AZUL DA COR DO MAR

É muito interessante essa coisa do sofrimento.

Outro dia vi no Fantástico, no quadro da filósofa Viviane Mosé, uma história, entre tantas outras histórias absurdas que a gente ouve por aí. Um homem honesto, daqueles que vivem para trabalhar na roça e que têm a decência tão fundo que chega nos ossos do corpo, foi acusado e condenado injustamente de ter cometido um crime grave. Na cadeia, apanhou tanto que ficou cego e com uma perna debilitada. Lá passou bons anos da sua vida. Ele e sua família, que dependiam do trabalho dele pra viver, sofreram. Sofreram muito. E, diga-se, não deve haver nada que justifique tamanho sofrimento para pessoas boas como aquelas.

Tem gente que sofre na vida. Gente boa, inteligente, estudiosa, criativa e animada, que não consegue trabalho, ou se consegue, a empresa fecha, tem um chefe invejoso perseguindo, sofre um acidente – e lá vai o emprego embora. Tem gente que jura que conheceu uma boa pessoa pra se casar, mas depois que casa, o fulano se mostra violento, alcoólatra, vagabundo, distante – e lá se vai um sonho de amor destruído, levando junto a dignidade dos envolvidos. Tem gente que finalmente, depois de ralar a vida inteira, ganha na loteria, e quando vai desfrutar da vida mansa, fica doente, ou morre. Gente que é e explorada, maltratada, sujeita a doenças, a maldades de todo o tipo. Gente que não consegue nada fácil. Gente que a vida pisa e judia de muitas formas.

Por outro lado, tem gente que parece guiada por uma estrela diferente todo o tempo. Gente que não merece nada de bom, mas tem tudo – dinheiro fácil, nunca pega nem um resfriado, um amor bacana, beleza, amizades, flores todos os dias, nível zero de preocupação. E estão lá, desfrutando, passando leve pela vida.

O que é que causa esse abismo entre o sofrimento imenso de alguns e a felicidade fácil de outros? Por que às vezes a vida parece tão injusta?

Fiquei pensando nisso. Karma? Não acredito em vidas passadas e reencarnações, portanto, o que tem que ser resolvido e pensado pra mim é aqui e agora. Escolhas? Não dá pra engolir… Será mesmo que tudo, absolutamente tudo está mesmo sob o controle de nossas decisões dessa maneira? Não… Sempre há uma boa parte que não depende de nós. Sorte, azar? E de onde viria essa energia esquisita que se distribui de forma tão desigual? Não… Destino? Coincidências? Provações divinas? Uma eterna propensão natural do ser humano para a dor? Desgraças estatísticas?

As pessoas fazem o jogo do contente, esperando uma redenção que – um dia, elas precisam acreditar – virá. Dizem que é bom se conformar, que a vida é assim mesmo, que nunca a tempestade é maior do que podemos suportar, que questionar o destino é errado. E, é claro, tem gente que até vive procurando o sofrimento o tempo todo, punindo a si mesma a aos outros de uma maneira muito cruel. Tem gente que até mesmo se acostuma a sofrer tanto que quando tem um momento feliz não sabe aproveitar, não entende.

Sofredores e não-sofredores… Eu não estou nem em um grupo, nem em outro. A vida foi relativamente boazinha comigo. Tive família, tive chance de estudar, nunca passei fome, minha saúde sempre foi ótima, escolhi a profissão que amo, nunca sofri grandes fatalidades. Mas também nunca ganhei muitos presentes. Tudo que eu tenho tive que trabalhar muito pra conseguir. Todas as minhas conquistas custaram muitas lágrimas, reflexões e cansaço. Todos os sonhos realizados tiveram que ser construídos por minhas próprias mãos, tijolinho por tijolinho. E ainda tem uns tantos outros que, eu sei, vão custar muito pra realizar. Muito. E muita coisa eu vou morrer desejando, sem conseguir alcançar jamais.

Mas eu penso nisso quando vejo essas imagens de gente que perde tudo em uma enchente, que morre em acidente nas estradas por causa de um outro motorista bêbado, que é ludibriado, que pega uma doença rara, que é enganado, que estava no lugar e na hora errada, que nasce e vive sofrendo. E não estou falando só de dinheiro e bens materiais, não. É muito mais que isso.

Às vezes é uma grande pena que esse tipo de questão não tenha resposta… De repente, o lance é mesmo só pra gente perguntar.

Há canções que a gente ouve, canta, reproduz, imita, repete… E um dia, de repente, ela faz tanto sentido que você descobre por que é uma grande canção.

“Ah… Se o mundo inteiro me pudesse ouvir…
Tenho tanto pra contar, dizer que aprendi
Que na vida a gente tem que entender
Que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri…

Mas quem sofre sempre tem que procurar
Pelo menos vir achar razão para viver
Ter na vida algum motivo pra sonhar
Ter um sonho todo azul… Azul da cor do mar…”

13 comentários sobre “AZUL DA COR DO MAR

  1. Como sempre você arrasou!!Já venho acompanhando seu blog a maios ou menos uns dois anos, e acho que você escreve lindamente…com uma sensibilidade que me faz encher os olhos d’agua…Mas de uns tempos para cá tenho te notado meio tristinha, desanimada…Espero que seja passageiro…Fique com Deus…

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  2. Nossa…Ká…
    Vc me conhece bem e sabe, que, no fundo, embora em muitas coisas a vida também tenha sido ‘boazinha’ comigo, em outras tantas eu estou sempre a procurar uma razão para viver, algum motivo pra sonhar… E, talvez não coincidentemente, minha cor preferida é azul… Azul da cor do mar…

    Eu também não entendo porque alguns tem tudo tão fácil, outros nem com muito esforço chegam a algum lugar, e outros, como nós, precisam ir devagar e sempre, com muita luta, em busca dos sonhos…

    Beijos… Em breve poderemos papear sobre isso, se Deus quiser!!!

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  3. Verdade: o sofrimento não é distribuído igualmente. MAs é verdade tb que as pessoas não tem a mesma força diante dos problemas, tem gente que é fraca demais. Acho que nesse sentido a vida, Deus, ou seja lá o nome que se queira dar, distribui o sofrimento não igualmente, mas nas medidas certas.

    Outra verdade: nem td depende de nós. Existem coisas que a gente não sabe pq acontece. E acontecem mesmo, nos surpreendem e mudam a nossa vida e destróem td. Lembrei da música do Chico, “faz tempo que a gente cultiva a mais linda roseira que há, mas eis que chega a roda-viva e carrega a roseira pra lá”.

    Kari, a gente se conhece já faz um tempão, e eu posso afirmar com certeza que pouca gente é amiga da esperança como vc é. Mas senti por baixo desse texto uma reclamação pessoal, quase inconsciente, do tipo, “a vida não me dá o que eu mereço, caramba!”. E é verdade isso tb. Vc é brilhante, tem uma capacidade rara para mtas coisas, mas concordo que a vida não te deu nem um terço do reconhecimento que vc merece, e, vc sabe, são poucas as pessoas que te cercam que sabem realmente o seu valor. Um pouco de coisas da vida? Talvez. Mas será que a parte que depende de vc está feita? Será que não está na hora de se mostrar um pouco mais, de pegar o que é seu?

    Vc pode começar escrevendo um livro com essa capacidade toda, ou procurando um trabalho que te remunere justamente… Vc consegue. Mas tem que dar um passo, sair dessa aura meio esquisita e tristonha que vc anda de uns anos pra cá e afastar de vc pessoas que te colocam pra baixo, que não te apóiam ou te sugam demais.

    E eu posso começar escrevendo um blog, dado o tamanho desse comentário. *rs

    Eu te adoro, e sei que o seu sonho vai ser mais lindo do que qqer azul que existe no mar… Aquele azul do CAetano, “azul que não há… azul que é pura memória de algum lugar.” :))))

    Bjo do amigo que torce por vc todos os dias. Saudades.

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  4. *olhos marejados*

    às vezes penso que a vida é muito injusta comigo, que nada vem fácil, etc.
    mas depois penso nos grandes sofrimentos humanos e vejo como sou abençoada!
    vivo nessa dialética e a síntese ora pesa mais de um lado da balança, ora do outro…

    beijos :*

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  5. Deus te abençôe por tocar o coração das pessoas desta maneira…

    Suas perguntas também são as minhas…

    E concordo, acho que não há resposta, mas não podemos deixar de perguntar.

    Beijos, com saudades…

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  6. Querida, antes de mais nada, que saudades de vc e daqui. Quanto à sua reflexão sobre a sorte (vamos chamar assim?) que alguns parecem ter sem merecer, posso dizer que, muitas vezes, também a faço. E, depois de fazê-la, sempre chego à conclusão de que tenho pena de quem tem tudo de mão beijada. Geralmente, essas pessoas não conhecem o valor de nada, inclusive da própria vida. Então, acabo concluindo, inevitavelmente, que estrela no topo da cabeça temos nós que lutamos por tudo o que desejamos, e conhecemos o valor de cada conquista.

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  7. Que texto triste! Fico muito mal em saber de histórias assim, muito mesmo…

    Eu acredito em carma. Não gosto de pensar que tudo o que eu construí, tudo que aprendi e que fiz nessa vida se perderá quando eu morrer.

    Um grande beijo.

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  8. Olá. Estava navegando de bobeira na internet e achei o seu site. Muito bom e confortante saber que ainda existem pessoas no mundo como você.
    Seus textos são maravilhosos, você é uma pessoa de verdade.. no sentido real da palavra.

    Beijos

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  9. Oi Karina, é a primeira vez que leio o seu blog e adorei o texto “tempestade”. Mandei pra minha irmã porque acho que ela está passando por um momento que requer reflexões como essa.
    Vi também alguns comentários, que só reforçaram a idéia de você que começou a ser formar na minha cabeça à medida que ia lendo os seus textos. De uma pessoa sensível e que foi agraciada com o dom de colocar “no papel” o que sente e pensa.
    Espero que um dia tenhamos resposta para os questionamentos que você fez. Pra falar a verdade no fundo no fundo eu acho que já temos, mas ainda não nos damos conta. Também não gosto da palavra “conformismo”, aliás sempre lutei contra ela minha vida inteira! mas gosto muito de duas outras palavras, e acredito com todas as minhas forças que elas são as palavras-chave na vida: esperança e fé. Fé no que quer que seja ou em quem seja, fé de existe um sentido maior para tanta complexidade e beleza que não somente as conquistas materiais, fé que todo o amor que dedicamos não se perde nesse universo grandioso, fé que a energia que criamos é a mesma que nos rodeia, e que é nossa responsabilidade fazer de cada dia um dia melhor.
    Abraços pra vc, e espero continuar acompanhando seu blog!
    Ce

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  10. Mafalda!
    Sempre leio seu Blog. Não nos conhecemos, mas saiba que já em ajudou muito. Quando li este seu texto, fiquei pensando sobre a evolução humano. Isto é o que me faz aceitar as dificuldades e suportar a dor do outro por tanto sofrimento. Acreditar que estamos aqui para aprender e superar nossas limitações e fraquezas d´alma.

    Quando tiver um tempo visite meu Blog. http://manhasemanhas.blogspot.com

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