SÚPLICA AO MUNDO

Mundo, por favor, seja doce com as minhas meninas. Ensine-as a ser ternas, piedosas, calmas e carinhosas dando a ela amor e suavidade todos os dias. Ajude-as a entender quão importante é cultivar a alma a salvo das durezas do dia-a-dia. Que elas tenham um jardim secreto, um lugarzinho escondido, onde elas possam sempre sorrir e descansar. Faça-as conhecer pessoas que sejam bons exemplos de humanidade. Que elas recebam flores, presentes, sorrisos e graças de todos. Que sejam amadas e admiradas pelas pessoas mais rígidas. Que esquentem corações gelados onde forem. Que elas possam sempre ser abençoadas e viver em comunhão intensa com Deus, que encontrem esse caminho cedo e duradouramente. Que possam comer chocolate à vontade, tomar sorvete, lambuzar a cara de pirulito enquanto viverem. Porque se você for ruim para elas, mundo, será a minha boca que sentirá o gosto amargo.

Mundo, por favor, poupe as minhas meninas. Se elas caírem, que o chão seja macio. Se elas ficarem doentes, que não sofram mais que um dia. Se elas chorarem, que não seja de tristeza profunda. Se elas tentarem e não der certo, que perca a importância. Se precisarem de alguma coisa que não podem ter, que tenham o dobro em outras coisas que querem. Que elas nunca deixem de sonhar, de querer, de desejar. Não deixe que elas sofram ou vejam violência, que nunca sejam assaltadas, furtadas ou machucadas por ninguém. Ajude-as a se defender de abusos de qualquer natureza, e se não puderem sozinhas, sempre coloque alguém para ajudá-las. Por favor, Mundo, que elas só morram bem velhinhas e tranquilas, depois de terem vivido tudo que quiseram viver, sem nenhuma história ruim pra contar. Porque se você agredi-las, mundo, será como se batesse ainda com mais força em meu próprio rosto.

Mundo, por favor, encante minhas meninas. Mostre a elas coisas bonitas. Que no caminho delas haja sempre uma flor diferente, uma estrela mais brilhante, um céu mais aberto, um desenho interessante no chão. Mostre a elas o brilho do conhecimento, a força das idéias, o impacto positivo da Arte e da Música. Que elas possam, inspiradas por você, criar coisas nunca antes vistas, embelezar coisas que antes eram desprezíveis. Afaste-as da murmuração, da pobreza de espírito. Mostre a elas bons programas na televisão, que ouçam músicas lindas no rádio, que possam ir aos museus todos os meses. Que escrevam livros maravilhosos para elas, que lhes contem histórias fantásticas, que as minhas meninas possam ser sempre imaginativas e cheias de idéias mirabolantes e engraçadas. Porque se você for feio para elas, mundo, meus olhos e ouvidos serão feridos também.

Mundo, por favor, dê oportunidade para as minhas meninas. Que elas tenham bons professores, boas profissões, que possam expressar seus talentos. Que conheçam pessoas boas e inteligentes, que convivam bem com as diferenças, que aceitem o que é estranho para elas, que não se apeguem a coisas fúteis. Mundo, ajude-as a encontrar o prazer no trabalho, no estudo, na diversão sadia. Que possam namorar e se casar com bons rapazes, e que eles não sejam perfeitos para elas, mas que as ajudem crescer como pessoas. Que sejam atendidas por bons médicos, que sempre encontrem pessoas dispostas a escancarar portas e janelas, e que elas saibam entrar por elas com segurança. Que o coração delas nunca fique angustiado por dinheiro e nem por bens materiais, que possam ter tudo que precisam e saber lutar pelo que querem. Porque se elas não puderem conseguir coisas de você, mundo, então também eu terei perdido.

Mundo, por favor, desafie minhas meninas. Não as proteja demais, e nem torne-as fracas e sem iniciativa. Que elas possam sempre aprender uma coisa diferente a cada dia, que não tenham nada sem esforço, mas que não precisem se esforçar mais do que podem para conseguir. Que nunca se sintam abatidas por uma dificuldade, mas sim estimuladas a irem ainda mais longe. Dê para elas problemas para resolver. Fruste-as com cuidado, bem devagarinho. Provoque-as com sutileza. Movimente-as constantemente. Porque se elas se acomodarem, mundo, também eu serei menos brilhante.

Mundo, por favor, não castigue minhas meninas. Feche os olhos para os erros graves delas, não seja justo todo o tempo. Não cobre delas o preço pelas fraquezas humanas. Se elas não forem boas todo o tempo, finja que não viu. Não deixe que elas colham os frutos doentes se por acaso plantarem sementes podres. Ajude-as a não magoar as pessoas. Não deixe que elas tenham dificuldade de aprender as coisas. Não ligue se elas forem teimosas, geniosas ou preconceituosas. Que a aprendizagem delas sempre seja pelo amor e nunca pela dor, mesmo que elas não mereçam… Por favor, Mundo, por favor, dê a elas esse privilégio. Porque se você não tiver piedade delas, mundo, sentirei como se eu mesma não tivesse oportunidade do erro.

Mundo, por favor, seja saudável por minhas meninas. Conserve a salvo alguma água limpa para que elas bebam, algum ar puro para que elas respirem, alguns animais bonitos para que elas observem e se encantem. Tire um pouco de carros das ruas para elas passarem, apresente mais árvores no meio do concreto, deixe que elas tenham encontros frequentes com o mar. Não se entupa de lixo, Mundo, não deixe que estraguem tudo o que você tem de bom. Que elas possam colaborar para manter você em ordem e conservado. Porque se você não respirar melhor por elas, mundo, eu mesma me sentirei sem ar.

Mundo, por favor, não faça sofrer minhas meninas. Não deixe que sejam desprezadas por nenhum amiguinho. Não deixe que seus pais as abandonem e desamparem. Não deixe que os adultos as podem. Não deixe que sejam obrigadas a se calar. Mundo, por favor, não deixem que sofram por gostar de quem não gosta delas. Não deixe que elas façam escolhas erradas. E se fizerem, não deixe que elas vivam sem perceber isso. Não deixe que os dias delas passem em branco… Mundo, poupe-as da dor da solidão, da dor existencial, da dor de encontrar-se com o outro. Porque se elas sofrerem, mundo, o meu coração será tomado de uma tristeza infinitamente maior.

Mundo, não afaste as minhas meninas de mim… Não as leve para longe, não deixe que elas se esqueçam. Que eu sempre tenha algo de bom para compartilhar com elas, que elas sempre sejam minhas amigas, que confiem em mim, e que eu nunca as decepcione.

Mas se nada disso for possível, Mundo, se o desejo do meu coração não puder ser atendido… Se eu e você não pudermos protegê-las, favorecê-las, guardá-las… Se for preciso que elas, como as outras pessoas, tenham que sofrer mais do que parecem poder para viver… Se a essência da vida for mesmo viver com dificuldade, errando e acertando, chorando e sorrindo, encontrando e separando, tendo que conviver com o que é feio e com o que é belo, tendo que escolher entre o certo e o errado… Se nem tudo puder ser fácil, tranquilo e protegido sempre… Se você, de tantos pedidos, apenas puder me conceder um…

Então, Mundo, por favor, que a vida sempre valha a pena para as minhas meninas. Porque se elas forem felizes por você e apesar de você, Mundo… Então eu serei feliz também.

É o que sinceramente desejo para minha afilhada Débora, a luz da minha vida… Minha sobrinha Larissa, sinônimo de alegria… E minha mais nova sobrinha Letícia, que com menos de dois dias de vida renovou minhas esperanças com ternura e o mais puro amor.

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CARTA – II

Vozinha querida,

Tem tanta coisa que eu queria te dizer agora… Nessa hora, de dor e de separação.

Esta é daquelas cartas que a gente escreve pra gente mesma… Que nunca vai poder chegar ao remetente, ao menos não fisicamente. Muita gente diria que não faz sentido escrever uma carta pra alguém que não vai poder lê-la. Mas eu escrevo com fé de que você, de alguma maneira, vai saber o que eu vou dizer… Ou melhor ainda, já sabia, antes mesmo que eu pudesse escrever.

Você se foi na quinta-feira. Morreu de repente. As pessoas podem achar loucura eu dizer isso, uma vez que você estava em uma cama há 13 anos, vítima de um AVC fortíssimo, que lhe tornou totalmente dependente dos outros. Além disso, estava internada no hospital há duas semanas, e com 89 anos. Era de se esperar que, qualquer dia desses, você morresse… Mas aqui, no meu coração, você era eterna… Você sempre esteve lá. E com uma ingenuidade quase infantil, eu achava que você sempre ia estar.

Eu queria te dizer tanta coisa, e só consigo me sentir sozinha e desamparada. Como é dura a perda, como é duro entender que somos falíveis, e que nosso amor não é mágico o suficiente para segurar uma pessoa pra sempre perto de nós. É duro enxergar a vida como ela é, vó… E eu sei que você sabe disso.

Mas estou escrevendo mesmo porque esqueci de te agradecer. Agradecer por você ter cuidado de mim quando eu era pequena pra minha mãe ir trabalhar, mesmo eu sendo uma criança encapetada. Agradecer por você ter feito comidas deliciosas pra eu comer, por ter arrumado a minha cama, trocado minhas fraldas, lavado minhas roupas, me dado banho. Agradecer porque eu sei que você faria tudo isso de novo por mim, quantas vezes fosse necessário. Agradecer porque você me comprava doces, deixava eu brincar na rua e me obrigou a largar a chupeta. Agradecer porque você me levou ao médico quando eu quebrei o braço, me abrigava na sua casa quando eu queria estar longe da minha e me defendeu da braveza dos meus pais tantas vezes. Agradecer pelas cantigas, lições e coisas que você me ensinou com suas palavras e sua vida correta.

Eu esqueci também de te dizer que os melhores momentos da minha infância, eu vivi na sua casa, lá na Lapa, aquela casinha velha e simpática. Era lá que a vida fazia mais sentido, era lá que eu me sentia livre de verdade, e era láque eu gostava de ver você brigando com o meu avô por causa da escaleta. São tantos os momentos felizes… A sua casa era um oásis, e me salvou das loucuras dos meus pais inúmeras vezes. Obrigada por você ter acolhido a mim, e tanta gente, lá, comendo do seu feijão e dormindo no seu sofá.

Queria também dizer que eu sempre senti um orgulho danado de você. Eu sei, você era uma mulher simples, analfabeta, pobrezinha, negra, nordestina, e nos últimos anos, idosa e doente – um monte de coisas que as pessoas idiotas deste mundo costumam diminuir e desprezar. Mas eu sentia um orgulho danado de você ser minha avó! Te achava forte, íntegra, carinhosa e sincera… E, mesmo quando você pensava que eu não estava prestando atenção, você me ensinou o jeito mais completo e mais decente de ser uma pessoa legal.

Vozinha, por favor, me perdoa. Me perdoa quando eu te infernizei e desobedeci quando era pequena… Me perdoa quando eu deixei de te visitar quando fiquei mais crescida e tinha meus olhos voltados para o mundo… Me perdoa pelas má-criações… Me perdoa quando, depois de você ter vindo morar aqui nos fundos da minha casa, eu esqueci de ir lá pedir sua benção e te dar um pouquinho de atenção nos dias de muito cansaço. Me perdoa se muitas vezes eu não tive paciência com as agruras da sua doença, e nem compreendi seu sofrimento… Me perdoa se não fiz mais pelo seu bem-estar e seu sossego… Me perdoa se não quis que você morresse por ser egoísta demais pra me sentir desamparada. Eme perdoa pelas duras críticas que fiz a você quando estava me achando muito adulta e auto-suficiente. Me perdoa por ter me sentido magoada, achando que você sempre gostou mais do meu irmão do que de mim. Me perdoa por não ter ido ao hospital te ver na quarta-feira, e por ter ficado com raiva quando descobri que você tinha partido. Me perdoa por estar cansada demais pra segurar sua mão nos últimos tempos… Me perdoa por ter enfrentado você quando era adolescente. A verdade é que, perto de você, eu sempre serei uma menininha boba e chorona, precisando do seu colo e do seu carinho… Do seu exemplo e da sua força… Da sua sabedoria e do seu amor.

Eu queria também te dizer que eu sei. Eu sei que você orou por mim todas as noites da minha vida, que você fez por mim tudo que sabia, que podia, e que o seu amor por mim nunca teve medida.

Vovó querida, eu fiquei mesmo pensando num jeito de não deixar você morrer. Não o seu corpo, que este está lá, enterrado, no escuro e no frio. Mas não deixar a sua lembrança morrer. Fiquei tentando achar um jeito de contar pra todo mundo a pessoa incrível que você foi… Um jeito de não deixar morrer suas expressões hilárias, suas frases sábias, as suas receitas deliciosas, o seu pudim de leite, o seu macarrão. Um jeito para que, mesmo quando eu não estiver mais aqui, as pessoas pudessem saber que você existiu, e foi tão maravilhosa, e tão incrível… E tão tudo.

Meu coração se encheu de tristeza quando descobri que esse jeito não existe. Que o tempo vai passar, e vai levar tudo com ele. As suas roupas bordadas, as suas fotografias, as coisas que você disse… Tudo isso vai se perder. E não há nada que eu possa fazer… Nada. Um dia ninguém mais vai saber que você um dia esteve aqui, e abrilhantou o mundo com tudo que foi e fez.

Mas vovó, eu descobri também que, de um outro jeito, as pessoas como você nunca morrem, simplesmente porque afetam outras pessoas. O que você é está em mim… Não só no meu DNA, na cor da minha pele, no jeitão dos meus quadris.Mas está na minha subjetividade, nos meus hábitos, nas minhas idéias. E quando eu for avó, como você, meu netos saberão que muito do que eu sou veio de você… E assim também será com os netos deles também.

Cada um tem um caminho a trilhar, vó. Você trilhou o seu. Eu não sei o que me espera, não sei como vou me sair. Talvez a minha vida sirva para iluminar a vida de outros, como a sua serviu. Talvez eu passe em branco por aqui. Mas de um jeito ou de outro, eu serei sempre um pouco de você neste mundo. Espero conseguir levar esse honroso legado com a integridade que você merece.

Meu coração está em luto… Um luto triste e tranqüilo. Mas também está alegre por ter tido a graça de ter compartilhado da sua companhia.

Eu te amo muito… E nunca vou te esquecer.

Vai em paz… Que eu aqui fico. Viva… E deixando você viver através de mim.

Beijo da sua neta.

São Paulo, 06/05/08