quando eu olho uma borboleta, sempre suspiro, porque ela me parece livre e bela. E, vejam só. Eu coloquei o balanço dentro de um cercado apertado. E coloquei as borboletas amarradas ao arame por fios.

MInha habilidosa e inteligentíssima professora Iraci Saviani olhou, olhou, e identificou na hora a questão da minha vida: como é difícil pra mim sentir-me presa!

O problema é que a vida tem muitas, muitas prisões. Prisões de horário, de convenções, de sentimentos, de obrigações, de contenções, de pessoas. Prisões que nós mesmos criamos, mantemos e amaldiçoamos depois, sem deixá-las. Drummond já escreveu uma vez, “o pássaro é livre… Na prisão do ar.”.

Trânsito é uma prisão. Despertador é uma prisão. Remédio com hora marcada é uma prisão. Regime alimentar é uma prisão. Roupa social é uma prisão. Ter que ser educado e cortez com pessoas insuportáveis é uma prisão. Preencher papéis é uma prisão. Ter que pagar as contas é uma prisão. E o problema é que dessas não há como escapar.

Porém, para muitas jaulas há libertação. E quem me olha pode pensar que eu sou uma pessoa essencialmente livre. Minha mãe diz que tudo em mim é rebelde ( ela, que é tão certinha ). Eu não costumo me obrigar mais a coisas que me machucam muito. Não sou metódica, não gosto de organização. Minhas coisas são jogadas, bagunçadas, eu não estico os lençóis, não guardo as roupas sempre, falto na faculdade sem a menor culpa, como chocolate e sorvete quase sempre, misturo os papéis, não me procupo com coisas que vão passar daqui alguns dias, me sujo com as tintas e com a massa de pão e evito criar regras para eu mesma seguir. Não preciso tirar sempre 10, ser sempre elogiada, nem ser sempre admirada, principalmente quando isso me custa um esforço que eu não estou afim de fazer. Sempre me irritou um pouco olhar as pessoas com todos os fios de cabelo no lugar, com as roupas sem nenhuma mancha, com os sapatos virados todos para o mesmo lado, que não pulam os capítulos chatos dos livros, que não gritam nem falam alto, que conseguem poupar dinheiro, que não dão mancada, não fazem serviço errado, vivem fazendo dieta e nem escorregam com salto alto. Tanto controle me sufoca, mesmo nos outros.

Mas a verdade é que fazer as coisas no meio do caos, por outro lado, também é uma prisão. Para tudo a gente paga um preço. Se o certinho não consegue dizer sim aos desejos imediatos, consegue se aprofundar mais e ter as coisas a longo prazo. Coisa que as pessoas desligadas e impulsivas como eu não conseguem. Se é complicado ter que viver na risca, também é complicado viver rebolando pra sair dela. É complicado não conseguir perder peso, não conseguir poupar dinheiro e viver no vermelho, não conseguir se concentrar pra fazer uma atividade muito exaustiva, largar o curso da USP no meio só porque ele é muito chato. Nossas escolhas sempre cobram suas contas. E a felicidade a curto prazo não satisfaz sempre.

A menininha do balanço vai ser libertada logo, vou tirá-la de lá. Ela não merece ficar presa, porque já me ensinou o que eu tinha que aprender. Nem todas as prisões têm cara de prisão.

Mas se tudo é relativo, uma coisa é absoluta pra mim: eu sempre vou lutar pra ter a minha liberdade. Seja pra ser livre dos desejos e expectativas dos outros… Seja pra ser livre dos meus próprios desejos e expectativas.

O fato é que não tem caminho fácil pra ninguém. Não tem mesmo.

“…Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda…”

( Cecília Meireles )