O ÚLTIMO POST DO ANO

Para o último post de 2008, eu pensei em falar sobre muitas coisas que andei tecendo comigo mesma a partir do intensivão emocional que fui obrigada a fazer no último mês. E havia muito a ser dito ( e muito foi escrito ). Sobre a morte. Sobre o que de verdade faz uma família. Sobre a força inabalável da amizade. Sobre as borrachas do tempo. Sobre como se pode ser hostil consigo mesmo. Sobre escolhas e encontros. Sobre a insensibilidade e imbecilidade das pessoas. Sobre os misteriosos caminhos de Deus. Sobre a estranheza da vida. Sobre a graça da solidariedade. Sobre fé. Sobre sabedoria. Sobre as verdades percebida no escuro nas noites de insônia. Sobre força interior. Sobre como é vital ter consciência tranquila sempre. Sobre dor compartilhada. Sobre o destino. Sobre os sonhos roubados. Sobre solidão. Sobre mudanças. Sobre o medo do esquecimento. Sobre raiva e inconformidade. Sobre como nunca podemos conhecer tudo sobre nós mesmos. Sobre como uma festa de natal pode ser dolorida. Sobre pequenas e silenciosas violências cotidianas. Sobre a singeleza das canções românticas. Sobre as lágrimas que saem e as lágrimas que ficam. Sobre esperanças. Sobre lembranças.

Mas minha opção para o último post de 2008 é falar sobre o amor.

A verdade é que eu, como grande parte das pessoas, passei a minha vida toda buscando, idealizando e tentando compreender o amor, sempre na intenção de mantê-lo o máximo possível perto de mim. E, claro, as imagens que temos do amor não apenas são múltiplas em manifestações e significados, como também vão mudando conforme o tempo passa. Eu já acreditei que o amor estava no seio cheio de leite da minha mãe, no sorriso da minha primeira professora, nas mãos das coleguinhas de escola. Também já achei que o amor estava na igreja, nos presentes dos meus tios, nos ombros dos meus pais, no colo dos meus avós, nas minhas brincadeiras com os meus irmãos. Já achei amor nas causas sociais que abracei um dia, nos exemplos que pude observar nas pessoas dignas, na literatura, na poesia, na música, na arte, nas novelas e filmes. Existe amor no meu trabalho, na beleza das coisas simples, na natureza, nos gestos de atenção cotidianos, na dedicação das pessoas umas as outras. E também há muito, muito amor na amizade.

Mas nenhum encontro vem para nos ensinar tanto sobre o amor como a relação entre duas pessoas adultas que resolvem ficar juntas e bancar um relacionamento. As outras relações são marcadas pela ocasião, pela leveza, pelos laços sanguíneos ou pelas obrigações. Mas a relação a dois é marcada principalmente pela escolha de ficar e continuar junto. Me atrapalhei um pouco nisso ao longo da vida. Mas hoje vejo que tudo foi um caminho trilhado… Um caminho cheio de lições sobre o amor.

Houve um tempo em que achei que o amor viria montado em um cavalo branco, cheio de promessas e entregas românticas. E ele veio. Quem caiu do cavalo foi eu ao perceber o tamanho da minha tolice. Primeira lição: o amor não está em declarações e intenções, que permanecem perfeitas quanto menos se submetem ao teste da realidade cotidiana. O romance passa. E a vontade de amar fica.

O amor a dois também já foi para mim um delírio sensual, uma paixão avassaladora e quente. Mas com o tempo ficou claro que não pode ser bom um amor que não me ajuda a crescer, a ficar consciente, que esgota até as últimas gotas de energia. Segunda lição: amor bom é aquele que te faz um pessoa boa sem te deixar pela metade. A paixão passa. E a vontade de amar fica.

Também já achei que o amor a dois estaria no cinismo de não assumir compromissos e evitar entregas, mantendo a salvo uma vida aparentemente bem resolvida e sem dores de cabeça, quando no fundo era apenas uma vida egoísta e sem graça. As bocas efêmeras de baladas diversas e encontros casuais são divertidas, mas deixam uma sede imensa de algo mais. E tome lição: o amor não vem sem envolvimento e compromisso. A diversão passa… E a vontade de amar fica.

Já me iludi pensando que o melhor para o amor seria tentar amar um amigo, que me compreende, não oferece resistências e me conhece intensamente. Um amigo com quem tudo desse certo, que adivinhasse meus anseios e me oferecesse um ombro tranquilo e constante. Bobagem… Mais lição: o amor precisa de desafios, mistérios e confrontações. Segurança passa… E volta a vontade de amar.

E, embora nunca tenha entendido muito bem o porquê, resolvi tomar a decisão, junto com uma outra pessoa muito especial por quem me encantei desde o início, de fazer o amor a dois dar certo. Sem magia, nem encantamento, nem facilidades, nem roteiros de filmes românticos – só com uma decisão e potencial humano. E não foi fácil… Passamos por muitos estranhamentos, muitas desilusões, muitos problemas. Em cada percalço, retomávamos o nosso ideal… E prosseguíamos juntos, cuidando do nosso amor como conseguíamos, investindo no prazer, na alegria do encontro, na afinidade, na coragem. Aos poucos fomos vencendo as nossas limitações, aos poucos fomos mudando um ao outro, aos poucos fomos acumulando experiências… E a cada pedaço retomávamos a decisão de amar. Esse relacionamento foi o meu segredo mais intenso, porque me ensinou demais sobre mim e sobre o próprio amor. Foi então que eu percebi que dá pra construir uma vida ao lado de alguém, com muita sinceridade, consciência e paixão. E tudo ia muito bem, obrigada.

Não sei que raio de lição a vida quis me ensinar ao me fazer perder o meu amor de um jeito tão doído. Não sei se um dia poderei ou precisarei entender.

Mas eu engulo a minha dor a seco porque sei que ela é passageira, mas o que aprendi, não. Engulo e agradeço a essa mesma vida por ter me aprensentado alguém que, mesmo sem saber, me ensinou duas importantes lições sobre o amor. A primeira, que o amor se faz no esforço diário para amar e consolidar parceria nas coisas fundamentais e simples. E a segunda, que o mais importante amor que posso sentir é por mim mesma. Pois, aconteça o que acontecer… Eu nunca poderei me abandonar.

E eu vou seguir… Porque ainda tem muito amor me esperando por aí. Não sei como, nem quanto, nem de que tipo. Só sei que tem… E sempre terá.

PS:. Quem me conhece sabe que eu sempre gostei de comemorar a chegada de um novo ano. Embora os incrédulos digam que a data nada mais é do que um dia depois do outro, em todas as culturas vemos que os rituais que marcam a passagem do tempo são importantes para selar mudanças e provocar reflexões. Eu sempre acredito que um novo ano pode trazer novas chances para fazer de um jeito diferente as coisas antigas, para deixar de fazer algumas coisas, para continuar fazendo outras… E principalmente, para o inesperado acontecer. Então, quero desejar a mim e a vocês muita sabedoria para saber o que fazer com o tempo que virá adiante. O resto… É resto. Feliz ano novo a todos e todas.

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UMA ESTRADA LONGA

Este texto foi escrito uma vez para consolar minha queridíssima amiga Catarina, por ocasião da morte súbita do pai dela.
Achei por bem republicá-lo, porque, embora eu mesma o tenha escrito, gostaria de tê-lo escrito de novo agora, nesse momento da minha vida.

“Quando alguém vai embora, o dia, ainda que o sol brilhe e o céu esteja azul, fica cinzento, chuvoso, amuado. Um frio constante abaixa a temperatura do corpo, fazendo com que se fique encolhido e com o olhar perdido, como se tivessem apagado uma chama de dentro do coração. Chama esta que pode até voltar a se acender ( e é desejável que reacenda ). Mas sempre haverá uma falha nela – a falha deixada pelo alguém que foi embora.

Quando alguém vai embora, para nunca mais voltar, a alma leva um grande choque, por mais que a cabeça entenda que tudo, absolutamente tudo nessa vida é provisório e passageiro, que os caminhos se cruzam e se descruzam, e que certas coisas são inevitáveis. Então, a alma se veste do mais suntuoso negro, recolhendo-se, e ficando vazia e triste. Às vezes, os olhos, as mãos, a boca vazam essa tristeza; outras vezes, não há ânimo nem para isso. E assim, vestida de negro, a alma contempla a vida, esperando a hora de voltar a sorrir, ainda que o sorriso tenha um traço leve de tristeza – o traço deixado pelo alguém que foi embora.

Quando alguém vai embora, o tempo castiga quem ficou. O dia tem mais horas, os minutos mais segundos, e tudo é mais demorado e difícil. Às vezes, sente-se a densidade dos momentos passando, quase tão pesada que se poderia tocar com a mão. E, nessas horas, chega-se a ter certeza que jamais se poderá seguir com a vida em frente com a falta tamanha que aquele alguém que foi embora faz. Mas a vida segue, e quem ficou segue com ela.

Quando alguém vai embora, quase sempre vem um arrependimento, e a sensação estranha de que não há mais chances. Fica-se pensando na conversa importante que não houve, na declaração que não foi feita, no carinho que se deixou pra depois, nos erros que foram cometidos, no desabafo que não foi externado, no amor que ficou pra ser sentido, no tempo que era pra ser vivido juntos e cheio de tantas coisas, e agora tem que ser passado em solidão. E tudo isso vai formando um nó que tampa a garganta, interrompe a respiração durante o sono, não te deixa comer e provoca uma sensação de abandono que só poderia ser deixada por aquele alguém que foi embora, porque cada história é única.

Quando alguém vai embora, quem ficou percebe coisas que antes não eram percebidas, e quanto mais o tempo passa, mais se percebe. Começa a fazer falta aquele olhar de carinho ou reprovação, aquela voz invadindo a casa, aquela obrigação quase chata de ter que dar um telefonema, aquele jeito de falar e abraçar; e no começo dá a impressão de que tudo isso ficará perdido em algum lugar inatingível. As datas especiais ficam doloridas. Os códigos que só podem existir entre uma e outra pessoa que se gostam ficam sem sentido. A voz daquela pessoa soa em momentos inesperados, e o coração dói levemente. E quem ficou percebe que ninguém pode tomar o lugar daquele alguém que foi embora.

Quando alguém vai embora, as dúvidas começam a rondar a cabeça, e a fé sofre um abatimento. Percebe-se que o mais forte dos homens, a mais abençoada das mulheres, o mais saudável ser, um dia, sucumbe. Percebe-se que a existência é frágil. Vem a raiva, a percepção da impotência, o medo. Duvida-se da vida, da morte, de Deus, das pessoas, do amor. Assim como vem, as dúvidas vão e voltam sem resposta, porque não há respostas. E tudo isso pode virar amadurecimento ou amargura, dependendo de como quem fica quer aproveitar a experiência de perder o alguém que foi embora.

A verdade é que o mundo todo acaba quando alguém vai embora. E não dá a menor vontade de reconstruir nada. Nada.

Quando alguém vai embora, normalmente, se tem o carinho dos outros que ficam, e, passando pela mesma dor ou não, se preocupam em ser um consolo. E os abraços, os carinhos, as palavras, as lágrimas solidárias, o calor da alma dessas pessoas vai começando a esquentar a alma fria de quem ficou, a fazer efeito e recuperar o coração quebrado. E é nessas horas que se percebe o valor que tem dividir a vida com muitas pessoas em todos os momentos, porque são elas, e não o alguém que foi embora, que vão ajudando a levantar e olhar pra frente.

Quando alguém vai embora, quem ficou começa a trilhar uma estrada longa, que tem um nome melancólico – saudade. Essa estrada, a princípio, é enlameada, escorregadia, escura, esburacada; e muitas vezes faz cair, machucar, e quase desistir de andar. A dor é tão profunda, e parece estar enraizada em um lugar tão inacessível, que parece que nunca vai sarar. Mas ela sara. Aos poucos, ela sara. E aí chega a hora de deixar o tempo fazer seu trabalho. Chega a hora de sorrir de novo. De deixar as lembranças serem somente lembranças. De tirar o manto negro da alma. E, de repente, a estrada, apesar de a cada dia ter mais uns passos de distância, vai se tornando cada vez mais leve, mais iluminada, bonita até. E quem ficou percebe que, na verdade, aquele alguém pode até ter ido embora, mas nunca deixou de existir, e isso é uma forma de vida. A mesma vida que segue por tantas outras estradas que vão se cruzando, descruzando, e nunca voltam. E percebe-se que só se tem a agradecer a oportunidade de ter estado com aquele alguém que foi embora, mas sempre estará presente, de alguma forma. E então vem aquela paz que só o amor de verdade pode dar.”