CARTA – II

Vozinha querida,

Tem tanta coisa que eu queria te dizer agora… Nessa hora, de dor e de separação.

Esta é daquelas cartas que a gente escreve pra gente mesma… Que nunca vai poder chegar ao remetente, ao menos não fisicamente. Muita gente diria que não faz sentido escrever uma carta pra alguém que não vai poder lê-la. Mas eu escrevo com fé de que você, de alguma maneira, vai saber o que eu vou dizer… Ou melhor ainda, já sabia, antes mesmo que eu pudesse escrever.

Você se foi na quinta-feira. Morreu de repente. As pessoas podem achar loucura eu dizer isso, uma vez que você estava em uma cama há 13 anos, vítima de um AVC fortíssimo, que lhe tornou totalmente dependente dos outros. Além disso, estava internada no hospital há duas semanas, e com 89 anos. Era de se esperar que, qualquer dia desses, você morresse… Mas aqui, no meu coração, você era eterna… Você sempre esteve lá. E com uma ingenuidade quase infantil, eu achava que você sempre ia estar.

Eu queria te dizer tanta coisa, e só consigo me sentir sozinha e desamparada. Como é dura a perda, como é duro entender que somos falíveis, e que nosso amor não é mágico o suficiente para segurar uma pessoa pra sempre perto de nós. É duro enxergar a vida como ela é, vó… E eu sei que você sabe disso.

Mas estou escrevendo mesmo porque esqueci de te agradecer. Agradecer por você ter cuidado de mim quando eu era pequena pra minha mãe ir trabalhar, mesmo eu sendo uma criança encapetada. Agradecer por você ter feito comidas deliciosas pra eu comer, por ter arrumado a minha cama, trocado minhas fraldas, lavado minhas roupas, me dado banho. Agradecer porque eu sei que você faria tudo isso de novo por mim, quantas vezes fosse necessário. Agradecer porque você me comprava doces, deixava eu brincar na rua e me obrigou a largar a chupeta. Agradecer porque você me levou ao médico quando eu quebrei o braço, me abrigava na sua casa quando eu queria estar longe da minha e me defendeu da braveza dos meus pais tantas vezes. Agradecer pelas cantigas, lições e coisas que você me ensinou com suas palavras e sua vida correta.

Eu esqueci também de te dizer que os melhores momentos da minha infância, eu vivi na sua casa, lá na Lapa, aquela casinha velha e simpática. Era lá que a vida fazia mais sentido, era lá que eu me sentia livre de verdade, e era láque eu gostava de ver você brigando com o meu avô por causa da escaleta. São tantos os momentos felizes… A sua casa era um oásis, e me salvou das loucuras dos meus pais inúmeras vezes. Obrigada por você ter acolhido a mim, e tanta gente, lá, comendo do seu feijão e dormindo no seu sofá.

Queria também dizer que eu sempre senti um orgulho danado de você. Eu sei, você era uma mulher simples, analfabeta, pobrezinha, negra, nordestina, e nos últimos anos, idosa e doente – um monte de coisas que as pessoas idiotas deste mundo costumam diminuir e desprezar. Mas eu sentia um orgulho danado de você ser minha avó! Te achava forte, íntegra, carinhosa e sincera… E, mesmo quando você pensava que eu não estava prestando atenção, você me ensinou o jeito mais completo e mais decente de ser uma pessoa legal.

Vozinha, por favor, me perdoa. Me perdoa quando eu te infernizei e desobedeci quando era pequena… Me perdoa quando eu deixei de te visitar quando fiquei mais crescida e tinha meus olhos voltados para o mundo… Me perdoa pelas má-criações… Me perdoa quando, depois de você ter vindo morar aqui nos fundos da minha casa, eu esqueci de ir lá pedir sua benção e te dar um pouquinho de atenção nos dias de muito cansaço. Me perdoa se muitas vezes eu não tive paciência com as agruras da sua doença, e nem compreendi seu sofrimento… Me perdoa se não fiz mais pelo seu bem-estar e seu sossego… Me perdoa se não quis que você morresse por ser egoísta demais pra me sentir desamparada. Eme perdoa pelas duras críticas que fiz a você quando estava me achando muito adulta e auto-suficiente. Me perdoa por ter me sentido magoada, achando que você sempre gostou mais do meu irmão do que de mim. Me perdoa por não ter ido ao hospital te ver na quarta-feira, e por ter ficado com raiva quando descobri que você tinha partido. Me perdoa por estar cansada demais pra segurar sua mão nos últimos tempos… Me perdoa por ter enfrentado você quando era adolescente. A verdade é que, perto de você, eu sempre serei uma menininha boba e chorona, precisando do seu colo e do seu carinho… Do seu exemplo e da sua força… Da sua sabedoria e do seu amor.

Eu queria também te dizer que eu sei. Eu sei que você orou por mim todas as noites da minha vida, que você fez por mim tudo que sabia, que podia, e que o seu amor por mim nunca teve medida.

Vovó querida, eu fiquei mesmo pensando num jeito de não deixar você morrer. Não o seu corpo, que este está lá, enterrado, no escuro e no frio. Mas não deixar a sua lembrança morrer. Fiquei tentando achar um jeito de contar pra todo mundo a pessoa incrível que você foi… Um jeito de não deixar morrer suas expressões hilárias, suas frases sábias, as suas receitas deliciosas, o seu pudim de leite, o seu macarrão. Um jeito para que, mesmo quando eu não estiver mais aqui, as pessoas pudessem saber que você existiu, e foi tão maravilhosa, e tão incrível… E tão tudo.

Meu coração se encheu de tristeza quando descobri que esse jeito não existe. Que o tempo vai passar, e vai levar tudo com ele. As suas roupas bordadas, as suas fotografias, as coisas que você disse… Tudo isso vai se perder. E não há nada que eu possa fazer… Nada. Um dia ninguém mais vai saber que você um dia esteve aqui, e abrilhantou o mundo com tudo que foi e fez.

Mas vovó, eu descobri também que, de um outro jeito, as pessoas como você nunca morrem, simplesmente porque afetam outras pessoas. O que você é está em mim… Não só no meu DNA, na cor da minha pele, no jeitão dos meus quadris.Mas está na minha subjetividade, nos meus hábitos, nas minhas idéias. E quando eu for avó, como você, meu netos saberão que muito do que eu sou veio de você… E assim também será com os netos deles também.

Cada um tem um caminho a trilhar, vó. Você trilhou o seu. Eu não sei o que me espera, não sei como vou me sair. Talvez a minha vida sirva para iluminar a vida de outros, como a sua serviu. Talvez eu passe em branco por aqui. Mas de um jeito ou de outro, eu serei sempre um pouco de você neste mundo. Espero conseguir levar esse honroso legado com a integridade que você merece.

Meu coração está em luto… Um luto triste e tranqüilo. Mas também está alegre por ter tido a graça de ter compartilhado da sua companhia.

Eu te amo muito… E nunca vou te esquecer.

Vai em paz… Que eu aqui fico. Viva… E deixando você viver através de mim.

Beijo da sua neta.

São Paulo, 06/05/08

19 comentários sobre “CARTA – II

  1. Emocionante. Chorei muito. Lembrei dos avós que partiram. Da minha avozinha que ainda está conosco. Lembrei quando ia visitar a sua avó com vc. E lembrei muito de vc, vc não está só. E eu te amo muito, e agradeço a Deus publicamente, e a ela, secretamente, por vc ser o que vc é- essa pessoa maravilhosa. Um beijo no coração. Beto.

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  2. Que pena… nossos avós deveriam ser proibidos de nos deixarem. Já senti a sua dor e sei que ela é enorme, e pior, que não diminui. Até se transforma em uma dor diferentes, em um pesar pela pessoa não estar presente para compartilhar alguns momentos com a gente, mas não diminui. Muita força para você. Beijo!

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  3. Há alguns dias, me indicaram seu blog. Li e me apaixonei…
    A perda dói muito mesmo. É horrível a sensação de saber que todos vão embora… Meus pesames e creia que sua avó, está descansando agora e tenha certeza que de alguma maneira, ela leu sua carta.

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  4. Encontrei seu blog por acaso… E tenho que comentar esse texto….

    Li seu texto e lágrimas correram a vontade pelo meu rosto… lembrei de minha avozinha que morreu… meu avo que se foi de saudade dela… e meu unico avô vivo… que está tão doentinho e que mora tão longe e há muito tempo q não visito…

    Espero q sua dor diminua. Lembre-se sempre q vc irá levar a lembrança de sua avó para toda a sua vida. E a cada gesto que fizer exercitando o que ela te ensinou, sua bondade e carinho, vc estará manifestando para o mundo o que era sua avó.

    Beijos!

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  5. Meus pesames Karine, sua vozinha com certeza estas nos braços do Pai, assim como todos nossos etens queridos! Muita paz e que Papai do Céu lhe dê o conforto.

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  6. Querida,
    me perdoe, tem décadas q eu não apareço! Se vc soubesse como minha vida anda louca…
    Mas não vim aqui pra falar dos meus problemas.
    Perdi a minha bisavó faz pouco tempo. Agredeço a Deus a possibilidade de ter tido uma bisavó q tanto me amou, mimou, paparicou, estimulou a seguir meus sonhos, me ensinou a ser mais guerreira e tantas coisas mais.
    Ela passou o último ano da vida dela numa cama, sem se mecher, comer, beber água, como um vegetal, vítima do alzheimer e de outra doença q não me recordo agora.
    Mas mesmo assim foi difícil vê-la partir. Hoje eu faço faculdade de direito na UFRJ, moro no Rio, como ela sempre sonhou. O meu quarto é o quarto q era dela! Ela está viva em mim, e olha por mim onde ela está, tenho certeza.
    Assim como tenho certeza de q a sua vó tbm está olhando por vc, e com certeza, está mto orgulhosa.
    Um beijão!

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  7. Pessoa! Acabei de encontrar o teu blog no google, nem lembro mais o que estava a procurar. Mas voilà, que textos maravilhosos! Li uns poucos, mas fiquei emocionado, encorajado e agradecido. Quanta delicadeza! Que palavras bem escolhidas e que transparência de afetos! Mais do que uma artista, és uma grande mulher, isto se vê bem. Continua assim, que Deus te ilumine sempre os caminhos e, se der, continua também a escrever para a identificação dos nossos corações (nota-se que tens muitos leitores) o que também nos diminui a sensação de solidão e nos dá boas referências sobre as quais pensar. Desejo-te ainda que a luz dos teus textos se reflita mil vezes na tua própria vida.

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  8. oi é a primeira vez que estou aqui mas te digo que chorei muito ao ler seu post minha querida avó tambem faleceu e as suas palavras falavam das coisas que eu tambem vivi com a minha avó,me emocionei muito lembrei de coisas que ja nao me lembrava que tinha vivido ao lado dela..
    meu pesames fka com DEUS força pra nos duas e muitas outras netas que perderao suas avós.

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  9. A vida e eu… Ufa…Difícil ler teu texto tão sentido e não sentir junto cada palavra que, no mesmo contexto foi vivida por mim. E não sei em quem de nós – eu ou a vida – perdemos o ritmo, perdemos o passo da música do dia.

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  10. poxa vc deve ter tido uma grande força para escrever algo tão bonito sobre sua avó
    eu tbm perdi a minha biza tem vai fazer 1 mês ke ela veio a falecer a minha historia e identica a sua.
    espero que vc continue essa historia linda com a sua mãe
    ñ te conheço mas pelo que vc escreveu parecer ser uma pessoa muito especial
    e com certeza é
    bjss

    Rio de Janeiro,16 de novebro de 2008

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  11. Oi

    Só hj li esse seu texto, e que lindo texto…
    Me deu vontade de escrever algo semelhante sobre as minhas avós que já partiram e da que ainda tenho…
    Obrigada e que Deus a faça sempre assim: alguém capaz de iluminar as mentes e corações daqueles que te leem. Vc constantemente me inspira, sabia?

    Bj e meu carinho

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  12. Mto linda sua krta qrida…
    Sei o quanto éh forte essa dor, mais infelismente todos passaremos por ela um dia…
    Hoje faz tres anos que minha vovozinha partiu deste mundo, tbm vitima d avc…
    Força

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