QUALQUER AMOR


“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”.
Guimarães Rosa

E qualquer coisa que está por aí, feita com amor, pode ser motivo de sorriso, de aprender, de viver, como o amor do Guimarães – um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Só precisamos olhar pra elas. Algumas coisas que andei enxergando por aí ultimamente:

* “MACHADO DE ASSIS” NO MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA

Se você ainda não foi, só tem até o dia 01 de março pra ir. Embora menos exuberante que as duas anteriores, a exposição temporária do incrível Museu da Língua Portuguesa vale pela curiosidade dos documentos raríssimos, pela criatividade no arranjo dos objetos… Mas principalmente por encontrar-se com a obra do Machado. Tente ler, na sala de estar montada no final da exposição, onde estão vários livros com a obra completa do autor, um capítulo de Dom Casmurro, ou então um dos famosos e deliciosos contos. Dá vontade de ler mais. Eu li.
Sem falar no filme e apresentação do terceiro andar, que eu não canso de ver. Sempre me emociona. É uma reação inversa do que eu sinto ao acompanhar os noticiários – dá orgulho de ser gente. Só lembrando – entrada gratuita para crianças, idosos e professores, e meia-entrada para estudantes. A entrada inteira custa R$ 4,00.

* ” O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON“, EM QUALQUER CINEMA

Se quer pensar, vá. Se quer refletir, vá. Se quer se divertir, vá. Se quer esquecer, vá. Se quer chorar, vá. Se quer sorrir, vá. Se quer suspirar, vá. E se quer ver como o Brad Pitt fica lindo em qualquer idade, vá.
Filme pra marcar a vida.

* CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE EM QUALQUER LIVRARIA

O poeta todo mundo sabe que é bom, é indiscutível. Mas quem ainda não encontrou o cronista e o criador de aforismos, não sabe o que está perdendo. Absolutamente lúcido e amável, ele derrama poesia no cotidiano. Leituras aparentemente leves, rápidas e cheias de sorrisos. Aparentemente.
Pra começar, indico ” De Notícias e Não-Notícias faz-se a Crônica“, e “O Avesso das Coisas“. Este último, forte candidato a ser livro permanente de cabeceira.

* AQUARELAS DE MARGARET MEE NA PINACOTECA DO ESTADO

As flores são lindas em sua essência, e sempre achei um pecado tentar resgatar sua beleza natural em desenhos e pinturas ( assim como acho um pecado colocar flores de plástico pela casa ). Mas Margaret Mee mudou meus conceitos… São lindas as aquarelas da inglesa sobre as flores brasileiras. Quem quiser conferir, vá rápido – até o dia 15 de março.

* PÔR DO SOL NOS PARQUES DA CIDADE

Um espetáculo gratuito e corriqueiro que mostra que a vida continua. Sempre. Apesar de tudo e de todos. Ótimo momento e local para se estar em solidão e anonimato.

UM NOTEBOOK EM FRENTE AO MAR…


Este blog é mesmo uma parte importante de mim. Percebi isso porque senti grande saudade dele… Saudade neste momento em que me sinto mais introspectiva, com vontade de ter imensas e profundas conversas comigo mesma. Este definitivamente é um canal muito aberto pra esses “monodiálogos”.

* A DIFÍCIL ARTE DO DESCANSO


Férias… Aquele momento que, de tão esperado, é assustador quando chega, porque você sabe que vai acabar. E rápido.
Decidi não fazer muitos planos para as minhas férias ( aliás, decidi não fazer muitos planos pra muitas coisas ). Mas nem por isso consegui me livrar da sensação de que o tempo vai ser curto para tantas coisas que queria ( não ) fazer. Então pensei que o cansaço mental é uma coisa muito séria, e muito difícil de curar. Descansar o corpo é fácil, é só ficar um dia lagarteando no sol ou na sombra por horas. Mas descansar a mente… Ah, isso sim é dureza. Nessas horas, dou razão a quem diz que nossa educação é mesmo muito falha. Passamos anos da nossa vida aprendendo a trabalhar… E no fim, não sabemos descansar. Sad, very sad.

* PRAIA CHEIA


Tem lugar para um monte de crianças, para bandos e bandos de adolescentes, para casais apaixonados, para solitários, para velhinhos e velhinhas. Gente que vem brincar na areia, nadar, surfar, trabalhar, pescar, pegar carnguejo, andar na beira da praia, andar de bicicleta, jogar bola, tomar sol, paquerar, comer e tomar sorvete. Mulheres magras e belas que se escondem debaixo de camisetas, mocinhas que passeiam se exibindo e colhendo os elogios, gordinhas que não têm vergonha de usar biquini, maiôs comportados, fios dentais escandalosos, barrigudos de sunga e tanquinhos de bermuda ou macacão. Um ser vestido de homem-aranha vende sorvete, uma moça sozinha chora sentada nas pedras, mães correndo atrás de filhos, um homem não desgruda do celular um segundo, uma senhora lê jornal sentada em um buraco feito por seu neto na areia, uma moça ouve música e faz palavras cruzadas, enquanto um rapaz ao seu lado lê filosofia. Branquelos pimentão FPS 115, moreninhas FPS 50, morenaças FPS 2, moreníssimos FPS deixa-o-sol-me-queimar-à-vontade. Gente grande rindo que nem criança, criança construindo castelinho concentrada como gente grande. Gente surfando, farreando, pulando ondas, rezando, rindo, conversando, cantando, amassando atrás da pedra, dançando, catando conchas, tirando milhares de fotos. Farofeiros, surfistas, chiquérrimos, equipados, descolados, milhares de cores e desenhos em lycra. Gente de todo jeito, de todo tipo, de todo lugar, fazendo de tudo, em um dos poucos pedaços de terreno que ainda não tem dono. Praia é realmente o lugar mais democrático do mundo. Pra quem vive em São Paulo, onde toda a diversão é segmentada a partir do poder econômico… É uma delícia saber que existe um lugar onde todos podem vir como estão, ser quem quiserem, fazer o que podem e sair como querem.

* TARDINHA

E eu, à praia, vou mesmo pra descansar. Nada distrai mais os meus pensamentos do que olhar o mar… Nada elabora mais as minhas idéias do que olhar o mar. E a melhor hora pra fazer isso é mesmo de tardezinha.
De manhã, a praia lotada e barulhenta não deixa muitas opções. O sol escaldante e perigoso desanima. Mas de tardezinha, a coisa é diferente. O mar é mais quente e mais salgado, a praia é silenciosa e limpa, as pessoas estão mais calmas, o céu fica deslumbrante. O mar chega mais perto e fica mais forte… E o sol vai se pondo devagar, muito mais devagar do que quando nasce. Já não tem gente muito preocupada em comer e carregar bagagens; apenas pessoas que curtem sossego e contemplação. As crianças já cansaram, e o tempo fica mais ameno. A vida fica mais bonita em frente ao mar da tardezinha. Dá até pra deitar na beira da praia e sentir o calor, a água, o vento e a terra de maneiras mais intensas.
Depois que o sol vai embora, o mar, morno e revolto, começa a trazer as conchas. A areia fica lotada delas… Lindas e inteiras. A água batendo nas pedras deixa um recado provocativo… É preciso ser forte. O reflexo no chão é perfeito pra espelhar a lua e as estrelas, que se arranjam poeticamente no céu.
Minha mãe, na tentativa de nos fazer levantar bem cedo nas férias sem reclamar, costumava dizer que as conchas eram um presente para quem chegava primeiro à praia, bem cedo. Depois de grande, descobri que, na verdade, o mar dá de presente as conchas melhores e mais bonitas para quem sai por último – sem pressa… Disposto a admirá-lo e descobri-lo devagar… Devagar como um pôr-de-sol de verão.

* OLHO DE TURISTA

O hábito é uma benção. Graças a ele conseguimos acordar todos os dias na mesma hora, aguentar o trabalho, o frio, o calor. Graças ao hábito conseguimos conviver com as pessoas, e é também graças a ele que algumas coisas passam a ser banais, e deixam de ser motivos de grandes crises – como lavar um cesto enorme de roupa suja ou se conformar com um salário injusto. A capacidade do ser humano de se habituar é a grande facilitadora da vida como a conhecemos hoje.
Mas o hábito também pode ser uma maldição, principalmente se tira a nossa capacidade de encantamento, e também de indignação. O hábito nos impede de ver coisas bonitas que cruzam conosco todos os dias, nos impede de ver absurdos, nos deixa cegos e vicia nosso pensamento.
Um senhor morador da região me disse: “eu vivo aqui todos os dias do ano, mas só percebo como tudo é bonito quando os turistas chegam. Olho de turista vê coisa que a gente não vê… Vê beleza em tudo, porque é tudo novidade.”
Fiquei pensando se ainda consigo ver beleza no meu dia-a-dia, apesar do hábito. Se ainda consigo enxergar pessoas diferentes por onde passo, se ainda conseguiria achar uma paisagem bonita para uma foto nos meus caminhos diários, se ainda consigo sorrir pra gente desconhecida na rua, se consigo organizar minha rotina para sobrar tempo pro descanso no final da tarde. Será que conseguiria vencer o hábito e ter olhos de turista não só quando saio de São Paulo, mas em todos os outros dias? Será que ainda tenho disposição pra contemplação, pra curiosidade, pro novo? Pensar sobre isso tudo é um novo hábito que eu posso tentar cultivar daqui por diante.

TOP 20 – PARA OUVIR EM FRENTE AO MAR

As canções fazem mais sentido quando chegamos mais perto das coisas que as inspiraram. É um diálogo único, esse da música com o mar.

1. I can See Clearly Now – Jonny Nash
2. Encontro das Águas – Jorge Vercilo
3. Meditação – Nara Leão
4. Vento no Litoral – Legião Urbana
5. Ana e o Mar – O Teatro Mágico
6. Linha do Horizonte – Azimuth
7. Coisas do Brasil – Gulherme Arantes
8. Wave – João Gilberto
9. Serra do Luar – Leila Pinheiro
10. Todo Cambia – Mercedes Sosa
11. A Estrada – Cidade Negra
12. Vento Ventania – Biquini Cavadão
13. O Sol – Jota Quest
14. Idade do Céu – Moska
15. Azul da Cor do Mar – Tim Maia
16. Clarear – Roupa Nova
17. Siga o Sol – 14 BIS
18. Como uma Onda – Lulu Santos
19. Um Amor de Verão – Radio Taxi
20. Canção para um Grande Amor – Isabella Taviani

* PARA O MEU ANJO MAIS VELHO:

“Enquanto houver você do outro lado,
Aqui do outro eu consigo me orientar.

A cena repete,
A cena se inverte,
Enchendo a minhalma
Daquilo que outrora eu deixei de acreditar.

Tua palavra
Tua história
Tua verdade fazendo escola
Tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

Metade de mim, agora é assim:
De um lado a poesia, o verbo, a saudade;
Do outro a luta, força e coragem pra chegar no fim.

E o fim…
É belo e incerto:
Depende de como você vê.
O novo, o credo.
A fé que você deposita em você e só.


Enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar.”

NOTINHA DE ESCLARECIMENTO

A autora deste blog comunica que, na qualidade de escritora, enquanto não chegar janeiro de 2012, vai continuar publicando suas IDÉIAS assim, com acento. Não estou dizendo que não aceito as mudanças. Apenas que me nego a me preocupar com isso.
Gostaria também de me mostrar solidária ao pessoal que trabalha com a língua escrita, e que agora terá algumas dores de cabeça a mais. E recomendar a todos que, a despeito dos loucos que gostam de complicar o que já não era muito fácil, continuem escrevendo, lendo, se comunicando e expressando com as palavras que aprendemos, reformadas ou não; porque a língua é viva. E é nossa.
Sobre esse desnecessário, caro e inexplicável acordo ortográfico, é o que tenho a dizer por hoje.
O resto, O Teatro Mágico diz melhor:

“Quando alguém te disser tá errado ou errada,
Que não vai S na cebola,
Que não vai S em feliz,
Que o X pode ter som de Z,
Que o CH pode ter som de X,
Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz.”


PS:. Obrigada por todas as mensagens de carinho que me mandaram ultimamente. Ajudou. Muito.