SAUDOSÍSSIMA – II


Muita gente me pergunta como é que se faz pra aguentar 35 crianças de 3 anos dentro de uma sala por 4 horas por dia ( depois de já ter aguentado mais 35 de 5 anos pelas mesmas 4 horas ). Eu fico frequentemente espantada com a pergunta, talvez porque, pra mim, o barulho, a confusão, o desgaste físico e emocional e todas as humilhações e idiotices políticas que afetam as escolas públicas já estejam naquele nível de dormência que me impede de questionar o inquestionável.

Mas outro dia, depois de uma conversa com uma amiga que me sugeriu milhares de outras profissões nas quais eu me daria muito bem ( segundo ela, é claro ), fiquei pensando nisso. Por que insistir com as crianças? PIor: por que insistir na escola, que já está tão falida que não passa de uma instituição fantasma? Já não seria hora de mudar?

Aí eu fiquei me lembrando de quando eu era criança, e o mundo era só um tapete rico e colorido pra eu andar e descobrir. Que delícia era aquilo tudo… Tudo era novidade. Uma fita métrica, um copo de lata, um carimbo da minha mãe, um elevador, uma roupa com lantejoulas. Tudo era brilhante e diferente, tudo era adorável e curioso. Tudo fazia o mundo ter uma graça, um mistério, um calor diferente. E me peguei muito, muito saudosa daquela época.

Para as crianças, os dias são assim: compridos, intermináveis. Eu me lembro que uma mesma tarde dava pra brincar, pra fazer a lição de casa, pra assistir o Bambalalão, pra dormir, pra desenhar, tomar café da tarde e ainda passear com minha vó no supermercado da esquina. Que tardes eram essas, que hoje em dia ficaram tão curtas pra mim? Por que o tempo, para os adultos, é tão curto, tão corrido? Quando ganhei o meu primeiro relógio que funcionava, aquele, que as crianças ganham quando ainda não sabem ver horas direito, me lembro de pensar que o relógio tinha que ficar na mão esquerda porque lá ficava a veia do coração. Eu acreditava piamente que eram as batidas do coração que faziam o relógio fazer tic-tac, que o tempo sempre vinha de dentro. Que pena que a lógica matemática dos adultos não me deixar mais acreditar nessas coisas…

E o que dizer da capacidade inesgotável de se movimentar? Pular de uma escada de 10 degraus, cair, quebrar o braço, correr sem parar, trepar nas estantes, andar de bicicleta por horas, balançar, gangorrar, pendurar-se nas portas do guarda-roupa, achar graça em galo na testa, língua mordida e gesso no pé… Que patéticos são os adultos, que só correm pra chegar no horário no banco, que não conseguem mais se atirar laje abaixo sem se quebrar inteiros, que não se aventuram mais a pular os degraus da escada, que não conseguem se movimentar nem pra buscar a comida na cozinha depois de um dia cansativo de trabalho. Patéticos são os adultos, que usam as mesmas roupas por anos, pois não crescem mais, não mudam, a não ser para envelhecer e engordar.

Os relacionamentos, esses eram efêmeros e deliciosos. Um sentimento de ira virava um tapinha ou um simples “tô de mal”. Uma festa de aniversário era motivo pra uma euforia incontrolável que durava dias. Uma brincadeira nova era razão de arrumar mais amigos, mais gente pra brincar e fechar a rua. Criança não costuma mentir pra agradar, nem pra fazer média, e também não gosta de ser contrariada. Que delícia era chorar com vontade quando alguém me magoava ou ofendia, ao invés de sorrir amarelo ou fingir que não entendi. Que máximo era gritar, beijar, abraçar e fazer carinho com vontade, descobrindo o outro, sem me preocupar em ser incoveniente nem invasiva. Que delícia era ficar de bem apenas dando um dedinho, sem precisar de tempo, nem de discussões fiolosóficas intermináveis, nem de promessas falsas, nem de perdões impossíveis. Que delícia era poder me expressar na certeza de que seria acolhida, não importa se estivesse feliz ou triste, brava ou tranquila, indignada ou pasma.

Os problemas de criança são curtos e intensos, como um comercial de televisão. Quanto tempo dura um castigo? Por que a capa do caderno rasgou? O que eu vou fazer quando o meu pai chegar e ver a parede rabiscada de canetinha? Por que o meu amigo corre mais rápido que eu? Nada parecido com as coisas que consomem os dias dos adultos, os adultos, tão lineares em suas desgraças, e incapazes de se divertir com a alma em meio às crises… Os adultos, que se preocupam com o que não podem e não poderão nunca resolver, e assim deixam os dias passando debaixo do próprio nariz.

A criança é aquele ser inacabado, aquele poema em construção, aquela música que está sendo composta. Se revê, se atualiza, se reencontra, se reencanta a todo momento, e assim é vista também. Para o adulto, não há mais mistério em como funciona uma televisão, nem em como as nuvens passeiam no céu, nem no granizo nos dias de temporal, nem em como se dirige um carro. Não há mais graça nas coisas pequenas do dia-a-dia, e é por isso que as pessoas grandes estão sempre buscando a alegria e o encantamento em coisas inatingíveis, imaginárias, em idealizações imensas e sem nexo. O adulto não consegue, como a criança, ser feliz com pouco.

É por isso que os adultos têm inveja das crianças. É por isso que brigam tanto, se incomodam tanto, se irritam tanto com elas. É por isso que querem controlá-las, ensiná-las, dizer o que têm que fazer, não importa se isso vai custar lágrimas inocentes e milhares de “cala a boca e obedece!”. É por isso que os adultos insistem em adaptar as crianças a um mundo que eles mesmos repudiam, sem dar a elas a chance de transformação, de criar novas possibilidades, de simplificar as coisas. É por isso que a criança é sufocada pela mania de”porvir” do adulto; ela acaba cedendo e se tornando um adulto triste, sendentário e complicado também. É por isso que as crianças fracas ficam tristes mesmo quando ainda são pequenas, tendo a infância roubada pela agenda louca e ditadora dos adultos. É por isso que nós, adultos, esquecemos de como era legal brincar e ter a felicidade ao alcance dos dedos com o passar dos tempos… E chegamos a nos perguntar por que queremos ter crianças por perto.

Depois de tantas viagens, descobri por que quero estar perto das crianças. É que, ao vê-las tão felizes com a vida, roubo delas um pouco dessa alegria que as crianças são. Roubo descaradamente, e me dou o direito e o prazer de redescobrir o prazer de carregar água de um lado pro outro, de descobrir uma fita métrica, de costurar uma boneca de pano, de brincar com lantejoulas coloridas, de pintar com tinta e melecar a mão. Passo por tudo isso de novo, e quando me esqueço, por alguns minutos, que sou a adulta responsável por eles, fico feliz e tranquila, como uma criança… Esqueço de tudo lá fora, e vivo minha vida leve de novo – ainda que não consiga mais correr por tantas horas, nem me encantar com o caracol sapateando perto da areia do parque. Quando estamos juntos, nos divertindo, ou quando eu as observo, vejo nelas a alegria que eu mesma era, e me lembro como a vida pode ser simples quando a gente fala “pefessola” e tem tudo pela frente. As crianças, se me sugam, me alimentam o dobro todos os dias. E é por isso que, enquanto a criança moleca que eu fui ainda estiver viva, vou querer estar perto delas.

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