QUEM NÃO DESEJA

Eu, que tantas vezes já escrevi sobre o desejo, achei de reparar em quem não deseja.

Quem não deseja não está procurando nada, não está interessado em nada, não precisa estar perto de ninguém. Olha apenas para a frente, o mínimo necessário para dar alguns passos sem cair, sem pensar em direções, viagens, paisagens, caminhos, pessoas que estão no carro ao lado no trânsito parado. Quem não deseja simplesmente vive seu dia de um lado para outro, evitando ir além dos horizontes mínimos estabelecidos, evitando tomar parte dos acontecimentos.

Quem não deseja até sente fome, mas é capaz de andar corredores inteiros de um supermercado sem encontrar nada que apeteça. Pra matar a sede, água, vinho, refrigerante, ou suco são iguais. Sente sono, mas não pensa nada antes de dormir, nem sonha, nem lembra-se de nada importante ao acordar. Tomar banho, lavar louça, engraxar os sapatos, regar o jardim são apenas coisas para se fazer sem maiores pensamentos ou memórias.

Para quem não deseja, tanto faz vestir branco ou vermelho, tanto faz o listrado ou o estampado, o liso ou o rugoso, tanto faz estar sozinho ou acompanhado, tanto faz aparecer na foto ou não, tanto faz se é de dia ou de noite. Melhor é o morno, o insosso, o médio. Se alguém telefonar, atenda; se algo se quebrar, conserte; se não serve mais, jogue fora; se morreu, enterre; se foi embora, despeça-se. A vida de quem não deseja é resignada e imediata.

Quem não deseja não fica nervoso com o que não dá certo, não tem vontades incompreensíveis, não fala mais alto, não tem repentes, não espera um telefonema especial, não fica indignado com política, não torce por time nenhum. Quem não deseja não fica ansioso com grandes projetos e planos, não fica angustiado com falta de dinheiro, não sente borboletas voando dentro da barriga, não se arrepia com aquela voz, não vê os olhos brilharem por nenhum motivo em especial. Quem não deseja não quer causar polêmica, não quer chamar atenção, não quer nada além do trivial e programado.

Quem não deseja não tem música especial, não tem sabor de sorvete preferido, não vê por que sair em noite de calor, nem lembra que tem estrela e lua no céu. Quem não deseja não se embriaga, não faz oração pra nenhum deus, não se preocupa com o futuro – afinal, o futuro não vai ser muito diferente de hoje. Não chora, mas também não faz questão de sorrir. Não incomoda nem encanta ninguém. Não toma partido, não dá opinião, não defende nem ataca. Quem não deseja só quer passar desapercebido.

A vida sem desejo é medíocre, previsível, indiferente, absolutamente tranquila e insípida. Um arco-íris sem cor, um chiclete mascado, uma rosa sem perfume, um filme sem enredo.

A vida sem desejo é vivida em paz e quietude.

Pena que isso não seja vida.

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